segunda-feira, 27 de maio de 2013

Outono

 Luis e eu fomos ao Jardim Botânico da UFSM.
 Desta vez tinha bergamotas e laranjas do céu de sobremesa.
 O outono daqui está significando noites frias: por volta dos 12ºC.
 Os locais dizem que isso não é frio que nada! e assim preparam o meu espírito pro inverno.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Em nome da objetividade

No início do século XX, muitos psicólogos procuravam dar à Psicologia o estatuto de ciência tão rigorosa quanto a Física. E rigor se media em números, portanto era preciso fazer experimentos. No Curso de Psicologia Geral de Luria, por exemplo, é citado
o famoso psicólogo americano R. M. Yerkes, que colocou minhocas num tubo em forma de T, labirinto extremamente simples. No extremo esquerdo do tubo a minhoca recebia choque elétrico, que provocava reação defensiva. Com várias repetições desse experimento, a minhoca podia adquirir a ''habilidade" de evitar o choque elétrico e encaminhar-se para o lado direito. A lentidão com que se desenvolveu esse processo pode ser vista no seguinte: foram necessários mais de 150 testes para que o comportamento da minhoca adquirisse caráter organizado e na grande maioria do testes ela começasse a encaminhar-se para a direita, evitando o choque elétrico. (p. 40)
Na boa, eu teria desistido das minhocas na décima tentativa - e isso que eu sou conhecida pela minha teimosia. Yerkes volta a aparecer nas minhas leituras, dessa vez na pena de Stephen Jay Gould, em A Falsa Medida do Homem:
Foi nomeado coronel e, nessa condição, presidiu a aplicação de testes mentais em 1,75 milhões de recrutas durante a Primeira Guerra. Mais tarde, afirmou que os testes mentais "ajudaram a ganhar a guerra" [já que o intento dos testes era distribuir adequadamente os recrutas nas funções militares]. "Ao mesmo tempo", acrescentou, "[a psicologia] conseguiu ocupar um lugar entre as demais ciências e demonstrou a importância que pode ter para a engenharia humana". (p. 202).
Para o espanto de Yerkes, os testes mentais (de QI) mostraram para ele que o cidadão americano médio adulto tem idade mental de 13 anos.

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Jornalistas podem ser entendidos como uma espécie de mediadores entre os fatos e o público. Não se espera que jornalistas emitam sua opinião pessoal acerca dos fatos. O que muitas vezes não é questionado é a escolha dos temas abordados. Mário Magalhães deu entrevista à redação da Revista O Viés, em que insiste que foi imparcial na biografia de Carlos Marighella:
Eu costumo dizer que eu sou um repórter, e assim eu estou fazendo o trabalho de levar as pessoas essa história fascinante. Na biografia eu acho que não poderia ser um detrator ou louvá-lo. Até por que pessoas para detratarem Marighella, ou para louvá-lo existem aos montes. Ele é um monstro para uns, e um herói para outros. Mas no meu livro eu não queria nem ser um promotor, e aí acusar o Marighella disso ou daquilo, nem um advogado de defesa, para promovê-lo. Muito menos um juiz, para julgá-lo. Eu queria ser um repórter, que apresenta a história para que as pessoas possam conhecê-lo. Por que sobre Marighella, e sobre as pessoas em geral, são duas questões: conhecer a sua história é a primeira parte. A partir daí se pode julgar se ele foi bom ou ruim.
E mais adiante:
Eu não considero que eu faço jornalismo literário. Eu considero que eu faço jornalismo. Até por que o livro tem 2580 notas, 256 pessoas entrevistadas e consultadas, uma bibliografia de mais de quinhentas obras e mais de 700 volumes. E tudo o que é mais importante e relevante do livro está baseado em documentos históricos que eu consegui tanto no Brasil como na Rússia, República Tcheca, Estados Unidos e Paraguai. Eu sempre conto a história de quando o Marighella foi preso no cinema e, depois de levar três tiros, sente um gosto adocicado do sangue que escorreu na sua boca. Essa história eu conto no livro, aí muita gente me perguntou como eu poderia saber disso. Foi por meio da pesquisa, por um texto do próprio Marighella relatando sentir esse gosto adocicado. Então na biografia eu tentei descrever tudo que o Marighella fez, viveu e pensou, e isso tudo foi por meio de documentos, já que, diferente da minha mãe, pelotense, eu não acredito no espiritismo e não entrevistei o espírito do Marighella.
Só o fato de ter escolhido o Marighella - e não qualquer outro guerrilheiro, militante ou mesmo general que viveu nos tempos da ditadura - já diz muito sobre a posição do jornalista. Só o fato de detectar que existe uma carência de informação a respeito deste homem e que existe uma quebra crônica na passagem de informações entre a geração que viveu esta época e as seguintes já mostra o envolvimento do biógrafo com a personalidade biografada. Quando, em tempos de Comissão da Verdade, um jornalista resgata a história de alguém que a história convenientemente esquece, entrevemos a opinião do jornalista biógrafo.

