segunda-feira, 31 de julho de 2017

Zoo & Palmen Garten

Fomos ao zoológico de Frankfurt, que eu guardava com muito carinho na memória. Quando crianças, Philip e eu fomos conduzidos pelo zoológico pelo padrinho do meu irmão - que é cego. Tudo foi legal: andar de trem com Willausch, ver ele abrindo a carteira e pedindo pra moça do caixa tirar o necessário pra pagar a entrada, andar pelo maior zoológico que eu já tinha visitado.
Mas com Agnes a experiência não foi tão encantadora: a maioria dos animais estava dormindo (ou de saco cheio) no domingo de manhã, dia de mais intensa visitação. Muita criança e pouca instalação para crianças, como pudemos concluir depois de termos visitado o Jardim Botânico.

O Palmen Garten não tem, em si, atrativos para crianças. Imagino que poucas crianças sejam tão fascinadas por árvores e flores como Agnes. Por isso o Jardim Botânico investiu pesado em playgrounds (tradicionais e com água, muito simpáticos e cheios de crianças incapazes de soltar a água), trenzinho e laguinho com pedalinho.

Temos a sensação de que Agnes curtiu mais o Palmen Garten que o zoológico.

sábado, 29 de julho de 2017

Cidade grande

Innenstadt em Frankfurt
A viagem a Frankfurt foi bem difícil, porque Agnes quase não dormiu no avião. E quem tava em volta também não conseguiu descansar, então foi pesado. Mas daí, depois de chegarmos e nos instalarmos no hotel, ela fez o cochilo da tarde (quando achávamos que ela dormiria até o dia seguinte...).

Hoje quase perdemos o café da manhã, de tanto que dormimos manhã adentro. Tínhamos feito planos de visitar várias coisas, anotado itinerários, ruas, meios de transporte, mas acabamos perdendo a manhã dormindo e esperando a roupa lavar/ secar na lavanderia. Eu fui e voltei duas vezes na lavanderia onde só tinha homens estrangeiros. Foram muito solícitos pra me ajudar a operar as máquinas.
Eisener Steg, sobre o Main - rio que identifica a cidade
Não executamos nenhum dos planos feitos na véspera, mas conhecemos o sistema de transporte e o esquema da cidade. Luis achou que seria uma boa ideia visitar um museu de arte moderna e se arrependeu. Pagamos 9 euros cada para ver uma exposição conceitual chamada *PEACE dentro de um museu. A outra exposição dentro do mesmo museu custaria o mesmo valor mais uma vez. O curioso é que tinha tipo uma creche dentro museu (pros pais poderem desfrutar da arte sem os filhos?).

Não sei se é porque estamos perto da estação central, ou porque fomos a lugares turísticos, mas o número de estrangeiros aqui é muito grande. Eu me sinto como mais uma estrangeira falando português com a filha.

E a nossa filha chama muita atenção porque é muito alegre, se encanta com pessoas, água e outras coisas, e porque grita muito alto quando não quer comer, quando se sente contrariada, quando bate a cabeça no poste depois de dar vários passos sozinha. Uma senhora africana me disse no bonde que Agnes é uma criança muito ativa pra idade dela. Mas a gente sente que Agnes incomoda os alemães.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Conhecendo a família

Madá e Agnes
A viagem a Campinas com a Agnes foi bem tranquila, mesmo acordando de madrugada, fazendo conexão em Brasília, esperando pelo ônibus em Guarulhos e viajando de Lirabus pra Campinas. Quando Eliza nos buscou, foi amor total entre Agnes e ela.
Brincadeiras de neném
Mas Agnes gostou mesmo foi do Pedro (11 anos). Rodrigo (15 anos) até tocou violão pra menina, mas não adiantou: suas atenções estavam voltadas para o Pedro. No dia seguinte chegou a Madá com o Rafael e foi um encantamento recíproco.
Ernesto, Pedro, Eliza, Rodrigo e Agnes entretida
Ficamos bem contentes da Agnes ter conhecido os primos e tios e Madá, e que todos se sentiram tão bem com a nossa pequena menina.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Diversão total

E o meu celular não caiu aqui dentro? Foi.
Levamos a Agnes pro parquinho no shopping por 20 minutos. Piscina de bolinha, escorrega e cama elástica fizeram tanto sucesso, que foi difícil tirar a menina de lá. Na cama elástica, ela dava vários passinhos antes de cair. E quando caía, logo levantava pra pular e atravessar a cama elástica. De noite foi difícil fazer ela acalmar e dormir, mas gostamos muito de ver a menina completamente entregue às novas descobertas.

