segunda-feira, 15 de junho de 2009

Triste vida de revisor

Monica, a moça que aluga um quarto pra mim na sua casa, trabalha pra editoras fazendo trabalhos de revisão, edição e copidesque (seja lá o que isso for). Depois de um longo período sem trabalho, começou a chover na horta dela, e vieram trabalhos e mais trabalhos. Pediu ajuda pra mim e combinamos que eu revisaria um livro em troca de um mês de aluguel. Acho legal esse esquema de trabalhar em troca de benefícios (e não dinheiro).

Melhor não identificar as autoras do livro, né.

Não é soberba. Não é preciosismo. Olha a passagem que eu recortei do Budapeste, que li com o estômago:

Porque logo no início do casamento, ainda modesto escritor, fui para ela sem dúvida um marido admirável. Mas à medida que aprimorava minha literatura, naturalmente comecei a me relaxar no trato com a Vanda. De tanto me devotar ao meu ofício, escrevendo e reescrevendo, corrigindo e depurando os textos, mimando cada palavra que punha no papel, não me sobravam boas palavras para ela. Diante dela nem tinha mais vontade de me manifestar, e quando o fazia, era para falar bobagens, lugares-comuns, frases desenxabidas, com erros de sintaxe, cacófatos. E se alguma noite, na cama com ela, me viessem à boca palavras adoráveis, eu as continha, eu as economizava para futuro uso prático.
Budapeste, Chico Buarque, p. 106, 107.

O que me incomoda no texto que estou revisando não são as palavras comuns descrevendo procedimentos acadêmicos, não são os erros de ortografia ou digitação, ou as inadequações à nova reforma ortográfica. O que me incomoda é o excesso absurdo de vírgulas, a troca descabida de preposições, as concordâncias desencontradas, a ordem das palavras praticando malabares.

O livro é anunciado, no prefácio, como um marco na história da pesquisa na área, um verdadeiro divisor de águas. Mas as autoras não apresentam nenhuma pesquisa própria, nenhuma escala de avaliação (que no jargão é referida como 'instrumento') desenvolvida, testada e validada por elas. Reúnem apenas todas as escalas e questionários que os outros já fizeram, sem ao menos questionar a relevância desses trabalhos alheios. Muitos questionários são aplicados a mulheres universitárias (não sabemos quantas eram, a que faixa etária pertenciam, se eram anoréxicas, obesas, bulímicas ou satisfeitas com sua imagem corporal, e qual a relevância de elas serem universitárias para uma pesquisa que visa verificar a satisfação da pessoa com a imagem que tem do seu corpo) porque nos EUA e na Europa as pessoas recebem uma caixinha para participarem de experimentos/ testes. Na Holanda a média era de 6 Euros para ser sujeito de experimento. Aqui a gente pede pros amigos, pra família, divulga no blog e confia que as pessoas participem por diversão. As autoras falham quando não reconhecem certas vicissitudes acadêmicas, porque consideram que tudo que vem de fora é lindo e maravilhoso.

Não foi a minha formação acadêmica que me deformou e faz com que eu seja exigente com os outros. Não sou eu, querida, é você. Está muito claro pra mim que pessoas da área da saúde e talvez educação (que é onde eu inseriria o texto que estou revisando a duras penas) aprendem, estudam e transmitem conhecimentos em forma de listas, definições e tópicos. O livro delas mais parece um dicionário que um texto. Não há reflexão sobre o próprio texto, não há articulação entre os tópicos, não existe argumentação. É um texto explodido em itens e subitens, de cabo a rabo. Super divisor de águas. Um dique!

Monica me deu o tiro de misericórdia, quando afirmou: já trabalho pra essa editora faz mais de 20 anos. E nesse tempo todo, li três livros bons. O resto, minha filha, é tudo assim.

2 comentários:

pedalante disse...

Lou,

Genial a sua resenha crítica ( ou seria quase uma?).
Depois do congestionamento do dia 10/06( profecia anunciada), vc nos brinda com essa crônica/resenha. Seria uma ante-visão de sua sala de aula em agosto, lá em terras distantes do grande centro?

iglou disse...

Tomara, Toni, tomara!