segunda-feira, 30 de março de 2009

Ciclotour para Colônia

A minha bicicleta tinha ficado na Heitor Pentado, porque não tinha ficado claro até a noite da bicicletada qual seria o nosso destino no dia seguinte. Se fosse a Zona Leste, eu teria que pedalar muito mais que os meus companheiros.
Saí da Zona Sul de manhãzinha, atravessei a cidade de ônibus e metrô e depois voltei para o mesmo ponto, por outro caminho, de bicicleta, em companhia do Dio e Lucas. Íamos pra Colônia.
Passamos por trás do autódromo, pela avenida + ponte nova, pegamos a Teotônio Vilela com trânsito e a Belmira Marin naquele inferno caótico de latas velhas e batidas, motos, escapamentos que faziam os meus olhos lacrimejarem, buzinas e gente atravessando tudo em todas as direções. Depois da última subida longa, em curva e cruel, a paisagem se acalmou e passamos por uma fila longa de carros que esperavam para subir na balsa. Depois da parada pro caldo de cana começou a chuva. Em seguida veio a terra. A velocidade baixou drasticamente, as pastilhas de freio eram mastigadas pela lama.
Perdemos a entrada à esquerda pra Colônia e fomos parar no lugar onde haverá mais um rodoanel.
Quando achamos os trilhos do trem que não circula mais, fizemos uma pausa. Ao voltarmos a girar o pedal, reparei que o meu pneu de trás estava escandalosamente murcho. Enchi o pneu, acreditando que conseguiríamos chegar em Colônia. A fé funcionou, e até achamos um restaurante aberto às 15 pras 4 numa tarde de sábado. Comemos arroz, feijão, carne e batata frita num restaurante em que as únicas cadeiras embaixo da mesa eram aquelas em estávamos sentados. Depois do almoço, Lucas trocou (eu não tive chance, mas obrigada!) a câmara furada do meu pneu furado. Voltamos pelo asfalto, passando pela Cratera, Varginha, Interlagos. Me despedi dos dois na estação Jurubatuba.
Foram 5:20 horas pedalando 86,57km, numa velocidade média (putz baixa) de 16.2km/h. Nunca cheguei em casa tão suja como dessa vez. Como a Amarilda tem paralamas e a minha capa de chuva é um poncho, minhas costas foram poupadas da lama.

domingo, 29 de março de 2009

Freecycle

Eu tinha anunciado a venda dos meus alforjes aqui, por e-mail pros amigos e no Mercado Livre. E nada. Anunciei a doação dos alforjes no Freecycle de São Paulo e na mesma noite recebi um monte de e-mails de candidatos à doação. O que mais me impressionou foi que sete mulheres e três caras me escreveram. Mais que o dobro de mulheres! Muito/as me escreveram que detestam a mochila nas costas, que carregam muito peso quando pedalam e que comprar alforjes sai caro. Pra mim isso é indicativo de que bicicleta não é mais tão coisa de homem nem necessariamente ligada a lazer/esporte. É meio de transporte.

Não acho que estou perdendo dinheiro ao doar os alforjes. Estou dando um presente a uma pessoa desconhecida. Me dá mais satisfação.

sábado, 28 de março de 2009

Bicicletada violenta

Não via a cena, mas a coleção de pequenos atos de violência gratuita e total desprezo pelo coletivo começou com um cara brincando de luta com outro, na concentração que era pra ser lúdica. O cara caiu de cabeça no chão. Quando ele sentou na calçada, segurando a cabeça com as mãos, seu agressor veio, deu um tapinha nas costas e se desculpou: Foi mal, cara, eu achei que você lutava.

O mesmo cara atravessou o meu amigo duas vezes, sem considerar que a rua não estava vazia e que havia mais gente além dele ali. Não pediu desculpas, apenas olhou pra trás, como se procurasse pelo djin que deu um tapa na sua roda traseira.

Numa bicicleta de downhill, o cara vinha velejando pela rua, gritando numa voz de Tim Maia Racional que estava sem freio. Foi esbarrando nas pessoas que não desviavam dele. Quando se cansava da brincadeira, ficava empinando a traseira da bicicleta: freiando o pneu da frente. Sim, no meio da rua, sem olhar se vem vindo alguém atrás.

