terça-feira, 28 de julho de 2009

Para o alto e avante

Que a Akari se comporte no avião
E que o Berg abra a casa pra mim
E que eu consiga dormir na rede
E que a mudança chegue na terça que vem
E que eu consiga fazer os exames médicos rápido
E que eu seja nomeada logo

Desorganizações que vêm para o bem

Eu tinha mandado a minha máquina fotográfica pro conserto. Apressei os caras pra trocarem a peça defeituosa, porque eu ia me mudar pra Rondônia ('Rondônia' impressiona mais que 'Porto Velho', porque todo mundo confunde com 'Roraima' e pensa que é lá em cimão). Conseguiram trocar a unidade ótica em tempo, mas quando fui buscar a máquina, ela estava com outro defeito: não entrava no Menu. Devolvi a máquina e avisei que no dia seguinte eu estava de partida. Não tem problema, senhora, mandamos um Sedex pra onde a senhora estiver.

Quando eu estava no hotel em Porto Velho, recebi e-mail da assistência técnica me pedindo endereço. Dei o endereço do hotel. Durante toda a minha estadia no hotel eu perguntava pra recepcionista se eu tinha recebido correspondência. Nada. Embarquei num ônibus e vim a São Paulo. Verifico os meus e-mails e vejo que o cara da assistência me pede o endereço completo pra envio. Deduzo que a máquina ainda está na assistência e ligo lá. Procuraram pela máquina, localizaram o objeto e o mandaram por malote para a loja da assistência no mesmo dia. De noite fui lá pegar. A desorganização deles me trouxe a minha máquina da maneira mais segura.

P.S.: As pilhas e o chip de memória estão em Porto Velho, no porta-malas de uma professora da Unir.

* * *

A Mônica tinha ligado na TAM e disseram pra ela que era tranqüilo transportar gato na cabine do avião. Só precisava de um atestado do veterinário, vacina anti-rábica (decerto pra Akari não desenvolver rabo) e a caixinha de transporte. Disseram que não tinha tempo de carência da vacina, que era a minha preocupação. No balcão da TAM, quando comprei a passagem, as coisas mudaram de figura. Já não tinha mais aquela tarifa que eu tinha visto dois dias atrás, e a loja cobrava 10% a mais do valor da passagem e eu tinha que ligar na TAM pra reservar o espaço do gato, que depois seria autorizado - ou não. A caixinha do gato não conta como bagagem, pois paga uma taxa extra de R$ 90,- e cada quilo do animal custa em torno de R$ 9,-.

Liguei na TAM pra fazer a reserva do gato e uma voz pouco humana me informou que o tempo de espera para ser atendida era de 20 minutos. Quando finalmente fui atendida, a mulher me diz que a vacina precisa ter sido aplicada num tempo de carência de entre 30 dias e 1 ano. Mas a gata foi vacinada semana passada! Então ela não embarca. Precisamos também saber as medidas exatas da caixa de transporte, para sabermos se há espaço na cabine ou se o animal vai no porão, junto com a bagagem. Liguei na Mônica e ela me tranquilizou. A vacina tinha dois meses de idade no atestado e as medidas são 47 x 32 x 29. Voltei a ligar na TAM e o prazo de espera para ser atendido era de meia hora. Quando finalmente fui atendida, a mulher me diz que a caixa é muito comprida para caber na cabine, e que a Akari vai ter que ir no porão.

Carlos me disse que a temperatura no porão é bem baixa e que nem sempre lembram de ligar o ar condicionado lá, porque só vai mala, caixa e essas coisas. E como tem troca de avião em Brasília, a gata vai ser jogada em dois porões diferentes. Sedativos duram no máximo 3 horas, porque não pode dar muito, porque o animal é pequeno e frágil. Ok, me convenceu. Fui no atacadão das pet-coisas e procurei uma caixa que tivesse 36 cm de comprimento, conforme a mulher falou. Não existe caixa desse tamanho.

Liguei na Mônica pra informar que a caixa era muito grande e que a Akari coitada ia no porão. Inconformada, a Mônica procurou caixas de 36 cm de comprimento e não achou. Mediu a gata e concluiu que, como o gato tem 40 cm de comprimento, caixas de 36 não existem. Foi no aeroporto com a caixa, mostrou pra atendente e perguntou se tudo bem embarcar na cabine. Tudo bem.

Liguei na TAM pra mudar a reserva. 14 minutos de espera dessa vez. Quero que a gata venha comigo, na cabine, não no porão. Um momento, senhora. Ah, sim. O seu pedido de porão foi enviado e a resposta que recebemos foi a autorização pra sua gata viajar na cabine. E viva a desorganização alheia!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Mais do mesmo

Ontem eu não estava mais fazendo sinapses suficientes pra lembrar de escrever da paisagem que eu via pela janela embaçada do ônibus.

Porto Velho tem muito asfalto e pouco verde. Quase não tem árvores, tem muito pouca grama e muita poeira de terra vermelha. Mas saindo de PVH vejo os comércios de mudas, viveiros de plantas ornamentais e frutíferas. Já sei pra onde ir, pra conseguir plantas e sementes.

No estado de Rondônia há poucas cidades grandes, e todas (exceto duas ou três) ficam na BR 364, que liga o Acre com o Mato Grosso. Isso significa que a paisagem na estrada (no estado de Rondônia) é bem marcada pela intervenção humana. Queimadas, pastos, fazendas, descampados e um ou outro coqueiro despontando por entre as árvores baixas.


Em Mato Grosso os acampamentos de sem-terra me chamam atenção. E de repente há uma serra no horizonte. Começam a aparecer pedras. Rochas mesmo. Engraçado como eu logo planejo onde colocar mãos e pés, e em vez de fendas, vejo agarras. Mas fora as pedras a paisagem é bem de cerrado.Vejo poucas e pequenas árvores com seus troncos pretos e engruvinhados, folhas cinza e esparsas flores amarelas.

No Goiás, o cerrado se mistura com as plantações e os pastos de vacas magras. Quando tem plantação, é de milho seco, queimado e retorcido. Kilômetros de mar marrom, de plantação perdida.


A viagem de ônibus não é mais tão desconfortável agora que a paisagem muda, é bonita e diferente do que eu conheço. As pessoas à minha volta fazem essa viagem regularmente e não reclamam tanto assim.

Em Minas já vejo pastos com gado gordo, do tipo de exposição ou para churrasco (vai saber). E em São Paulo as plantações tomam conta do cenário. Cana de açúcar e laranja me dizem que estou chegando perto de Campinas.

domingo, 26 de julho de 2009

De ônibus!

Comprei passagem pela Eucatur, que era R$ 2,00 mais barata que a passagem da Andorinha e me dava uma hora a mais em Porto Velho. Nesse tempo extra que eu me dei, consegui tomar banho de água fria antes de embarcar. Minha passagem era de Porto Velho a Vilhena, na poltrona 7 e depois de Vilhena a São Paulo (no mesmo carro), na poltrona 41.

Porto Velho, Ariquemes, Jaru, Ouro Preto do Oeste, Ji-Paraná, tudo embarque e desembarque. Aquele ônibus parecia uma rodoviária. O meu vizinho parecia torcedor metido a técnico. Levantava e reclamava em voz alta e sozinho das habilidades do motorista. Contava pra quem quisesse ouvir quanto ele dava na moto dele e quanto no caminhão. O fim da picada foi o orgulho com o qual ele contou o causo em que um motoqueiro tava ocupando a pista toda, indo bem devagarzinho. Nosso herói buzinou tanto até que o motociclista parou a moto e desceu pra tirar satisfação. No que o nosso herói do bafo podre viu a moto sozinha na estrada, passou por cima. Ria alto, disseminando suas bactérias fedorentas que atestavam sua macheza.

Não tinha aquela paradinha de meia hora a cada 3 horas. Tivemos meia hora pra janta em Cacoal e paguei a conta ainda mastigando, porque o ônibus tava partindo. Voltei feliz ao meu assento, porque o cowboy do asfalto tinha dado lugar a uma magrinha estrábica. Minha poltrona 7 era de frente pra escada: tinha mais espaço para as pernas e dava pra levantar os pés. Quem sentava nas poltronas 1 a 4 estava de frente para o pára-brisa e acima do motorista.

Nenhum dos motoristas dirigia bem, segundo o povo do ônibus. Todos eram muito lerdos, inexperientes ou frouxos, mas o que mais me incomodava eram as brecadas bruscas que davam. A gente tomava cada susto! Um passageiro foi lá embaixo, reclamar com o motorista. Voltou dizendo que os freios eram ABS e ninguém tinha acostumado ainda.

Me avisaram que em Vilhena fazia frio, mas só me convenci quando desci do ônibus e vi todo o ar que eu expirava na minha frente. O ônibus foi recolhido pra limpeza, e nós ficamos encolhidos na rodoviária, esperando ele voltar com o seu ar condicionado. Quando voltou, mudei pra cozinha. E junto comigo foi todo mundo que eu tinha conhecido ali naquela serração, reclamando do frio. Enquanto a temperatura do ar condicionado não agradava, a Thaís exclamou que aquele ônibus tava o Rio Grande do Sul.

