Melhor não identificar as autoras do livro, né.
Não é soberba. Não é preciosismo. Olha a passagem que eu recortei do Budapeste, que li com o estômago:
Porque logo no início do casamento, ainda modesto escritor, fui para ela sem dúvida um marido admirável. Mas à medida que aprimorava minha literatura, naturalmente comecei a me relaxar no trato com a Vanda. De tanto me devotar ao meu ofício, escrevendo e reescrevendo, corrigindo e depurando os textos, mimando cada palavra que punha no papel, não me sobravam boas palavras para ela. Diante dela nem tinha mais vontade de me manifestar, e quando o fazia, era para falar bobagens, lugares-comuns, frases desenxabidas, com erros de sintaxe, cacófatos. E se alguma noite, na cama com ela, me viessem à boca palavras adoráveis, eu as continha, eu as economizava para futuro uso prático.
Budapeste, Chico Buarque, p. 106, 107.
O que me incomoda no texto que estou revisando não são as palavras comuns descrevendo procedimentos acadêmicos, não são os erros de ortografia ou digitação, ou as inadequações à nova reforma ortográfica. O que me incomoda é o excesso absurdo de vírgulas, a troca descabida de preposições, as concordâncias desencontradas, a ordem das palavras praticando malabares.
O livro é anunciado, no prefácio, como um marco na história da pesquisa na área, um verdadeiro divisor de águas. Mas as autoras não apresentam nenhuma pesquisa própria, nenhuma escala de avaliação (que no jargão é referida como 'instrumento') desenvolvida, testada e validada por elas. Reúnem apenas todas as escalas e questionários que os outros já fizeram, sem ao menos questionar a relevância desses trabalhos alheios. Muitos questionários são aplicados a mulheres universitárias (não sabemos quantas eram, a que faixa etária pertenciam, se eram anoréxicas, obesas, bulímicas ou satisfeitas com sua imagem corporal, e qual a relevância de elas serem universitárias para uma pesquisa que visa verificar a satisfação da pessoa com a imagem que tem do seu corpo) porque nos EUA e na Europa as pessoas recebem uma caixinha para participarem de experimentos/ testes. Na Holanda a média era de 6 Euros para ser sujeito de experimento. Aqui a gente pede pros amigos, pra família, divulga no blog e confia que as pessoas participem por diversão. As autoras falham quando não reconhecem certas vicissitudes acadêmicas, porque consideram que tudo que vem de fora é lindo e maravilhoso.
Não foi a minha formação acadêmica que me deformou e faz com que eu seja exigente com os outros. Não sou eu, querida, é você. Está muito claro pra mim que pessoas da área da saúde e talvez educação (que é onde eu inseriria o texto que estou revisando a duras penas) aprendem, estudam e transmitem conhecimentos em forma de listas, definições e tópicos. O livro delas mais parece um dicionário que um texto. Não há reflexão sobre o próprio texto, não há articulação entre os tópicos, não existe argumentação. É um texto explodido em itens e subitens, de cabo a rabo. Super divisor de águas. Um dique!
Monica me deu o tiro de misericórdia, quando afirmou: já trabalho pra essa editora faz mais de 20 anos. E nesse tempo todo, li três livros bons. O resto, minha filha, é tudo assim.
2 comentários:
Lou,
Genial a sua resenha crítica ( ou seria quase uma?).
Depois do congestionamento do dia 10/06( profecia anunciada), vc nos brinda com essa crônica/resenha. Seria uma ante-visão de sua sala de aula em agosto, lá em terras distantes do grande centro?
Tomara, Toni, tomara!
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