Fietstherapie


Quebrei o pé. Caí da árvore e quebrei o pé direito. Todo o peso do meu corpo esmagou o Talus, o osso que liga o pé à perna. Impressionado, o médico que me operou quis ficar com as tomografias, para mostrar pros alunos dele. As tomografias vieram pelo correio, três semanas depois que fui liberada do hospital.

Passei duas semanas no hospital de Bremen e um mês na casa dos meus pais. Com o pé metido num casulo e andando com a ajuda de muletas, o tempo passou a ter outro significado. Passei dias sentada no jardim da casa dos meus pais, ouvindo uma vaca mugindo ali, um cortador de grama sendo ligado lá do outro lado, uma maçã caindo do pé ali embaixo, passarinhos disputando um galho no pinheiro lá em cima, o vento movimentando folhas. Naqueles dias, o tempo foi suspenso.

Quando o tempo voltou a andar, eu ainda não podia pisar no chão, mas já me movimentava com as muletas. Eu praticamente andava com as mãos e a perna esquerda. Tudo demorava. As mãos doíam, a perna esquerda sofria de fadiga muscular. Retomei a minha pesquisa, e aos poucos fui me sentindo menos inútil. No computador, eu tinha o que fazer. Não podia mais ficar horas olhando para a musculatura da minha perna direita que ia atrofiando.

Muito a contragosto, meus pais me levaram de volta à Holanda. Foi difícil pra eles me deixar lá, naquela casa com tantas escadas, naquela cidade longe deles. Mas era em Nijmegen que estava o meu trabalho e era lá que eu faria fisioterapia por um mês, antes de voltar ao Brasil. Os moradores da minha república que viram os meus pais tiveram que prometer a eles que cuidariam de mim (fariam compras e cozinhariam pra mim e até lavariam a minha louça!). Nunca permiti que cozinhassem pra mim ou lavassem a minha louça. A única vez que pedi a Kaleem, o paquistanês, que comprasse laranjas, ele me trouxe mexericas, dizendo que era tudo a mesma coisa.

A clínica de fisioterapia ficava a pouco mais de um quilômetro da minha casa. Fui de ônibus e fiquei surpresa com a gentileza de todos: o motorista pacientemente esperou eu aprender a subir no ônibus com as muletas, os passageiros perguntavam se eu sentia dor e me ofereceram lugar pra sentar.

Fui uma vez de ônibus para a universidade. O que de bicicleta demorava 7 minutos, demorou uma hora e quarenta e dois minutos. Esperar no ponto de ônibus apoiada num pé só foi quase a morte. Além do mais, não havia nenhuma linha direta entre as proximidades da minha casa e a universidade, ou seja, tive que fazer baldeações complicadas em ônibus que davam voltas absurdas.

Na segunda semana de fisioterapia, meu pé já estava num sapato, não mais naquela bota branca. Eu já podia pisar no chão, mas cada toque doía muito mais que a queda da árvore. Passei a me movimentar mais devagar ainda, porque não conseguia mais dar passos tão largos e porque antecipava a dor de cada contato do pé direito com o chão.

Na terceira sessão de fisioterapia, enquanto eu pedalava a bicicleta ergométrica, perguntei ao meu fisioterapeuta quando é que eu seria capaz de pedalar a minha bicicleta. Menno pensou um pouco, coçou o queixo, depois me perguntou se eu estaria em casa às 19:00 naquela noite. No horário marcado, ele apareceu lá em casa. Deixamos as muletas encostadas no muro, baixamos o selim da Pequena Giant para que eu pudesse simplesmente esticar a perna esquerda para me apoiar no chão; e fui seguindo o Menno. Demos voltas no quarteirão, sempre parando e reiniciando, para ele se certificar que eu sabia parar a bicicleta em faróis, cruzamentos etc.

Finalmente eu tinha reconquistado a minha mobilidade. Eu prendia as muletas na bicicleta e ultrapassava todo mundo nas ciclovias. Não era muito confortável pedalar com as pernas encolhidas assim, mas eu pisava fundo. Deitava o cabelo mesmo, celebrando a minha liberdade em alta velocidade. Quando parava, tirava as muletas da Pequena Giant, prendia a bicicleta e saía muletando por aí, em velocidade de lesma. Ia assim pra universidade, pra fisioterapia, pro supermercado, pra casa dos amigos. Quando era possível ir de bicicleta, eu ia, mesmo que fosse da biblioteca ao bandejão.

Todo dia eu pedalava pelo menos uma hora pela região. Às vezes cruzava a fronteira e pedalava na Alemanha, às vezes ia até a cidade vizinha, às vezes acompanhava o rio Reno, que na Holanda se chama Waal. Os moradores da minha república ficaram aflitos na primeira vez que, ao voltarem pra casa, viram as minhas muletas no lugar da Pequena Giant. Depois, se ofereceram para me acompanhar nesses passeios diários. Kaleem começou a reclamar depois de 20 minutos. Boti, o romeno, já montava na bicicleta dele planejando jogá-la no rio.

Nesses passeios, eu sentia o vento na cara. Pedalando, eu não era mais uma pessoa que se move lentamente. Na bicicleta, eu era mais igual aos outros. Na Pequena Giant, eu era mais eu mesma. Aquilo era cicloterapia.

Num certo dia, aconteceu um milagre. Menno me pediu que eu deixasse uma muleta encostada na parede e o acompanhasse até o fim do salão. Dei-lhe a mão e fomos e voltamos. Tirou a muleta da minha mão e a encostou ao lado da outra. Vamos, Fräulein, você consegue. Dei-lhe as duas mãos e fomos e voltamos. Ele soltou uma das minhas mãos. Fomos até o fim do salão e voltamos. Nem percebi quando ele soltou a outra mão e caminhei sozinha, apoiada nos meus dois pés.

Em holandês, ‘bicicleta’ é fiets. A terapia da bicicleta, a fietstherapie, foi a melhor coisa que o meu fisioterapeuta fez por mim. Afinal, pedalei muito antes de voltar a caminhar.