sábado, 30 de julho de 2011

Pântano numérico

7:00 h o despertador toca.
1 iogurte, 2 fatias de pão, 1 xícara de Nescau (1 mês sem café).
40 minutos ele demorou para achar a casa.
40 reais me cobrou para cortar a grama seca e me dizer que plantas tenho no jardim.
1 pé de cacau, 1 de graviola, 2 araçá-boi.
3 noni em 1 litro de vinho fermentando por 15 dias para curar doenças respiratórias.

Quantos desvios da ortografia posso encontrar em 102 redações?
Quantas classificações posso ter para essas grafias desviantes?
Quantos problemas de concordância há nesses textos?
Quantas possibilidades eles têm para não concordar?

2 batatas, 1 abóbora, 3 filés de frango.
12 músicas para fazer digestão.
1 gato dentro de casa, 1 gata miando no telhado.
36° C lá fora.

Quantos sujeitos uma frase pode ter?
Quantos pronomes reflexivos um sujeito pode suportar?

15° pra direita a faxineira deixou o relógio de parede.
1 ventilador apenas.
30 minutos de pausa para regar o jardim.
3° banho.
1 gato dormindo no colo, outro dormindo no forro.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Volta às aulas

Por causa do processo seletivo para o Mestrado em Estudos Literários, nem me afastei da Unir nessas férias. Isso significa que a volta às aulas não foi um choque em relação à Unir. Hoje foi o terceiro dia da semana que eu passei inteirinho lá. O estranhamento é quanto à desertificação do campus.

A cantina - que às 11:30 já não dispunha mais de lugar livre (sentar na mesa com pessoas desconhecidas me obrigava a conhecer gente nova), - está praticamente às moscas. As calouradas calorosas que coloriam o campus estão bem discretas. A reunião de departamento de hoje não teve córum.

Na turma em que dei aula tinha menos gente que os xeroxes que eu tinha tirado. Eu estava curiosa em relação a essa turma, que conta com um aluno portador de Síndrome de Asperger. Achei o moço um cara bacana, e vi que ele vai cobrar mais paciência dos colegas do que de mim (porque eu o acho interessante). Ele pergunta muito, pede pra repetir, interpreta as coisas literalmente e costuma ecoar a última frase dele. Outra coisa que me chamou atenção foi que, quando convidado a contar por que tinha escolhido aquele curso, encenou uma longa estória (longa mesmo) cheia de frases repetidas. Depois da aula, ele veio apertar a minha mão e me disse que eu era mais bonita de perto. E é assim que começa o segundo semestre.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

E a vida selvagem

A Expedição pra Serra dos Pacaás miou de novo. Era pra ter acontecido nos dias 1, 2 e 3 de julho, mas só metade das pessoas (pagantes) esperadas se inscreveu.
O evento foi postergado pros dias 22, 23 e 24 e foi investido pesadamente em divulgação. Até eu divulguei o evento aqui.
Mas não foi o suficiente. Como a equipe organizadora precisava levar toda uma estrutura pra lá (inclusive gerador de energia), era crucial que o número mínimo de pagantes fosse preenchido. Cadê os aventureiros de Porto Velho? Assistindo TV, jogando video game, ouvindo tecno-brega.
A equipe decidiu não engolir o prejuízo e a decepção em seco. O plano B é o Vale das Cachoeiras, onde tem pousada, infra, tudo bonitinho e nada de camping (faz uns 5 anos que eu não durmo na minha barraca!).
Enquanto não vou ver a vida selvagem lá fora, fico em casa, apreciando as plantas do meu jardim e vendo o Mustafá crescer.
Atualização: a vida é dura. O plano B acaba de ser cancelado.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

All the light I can carry

Potencialmente, sou um espaço vazio. Não tenho corpo nem alma, mas dou substância aos desejos dela. Quando um desejo dela se manifesta na forma de um plano, percebo que vou crescendo e formando contorno com o tempo. Me desfaço assim que seus planos se realizam e volto a ser - por alguns instantes - uma variável.