domingo, 16 de julho de 2017

Nós

Em tupi existem dois pronomes pessoais de segunda pessoa do plural que expressam o que traduziríamos como nós. Îandé é o "nós inclusivo", ou seja, refere a quem está falando, inclusive quem está ouvindo. Se eu dissesse, por exemplo, "nós temos reunião amanhã" a quem de fato vai se reunir comigo no dia seguinte, eu usaria a forma îandé. Oré é o "nós exclusivo", ou seja, refere a quem está falando e mais outra pessoa/ coletividade, excluindo o ouvinte. Se eu dissesse, por exemplo, "nós casamos primeiro no civil e depois na igreja" para uma amiga, essa amiga saberá que não está incluída no nós, e que nós refere a mim e meu marido. Em português tudo é nós, ao passo que em tupi é feita uma distinção - relativa ao ouvinte, que é incluído ou excluído no pronome - que nós entendemos com base no contexto.

Quando meu marido diz: "precisamos lavar/ limpar isso" ou "acho que a gente podia cozinhar isso", ele dá um significado próprio ao nós: exclui-se dele e fica o ouvinte apenas. Quando ele me pede ajuda para digitar/ preencher formulário/ transcrever ou traduzir qualquer coisa, ele espera que eu assuma a tarefa sozinha. Quando ele propõe que a gente leia um livro junto, ele lê o livro inteiro numa velocidade impressionante e fica me perguntando quando é que eu vou começar a ler o livro.

Tupi não é estranho quando diferencia îandé de oré.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Por que morfologia é tão difícil?

Terminei de corrigir as provas repositivas (recuperação) dos meus alunos de Letras. Um exercício em especial, bem bobinho, me revelou que eles não entenderam o que é um morfema: eu pedia para que derivassem palavras da palavra dada:

dia (eu esperava exemplos como diário/ diarista/ diária)
amar (eu esperava exemplos como amável/ amoroso/ amante)
verde (eu esperava exemplos como verdejante/ esverdeado/ verdinho)
sapato (eu esperava exemplos como sapataria/ sapateiro/ sapatear)

No entanto, apareceram:

dia - diálogo, dialeto, diagrama, diamante
amar - amargo, amargura, amarula
verde - verdade, verdadeiramente, venda, vendário, vendeiro
sapato - sapo.

No caso de dia e amar, imagino que eles simplesmente tenham pensado em palavras que começam com essa sequência de letras. Não atentaram para o fato de dia- ser, nos exemplos deles, um prefixo, não o radical ao qual se pendura prefixos e/ou sufixos. E confesso que tenho dificuldade de compreender qual foi a lógica aplicada para derivar verdade de verde, pra não falar em sapo de sapato.

Desconfio que eles teriam absorvido melhor a ideia do que é um morfema se examinássemos/ estudássemos uma língua estrangeira. Me parece que conhecer a língua que se toma como objeto de estudo é um obstáculo, porque cada um tem suas intuições e entende que elas bastam para analisar palavras. Nesse sentido, não é preciso compreender os conceitos vindos de uma ciência chamada Linguística, basta aplicar regras intuitivas.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

65. GEL

Essa foi a minha primeira viagem solo desde que Agnes nasceu. Entrei num avião em Porto Velho > desembarquei em Guarulhos > entrei num ônibus que me deixou em Congonhas > embarquei em outro avião com destino a Presidente Prudente > aluguei um carro e dirigi 130 km altamente vigiados por radar e câmeras (com 3 pedágios) até Assis.

Na conferência de abertura, Rajagopalan (Raja, para os alunos e colegas) falou sobre o discurso científico na Linguística que não mudou muito desde o século XIX, apesar da língua e da sociedade terem mudado. Fiquei pensando na reunião tensa que tivemos semana passada no Departamento de Vernáculas sobre a mudança da matriz curricular e como eu fui voto vencido quando propus que não se usasse o nome "Introdução às Ciências da Linguagem" para a disciplina "Introdução à Linguística". O argumento que convenceu os meus colegas foi que o aluno veria no nome da disciplina que o estudo da linguagem é científico, que seria confrontado com a ciência ao estudar a linguagem.

Lembrei também do Ethnologue, o catálogo de línguas do mundo que recentemente chegou lá em casa. Como se trata de inventariar as línguas quando muitas delas correm risco de não serem mais faladas (e muitas línguas de fato não são mais faladas), são adotadas classificações como: moribunda, extinta, vívida.