Muitas crianças pequenas corriam, brincavam, borbulhavam e gritavam no ônibus. Uma menininha em especial, a Duda, não chorava: berrava. Até a gente já sabia diferenciar seus berros de fome, sono, calor e manha. De manhã, reparei que o pára-brisa estava trincado. Um menino tinha dado com a cabeça no vidro, numa daquelas freadas bruscas do motorista acostumado a dirigir caminhão. Testa de ferro, o guri.

Cáceres, Cuiabá e pausa para o almoço. Não comi nada porque não estava com fome e porque eu não tinha onde gastar aquela energia toda. A galera da cozinha sentiu a minha falta na mesa, e depois estranhou quando me viu entrando no ônibus com um galho. Rondonópolis, Jataí, Rio Verde e todo mundo sentia o cheiro do banheiro assim que alguém abria a porta dele. Eu me agachei, peguei as minhas folhas de eucalipto e fiquei amassando elas. Pularam em cima das minhas folhas. Cada um arrancou uma e ficou macerando a folha na altura do nariz. Miriam disse que tava sentindo um cheiro de goiaba. Respondi que eu tinha pensado em pitanga. Thaís concluiu que o cheiro do eucalipto misturado com o cheiro do banheiro mais o cheiro de todo mundo daquele ônibus dava em cheiro de cupuaçu. Particularmente, acho que cambuci é bem na mosca.

Cantada do povo do norte não é muito cheia de palavras. O cara chega chegando, engata no teu braço e anuncia que é seu futuro noivo. Não chega nem a pedir um abraço, vai logo abraçando e dizendo que tudo bem, né, não tem nada, não, cê não liga, né. Miriam veio em meu socorro, apontando para o sujeito que as minhas mãos estavam nos bolsos. E se ela quisesse te abraçar, meu filho, já tinha tirado as mãos dos bolso, presta atenção.

Em Uberlândia a Laila desceu com a vó dela. Iam pra Patos de Minas, ver a bisa, mãe da vó. Sílvio e Luis ajudaram a carregar suas caixas até o outro ônibus e voltaram tristes por não terem recebido uma bitoca da jovem morena. Em Uberaba o meu eucalipto já não fazia mais efeito. Miriam começou a passar creme na mão, no rosto e braços, avisando que não tinha tomado banho fazia dois dias. Meu vizinho, cujo nome me é uma incógnita, lembrou que daquele pára-brisa lá na frente até aqui atrás ninguém tinha tomado banho.

Ribeirão Preto demorou a chegar, e quando chegou, meus novos amigos/parentes desceram. Só Luis e eu ficamos no fundão, ouvindo a Duda se esgoelar, vendo um moço ir ao banheiro a cada meia hora e procurando a chinela da senhora desdentada que sentava atrás de mim. Em Campinas a Joelma desembarcou com toda a mudança dela e quando finalmente chegamos na Estação Barra Funda em São Paulo, contamos 51 horas de viagem no mesmo ônibus.

Agora dá licença que eu vou celebrar a horizontalidade naquela cama que já está chamando o meu nome.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Difícil

Ser pedestre em Porto Velho
Gastar tanto dinheiro de uma vez
E não ver fim para os gastos.
Difícil pedir ajuda.

Mas tenho esperança que dê tudo certo.
Vou pra São Paulo de ônibus
Pra não gastar tanto dinheiro
Só tinha 3 lugares vazios.

Não tenho certeza se é o melhor a fazer
O sol já queimou a minha pele
e o que tem embaixo dela entrou em curto-circuito.

Não sei quando vou tomar posse nem
Quando começo a trabalhar
Quando começo a receber
Aulas de quê que eu vou dar.

Enroscada na imobiliária

A inquilina que tinha habitado a casa que eu estou pra alugar saiu e deixou o caos instalado naquele endereço. A gestora de locações quis correr atrás dessa moça e lhe cobrar os 3.400,- que custaria a reforma. Telefonou pra ela na minha presença e marcou de se encontrarem hoje na hora do almoço. Comigo a mulher marcou às 14:30 de hoje.

Quando cheguei, logo avisou que a moça não tinha vindo. Me mostrou o orçamento e combinamos de eu pagar 3 meses adiantado, porque não tenho fiador. Ela usaria esse dinheiro pra iniciar as obras de reforma. Ligou pro Berg (de Gutemberg), que é o eletricista, encanador, pedreiro, carpinteiro e marceneiro que a imobiliária sempre chama. Combinou de ele me encontrar na casa às 16:30. Pedi que ela me escrevesse um comprovante de residência e me desse a chave da casa, que tinha sido reservada pra mim. O papel ela escreveu numa boa, a chave é que foi difícil. Uma das agentes imobiliárias tinha dado a chave prum cliente visitar a casa. O cliente tinha uma hora e meia para devolver a chave. Os celulares Claro estavam bloqueados.

Fiquei pasma de ver a gestora de locações em ação. Ela atendia uma cliente nova, conversava comigo, insistia pra que ligassem pro cara da chave e ainda atendia o telefone. Polivalente, essa mulher, multifuncional. Quando deu 20 pras 4, uma das agentes me pediu pra ir à casa, porque ela tinha chamado o chaveiro que abriria a casa pra mim e estaria lá em 20 minutos, que era o tempo que eu precisava pra chegar lá a pé.

Fui. O chaveiro já estava lá, encostado numa sombrinha. Abriu o cadeado do portão com arames. Abriu a porta da casa com os mesmos grampos de cabelo. Rapaz, tu abriu as portas com dois grampinhos?! É, isso aqui é dois grampos e 22 anos de experiência. Foi embora e me deixou na casa aberta.

Logo depois chegou o Berg que me desaconselhou a entrar na casa enquanto a reforma rolasse, e também achou absurdo eu querer deixar as minhas coisas na casa e ir a São Paulo. Ofereceu de eu deixar a mala na casa dele. Trancamos o portão com um cadeado grande que tava na moto do Berg, porque ele não confiou que a chave que tava na mão do cara voltasse a tempo. A porta da casa ficou destrancada mesmo. Não me ofereceu carona na moto dele até a imobiliária porque não tinha trazido capacete extra. Combinamos de nos encontrar na imobiliária pra acertar o pagamento e início da reforma.

Cheguei na imobiliária e nada do Berg. A agente imobiliária riu na minha cara e disse que o cara que tava com a chave da minha casa tinha acabado de sair de lá pra ir na casa, me dar a chave. A gestora de locações já tinha saído e não voltaria mais. Celulares Claro bloqueados. Conseguiu falar com o Berg, que tinha me esquecido e ido numa obra que ele tava acompanhando. E agora, como faz pra eu pagar? Me deu um papel com o número da conta do irmão anotada. Depois me deu um recibo no valor de 3 aluguéis.

Quando cheguei no hotel, já estava escuro.

Burrocracia

Preciso fazer exames médicos de admissão para o cargo de docente. O funcionário da Unir tinha me encaminhado ao Iperon (Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Rondônia). Me deu uma carta endereçada ao Doutor Caon, pedindo a ele que me desse uma autorização para exames médicos. Sabia já de antemão que o tal doutor não me daria essa autorização, mas estava na torcida que ele me encaminhasse.

Cheguei lá e vi um monte de atendentes ocupadíssimas com seus papéis, pastas e ofícios. Segui a plaquinha 'Junta médica'. Embaixo da plaquinha havia outra plaqueta avisando que era proibido entrar ali trajando bermuda ou regata. Adivinha. Eu tava tanto de bermuda como de regata. A atendente gordinha, loira tingida da voz desagradável que me indicou a assistente social também estava de regata, mas me chamou atenção que na verdade eu não podia entrar ali daquele jeito. Sei.

A assistente social me cumprimentou, recebeu a minha carta e se ligou que era endereçada ao Dr. Caon. Desligou tudo, disse que tinha que ser com ele, que estava sentado na mesa à sua frente. Ele estava atendendo um sujeito, portanto tive que esperar no corredor.


Passa por mim a gordinha feia de regata. Mas você ainda não conversou com a assistente social? Já conversei, mas ela me passou pro doutor Caon. Gesticulando impropérios, ela entrou na sala dos dois, viu que estavam ocupados, ouviu a confirmação do que eu tinha dito da boca de um funcionário que ficava digitando nomes e riscando números. A gordinha com cara de sapo sacudiu a cabeça, e como tinha que ter a última palavra, exclamou ao distanciar-se: então cê aguarde aí.

Finalmente fui atendida pelo doutor, que exclamou que eu já era a enésima pessoa que os camaradas da Unir mandavam pra ele. Ele não tinha poder para autorizar nada, e ia me dizer tudo o que já tinha dito a todos os outros. Rondônia é um estado pobre, com muitas diferenças sociais, então os hospitais ou laboratórios ligados ao sistema de saúde pública eram superlotados. Quando não demora pra conseguir marcar consulta, o laudo demora a chegar. Melhor fazer esses exames pela rede particular, e aí tudo pode te custar em torno de 2 mil reais. Mas você resolve tudo em duas semanas. Se você for pelo SUS, então você tem que fazer uma carteirinha na secretaria de saúde da prefeitura. Mas você não tem comprovante de residência ainda, né? Então não vai dar pra fazer a carteirinha, e sem a carteirinha você não faz exames.