Minha última missão foi diferente: fui um mensageiro. Ela tinha participado ceticamente de um ritual religioso. Desacreditando as narrativas e estranhando os dogmas, entregou-me com fervor ao desconhecido. O procedimento desse ritual de passagem de ano era mandar uma luz a um morto. Das velas acesas, juntei toda a luz que consegui carregar e parti em viagem.

Mesmo viajando na velocidade da luz, demorei para encontrá-lo. Ele havia morrido há 9 anos, mas continuava ativo. Vivia na memória dos pais, irmãos, amigos, amantes e dela. Já tinha se desprendido das fotografias e das coisas que um dia foram dele. Ele se movimentava da memória de um para a saudade de outro, numa coreografia animada. Quando o encontrei, estava escutando música.

Ele ficou feliz com a luz que lhe dei. Nem perguntou nada sobre ela, sobre sua vida. Sabia que estava bem. Nem teve curiosidade de saber se tinha terminado a faculdade ou encontrado um outro grande amor da vida. A luz que ela tinha mandado por mim era clara, nítida e límpida o suficiente para ele entender que ela estava bem. Em retribuição, ele mandou música pra ela por mim.

As músicas eram de sua banda preferida, que ele não chegou a ver ao vivo. Ela tinha ido no show e naquela noite mentalmente contou pra ele tudo o que ouviu, viu e sentiu. A viagem de volta foi mais longa ainda. As músicas eram pesadas e ela já não estava mais no lugar de onde me mandou com a luz até ele.

Ela não conhecia as músicas que lhe entreguei, mas logo se afeiçoou. Voltei a descansar nela em forma de saudade dele. Acordo quando ela ouve Rush e me transformo em imagens de montanhas, em sensações de viagem, no grande amigo.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Marido de aluguel

Vi um Uno todo decorado com os dizeres "Marido de aluguel". Achei engraçado e comentei com uma amiga que "aqui em Porto Velho tem cada coisa". Ela riu e me explicou que o nome era uma brincadeira, mas que o serviço que eles ofereciam era sério: pequenos reparos na casa. Em Barão Geraldo, a empresa que faz(ia?) esse tipo de serviço se chama Emergency House. Os caras trocavam telha, limpavam caixa d'água, destupiam encanamentos, trocavam torneira e válvula de descarga.

Minha casa tinha três bocais de luz sem interruptor correspondente/ funcional. As duas luzes externas faziam falta, a terceira nem tanto. Procurei por "marido de aluguel" na internet e fui anotando os números de telefone. Primeiro liguei nos fixos, depois nos móveis. No primeiro fixo aconteceu o seguinte:

- Alô.
- Oi, é do serviço "marido de aluguel"?
- Era, não é mais.
- Ok. 'Brigada.
- Heeeein, mas que tipo de serviço que é?
- Hm, não, obrigada.

Desliguei o telefone lembrando de uma conversa que eu tinha ouvido no banco sobre como o desemprego está forte em Porto Velho.

Liguei num celular e uma mulher atendeu. Disse que o marido dela voltava pro almoço, que ele me ligaria de volta e daí a gente combinava. Engoli a piada sobre alugar o marido. Depois do almoço, o homem ligou. Expliquei que eu precisava de serviço de eletricista, ele topou. Ouviu as instruções pra chegar aqui e demorou uma hora e meia pra aparecer. Maridão, hein!

Ele me tratou pelo meu nome o tempo todo, me explicou sobre circuitos, energia e fios de telefone que conduzem energia elétrica e cobrou o que os caras da Emergency House também cobrariam. E agora a minha casa tem luz por dentro e por fora. Superfantástico.

sábado, 16 de julho de 2011

Bicicleta no condomínio

Quando eu morava na Vila da Eletronorte, os guardas levantavam a cancela pra mim. Daí mudaram os guardas. Desatentos, não me ouviam chegando e passei a  frear perto da cancela e levantá-la eu mesma. Daí apareceu uma plaqueta na ponta da cancela indicando que pedestres e bicicletas tinham que passar pela guarita. Alguns guardas mediam forças comigo através do olhar, mas levantavam a cancela. Não há espaço para uma passagem confortável pela guarita, porque - pra piorar a situação - o guarda fica postado ali, pra manusear a cancela. Daí veio uma ficha pros moradores preencherem informações sobre seus veículos. A minha casa era a única que não tinha carro (cachorro e antena parabólica). Botei na ficha as minhas três bicicletas.