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No post anterior mencionei o filme Doméstica de Gabriel Mascaro. A primeira coisa que surgiu na conversa com o Luis sobre esse filme (que ainda não vimos) foi: e por que não se colocou a câmera na mão das empregadas? O próprio diretor responde à pergunta numa matéria da Bravo! de maio de 2013:
"Não acredito em caridade, muito menos no cinema", responde Mascaro. "Poder não se dá, se negocia. Doméstica é um filme sobre a negociação da imagem." (p. 43)
Na visão do Luis, teria sido mais interessante dar a câmera aos dois lados: tanto os(as)  filhos(as) dos patrões como as(o) empregadas(o). Lembremos de Viveiros de Castro e a onça: o homem (sujeito) olha para a onça (objeto), mas a onça (sujeito) também olha para o homem (objeto).

Na Piauí de 13 de maio de 2013, Eduardo Escorel discute o método do cineasta - que pretende ser objetivo e pretende não interferir nas relações de afeto e poder entre patrões e empregados:
Mascaro não está, naturalmente, ausente de todo. Mas apesar de ser responsável pela seleção das personagens e pela montagem, ao fazer do método o cerne do filme, sabota a própria escolha do assunto, cuja relevância e relativo ineditismo sugeririam a possibilidade de resultado menos anódino.
Doméstica nos dá visão idealizada das relações sociais, omitindo qualquer traço da tragédia que as domina – omissão deliberada difícil de aceitar. (Questões cinematográficas)

domingo, 19 de maio de 2013

Cortar e colar

No filme de ficção sobre Hitchcock (2012) claramente se pretendeu dar maior destaque à esposa dele enquanto cineasta e parceira de trabalho. Mais pro final do filme, o casal está em crise e ele pede que ela o ajude a finalizar o filme em que está trabalhando: as filmagens foram feitas, o material está todo lá, aguardando para ser acordado para a vida.

E ela vai pro estúdio, ajudar a editar Psycho (1960), que representou a grande virada na carreira de Alfred Hitchcock.

Lola rennt (1998) é ainda hoje o maior sucesso de Tom Tykwer, e grande parte da genialidade do filme está no modo de cortar e colar as cenas. Segundo o IMBd, o filme conta com 1581 transições em 71 minutos de ação (excluídos os créditos no final e a sequência inicial que culmina com uma multidão de pessoas formando as letras do nome do filme. Cada letra foi filmada separadamente e editar essa abertura custou ao diretor um mês de trabalho). O ritmo do filme é dado pela trilha sonora e pelo volume de imagens. Conforme o filme corre para o final, as cenas ficam relativamente mais longas, o que também tem seu efeito. Ainda quero chamar atenção pros créditos no final, que correm de cima pra baixo - e enquanto passam, a palavra 'Ende' anda, em letras garrafais e vermelhas, da direita pra esquerda.

Lembro de ter visto entrevista de ator (não sei se aplica a este filme) dizendo que não tinha entendido a estória durante as gravações, e que precisou esperar até a hora de ver a obra finalizada para entender o filme.

Estreou em maio de 2013 o filme Doméstica (2012) do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro. Ainda não vi porque moro longe dos centros culturais. Sete estudantes de sete capitais brasileiras receberam uma câmera na mão e a tarefa de filmar a empregada doméstica por uma semana (a ideia era perseguir dois fios de Ariadne: a relação de poder e de afeto da empregada doméstica com os patrões). Cortando e colando, Mascaro transformou então as 120 horas de gravação no filme documental de 75 minutos.

É bom dizer isso por extenso: este diretor só teve contato com o objeto filmado através dos filmes que lhe foram enviados.

E agora, mais que antes, Flusser faz todo sentido pra mim. No livro intitulado Gesten, Vilém Flusser exercita o que ele chama de filosofia fenomenológica e investiga os gestos (de escrever, falar, fazer, procurar, fotografar, filmar, se barbear, amar e tantos outros). No capítulo sobre o gesto de filmar, ele coloca na mão do diretor de cinema duas ferramentas: tesoura e cola. Para Flusser, o gesto de filmar não equivale ao gesto de colocar a câmera no ombro, mas ao gesto de cortar e colar:

Der Filmemacher steht dem Bandmaterial gegenüber, und aus dieser Transzendenz heraus komponiert er Sachverhalte, welche im Kino als Prozesse erscheinen werden. Für ihn fallen also, wie für Gott, Anfang und Ende zusammen, aber mehr als Gott kann er einzelne Phasen des Prozesses umstellen, kann den Ablauf des Prozesses verlangsamen und beschleunigen, kann Phasen oder den gesamten Prozeß zurücklaufen lassen, kann schließlich den gesamten Prozeß als im Kreis laufendes Band zur ewigen wiederkehr verschlingen. Nicht nur also unterscheidet er, wie Gott, zwischen formaler Transzendez (schöpferischer Komposition) und existentieller Immanenz (Erleben des Ablaufs), sondern er kann, was Gott nicht kann, den Ablauf des Prozesses selbst in Zeitrichtungen außerhalb der strahlenförmigen Linearität umlenken. (p. 122)
O cineasta está diante da fita, e num gesto de transcendência compõe estados de coisa que no cinema se parecerão como processos. Assim como para Deus, para ele o começo e o fim se apresentam simultaneamente; mas mais que Deus, o cineasta pode ordenar diferentemente fases singulares do processo, pode lentificar ou apressar o andamento do processo, pode fazer com que fases ou o processo todo se invertam, enfim pode enrolar todo o processo num círculo fadado ao eterno retorno. Ele não apenas diferencia, como Deus o faz, entre transcendência formal (composição criativa) e existência imanente (vivência da sequência), mas ele pode - o que Deus não pode - desviar a sequência do processo para direções temporais fora da linearidade radial.
(Estou quase me convencendo de que só é possível filosofar na língua original, porque sou péssima tradutora.)

sábado, 18 de maio de 2013

Ar condicionado

Ouço os aparelhos de ar condicionado dos meus vizinhos e imagino que eles tenham aparelhos diferentes do meu, adquirido em Porto Velho. Sei que existem condicionadores de ar que aquecem - além de esfriar o ar.

O Climatempo anunciou que ontem fez 1ºC, o INPE instalado na UFSM afirma que a mínima foi de 3ºC. Seja como for, é frio pacas. A diferença entre 31ºC e 29ºC pode não ser perceptível, mas quando passa de 22ºC pra baixo, cada grau a menos conta - e se converte numa camada de roupa a mais.

O meu ar condicionado funciona entre as seguintes temperaturas: 18ºC e 30ºC! Fico imaginando um cenário em que colocar a temperatura do ar condicionado em 30ºC signifique um refresco em relação à temperatura externa. Liguei o meu ar condicionado. Vai que. Marcava 30, mas não esquentava.

No momento, é o forno que está condicionando a temperatura (e o cheiro) da casa: estou fazendo pão.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Far away so close

Philip completava 32 anos, era preciso comemorar. Liguei o Skype e liguei pro celular dele. A conversa durou exatos 30 segundos. Ele imediatamente reconheceu a minha voz e logo foi dizendo que a conversa teria que ser curta, porque ele estava na Croácia.

Werner me achou no Skype e resolveu colocar a conversa em dia. Tinha se separado da segunda esposa e estava namorando havia 3 semanas. Agora praticava vários esportes e se sentia muito bem. Anunciei que em agosto Luis e eu vamos com a Oma pra Alemanha.

Toca o meu celular. Luis tinha chegado em Belo Horizonte e logo embarcaria no outro avião para Altamira.

Passei o dia todo longe de casa e de noite fui ver um debate sobre a trajetória de Marighella e a ALN por Mário Magalhães (biógrafo do guerrilheiro Carlos Marighella) e Ana Maria Estevão (professora no curso de Serviço Social da Unifesp). Me chamou atenção que a primeira intervenção do público (não foi uma pergunta aos palestrantes) conduziu ao cenário de 27 de janeiro, Boate Kiss.