Raja atentou para o fato de a ciência dominante na época em que a Linguística ganhou status de ciência ter sido a Biologia. Neste sentido, conceitos da Biologia foram exportados para outras ciências. Estrutura, por exemplo, é um termo que a Linguística importou da Biologia. No Curso de Linguística Geral não é usada a palavra estrutura nenhuma vez, mas Saussure é considerado estruturalista quando postula que a língua é um sistema. Outro exemplo de importação de conceitos biológicos é entender as línguas como organismos que nascem (pidgins), se desenvolvem e morrem (passando antes pelo estágio de morbidez).

No dia seguinte, vi uma conferência de Roger Chartier (falando portunhol!!!) sobre tradução e o intraduzível. A impossibilidade de tradução logo deu lugar, na sua fala, aos diversos esforços de tradução e a aventura que é traduzir algo de uma língua e cultura para outra língua e cultura.

Reencontrei a Larissa (orientanda da Rosana) que eu tinha conhecido no 63. GEL, na Unicamp. Nós duas éramos as únicas a apresentar comunicação individual em Neurolinguística. Rosana não veio, Maza não veio, Elenir não veio, o pessoal da Dudu não veio, o povo da PUC não veio. Só Larissa e eu pra representarmos a Neurolinguística no GEL. Como eu estava de carro e Natália (do meu departamento e da Revista RE-UNIR) precisava ir pra rodoviária depois do almoço, fomos as três almoçar no centro. Foi divertidíssimo ser o pivô entre essas duas, que se deram super bem.

Fui ver uma mesa redonda com um nome curioso: algo como Da tradução de Gabriel García Márquez à terminologia da Química. Pois é. Um conferencista apresentou sobre a tradução para o português de uma obra de García Márquez e a outra apresentou sobre as traduções que ela faz para empresas de pesticidas. Fiquei assustada quando ela abriu a fala dela anunciando e repetindo os sucessos de safra de grãos e como o Brasil era um grande exportador de soja. Comecei a entender onde ela ia chegar quando ela mencionou a quantidade de agrotóxicos e pesticidas que o Brasil importa todo ano. O objeto dela eram as traduções de nomes de compostos e pesticidas, que não seguiam um padrão, portanto alguns produtos eram adquiridos apesar da lei proibi-lo.  

Reencontrei Cláudia e Pascoalina, ambas (e eu também) ex-orientandas da Fausta. Perdi toda a conferência sobre Torquato Neto (a opção era uma mesa-redonda sobre a Linguística queer - sabe-se lá o que é isso) conversando com elas. De fato, o mestrado está mais longe que o GEL do ano retrasado ou a reunião de departamento da semana passada, e me diverti com algumas distorções: não é em Roraima que você está? Você não fez o doutorado com o Ilari?

Fiquei contente de ouvir Edson Rosa, que tinha organizado dois volumes sobre Linguística Funcional, me dizendo que queria muito encontrar uma teoria em Linguística Funcional que ele pudesse usar para analisar seus dados. E também fiquei super orgulhosa de ouvir que ele usa um artigo meu sobre gramaticalização de preposições em sala de aula.

Fui na conferência de Antônio Suárez Abreu sobre cognitivismo e fiquei entediada com a aulinha meio desconexa que ele deu (com muitas imagens plásticas, recortadas de propaganda de revista) sobre metonímia - com longas divagações sobre nomes de cidades - e fiquei enjoada com o público pedindo, na hora do debate, pra ele falar mais sobre frames e scripts. Larissa teve a mesma impressão que eu que não aprendemos muito com ele - ou o público.

Na hora da nossa apresentação, estávamos convencidas de que apresentaríamos uma pra outra e até chegamos a combinar com o monitor da sala que podíamos usar mais que 15 minutos pra apresentação, já que as outras seções tinham em média 5 apresentadores. Mas foi chegando gente assim que Larissa começou a falar sobre circunlóquios enquanto estratégia para contornar dificuldade de encontrar palavras em idosos.

A apresentação dela ainda contava com dados preliminares e intuições. Eu apresentei um trabalho que venho remoendo há 10 anos: telegramas e 'fala telegráfica'. A proposta de usar 'fala reduzida' nem mesmo foi feita, mas o importante é que consegui desconstruir com clareza a ideia de que a fala do sujeito com agramatismo é semelhante a um telegrama, ou seja, telegráfica. Como tínhamos muito tempo, Larissa e eu ficamos ainda conversando com o nosso público (alunos da Unesp de Assis e da Unicamp) sobre Neurolinguística no IEL e no Brasil.

Foi muito bom estar num congresso, acompanhar discussões, ver livros, autores e velhos amigos. Mas me senti muito mal de estar longe da Agnes e do Luis. Chorava de saudade toda vez que ouvia a voz dela no telefone. Dois dias viajando, dois dias de congresso. Desconfio que isso não vá se repetir antes de ela completar 15 anos...