Deixei de ser moradora, mas continuei frequentando a Vila, que é cortada pela Campos Sales. Agora eu ia no setor oeste (eu morava no leste). Reparei que os guardas mudaram de novo e que a cancela foi automatizada. O guarda não faz mais força, ele aperta um botão. E agora as duas cancelas são operacionais: a da direita para moradores e a da esquerda para visitantes. E a plaqueta indicando que os pedestres e bicicletas tinham que passar pela guarita apareceu nessas cancelas também.

Os guardas do setor oeste nunca se recusaram a apertar o botão pra cancela (de morador, diga-se de passagem) subir, apesar de eu não morar lá. Mas toda vez avisavam que da próxima vez era pra eu desmontar da bicicleta e passar pela guarita. Ou perguntavam onde eu ia e, lacônicos, apertavam o botão. Nunca discuti com eles. Sempre sorri. Nunca fiz eles pensarem sobre essa discriminação da bicicleta. Que o pedestre não ande na rua, entendo. Fazê-lo passar pela guarita significa momentaneamente (porque a guarita fica no meio da rua) proteger a integridade do pedestre.

Mas a bicicleta é um veículo, assim como um carro ou moto. Uma moto, que tem duas rodas - como a bicicleta - não precisa ser empurrada pela guarita. Um motociclista não precisa desmontar do seu veículo. Se o ciclista vem pela rua, não há sentido em fazê-lo desmontar, subir na calçada empurrando seu veículo e depois voltar à rua. Na saída do setor oeste, o guarda quer obrigar o ciclista a desmontar, abandonar a rua, atravessar para o lado oposto da rua, subir na calçada da guarita, passar apertado por quem está ali, descer da calçada, montar, contornar a guarita e seguir pela rua.

A discriminação vem do fato de que em Porto Velho bicicleta é coisa de pobre. Quem entra e sai da Vila de bicicleta é pedreiro, faxineira, babá, jardineiro. Juntando as duas parte da Vila da Eletronorte, eu era a única não pobre indo e vindo sistematicamente de bicicleta. Os guardas do meu lado toleravam a escolha pelo meu veículo porque eu era moradora. Os do outro lado sabem que eu não sou moradora e não questionam a ordem que lhes foi imposta de segregar pedestres e ciclistas na entrada/saída do condomínio.

Conforme Willian Cruz, David Byrne acha que "se mais mulheres andarem de bicicleta, os homens certamente seguirão". Porto Velho está um passo atrás: se mais pessoas de classe média se locomoverem de bicicleta (como acontece em São Paulo, por exemplo, vide a bicicletada que reúne poucos pedreiros, jardineiros, faxineiras e babás, mas muitos estudantes, jornalistas e esportistas), a bicicleta deixará de ser coisa de pobre.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

As habilidades de Mustafá

Pequeno Mustafá
Mustafá não consegue beber água sem se afogar, nem comer sem subir no prato de comida.
Mas ele consegue escalar, morder, arranhar e farejar quase tudo.
Desamarra meus cadarços, despenteia meus cabelos e tira plug da tomada.
Quando brinca com a bolinha de tênis, anda sobre as patas traseiras e dá saltos de ninja.
Consegue escapar dos tapas da Akari e imita seus ataques.
Acho que suas habilidades incluem encantar a Akari.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Supermacro

As folhas são roxas
Escondidas na folhagem
Chuva de ouro

terça-feira, 12 de julho de 2011

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Descobrindo o mundo

É uma aventura acompanhar o pequeno Mustafá descobrindo o mundo. O mundo dele por enquanto é o quarto de hóspedes. Quando eu não estou no quarto, ele dorme. Quando estou no quarto, ele gasta quilos de energia.