Fui na internet, pesquisar laboratórios de análises clínicas, apesar de suspeitar que não tenho dinheiro pra pagar tanta coisa. Anotei os endereços de uns 3 aqui perto e fui até um deles. A moça me indicou quais outros laboratórios fazem quais exames e quanto custa. Por fim, lembrou que o Dr. Navas faz um pacote para exames de concurso. Viu? Tem gente se aproveitando da burrocracia.

Apesar de tudo isso, ainda não fiz nenhum exame médico. Fiquei presa na imobiliária. Mas esse enrosco é outra estória.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Eu não pareço com você

Entrei no salão onde servem o café da manhã. Ar condicionado no modo polar e ventando. Peguei só frutas e sentei numa mesa vazia. Um hóspede se virou todo sorridente e me perguntou se eu era estrangeira. É porque às vezes vem estrangeiro e não tem com quem conversar. Desculpa incomodar.
Não sei se ele percebeu que eu não queria conversar ou se a minha cara já expressava o embrulho do meu estômago.

Fui na Unir, ver o que já posso adiantar e o funcionário do depratamento de Recursos Humanos me perguntou o meu nome. Lu, mas escreve ele-ô-u.
Ah, lembrei de você, seu nome é diferente.
Senhoras e senhores, eu estou num lugar em que Carene, Cheila, Dhillen, Elvis, Fredy, Glícia, Leir, Nefy, Aedjota e Lowrana são comuns. E o meu nome é que é diferente.


Quis entrar nas interneta e pedi ajuda na recepção do hotel. Um cara sentou do meu ladinho e ficou mandando eu clicar nos ícones que ele reconhecia, apesar de não se ligar em que língua estava o computador. Veio outro, que tirou o laptop da minha mão e foi logo avisando que não entendia esse inglês. Avisei que era alemão e ele ficou mais orgulhoso de si mesmo ainda: mexi no computador em alemão, não entendi nada, mas consegui colocar ele na rede.

Agora que já sei identificar diferentes tipos de nuvens, graças ao meu manual de previsão do tempo e clima, reparei em várias nuvens de cirro, que são aquelas que parecem ter sido traçadas com um pincel. Havia também muitas nuvens do tipo estrato-cúmulo, que é o 'céu de brigadeiro', ou de ovelhas. Mas o que mais tinha eram nuvens do tipo cúmulo, que são baixas e anunciadoras de chuva. A base delas é reta e cinza e o topo delas é volumoso, meio couve-flor. Mas será que vai chover aqui, no inverno, depois de um mês de seca? Choveu um pouquinho de tardinha. Quem diria?

Fui em várias imobiliárias, liguei em outras tantas, e sempre vinha a mesma resposta: não tem casa pequena pra alugar. Tá tudo alugado. Apartamento também. Não sei o que aconteceu, mas nas últimas semanas todas as casas de até mil reais foram alugadas. Eu sei o que aconteceu: a galera dos 4 editais que foi chamada antes de mim já se estabeleceu. Os agentes imobiliários me ofereciam casas de 3 mil reais, apartamentos de 8 mil.

Andando pelas ruas, não sou nem olhada como turista. Sou considerada gringa e nem disfarçam sua curiosidade. Minhas roupas, o jeito de andar, a minha estatura e a pele branca em processo de avermelhamento são diferentes.

Achei uma imobiliária que ainda tinha casas por menos de mil reais. A moça me daria as chaves das casas em troca de um documento. Eu teria que voltar em 2 horas.
Você vai a pé? Não dá tempo. Pegue um taxi. Ok, vamos ver o mapa. É, dá pra você ver essas duas casas aqui, que são perto daqui.


Voltei em uma hora. Achei uma casa que é a minha cara, mas ela precisa de uma reforma séria. As janelas não têm vidros inteiros, as paredes precisam de pintura e o piso está parcialmente quebrado. Mas então por que você se interessou pela casa? Ela é grande, tem jardim-selva nos fundos e o bairro parece calmo.

A caminho de Porto Velho

Eu nunca tinha pegado um taxi por causa do peso das malas. Sempre carreguei minha casa nas costas e não tinha muito problema pra subir os degraus do ônibus. Mas dessa vez a mala, mesmo que equipada com rodinhas, estava suficientemente pesada para uma viagem de ônibus. E a mochila estava quase tão pesada quanto a mala, então fui de taxi mesmo até o metrô.

É, metrô Tatuapé. Lá eu peguei um ônibus convencional até o aeroporto de GRU por R$ 3,65. Nada de pegar o Airport Service com ar condicionado a R$ 30,00. Mas o que eu economizei no ônibus a GRU eu gastei no taxi. Empatou, então.

Botei a mala na balança do check-in da Ocean Air. Ups, só podia 23kg, né? Sim, senhora, a senhora tem 4kg de excesso. Hm. Essa mochila a senhora vai levar como bagagem de mão? 16,3kg, senhora. São permitidos apenas 5 kg de bagagem de mão. Tirei o computador e continuei com 13kg. Tive que despachar a mochila e pagar por 17kg de excesso de peso. O que deu R$ 178,00. Acabei gastado o mesmo que eu teria pagado numa passagem da Gol. Empate de novo.

Não existem vôos diretos de São Paulo a Porto Velho. As escalas ou conexões são em Brasília ou Cuiabá. No caso da Ocean Air, nas duas cidades. Essas paradas fizeram com que a minha viagem durasse 6 horas. E o avião esvaziou e lotou em cada parada, ou seja, não teria nem adiantado chorar por causa do excesso de bagagem.

Quando sobrevoamos Brasília, ouvi a mulher sentada atrás de mim exclamar: ai, que lindinho, tudo retinho, certinho. Quando nos aproximamos do aeroporto, na altura do que eu desconfio tenha sido um dos eixões, a mesma mulher comentou: uia esse trânsito, parece São Paulo! Credo!
Em Brasília a temperatura era de 26°C.


Quando sobrevoamos Rondônia, ficou difícil imaginar a linha do horizonte que separava os pontinhos brilhantes no céu daqueles no chão. Sair do avião foi como entrar numa bolsa de ar quente e úmido. 30°C às 23:00h. Maravilha, cheguei ao meu destino.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Meus piores alunos

Dei aula de inglês desde os meus 18 anos. Só parei de dar aula de inglês em escola de idiomas durante o tempo em que tive bolsa de mestrado e doutorado. Mas continuei dando aula de alemão pros amigos. Quando voltei da Holanda, abandonei até o meu mais fiel aluno filósofo (eu adorava dar aula de alemão pros filósofos). Tudo isso pra dizer que passei muitos anos da minha vida lá na frente, na lousa, ensinando uma língua estrangeira, corrigindo tarefa de casa, pronúncia, gramática, fazendo as vezes de amiga, psicóloga e curiosa.

E nesses anos todos percebi que os meus piores alunos eram sempre de inglês. Eram os caras que faziam o curso porque a empresa tava pagando. Vinham nas aulas porque só seriam promovidos na firma se passassem de nível no inglês. Entravam em sala de aula dizendo que detestavam inglês e saíam com a cabeça a ponto de explodir. Inglês, pra esses caras, é uma obrigação, um obstáculo a ser superado, um calvário que não tem fim. Básico um, básico dois, básico três, pré-intermediário um, pré-intermediário dois, pré-intermediário três, intermediário um, intermediário dois, intermediário três, pré-avançado um, pré-avançado dois, pré-avançado três, avançado um, avançado dois, avançado três, conversação, professional student.

Meus alunos de alemão fazem alemão porque querem poder se comunicar com a avó, porque querem morar na Alemanha, porque se apaixonaram por uma pessoa que fala alemão, porque colecionam línguas, porque querem ler Nietzsche ou Kafka no original - e entender as nuances. Mesmo os meus alunos brasileiros que trabalhavam em empresas alemãs não encaravam a aula de alemão como um sacrifício. Queriam entender a cultura, queriam conseguir rir em alemão.

Veja como as motivações dos alunos de alemão são muito mais particulares de cada indivíduo que as motivações pro sujeito aprender inglês. A pessoa estuda inglês porque precisa, porque o mercado de trabalho (sim, não é específico, é genérico mesmo: o mercado de trabalho) pede que se tenha fluência (seja lá o que isso for, mas não vamos desmotivar os gagos logo de cara, né). Por ter esse caráter obrigatório e satisfazer uma necessidade abstrata, aprender inglês não é uma atividade prazerosa ou mesmo interessante.

