quarta-feira, 24 de junho de 2009

Dia de prova

No momento, estou usando a fantasia de professora de idiomas. São roupas velhas, que precisaram de muitos remendos e ajustes quando as tirei do baú. Agora já não me apertam mais, mas sinto que as cores e estampas estão totalmente fora de moda. O que faz eu me sentir deslocada é o fato de ter que aplicar prova. Não acho que a prova seja um bom meio de avaliar o aprendizado dos alunos, mas é o método que se estabeleceu. O que me chama atenção agora, nesse fim de semestre, é como os alunos lidam com a prova de maneiras diferentes. Para uns, é um mal inevitável, o atestado de sua incompetência. Para outros, um desafio que encaram com certo nervosismo. Para os últimos, mais um motivo para não aparecer na escola.

Dou aula em duas escolas, que adotam metodologias diferentes. Nas duas, tenho bastante liberdade para dar as aulas, mas no ponto prova, são muito diferentes. Uma escola fornece a prova pronta. A outra me pede gentilmente que eu elabore a prova. A prova pronta de inglês intermediário exige que o aluno saiba um certo vocabulário e tenha habilidades para resolver palavras cruzadas ou quebra-cabeças lexicais equivalentes. Quando demanda domínio de regras sintáticas, as questões são ambíguas, mal formuladas ou simplesmente contêm erros. O aluno não é estimulado a juntar palavras para formar sentenças, combinar sentenças para formar um texto, articular idéias para defender uma posição. Na prova que eu elaborei, insisti na construção de sentenças e manuseio inteligente do vocabulário que forneci na prova. Talvez os meus alunos de alemão básico 2 até fossem capazes de escrever um pequeno texto, mas desconfio que eles não sabem disso.

Alguns alunos chegam quietos, fazem a prova sisudos, consultam o minidicionário loucamente e sabem que não adianta, entregam no limite do tempo e declaram saber que erraram metade. Quando recebem de volta a prova corrigida e altamente modificada em termos cromáticos, suspiram resignados e dizem que já esperavam uma nota baixa. Aprendem gramática durante a correção da prova.

Outros chegam acelerados, anunciando que precisam olhar pro material da revisão por 5 minutos antes de começar a prova, batem o pezinho enquanto pensam, atendem o telefone que são incapazes de desligar, lêem em voz alta o enunciado quando a voz da professora na sala ao lado embaralha seus pensamentos. Quando recebem a prova corrigida, ficam insatifeitos com os errinhos bobos que cometeram.

Esses todos foram os meus alunos adultos, trabalhadores, estressados, que não estudaram o suficiente porque trabalham demais. Agora vem a descrição dos meus alunos adolescentes que estudam alemão porque é legal, porque o pai acha legal, porque é mais barato que aula de violão. Esses chegaram em polvorosa, querendo saber da prova de recuperação, querendo consultar o livro, que eu traduza tudo. Quando viram que eu não separei as cadeiras deles e sentei em cima da minha mesa, não pararam quietos. Pediam ajuda, denunciavam tentativas de cola, atrapalhavam os outros, diziam que não sabiam nada e iam dormir, apontavam que 'Elisabeth', no item 10 da última questão, se escreve com 'z'. Duvido que tenha havido 5 minutos consecutivos de silêncio nas 2 horas que tiveram para fazer a prova. Ajudei todo mundo, chamei atenção que estavam escrevendo em inglês, apontei erros de conjugação. E todos foram bem.

Ainda tem uma turma de jovens. Devem ter em média 25 anos, trabalham, fazem aula de alemão porque é legal e porque colecionam línguas. A prova seria hoje. Cancelaram.

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