A percepção que Mustafá tem de mim é fragmentada. Apaixonou-se imediatamente pelos meus pés. É difícil andar pelo quarto com ele se esfregando nos meus pés, se esticando todo e fazendo cambalhotas em volta deles. Os chinelos são ótimos brinquedos de morder, arranhar, se enrolar e revirar. E continuam o sendo quando os meus pés estão nos chinelos. As patas dele são desproporcionalmente grandes e as unhas são agulhas afiadaputas. Com as minhas mãos o meu pequeno herói brinca (mordendo e arranhando, mas é divertido). Do meu colo ele foge, porque já sacou que lá vem remédio que o faz espumar. Dos meus olhos ele se esconde, mas a minha voz ele segue. Devo ser um ser cubista pra ele.

Engraçado também é observar como ele entende como funcionam processos básicos, como por exemplo alimentação. Mustafá percebeu dois potinhos de cores estridentes. Enfiou a cara em um e afogou o focinho na água. Chocado, espirrou pra trás. Tentou entender a distância entre a superfície da água e o focinho com mais alguns mergulhos rápidos e se distanciou do potinho lambendo os beiços. Voltou ao potinho esticando a língua em direção à água. É assim que se bebe? Funciona.

Mustafá come gemendo - porque acho que a ração pra filhote é muito dura pra ele - mas come bem. Mustafá mija gemendo, mas logo entendeu que a caixinha (da Akari) é o local adequado pra isso. Mustafá caga gemendo (e com uma pata dianteira levantada), mas parece ter bom metabolismo.

sábado, 9 de julho de 2011

Pequeno Mustafá


Mustafá
Não pára quieto
 
Mia feito passarinho
700g e menos de 2 meses

sexta-feira, 8 de julho de 2011

4° dia de greve de ônibus

Poderia-se pensar que a greve de ônibus (que os jornais locais costumam descrever como greve do 'sistema de transporte público' - numa cidade que não tem trem nem metrô) não me afeta. A primeira vez que tentei pegar ônibus, passei um tempão sentada na parada. Daí um cara de carro parou e disse que os ônibus tavam em greve. Sem cerimônia, levantei, fui pra casa e fui embora pedalando.

Só que de sexta tem cineclube. E quando tem cineclube, volto pra casa quando já está escuro. E eu prometi pra mim mesma que nunca pegaria a BR 364 no escuro. Por isso vou de ônibus pra Unir nas sextas. Só que hoje não tava passando ônibus. Fui de táxi. Assim que o táxi deitou a roda na BR, o taxista botou bandeira 2, porque deixa de ser zona urbana. O taxímetro foi só aumentando, e numa velocidade incrível. Pedi pra descer no portão da Unir e deixei R$ 34,- na mão do homem.

Os candidatos ao Mestrado em Estudos Literários vieram todos (pontualmente) pra prova de língua estrangeira. Ninguém reclamou da falta de meios de transporte. A cantina fechou às 16:00 e às 17:00 já não se via mais ninguém pelos corredores. Terminada a prova, fui de datashow, som e mochila pesada pro cineclube. Sentei no corredor, pras pessoas me verem. Dois me viram e perguntaram se ia ter sessão hoje.
- Claro! Tendo público, tem sessão.
- Mas a gente não quer atrapalhar, porque a minha irmã vem buscar a gente às 18:00.
- Quer esperar dar 18:00 assistindo filme ou não?
- Sim, então vamos.

Depois ainda vieram mais dois e deu de passar os três documentários programados pra hoje. Não deu pra fazer debate pós-filme por causa do clima de abandono num lugar inóspito: como voltaremos pra casa?

Devolvi os equipamentos no departamento e estiquei o dedão no ponto de ônibus. As meninas que estavam esperando lá disseram que não tinha mais ônibus hoje. O segundo carro parou e me deu carona. Me deixou no trevo da Eletronorte e caminhei os 4 km até em casa.

No dia em que não saí de casa de bike, andei de táxi, carona e de pé2 e não senti falta de ônibus (exceto pelo preço salgado do táxi).

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Vestígios da mudança

Mudei pra Murici em abril, e só agora as coisas começam a se encaixar e entrar nos eixos. Nas contas de água e luz vinha, desde maio, um aviso de conta pendente. Avisei na imobiliária, que avisou os ex-inquilinos. Disseram que iam pagar as duas contas. Fim de junho veio o aviso de corte de água e luz.

Tirar a segunda via da conta de água não foi difícil. Acessar a segunda via da conta de luz foi mais complicado, porque eu não sou a titular da conta (ainda vem no nome da proprietária). Tive que ir na Ceron (que agora é Eletrobrás). Peguei a segunda via na máquina e pedi pra atendente passar a conta de energia da Murici pro meu nome.

Ela entrou no sistema e verificou que tenho duas contas em meu nome: a Vila da Eletronorte e a rua Venezuela. Isso significava que a imobiliária ainda não tinha conseguido trocar o meu nome pelo nome do proprietário japonês da casa que alaga. O problema da imobiliária era que os dados estavam num prédio da Ceron que foi reformado, e aí demorou pra recuperar 'o morto'. E enquanto eu tivesse dívidas na Ceron, não podiam abrir uma nova conta (na Murici) pra mim. A atendente disse que também não podia tirar o meu nome da Vila da Eletronorte, porque o nome de alguém tinha que ficar no lugar. Expliquei que eu não queria ter que responder pelos débitos de terceiros (como aconteceu no caso da Venezuela), mas ela disse que não podia fazer nada por mim.

Fui na imobiliária com os comprovantes de pagamento das contas de água e luz de abril. A moça responsável pelo débito da Venezuela disse que tinha finalmente conseguido mudar a Venezuela pro nome do proprietário e que tinha trocado o nome da proprietária da Murici pelo meu. Saí de lá com um boleto modificado: o valor das contas não-minhas foi descontado do aluguel. Saí de lá deixando a moça da finalização da Vila da Eletronorte incumbida de tirar o meu nome da Vila da Eletronorte. Quando cheguei em casa, verifiquei que a Murici está no meu nome e que a Venezuela parou de me perseguir.

Telefone móvel

Eu estava sentada numa lanchonete que vende principalmente açaí, terminando a minha tigela. Chega meia família (avó, mãe e menino) e se instala na mesa ao meu lado. Toca o telefone da avó.
- Oi flor! (pausa) nós tamo aqui (pausa) no açaí.
- (?)
- O açaí aqui na Duque de Caxias.
Pra espanto de todos, ouvimos, nas nossas costas, uma voz feminina ecoando:
- Na Duque de Caxias?
A outra metade da família se juntou, puxou mesas e cadeiras e deram boas risadas dessa maravilha que é o telefone móvel.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

sábado, 2 de julho de 2011

Hierarquia de consumo


O carro é um bem de consumo. Tanto é, que muitos motoristas trocam de carro a cada dois anos (pra não desvalorizar). Um carro não é construído para durar uma vida toda, nem mantido para ser o único de um motorista.

Milton Santos, num documentário genial sobre a globalização, afirma que o fundamentalismo do nosso século é o consumo. A globalização é nada mais que a administração global dos bens de consumo. O consumo é um regime autoritário. Sendo assim, Milton Santos fala em globalitarismo.

No Brasil, acidentes de carro matam principalmente jovens entre 20 e 39 anos. Acidentes de carro produzem 50 feridos para cada morto. Ainda assim, as pessoas continuam querendo carros. Apesar do custo do carro e da sua manutenção (gasolina, estacionamento, seguro, licenciamento, funilaria, mecânico, borracheiro etc.), as pessoas continuam desejando carros. Apesar de não haver mais espaço na malha viária para todos os carros nas grandes cidades, as pessoas continuam almejando carros. Apesar do stress no trânsito (raiva dos outros agentes de trânsito, tédio no engarrafamento, solidão, fúria da velocidade), as pessoas continuam ambicionando carros. Apesar da poluição causada pelos carros (produção, queima de combustível e descarte), as pessoas continuam comprando carros.

Ter um carro é sinal de sucesso pessoal. Quanto mais caro, veloz e esportivo o carro, mais alto está o seu dono na hierarquia do consumo. E como toda hierarquia, quanto mais no topo se está, mais sozinho se fica. Roberto DaMatta fez um estudo sobre o comportamento dos agentes de trânsito no trânsito capixaba e o resultado foi a publicação de Fé em Deus e pé na tábua. Sua tese central é que o trânsito brasileiro, apesar de estar sujeito ao Código de Trânsito Brasileiro, não é igualitário, mas hieráquico. Cuidadosamente, ele constrói sua argumentação:

"(...) Somos treinados para ver os conhecidos como pessoas dignas de respeito e compaixão. Todos os conhecidos se espalham e se classificam numa escala que vai do mais próximo (e querido) ao mais distante (e indiferente ou odiado). Fora desse círculo existem os superiores (dignos de medo e respeito) ou inferiores (indignos de respeito, ignorantes e por isso incapazes de nos compreender)." (p. 97)

"O fato concreto é que nós não aprendemos a resolver essas questões porque o que realmente sabemos é que esse outro do carro ao lado é um desconhecido. Por isso ele deve ser - axiomaticamente - situado como inferior (ou superior), até prova em contrário. Diante dele, as normas gerais [o Código de Trânsito Brasileiro] somem ou são absorvidas pela situação que deve ser solucionada pessoalmente. O resultado final do conflito entre o padrão hierárquico (que busca e sabe das diferenças entre pessoas) e o igualitário (que as desconhece, não precisa conhecê-las, e mais que isso, deve desconhecê-las, senão não poderia ser igualitário) é, até hoje, um enigma no caso do Brasil. Dizer que jamais sabemos o resultado é um exagero. Mas afirmar que quase sempre ficamos em dúvida entre respeitar o sinal ou simplesmente reconhecer que temos a capacidade de estruturar a situação pessoalmente é, sem dúvida, afirmar a verdade." (p. 99)

Por fim, Roberto DaMatta aponta para o que entendo como a diferenciação entre consumidor e cidadão. Um consumidor é compelido a consumir (a integridade física dos outros, espaço, tempo e carros que comprovem um status social cada vez mais elevado) para ascender na hierarquia. Citando a fala de um professor entrevistado no documentário Sociedade do Automóvel, o consumidor "se defende do transporte público ruim comprando um carro". Nesse carro, ele anda sozinho. O cidadão, em contrapartida, reconhece que não está sozinho, que faz parte de uma sociedade que lhe dá direitos e deveres.

"Temos, então, por um lado, os motoristas (que enfiam o pé na tábua), que se pensam como tendo somente privilégios e direitos; e, por outro, os pedestres (englobados pela fé em Deus), vistos como subcidadãos cujo atributo é ter um conjunto de deveres e obrigações. Neste sentido, fomos tão longe em nosso descaso com qualquer compromisso com a igualdade como um dever (e um direito) de todos, que os motoristas têm o privilégio de ocupar as ruas usando-as como bem entenderem, assim como as calçadas [estacionando sobre elas] e praças [transformando-as em estacionamentos]. Em outras palavras, em nossa malha urbana, eis um outro fato óbvio que também deve ser trazido à razão: o cidadão-pedestre não tem lugar ou vez nas calçadas ou praças. Isso esclarece por que todos precisam de um veículo motorizado no Brasil. É que ele não é apenas um meio de incrementar o conforto, diminuir o tempo e encurtar distâncias. Não! É, acima de tudo, instrumento de ampliação de espaço da pessoa social dos seus donos, tornando-os fortes, fazendo-os visíveis e dando-lhes o ingresso ao clube dos privilégios: dos que têm um carro e com isso podem usar o espaço público a seu bel-prazer." (p. 92 - 93).

Subir na hierarquia do consumo significa isolar-se dos outros e do meio ambiente. Ser consumidor significa ser indivíduo. Por que essa necessidade de auto-afirmação? Por que tanta violência?

sexta-feira, 1 de julho de 2011