Não, nem todos os meus alunos de inglês foram péssimos cabeças-duras que odiavam a situação de ter que estudar essa língua imperialista. Hoje foi a minha última aula de business english na Samsung. Reprovei três alunos e aprovei dois com distinção e louvor. Dois foram demitidos da empresa no meio do caminho e os outros três não conseguiram conciliar o trabalho com as aulas. Viu? De dez alunos dois continuam contentes na corrida em busca do Santo Graal.

domingo, 19 de julho de 2009

Preparativos

Estou me despedindo das pessoas aos poucos. Alguns me dizem que eu sou louca, outros dizem que me invejam, outros ainda me dizem que farei falta. Todos me perguntam se eu estou ansiosa. Grande mudança pela frente. Vou morar sozinha pela primeira vez na vida (ok, tem a Akari, mas ela não conversa muito).

Eu queria cortar o cabelo antes de ir, porque lá, ao contrário daqui, faz calor. Aqui os relógios/ termômetros de rua me informavam de manhã que fazia 8°C. Em Porto Velho faz 33°C. Agora é época em que não chove lá, ou seja, o inverno deles é mais quente que o verão, porque não refresca.

Quis consertar coisas que desconfio não terem assistência técnica em Porto Velho. Mas como o meu primeiro salário como professora de inglês foi de R$ 84,00, tive que esperar um pouquinho pra consertar as coisas. Agora o salário dá e sobra pra consertar as coisas. O que ficou apertado agora é o tempo que eu ainda tenho em São Paulo.

Um exemplo de candidato a conserto é a minha bateria de laptop, que estava lentificando a contagem da memória na hora que o computador inicia, desconfigurando o relógio do computador e não estava mais segurando quase nada. Segurou duas horas por dois anos, depois disso passou a segurar uma hora, meia hora, quase nada. Levei na fábrica de baterias e o cara trocou o que tem dentro da bateria. Agora ela funciona bonitinho, mas só por uma hora. A outra coisa é a minha máquina fotográfica, que não conseguia processar luz natural. Levei na assistência técnica e me deram um prazo enorme pra fazer orçamento. Depois me deram outro prazo longo pra consertar a unidade ótica. Apressei os caras pra trocarem a peça e quando fui buscá-la, percebi que tinham mexido nas configurações da máquina. Ainda tava em alemão, mas tava fazendo aquele barulhinho odioso toda vez que eu apertava um botão qualquer. Quis mudar isso, entrando no Menu. Menu não reagia. A máquina voltou pro conserto. Expliquei que eu estava indo pra Rondônia pra morar lá. Me garantiram que mandariam a máquina por sedex assim que eu tiver um endereço lá.

Fui ver o meu saldo no banco depois dessas despesas e reparei que o cheque que eu tinha depositado com o meu salário não tinha sido creditado na minha conta. O cheque tinha sido devolvido. Está lá, na sua agência na Unicamp. Liguei pra escola explicando a situação e a Karin, (que já trabalha na escola faz 13 anos - que foi quando eu trabalhei pra eles pela primeira vez) sacando que temos conta no mesmo banco, transferiu o valor pra minha conta enquanto conversávamos no telefone. Pedi na agência pra rasgarem o cheque, já que eu já tinha recebido o dinheiro. O banco me mandou e-mail avisando que eu poderia retirar o cheque assim que voltasse de viagem. Percebi que é difícil de entender que alguém vá pra Rondônia pra morar lá.

Avisei a Olga quando eu faria a pendulação entre a casa dela, onde está a maior parte das minhas coisas e esta casa, onde estou eu. Pedi o carro dela emprestado pra juntar as coisas num lugar só e ela me avisou que estava de partida pra Minas Gerais de carro. Ainda bem que a Mônica é gente boa e me ofereceu o carro dela. Levei quase tudo pra casa da Olga. Esqueci os quadros que ficaram pendurados nas paredes. E esqueci a chaleira. Sempre esqueço a chaleira. Quando vim de Barão pra São Paulo, a chaleira veio na bicicleta.

sábado, 18 de julho de 2009

Akari

Agora a gatinha sem rabo e sem nome é minha e vai pra Porto Velho assim que eu tiver endereço lá e voltar pra pegá-la. Agora a minha gatinha sem rabo já tem nome. Tinha que ser um nome japonês, por causa da Mônica e por causa dos desenhos japoneses que ando assistindo ultimamente (sim, passei de Bollywood pros animes). Minha gatinha agora precisa ouvir o seu novo nome: Akari.

Vai lá, pedestre

Foto não minha

Uso a faixa de pedestre mesmo quando ando de bicicleta, porque é mais fácil pra mim atravessar a Vereador José Diniz pela faixa de pedestre, empurrando a bicicleta, montar na bicicleta de novo, andar um quarto de quadra e entrar numa ruazinha que leva à minha rua. Atravesso ali pra não ter que pedalar ao longo do Clube Banespa, passar por trás da Sta. Marcelina, subir aquilo tudo e depois descer tudo de novo.

Só não desmonto da bicicleta quando o farol pros carros fecha justamente quando eu estou ali e não há nenhum pedestre atravessando na faixa. Mesmo assim, sinto que eu estou dando um mau exemplo pra quem me vê atravessando na faixa de pedestre pedalando.

Toda vez que eu espero pelo farol verde para pedestres, aperto o botão. Às vezes conto até 20 entre uma apertada e outra, às vezes aperto de maneira randômica, às vezes de forma insisitente. Mas nunca tenho a sensação de que o fato de eu apertar ou não o botão faz qualquer diferença. O farol para pedestres funciona em função do farol para carros, que segue um tempo que não é alterado por pedestre nenhum.

Me pergunto pra quê me mandam apertar o botão. Me pergunto por que aperto o botão, se o meu aperto não muda nada no tempo que eu tenho que esperar pra atravessar a avenida. Ao pedestre é dada a falsa sensação de que suas intervenções no trânsito são relevantes. Lhe é dada uma falsa sensação de poder sobre o tempo dos carros.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mesmo assim


Apesar de não conferir sempre,
confio que não existe um abismo na soleira da minha porta.
Apesar de estar confortável aqui,
tenho curiosidade de viver lá, onde os outros nem pensam em se aventurar.

Apesar de não conseguir explicar em poucas palavras,
espero que consiga confiar em mim.
Apesar de não corresponder exatamente aos meus planos,
sei que estou diante da promessa de um bom começo.

Apesar de saber que não falamos a mesma língua,
acredito que possamos nos entender.
Apesar de sempre desejarmos o equilíbrio,
sei que a entropia faz a festa e mantém o mundo girando.

Apesar de saber que a fé dos outros existe,
me é tão estranha como a beleza que os matemáticos enxergam em suas teorias.
Apesar de não me filiar à religião em que fui educada,
tenho uma certa religiosidade.

Acredito mesmo sem ter provas
Acredito mesmo sem saber explicar
Acredito que tenha aprendido
E que o tempo do contratempo não foi de todo perdido.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Uma esmola, pelo amor de Deus

Boa tarde senhores passageiros e senhoras passageiras.

Por favor não me ignorem aqui, pedindo esmola. Eu venho aqui, pedir esmola, porque eu não tenho emprego. Agora já tenho mais de sessenta e quatro anos de idade e não paguei um tostão pra previdência. Trabalhei muito nessa vida. Trabalhei vinte e seis anos na roça lá na minha terra. Trabalhei na roça lá no Ceará, na minha cidade chamada Aurora e nunca contribuí, porque não era registrado. Aqui eu trabalhei bastante também, mas como não era registrado, não tenho fundo de garatia nem nada que o trabalhador brasileiro tem por direito.

Por isso eu peço esmola. Essa minha vida é muito sofrida e eu sou um excluído. No fim da minha vida eu estou nessa miséria, dependendo da ajuda dos outros pra sobreviver, tendo criança e esposa que dependem de mim. Niguém me dá mais emprego, porque eu sou muito velho, pobre e feio.

Tenho sete filhos e a velha pra alimentar, e em dia que eu não peço esmola, não tem comida pra minha velha cozinhar. Vocês não sabem como é duro ver criança chorar de fome, não ter dinheiro pra comprar pão de manhã ou a qualquer hora do dia. Pelo amor de Deus, minha gente, qualquer moeda já me ajuda a comprar um quilo de feijão, um quilo de arroz. O alimento é coisa sagrada, minha gente.

Não é vergonhoso pedir esmola, não. Vergonhoso é ficar encostado e ver as crianças chorando de fome, deixar a mulher ir embora e enlouquecer de tristeza. Então pedir ajuda pra vocês todo dia foi a solução que eu encontrei pra alimentar a minha família. O que não for fazer falta pra vocês, senhores passageiros, vai manter a minha família por esse dia de hoje. Muito obrigado, que Deus lhe abençoe.

terça-feira, 14 de julho de 2009

É dia de feira

Toda terça-feira, desde que mudei pra casa dos 7 gatos, eu saio de casa às 6:30 sem mochila. Levo os livros no alforje, porque depois da aula tem feira. A feira se instala na Roque Petrella, que fica na minha rota de volta pra casa.

Os feirantes logo se acostumaram com a moça da bicicleta amarela com a bolsa amarela que não quer sacola plástica. Ela sempre chega no mesmo horário, mas vai em barracas diferentes e compra coisas diferentes, conforme a lua. Sempre pede meia bacia, duas espigas de milho, quatro cenouras, meia dúzia de banana ou laranja, nunca prova nada e parece ter dificuldade pra aceitar uma mandioca de brinde, dois limões a mais, um caqui de presente. Deve morar sozinha, pra dizer que não aceita porque vai estragar, porque é muito.

