segunda-feira, 22 de junho de 2009

O bombeiro e a bicicleta

Aconteceu faz muito tempo, mas a cena ainda está vívida em sua memória. Era um fim de tarde do último dia do ano. Ele estava recolhendo suas coisas numa mochila para encerrar o expediente e fechar o ano sem nenhum registro de afogamento. Já ia deixar o posto de salva-vidas, quando uma família veio correndo e chorando, apontando para o mar. Largou tudo e se atirou ao mar. Não sabia que era capaz de nadar tão rápido. Não sabia pelo que devia procurar. Tinham dito que era uma menina. Meninas se afastam tanto assim da praia?

Viu uma mãozinha esticada pra fora da água. Nada mais, só uma mão. Agarrou a mão e puxou o corpo da menina. Carregou a garota à praia, fez respiração boca-a-boca e trouxe a guria de volta à vida. Quando ela recobrou a consciência, ela só chorava e se agarrava ao salva-vidas. Havia uma conexão forte entre o homem e a menina. Ela devia sua vida a ele, ele teve o prazer de salvar a vida dela. Era como se ela tivesse ganhado um outro pai e ele uma nova filha.

Quatro anos mais tarde, na noite de ano novo, ele estava sozinho em casa. Tinha conseguido uma folga no feriado de Natal e Ano Novo. Os casos de crianças com mãos estouradas por rojões, acidentes domésticos bobos e acidentes feios por causa de motoristas embriagados eram muito numerosos nesse feriado. Não queria fugir do trabalho, apenas não queria se expor a tanta dor alheia.

Tocou a campainha. Não esperava visitas. Foi atender. Na porta estava uma menina. Aquela menina. Caíram nos braços um do outro e transformaram em lágrimas toda a saudade e fantasia acumuladas desde a primeira vez em que tinham se visto. Entraram e conversaram até o dia seguinte. Ela o convidou a manterem contato. Ele prometeu visitá-la em Antônio Prado.

Nos dois anos seguintes, ele ficou ruminando uma maneira de visitar a garota sem abalar muito a estrutura familiar da moça. Não queria sobrecarregar ninguém com ciúmes ou apreensão. Ele não se considerava exatamete um amigo, mas também não era parente nem potencial namorado. Não queria simplesmente embarcar num ônibus, cruzar Santa Catarina, entrar no Rio Grande do Sul, subir a serra até a cidade mais italiana no Brasil e se apresentar como o bombeiro que tinha salvado a guria quando ela ainda era uma menina. Não queria ser o centro das atenções de uma família desconhecida.

Foi chamado para acompanhar um grupo de mais ou menos 120 ciclistas. Sim, ele tinha uma bicicleta que usava ocasionalmente. Parecia mais simples que a dessas pessoas de roupas coloridas e não tinha as bolsas laterais que muitas bicicletas tinham, nem tinha capacete. Sua função era dar apoio ao grupo de ciclistas se necessário e acompanhar o grupo de Camboriú a Itapema. Conversando com um aqui e outro acolá, percebeu que essa gente viajava de bicicleta. Aqueles dois ali disseram que vieram de São Paulo pedalando. Quando fizeram a pausa para o lanche, a idéia de uma cicloviagem a Antônio Prado já tinha se instalado em sua cabeça. Quando contou a estória da menina que ele tinha salvo pruma moça de bicicleta amarela, teve certeza que faria a viagem até a casa da italianinha de bicicleta.

Nenhum comentário: