domingo, 19 de maio de 2013

Cortar e colar

No filme de ficção sobre Hitchcock (2012) claramente se pretendeu dar maior destaque à esposa dele enquanto cineasta e parceira de trabalho. Mais pro final do filme, o casal está em crise e ele pede que ela o ajude a finalizar o filme em que está trabalhando: as filmagens foram feitas, o material está todo lá, aguardando para ser acordado para a vida.

E ela vai pro estúdio, ajudar a editar Psycho (1960), que representou a grande virada na carreira de Alfred Hitchcock.

Lola rennt (1998) é ainda hoje o maior sucesso de Tom Tykwer, e grande parte da genialidade do filme está no modo de cortar e colar as cenas. Segundo o IMBd, o filme conta com 1581 transições em 71 minutos de ação (excluídos os créditos no final e a sequência inicial que culmina com uma multidão de pessoas formando as letras do nome do filme. Cada letra foi filmada separadamente e editar essa abertura custou ao diretor um mês de trabalho). O ritmo do filme é dado pela trilha sonora e pelo volume de imagens. Conforme o filme corre para o final, as cenas ficam relativamente mais longas, o que também tem seu efeito. Ainda quero chamar atenção pros créditos no final, que correm de cima pra baixo - e enquanto passam, a palavra 'Ende' anda, em letras garrafais e vermelhas, da direita pra esquerda.

Lembro de ter visto entrevista de ator (não sei se aplica a este filme) dizendo que não tinha entendido a estória durante as gravações, e que precisou esperar até a hora de ver a obra finalizada para entender o filme.

Estreou em maio de 2013 o filme Doméstica (2012) do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro. Ainda não vi porque moro longe dos centros culturais. Sete estudantes de sete capitais brasileiras receberam uma câmera na mão e a tarefa de filmar a empregada doméstica por uma semana (a ideia era perseguir dois fios de Ariadne: a relação de poder e de afeto da empregada doméstica com os patrões). Cortando e colando, Mascaro transformou então as 120 horas de gravação no filme documental de 75 minutos.

É bom dizer isso por extenso: este diretor só teve contato com o objeto filmado através dos filmes que lhe foram enviados.

E agora, mais que antes, Flusser faz todo sentido pra mim. No livro intitulado Gesten, Vilém Flusser exercita o que ele chama de filosofia fenomenológica e investiga os gestos (de escrever, falar, fazer, procurar, fotografar, filmar, se barbear, amar e tantos outros). No capítulo sobre o gesto de filmar, ele coloca na mão do diretor de cinema duas ferramentas: tesoura e cola. Para Flusser, o gesto de filmar não equivale ao gesto de colocar a câmera no ombro, mas ao gesto de cortar e colar:

Der Filmemacher steht dem Bandmaterial gegenüber, und aus dieser Transzendenz heraus komponiert er Sachverhalte, welche im Kino als Prozesse erscheinen werden. Für ihn fallen also, wie für Gott, Anfang und Ende zusammen, aber mehr als Gott kann er einzelne Phasen des Prozesses umstellen, kann den Ablauf des Prozesses verlangsamen und beschleunigen, kann Phasen oder den gesamten Prozeß zurücklaufen lassen, kann schließlich den gesamten Prozeß als im Kreis laufendes Band zur ewigen wiederkehr verschlingen. Nicht nur also unterscheidet er, wie Gott, zwischen formaler Transzendez (schöpferischer Komposition) und existentieller Immanenz (Erleben des Ablaufs), sondern er kann, was Gott nicht kann, den Ablauf des Prozesses selbst in Zeitrichtungen außerhalb der strahlenförmigen Linearität umlenken. (p. 122)
O cineasta está diante da fita, e num gesto de transcendência compõe estados de coisa que no cinema se parecerão como processos. Assim como para Deus, para ele o começo e o fim se apresentam simultaneamente; mas mais que Deus, o cineasta pode ordenar diferentemente fases singulares do processo, pode lentificar ou apressar o andamento do processo, pode fazer com que fases ou o processo todo se invertam, enfim pode enrolar todo o processo num círculo fadado ao eterno retorno. Ele não apenas diferencia, como Deus o faz, entre transcendência formal (composição criativa) e existência imanente (vivência da sequência), mas ele pode - o que Deus não pode - desviar a sequência do processo para direções temporais fora da linearidade radial.
(Estou quase me convencendo de que só é possível filosofar na língua original, porque sou péssima tradutora.)

Um comentário:

Karin und Walter disse...

ich finde, du hast völlig richtig und gut übersetzt.
Außerdem: wer kann das schon beurteilen, von denen, die deinen Blog lesen?
abraco,
Ma