Hoje o moço da laranja me deu 8 laranjas, quando eu tinha pedido meia dúzia. Insistiu que eu levasse 7: uma pra cada dia da semana, menina. Aceitei, lembrando que em exatamente uma semana parto pra Porto Velho.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Desencanador

Foi na primeira Oca, com os moradores mais antigos, que aconteceu. Todo mundo passava o dia na Unicamp e eu era a única que se dispunha a ficar em casa pra abrir a porta pros homens do conserto da máquina de lavar roupa, o eletricista, o pedreiro, o encanador. Quando o encanador tava pra vir, ele viria pra desentupir o ralo. Aí eu ficava falando que o desentupidor vinha, mas soava estranho, e eu queria voltar pro nome da função do cara e não lembrava que era 'encanador', só lembrava que tinha 'cano' no meio. Aí ficou sendo 'desencanador'.

* * *

No dia 09 a Unir convocou um montão de gente pra nomeação. Pessoas que prestaram concurso conforme 5 editais. O meu estava no meio, mas seria suspenso. Liguei na Unir pra entender o que tinha acontecido e a moça me disse que assim que o edital saísse de seu estado de suspensão, nós teríamos 30 dias corridos pra nos apresentarmos pra posse. Nesse tempo dá pra fazer os exames de saúde que pedem, juntar os documentos todos, achar casa e fazer mudança. Então, a partir do dia em que o meu nome fosse publicado no Diário Oficial, começaria a contagem dos 30 dias. Daí hoje eu vi o meu nome no Diário Oficial, com data de 08 de julho. Entrei em parafusos. O tempo já tá correndo e eu não estou fazendo nada, preciso fazer os exames médicos, mas é complicado fazer aqui porque preciso do papel da Unir, será que dá tempo? ai, meu Deus, e agora? Voltei a ligar pra Unir e conversei com a mesma moça que confirmou que o meu nome tinha sido publicado, e lembrou que em seguida tinha sido publicada também a suspensão do meu edital, então era pra eu despreocupar. Chamei o desencanador.

* * *

Mônica anunciou que tinha acontecido um desastre. Um dos gatos tinha passeado em cima do armário e derrubado o meu vasilhame megaplus tamanho família de granola, que se espatifou no chão. Ficou toda preocupada, oferecendo de comprar outro ou me dar o dinheiro. Falei pra ela desencanar. Quase ofereci de chamar o desencanador, caso ela não fosse capaz de desencanar por conta própria.

domingo, 12 de julho de 2009

Despedida de Barão

Um amigo ia se apresentar no palco, tocando surdo numa banda de samba. Eu não tive idéia mais empolgante para o fim de semana que ir a Barão Geraldo, vê-lo tocando. Arranjei carona de ida e volta, avisei aos amigos que ia e pedi um cantinho pra dormir.

Cheguei em Barão feliz da vida. Tinha pegado carona com um diretor de teatro e músico que produz instrumentos de percussão. Me apresentou Samwaad, um espetáculo que eu tinha perdido e me ensinou a ouvir instrumentos e perceber conversas musicais. E como esse mundo da Unicamp é muito pequeno e as pessoas circulam nos mesmos lugares, o motorista conhecia o amigo que eu ia ver tocando na Casa São Jorge, a namorada do meu amigo japonês ciclista, o marido da minha amiga que tinha acabado de ter uma criança lindinha, e mora na rua que desemboca na rua da minha ex-casa.

Primeira parada: Oca da Tapioca. Só tinha dois dos meus irmãos tapioquenses lá. Os outros ou estavam na casa dos pais, do namorado ou na Unicamp mesmo, procurando neutrinos. Como o meu ex-quarto estava livre, decidi que ia dormir na minha ex-cama. E pra minha sorte até tinha uma chave-reserva da casa dando sopa, ou seja, eu podia voltar do bar sozinha, se quisesse.

Segunda parada: AnaLu e Javier e a pequena Lila. Não a vi de olho aberto, mas a vi sorrindo em sonho. Crianças sempre me emocionam.

Terceira parada: Casa São Jorge. E foi chegando gente até a gente mudar de mesa. Nem cheguei a ver o PH tocando, mas ouvi o surdo de lá onde eu tava conversando com os meus amigos sobre bicicleta (esse é o Telmo), tatuagens (a mais recente da Maíra), atestados médicos para bêbados (reconheceram a Livinha?), números em que o palhaço toca violino e depois serrote com o mesmo arco (apresentando o Sales), transportadoras de mudança para Rondônia (Lari e Dani, as pessoas práticas), o Alexandre que me deu carona (Milena, namorada do Telmo) e o meu pé (preocupação do PH). Acabou a banda, fechou o bar.

Quarta parada: Bar do Zé. Mas tava rolando um som muito distante de samba, funk ou qualquer outra coisa animada e alegre. Fomos em 3 ao centro de Campinas, que era muito mais legal que ir pra casa, dormir.

Quinta parada: Ozz. Dançamos desde o momento em que chegamos. As seqüências das músicas escolhidas pelos DJs eram ou manjadas ou nadavê, mas mesmo assim dançamos e nos divertimos muito. Saímos de lá às 4 da manhã.

Sexta parada: Woodstock. O bar já tinha fechado, o que foi ótimo, porque só fomos buscar o namorado da minha amiga, que trabalha lá. Fazendo as contas, devo ter ido a 4 bares em 7 anos de Barão Geraldo. Dessa vez, fui a 4 bares numa mesma noite. Viu pra que servem os amigos?!

Dormi o suficiente para acordar a tempo de pegar a minha carona de volta pra São Paulo. Mas o mais importante foi rever esse povo todo, me sentir em casa de novo, rir com eles de novo, trocar estórias com eles mais uma vez. Espero revê-los um dia.

sábado, 11 de julho de 2009

Sombra

Andreas Thiel: Schatten


Na Espanha brilha o sol. Onde há sol, pode ocorrer sombra. A sombra se dá através de fotossíntese. A clorofila extrai a luz do ar, e assim acontece a sombra.
Meu canário é verde. Quando o exponho à luz do sol, ele imediatamente projeta uma sombra, o que prova que ele faz fotossíntese. Para a fotossíntese, ele precisa de CO2 e água. Se um canário for privado de água por um longo período de tempo, ele morre; o que prova que a fotossíntese é vital para ele.
Para fazer a fotossíntese de dia, ele precisa armazenar CO2 de noite, e por isso ele somente inspira à noite. Este é o motivo pelo qual canários não piam à noite. Se deixado muito tempo no escuro, ele estoura.
Se você morder a asa de um canário - contanto que seja verde- de manhã, ele terá um gosto ácido. Isto se dá em função do CO2 armazenado à noite, que baixa seu PH. Durante o dia, o canário transforma a água e o CO2 em açúcar e sombra. À noite seu PH se eleva novamente.
Se você morder a asa de um canário vermelho de manhã, ele terá um gosto básico; porque ele não se adequa à fotossíntese. Por isso não existem canários vermelhos.
O canário verde é a única suculenta (cactus) que bota ovos. O canário branco é nativo da Espanha e fica deitado na praia (Ok, brincadeira lingüística: 'canário' é 'WELLENsittich', e 'Welle' é 'onda'. Ele segue no mesmo tom: es gibt auch UNsittiche).
A cor da prole é determinada pelo PH da fêmea, mas apenas os canários verdes produzem sombra.
Tradução livre e espontânea

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Meteorologia

Alemanha, Nordwohlde, fim de 1999. Já percebi que no instante em que a Previsão do Tempo (com letras maiúsculas) começa na TV, tudo pára e vem ver e ouvir o que a Wetterfee (fada do tempo) tem a dizer. Como moramos numa zona mais rural que urbana, entendo que a possibilidade do camponês de se antecipar a geadas, nevascas, chuvas torrenciais ou longos períodos de estiagem pode mudar o destino da plantação. E como todos assistem religiosamente à previsão do tempo, a Wetterfee se apresenta de galocha e guarda-chuva, faz piadinhas e tira sarro dos nomes das frentes frias e quentes.

Holanda, Nijmegen, início de verão. Fico acessando sites de meteorologia para rir dos números altos que dão para a umidade do ar. Além de estar num país baixo, cheio de água, estou no lugar onde mais choveu na minha cabeça em toda a minha vida. Jonas, Jeroen, Isabelle e Nan riem da minha cara de gato pingado quando chego na universidade, deixando um rastro molhado. Numa tarde, um deles consulta a previsão do tempo e anuncia que não choverá entre 19:00 e 19:30. Todos fecham suas coisas e saem pontualmente às 19:02.

Brasil, São Paulo, dois anos mais tarde, início de inverno. Olho a previsão do tempo e vejo que no dia x vai chover 5 milímetros. Como tenho muito pouca coisa pra fazer, volto a conferir a previsão do tempo para o dia x no dia seguinte e vejo que choverá 12 mm. Na véspera do dia x a previsão me diz que cairão 23 mm de chuva. No dia x passo o dia todo observando o céu, o chão e os passarinhos. Não cai uma gota de água do céu. E ninguém publica uma errata dizendo que todas as previsões cambiantes para o dia x estavam equivocadas.

A meteorologia é uma ciência relativamente nova, altamente interdisciplinar e que lida com tendências, probabilidades e possibilidades. Fui na Wikipedia, aprender mais sobre o assunto e fiquei espantada com a complexidade do tema e assombrada com a maneira como a mesma informação é apresentada em línguas diferentes.

O verbete escrito em português parece ter sido escrito por um historiador que não sabe ao certo selecionar e resumir informações relevantes. O leitor vê a informação dividida ao longo do tempo, mas não percebe nehuma reflexão do historiador sobre os fatos. O escritor convida o leitor a saber mais, indicando-lhe institutos que ensinam meteorologia. Fica a impressão de que meteorologia é uma coisa acadêmica, complicada e que não tem fim.

O verbete escrito em alemão parece ter sido escrito por um filósofo, que se detém em primeiro lugar na palavra, depois nos campos de conhecimento que compõem esta ciência, depois se concetra nas dificuldades de coleta de dados precisos que o meteorologista enfrenta. Fica a impressão de que meteorologia é uma ciência altamente interessante e complexa.

O verbete escrito em inglês parece ter sido escrito por um divulgador da ciência. O leitor tem uma visão geral do desenvolvimento da ciência, dos instrumentos de medição, e da importância de uma rede de estações de coleta de dados. O escritor do verbete é alguém que tem uma visão panorâmica do assunto e sabe quais são os seus limites. Fica a impressão de que a meteorologia é legal, instigante e importante.

Será que essses três verbetes são representativos para as tendências gerais de se fazer ciência nessas línguas? Sabe por que brasileiro não consegue publicar em periódicos internacionais? Provavelmente porque não consegue ver além dos dados, possivelmente porque não consegue o distanciamento necessário para chegar a conclusões que vão além dos resultados da pesquisa.

Vixe, olha só que saltos acabamos dando. A conversa começou toda inocente sobre o tempo e a chuva e agora já estamos especulando sobre a academia e as práticas e políticas de publicações. Ainda bem que parou de chover lá fora. Chega de sol e chuva.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Manual de instruções

Instruções para comer manga

Escolha uma manga que já esteja exalando cheiro. Vá até a pia e descasque a manga. Não se incomode com pingos amarelos escorrendo pela mão. Dê mordidas generosas, daquelas de amarelar o nariz. Crave os dentes nos fiapos, para arrancar os últimos nacos da fruta. Vá até o banheiro e lave o rosto, tire os fiapos presos entre os dentes e troque de roupa, se necessário.

Instruções para aproveitar o dia

Preste atenção nos passarinhos cantando lá fora e tente adivinhar sua direção. Admire o azul profundo do céu e procure achar formas inusitadas nas nuvens. Caminhe devagar, mas num ritmo cadenciado. Endireite as costas, sinta que os joelhos são molas que te propulsionam pra frente. Sinta o cheiro das mimosas que você não vê por trás dos muros altos. Ouça os gritinhos de crianças brincando. Somente volte para casa quando as mãos estiverem pesadas de tanto seguirem penduradas ao lado do corpo caminhante.

Instruções para receber notícias

Esteja sentado. Leia a notícia várias vezes, até entender tudo. Não se precipite, não pense logo que é com você. Quando sentir o coração acelerar e a respiração arfar, levante, caminhe um pouco e segure a cabeça, pra que as idéias não criem asas. Sente novamente e tente entender por que o momento pelo qual você tanto esperava foi adiado. Não se deixe interromper por planos e desejos. Acalme-se. Tudo vai dar certo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Altos e baixos

Entro no elevador e aperto o T. Enquanto sou transportada pra cima, abaixo a barra da calça. Caminho até a recepção e recito o meu número de RG pra recepcionista que não me olha na cara. Jura? diz. Percebo então que não é comigo, que ela está super conversandinho com alguém pelo telefone enquanto digita o meu número de RG no sistema e me dá um crachá.

Sou a primeira a chegar, e como o meu crachá de visitante não tem poder nenhum sobre a porta de entrada, fico esperando do lado de fora. Um funcionário da limpeza abre a porta pra mim. Meu aluno de inglês pré-intermediário não reconhece as palavras 'human', 'danger', 'body' e nunca ouviu a palavra 'shit'.

As pessoas no elevador se deixam intrigar pelo meu alforje aberto. Os executivos saem do elevador puxando suas mochilas sobre rodinhas atrás de si. Mochilas semivazias e menores que o meu alforje - sobre rodinhas.

Tomo um chá de cadeira e fico feliz ao ver os meus alunos sobrecarregados e estressados. Teacher, a sua aula é a melhor parte do meu dia, porque não tenho que apagar nenhum incêndio. Começa a aula. Toca o celular de um, ele atende. O outro fuzila o colega com um olhar reprovador. Toca o celular deste e pronto, estão os dois palestrando pelo telefone.

Entro no elevador e observo a mulher que entra comigo. Vai direto ao espelho e examina os poros do rosto até chegarmos no térreo. Não se sente incomodada com a minha presença. Vou até a recepção e a moça me pede um minutinho. Me estende o crachá, dizendo prontinho. Cê decorou o meu número de RG? pergunto, estupefata. Não, mas seu nome.

A porta do elevador abre e dentro tem um monte de gente. Dou um passo pra trás e faço cara de eu, hein? Pego o elevador seguinte e vejo escrito na placa que o elevador tem capacidade para 24 pessoas. Cruz credo! Eu deixei de entrar no elevador que tinha 5 pessoas, achando que era muita gente.

A professora de português para os coreanos se junta a mim na espera pelos alunos da manhã. Me conta que a escola está introduzindo um sistema de pontos, que faz parte de um programa de carreira profissional. Se um aluno, por exemplo, ligar espontaneamente na escola e disser que você é uma professora excelente e extraordinária, você ganha 200 pontos. Se você não conseguir cumprir o cronograma de aulas, você perde 100 pontos. No final do mês, o professor que tiver mais pontos terá a sua foto exposta na escola com o subtítulo de melhor funcionário do mês. Lembro que já fui despedida de uma escola que quis me tratar como se eu fosse funcionária de Mc Donald's.

Vou beber água e vejo que removeram o bebedouro. Professores mais antigos me disseram que antes havia máquina de café, que agora não tem mais.

Entro num elevador que está subindo e tenho inícios de náuseas nas paradas entre o 9, 22, 4 e T.
Deposito o meu crachá na catraca, mas ela trava mesmo assim. Não adianta só ter a máquina, é preciso um segurança pra contornar as falhas da máquina.

A professora de português me conta o caso de um coreano que pediu uma professora jovem e bonita pra escola. Ficaram discutindo se faziam a vontade do sujeito e mandaram uma gordinha. Ele bateu o pé e repetiu que queria uma professora jovem e bonita. A escola não quis perder o cliente e mandou a coordenadora de português, a única que se enquadrava nas exigências do cabra.

Meu aluno chega cambaleando, pálido e com dificuldades para equilibrar seu copo de café. Desculpa o atraso, teacher. Saí daqui às 3 da manhã e o coreano filhodaputa ainda queria que eu ficasse mais! Esses caras são loucos!

Um homem segura a porta do elevador pra mim, o que quase nunca acontece. Agradeço, ele sorri e pergunta se eu pedalo. A luzinha piscante na minha mochila me delatou. Desligo a luzinha e agradeço por mais essa. Chego na portaria e o homem que me dá o crachá avisa que eu preciso atualizar a minha autorização pra subir. Fico sem saber se a escola esqueceu de renovar a minha autorização no RH da empresa, se o RH não avisou a administração do prédio ou se foi outra coisa misteriosa que deixou de acontecer nesse caminho.

A porta da sala está aberta e um dos meus alunos fica hipnotizado por uma senhora muito maquiada que pára no corredor, na altura da nossa sala. Seus alunos a alcançam e seguem conversando em inglês. Minha aula parou, porque a distinta senhora colorida capturou nossas atenções. Véia mocréia, coroca, ouço o meu aluno cuspir com desprezo. Imagina se a gente tivesse que ter aula com uma véia coroca que nem essa daí? Ainda bem que a gente tem você, teacher.

Guardo o som lá atrás, tenho a sensação de ser a única pessoa no andar e vou pra recepção escura. A porta está fechada e o meu crachá de visitante não abre a porta. Como eu faço pra sair daqui? Fim de expediente, tudo escuro. Olho no escritório e vejo um cara trabalhando. Bato na porta, aceno, espero o moço chegar e digo que fiquei presa. Ele me dá passagem pra dentro do escritório. Percebo que ele não entendeu uma palavra do que eu disse e aponto pra porta de saída, explicando em inglês que eu quero sair. O coreano sorridente me abre a porta.

Pego dois elevadores e uma bicicleta e chego em casa antes das 21:00.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Data especial


Comemoramos datas especiais para marcar a mudança que aconteceu em nossas vidas. O nosso nascimento é comemorado todo ano, e no nosso aniversário comemoramos a nossa passagem pro lado de cá.

Não lembro quando comecei a fumar, mas lembro muito bem quando fumei meu último cigarro, nove anos depois: 06 de janeiro de 2002. Entrar para o grupo de fumantes não mudou muito a minha vida, porque o grupo de fumantes correspondia ao grupo das minhas amigas. Elas mudaram, eu acompanhei a mudança delas. Parar de fumar foi uma mudança muito mais marcante que começar. Saí de um grupo, parei de engolir fumaça e dizer que era bom, joguei fora o cinzeiro, o isqueiro e passei a ter nojo de tabaco e fumaça.


Lembro muito bem que entrei na USP em 1996, mas tenho que calcular os anos quando penso na minha saída de lá. Não que a saída tenha sido um parto, não, foi insignificante. Mudar pruma república de 9 pessoas em Barão Geraldo (1 de março de 2002), defender mestrado (25 de fevereiro de 2005) e doutorado (18 de dezembro de 2008), ir pra Holanda (16 de setembro de 2006), quebrar o pé (1 de julho de 2007) e voltar da Holanda (15 de setembro de 2007) me transformaram.

Não lembro do dia em que saiu o resultado da FUVEST; quando a Lígia me disse que tudo bem, eu podia morar lá na república; quando a data das minhas defesas foi marcada; quando a burocracia necessária pra viabilizar a viagem pra Holanda me deu paz; quando saí do hospital ou quando voltei a andar normalmente; quando comecei a sentir saudades dos sorrisos dos meus amigos, do samba que eles cantam e das tapiocadas que fazíamos. Todos esses foram dias muitíssimo aguardados, mas não chegaram a virar datas especiais.

Congelei quando vi, no dia do meu aniversário, que a Unir tinha lá um comunicado aos candidatos aprovados no edital 11/2008. Era pra dois médicos que estavam sendo contratados porque um médico tinha morrido e outro tinha se aposentado. Quase caí da cadeira quando vi outro comunicado na página da Unir aos candidatos do edital 11/2008 no aniversário do meu irmão, um mês depois. Mas era pruma moça em outra cidade de Rondônia. Tive fortes esperanças de ser chamada no aniversário da minha mãe, no mês seguinte, mas me liguei que caía num sábado. O aniversário do meu pai é em novembro, e eu espero muito ser chamada antes de novembro. A superstição com as datas de aniversário da minha família não me ajuda muito, porque a família é pequena.


Mesmo assim, apesar de eu estar esperando desde fevereiro pra ser nomeada e contratada pela Unir, eu já sei que o dia em que me chamarem não vai ficar retido na memória. A convocação para a nomeação não vai mudar a minha vida. Dar aula de Lingüística em Porto Velho vai.

domingo, 5 de julho de 2009

Mulheres do planeta na Oca

São fotos, aquarelas, desenhos, entrevistas e vídeos que Titouan Lamazou fez de mulheres em várias partes do planeta. Tudo está exposto na Oca, no Parque Ibirapuera, a R$ 11 a inteira e R$ 5,50 a meia. De terça é de grátis.

Achei legal ver esse mar de mulher, mas não me identifiquei com nenhuma delas. Nem pude fazer analogias com a Olga ou a Monica, por exemplo. O que o artista procurou foram dois tipos de mulheres: jovens e bonitas ou mães e avós. Pra mim isso está claro. Por mais que eu não acredite no poder explicativo da Psicologia, lanço mão de recursos vindos de lá: esse homem usou como matéria-prima a figura da amante e da mãe. Tudo bem, tinha lá uma exceção, uma francesa de meia-idade ativista da memória (seja lá o que isso for). Ela era gordinha e meio hipponga. Acha que o rosto dela apareceu? Nada, tava de costas. Nessa eu não colocaria o carimbo nem de amante nem de mãe, mas de colega excêntrica.

Muitas aquarelas eram mais expressivas que as fotos, poucas fotos eu penduraria na minha sala, não parei pra ver nenhum vídeo e sobre as entrevistas, bem, foram reduzidas a uma afirmação. É que o artista fez com todas o mesmo questionário (<- que a Juliana transcreveu no blog dela) que contempla questões sobre religiosidade, beleza própria, medo, opinião sobre os homens, motivação para sair da cama de manhã e a morte. Na exposição, embaixo do nome de cada uma, aparece uma frase (ou afirmação formulada em mais de uma frase) que a mulher proferiu para responder às perguntas. Algumas eu achei massa, outras me fizeram pensar se a moça não tinha dito nada de mais interessante que o que o artista escolheu pra botar lá.

Com uma mão só não dá pra aplaudir. Preciso das duas.
Por que você está me fazendo essas perguntas?
... e o amor é uma merda.
Agora os homens querem saber mais que Deus.
As pessoas acabam esquecendo que podem morrer a qualquer momento.
Deus determinou que quando partimos, nunca chegamos.

sábado, 4 de julho de 2009

Debaixo do viaduto

Aê!

Ôu, você vai ficá aí? Sei, mas aí não é legal de ficá, porque o barui dos carro passando zum, zum, zum, bota a gente louco. Vem mais pra cá, aqui na grama não é tão frio, e tô vendo que cê tem aí uns papelão. Móia, mas eu te dou um prástico e cê põe por debaixo, que fica jóia. Isso, vem aqui que aí naonde que cê tava é muito ruim. Pronto, isso.

É, esse frio tá pegano. Té parece que as fôia que o vento traz tão zangada. Sei lá, parece que o vento morde a nossa cara. Eu moro ali, ó, tá vendo a minha casa ali? Mora eu mais o Barata. Ma ele só vorta mai tarde. Ah, nem me apresentei, né. Eu sou o Mosca.

Então. Tá morano na rua fai muito tempo? Faz não, né. É, foi o que eu pensei.
Sei.
Tá.
Certo.
Hum.

Mai num tem como cê vortá pra sua famíia? Tem não, né. É bom ocê não ficar muito sozinho, não, porque quem fica só logo fica doido. Não bate mais bem das idéia, conversa com poste, tem medo de banco de praça, xinga as pessoa à toa. Aí a pessoa perde a opinião. Eu e o Barata tamo sempre junto, ele é a minha famíia. Pensa que é fácil sê aleijado e morador de rua? Né fácil, não, mermão.

Tá frio, né. Toma isso aqui, dá uns golão que cê fica bão. Cê num bebe? Véio, isso aqui vai fazê ocê esquecê o frio. Tá bom, não qué, não vô forçá. Qué cumê? Achei uns pão no lixo do ponto de ôinbu pert da padaria. As pessoa joga cada coisa fora, que cê ainda vai vê que não precisa de dinheiro pra vivê. Vai catando aqui e ali. Tó.

Sei lá o que que é isso. Pode sê que é isso daí que cê tá falano. É bom, pode comê. Cê é o quê? Vegeta o quê? Vegetário. Vegetariano? Qui é isso, meu fio? Num cóme carne? Mas por quê? Eu heim! Aqui nóis come o que tem, num tem essas frescura, não.

Ôu, cê tem um cigarro aí pra nóis? Ôh, papito, que maravilha. Fumá bituca é meio ruim, que acaba logo. Oba, o maço inteiro? Toma dois aí pcê, procê num ficá sem. Ó, vô dexá ocê durmi. Se precisá quarqué coisa, é só chamá. Me alcança a muleta fazendo favor? Valeu. Boa noite aê.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Illustrated people

Fulano queria ter um peixe. Um peixe gordo, de escamas coloridas, olhos grandes e barbatanas elegantes. Um peixe que sempre fosse igualmente belo, que não envelhecesse - mesmo que seu dono avançasse na idade. Queria um peixe que o acompanhasse sempre, que pudesse levar pra onde fosse.

Sicrana queria fazer parte de uma tribo. Queria se sentir parte de um grupo de pessoas que tinham passado pela mesma dor e alegria. Queria ter um segredo que pudesse mostrar a pessoas escolhidas. Já sabia que seu segredo teria a forma de um dragão chinês, porque gostava dessa idéia do dragão sintetizar vários animais: cobra, tigre, veado, boi, águia e peixe num animal só.

Sicrano queria fazer uma homenagem à sua amada. Queria eternizar seu belo rosto, queria marcar os traços de sua beleza no próprio corpo, queria poder olhar pras suas feições mesmo que ela não fosse mais sua companheira. Precisava garantir sua eterna presença.

Beltrana sempre gostou de se enfeitar. Quando prendia flores atrás da orelha, chamavam-na de hippie, mas ela nem se importava. Ela não representava nenhum grupo, apenas gostava de flores. Cultivava orquídeas com muita dedicação, mas ficava apreensiva quando deixavam de florar num ano ou morriam noutro. Queria se enfeitar com flores inventadas, possíveis só na imaginação.