Quando retornei ao silêncio de casa, Luis me contou por telefone sobre estar de volta na Amazônia e como Altamira (em que está a usina de Belo Monte) não se encaixa na Amazônia.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Questão semântica

No Rio de Janeiro chegou uma frente fria.
Aqui estacionou uma massa de ar polar.
No Rio chove.
Aqui as temperaturas despencam pra perto de zero.

domingo, 5 de maio de 2013

A obra-prima desconhecida

ferhoFren coubus, por dez nosa, arcri breso a late goal que não sefos naspea mau brao de tear (...) moco ãolemaPig, lee goupaa a tear com a tear rapa zerfa de asu tanhisBa não um tojuncon de nossig e de resco, mas a dedaliare tevenvi do use tomensapen e da asu çãonagimai. (a partir de p. 30- 31)

"Na tela, há apenas cores confusamente amontoadas e contidas por uma avalanche de linhas indecifráveis. Todo sentido se dissolveu, todo conteúdo desapareceu, com exceção da ponta de um pé que se destaca do resto da tela (...). A busca de um significado absoluto devorou todo significado para deixar sobreviver apenas signos, formas privadas de sentido. Mas, então, a obra-prima desconhecida não é, ao contrário, a obra-prima da retórica? É o sentido que apagou o signo ou é o signo que aboliu o sentido? Eis o Terrorista colocado em confronto com o paradoxo do Terror. Para sair do mundo evanescente das formas, ele não tem outro meio senão a própria forma; e quanto mais quer apagá-la, tanto mais deve se concentrar nela para torná-la permeável ao indizível que quer exprimir." (p. 31 - 32)

Mas, sanes vatitaten, lee bacaa por se trarconen nas mãos naspea dos nossig que, é dedaver, ramsapas véstraa do bolim do não dotisen, mas que nem por sois são nosme nhostraes ao dotisen que lee aguiseper. (a partir de p. 32).

AGAMBEN, G. O homem sem conteúdo. Tradução de Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.


quinta-feira, 2 de maio de 2013

A bateria

Em março, quando eu estava de férias no Rio, a bateria do meu netbook entrou num vertiginoso processo de falência. Daí parou de acumular energia. Luis e eu fomos nas lojas de informática atrás de bateria, e todo mundo dizia que não tinha, porque esse tipo de bateria sai muito rápido. O que eles podiam fazer era consertar o conector, que estava quebrado, portanto causando mau contato. Resolvido o problema de alimentação do computador, restava trocar a bateria. Voltamos às lojas de informática e voltamos a ouvir que ninguém tinha, que só encomendando. Como eu estava pra voltar a Santa Maria, pedi pra loja encomendar e me mandar por Sedex.

Uma semana depois, escrevi pra loja, perguntando se a encomenda já tinha chegado lá e se podiam me passar o código rastreador no site dos Correios. Nenhuma resposta. Dias depois, liguei. O cara que atendeu lembrava do meu caso e disse que tinha despachado a encomenda. Me mandaria por e-mail o código, pra não gastar muito DDD.

No dia seguinte, chegou o e-mail com um pedido de desculpas: na hora de enviar, foi de PAC e não Sedex e esperavam que isso não me prejudicasse. Passei a acompanhar a bateria que demorou 13 dias para migrar de uma agência carioca para outra, onde ficou mais uma semana para descer a Passo Fundo num dia e chegar a Santa Maria no outro. A primeira tentativa de entrega ocorreu (exatamente um mês depois da compra da bateria) enquanto eu dava aula de manhã. O carteiro deixou aviso de tentativa de entrega, o que me surpreendeu, já que a regra é deixar o bilhete na terceira tentativa.

Tentei resgatar o objeto na agência aqui do Camobi, mas ela estava fechada para o almoço. Em São Paulo, as filas no Correio sempre são maiores justamente na hora do almoço, porque esta é a hora em que as pessoas não trabalham. E aqui a agência fecha na hora do almoço. Meus compromissos não permitiram que eu voltasse à agência naquele dia. E no dia seguinte embarquei num avião para o Rio de Janeiro.

Pelo site dos Correios, acompanhei as duas entregas subsequentes, e quando cheguei em casa depois do feriado, recolhi todos os avisos na caixa do correio. Na manhã seguinte, fui na agência dos correios 3 minutos depois de ela abrir. Na fila contei 6 pessoas. Decidi ficar na fila porque logo percebi que ela tinha uma dinâmica rápida: quase todos estavam ali para buscar pacotes.

Encaixei a bateria no netbook e observei as luzinhas. A luz da bateria acendeu de relance, logo apagou. O ícone da bateria na barra inferior da tela continuava acusando ausência de bateria - apesar do texto dizer: "conectada, carregando". Ficou assim por 5 horas. Tirei o cabo de energia. O computador não desligou. A bateria funciona, mas por "tempo restante desconhecido". Pena que o meu computador não reconhece a bateria que fez essa viagem de aventura e demorou tanto tempo pra chegar. Acho que vou chamar o meu netbook de Penélope...