Fulana conheceu Beltrano, que trabalhava num estúdio. Pintava corpos. Ela tinha ciúmes dele quando as mulheres tiravam a roupa na frente dele. Sentia um certo prazer quando via como elas sentiam a dor da picada, a pele queimando, o sangue saindo. Os ciúmes voltavam quando as mulheres saíam do estúdio felizes com suas novas tatuagens de beija-flores, borboletas, tartarugas, fênix e flores.

Fulano sentiu a pele queimando. Coçou o braço, sentiu mais dor ainda e levantou a blusa para inspecionar a pele colorida. A carpa tatuada no braço ardia mais vermelha que a cor normal dela. Colocou o braço debaixo da torneira e deixou a água gelada aplacar a dor. Teve a breve impressão de ver o peixe se mexendo. Deve ter sido um tique, uma reação da pele à água fria.

Sicrana sentiu uma queimação porreta das costas. Era como se seu dragão cuspisse fogo de verdade. Correu pro banheiro, tirou a blusa, pegou um espelho na mão e se posicionou de costas para o espelho da pia. O dragão estava lá, mas alguma coisa estava diferente. As unhas dele tinham sido sempre desse tamanho?

Sicrano tinha passado o dia inteiro tentando alcançar a omoplata. A coceira ali era muito forte e não tinha motivo evidente. Tinha vergonha de pedir para seus colegas de escritório coçarem suas costas. Quando chegou em casa, foi correndo para o banheiro. Queria ver o que causava aquela queimação. Viu sua namorada parada de costas pro espelho, estudando a sua tatuagem através do espelho que segurava na mão.

Beltrana pegou o telefone e ligou para o irmão. Estava desesperada. A flor que ele tinha tatuado em seu ombro tinha migrado para a nuca. Flores não queimam, não andam, não passeiam por aí. Beltrano ficou preocupado com o beija-flor e o provável encontro das duas tatuagens na pele da irmã. Acho que vai doer quando o beija-flor quiser beber o néctar da flor.

Fulana abriu a porta do estúdio para seu ex-marido. Tinha engordado, ficado careca e parecia não escolher as roupas que vestia. Nem conversaram sobre os velhos tempos, nem falaram da vida ou do tempo. Ele estava visivelmente transtornado. Tinha um peixe nadando na superfície de sua pele. A sensação do peixe se movimentando não era ruim, mas aquilo não era normal. Não sabia o que fazer, mas como desconfiava que a tinta da tatuagem estava provocando essas mudanças no seu peixe, tinha voltado ao estúdio onde tinha feito a tatuagem.

Beltrano não sabia mais o que fazer. Todos os seus clientes tinham vindo para o estúdio com teorias esquisitas, hipóteses estapafúrdias, desconfianças infundadas e uma clara necessidade de orientação. Não cabia mais gente naquele lugar. Muitos estavam com suas tatuagens expostas, observando o comportamento das figuras.

A moça tentava acariciar a carpa, o dragão perseguia o beija-flor, o tigre tentava abocanhar o unicórnio, o índio apontava a Winchester para o pirata. Tatuagens pertencentes a corpos diferentes tentavam interagir. Como o estúdio foi ficando pequeno, algumas pessoas não conseguiram evitar o contato com a pele do outro. As figuras puderam se tocar e então começaram a deixar a superfície da pele.
Não doeu quando as figuras deixaram a pele de seus hospedeiros e ganharam um corpo próprio. Também não foi um momento mágico. Simplesmente aconteceu.

E foi assim que o mundo voltou a ser habitado por animais extintos há décadas, flores que nem tinham chegado a existir, seres estranhos, portadores de cores incríveis e pessoas que tinham memórias de um tempo esquecido.

Inspirado em The Illustrated Man, de Ray Bradbury.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Muito Bollywood

Existe uma fórmula para os filmes de Bollywood. Uma fórmula que dita que o último nó da trama se desata nos 4 últimos segundos do filme que dura em média 2 horas e 40 minutos. A maioria dos filmes tem como tema o casamento e o clímax é a cena de casamento. A honra da moça e da família dela mais a bandeira indiana são os pilares principais de filmes de Bollywood. Parece novela mexicana. A maquiagem não é tão pesada, mas a atuação é tão teatral quanto e os melodramas são tão emocionados quanto. Os filmes são todos em Hindi, uma das línguas principais da Índia, e não em Inglês, a outra língua principal falada na Índia. Talvez mais pra marcar e sustentar o nacionalismo, mas uma opção interessante: eu já aprendi algumas palavras em Hindi.

A cada não sei quantos minutos uma cena musical dá seqüência ao filme. Aí o galã contracena com a sua musa que dubla uma voz muito aguda. Ambos dançam danças coreografadas do tipo Macarena, ou o que a Xuxa fazia com as Paquitas dela. São clipes, que a pessoa pode achar no Youtube. As músicas continuam a estória do filme, mas o cenário pode mudar do nada.

Em Hulchul, por exemplo, o casal "canta" e dança contra um fundo europeu. E não há nenhuma lua de mel que explique a localidade (cabaninhas suíças, fachadas de hotel austríaco, entrada de metrô inglês). Ainda neste filme, as cenas de violência - que são muitas, afinal trata-se da rivalidade entre famílias tradicionais e um amor aí no meio - são hilárias. Senti falta de balões de quadrinhos com as onomatopéias POW, PLAFT, TCHAK, TAPISH.

Já quando vi Dhaai Akshar Prem Ke, tive a constante sensação de já ter visto o filme. A mocinha aparece em casa com um bonitão que é tido como o marido dela e ele não desfaz o engano porque se sente acolhido pela família. E quando revela que não é o marido dela, já é tarde demais e todos ficam sonhando acordados, suspirando pelos cantos. Para 'salvar a honra da moça', o pai resolve casá-la com outro cara. Dramático.
Mas quem me motivou a insistir nos filmes de Bollywood foi Shah Rukh Khan. Ah, Shahrukh Khan (a grafia vareia)! Na Alemanha, o fã-clube desse ator de Bollywood é maior que o de Brad Pitt. A filmografia desse sujeito é impressionante. Desde 1992 ele faz uma média de 4 filmes por ano! E constantemente recebe prêmios de melhor ator. Em Om Shanti Om ele faz um pretendente a herói cinematográfico, morre e reencarna como estrela de cinema. Dois papéis diferentes no mesmo filme não é pra qualquer um.
O filme que mais valeu a pena, que eu admiro mesmo, não segue a fórmula de Bollywood. Está mais para Slumdog Millionaire que pro Bollywood convencional. Shahrukh Khan faz o jogador de hockey escurraçado pelo público depois de uma derrota contra o Paquistão que volta depois de 7 anos para treinar o time feminino de hockey. Chak De India é um filme que discute a questão Índia-Paquistão, a unidade nacional, o papel da mulher na sociedade indiana e no esporte, hockey e cricket, união de um time, entre outros assuntos que não se espera de um filme feito em Bollywood.
Claro que tem final feliz, como todos os filmes de Bollywood, mas não tem o casal "cantando" e dançando, porque não tem casal. Tem música, mas ela está mais pra trilha sonora que pra clip.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Acidentes

Eu era criança, mas já morava em São Paulo. Conversava com alguém adulto, quando ouvimos o som estridente de pneus queimando no asfalto, deixando o rastro de uma freiada não-programada. O adulto parou de falar, levantou o queixo, virou a cabeça de lado e levantou o dedo indicador.
- Não bateu.
Fiquei escandalizada.
- Até parece que você ouve essa combinação de sons todo dia. Freiada brusca depois a pancada.
- Todo dia, não, mas com muito mais freqüência do que eu gostaria de ouvir.

Enquanto residente nessa cidade, já vi muitos mortos em acidentes. Na maioria, eram motociclistas e estavam prostrados na lateral da via. Vi também muitos acidentes acontecendo. O mais impressionante foi o atropelamento de um pedestre por um ônibus na frente do ponto de ônibus. Ainda ouço os gritos do filho do atropelado. Os outros acidentes envolvem carros e são bastante parecidos. O som da freiada, da colisão, da porta abrindo são semelhantes. A expressão de surpresa, os gestos largos que acusam e a paralisia dos acusados se repetem. Muda a velocidade dos veículos e portanto o nível do estrago.

Hoje de manhã, na Av. Espraiada, ouvi freiadas, colisão de plásticos e metais, quebra de vidro, outra freiada e outro choque de veículos, metais batendo no asfalto. Senti o cheiro da borracha queimada, vi a fumaça saindo do chão, pedaços de carro se estatelando no chão. Passei pelos dois carros batidos e vi a cabeça do motociclista levantando e voltando-se pra trás, pra ver de onde tinha vindo o golpe. Ele estava no meio da segunda pista (da esquerda pra direita, num total de 5), na horizontal. Senti gosto de ferro, meu equilíbrio perigou por uns instantes, vi flashes da minha bicicleta no chão também. Não achei fácil continuar pedalando naquela avenida depois de presenciar um acidente a 5 metros de mim, ouvindo um imbecil buzinando intermitentemente por uma longa quadra. A fragilidade de quem transita sobre duas rodas se fez muito evidente naquela avenida.