O cara tava filmando a bicicletada rumando para o centro de São Paulo em cima do seu skate em movimento. Ele girava o tronco segurando a câmera e registrava tudo. Um ciclista de camiseta verde atravessou a massa de gente que passava, se posicionou na rota do cinegrafista de skate, sorrindo, esperando o momento da colisão. O skatista foi pro chão e a câmera também.

Há momentos em que a bicicletada pára. Num desses momentos, um bonitão não quer parar e me ordena que eu lhe dê passagem. Faz um gesto indicando que é por ali que é a sua rota que eu estou interrompendo. Dou um aceno e um sorriso pro moço bonito, mas ele não quer ser gentil. Quer passar. Urgentemente.


A bicicletada invadiu a zona de pedestres ali na Praça da Sé. Vi que um ciclista procurou uma rota alternativa, pela rua mesmo, pra chegar ali, mas ele não foi seguido por muitos. Muitos se empolgaram com o espaço vazio e completamente desrespeitaram o fato de que a praça é para pedestres e tem muitos moradores.
Perto do Teatro Municipal, a bicicletada voltou a parar. Me disseram que um cara tava jogando cuecas no prédio da CET. Vi como alguém tentava jogar um tecido no alto de um estabelecimento. Hoje soube que esse cara tinha recebido uma multa da CET por ter pedalado pelado na Paulista e ter sido preso. O trajeto do passeio passou pelo prédio da CET e a bicicletada ficou estacionada lá por pelo menos 10 minutos para que um cara ficasse tentando jogar uma cueca na CET.
*
Como considero qualquer falta de respeito como um ato de violência, esta é a minha coleção de violências da bicicletada de ontem.

Daqui até a Paulista

Pedalei 20 e poucos quilômetros até a Praça do Ciclista, sendo que demorei aproximadamente uma hora e meia. Peguei bem a hora do rush, a partir do momento em que entrei nas avenidas. Adotei uma estratégia diferente em cada uma delas.

Na Yervant parada, desci da bicicleta e a empurrei pela calçada. Na Santa Catarina, que tem espaço de uma faixa e meia, trafeguei tranqüila pela meia faixa (da direta) livre. Na Cidade de Bagdá ocupei a faixa toda, porque ninguém descia aquela ladeira sem freios, que nem eu. Na Corbisier me posicionei a meio metro da guia, de maneira que os carros que me passassem tinham que me ultrapassar invadindo a faixa à esquerda deles. Na Jabaquara eu já tive coragem pra trafegar entre os carros parados. Como o meu guidão é grande, os espelhos retrovisores dos carros se tornaram obstáculos que eu precisava considerar. Quando a Jabaquara passou a Domingos de Moraes, voltei à faixa da direta. Antes da Domingos virar Vergueiro, vi um ciclista vestido para a bicicletada. Tentei acompanhá-lo, mas ele costurava entre os carros e não parava no farol vermelho. Na Paulista fui fechada duas vezes pelo mesmo ônibus. Me enfezei e voltei a trafegar pelo corredor de carros, pra deixar o ônibus pra trás. E deixei.

Não me orgulho de pedalar entre os carros, no corredor. Mas com o trânsito parado, a faixa da direta não é uma boa opção: ocasaionalmente algum passageiro abre a porta do carro pra sair; o espaço que há entre o carro e a guia não pode mais ser negociado com o motorista, simplesmente está tomado; a fumaça que sai do carro da frente faz arder os olhos e fechar a garganta; alguns pedestres preferem caminhar na rua ao invés de fazerem ginástica nas calçadas. Costurar por entre os carros também não é ideal: existe a concorrência com os motociclistas, que não são solidários com ciclistas; os espelhos retrovisores dos carros; alguns motoristas são ótimos manobristas e conseguem mudar de faixa mesmo com pouco espaço.

Como eu tenho a pretensão de dar o exemplo de ciclista urbana que conhece seus direitos e deveres, vou tentar pedalar sempre pela faixa da direita. Assim estarei num lugar previsível e para mim destinado, segundo o Código de Trânsito. O que incomoda muitos motoristas é que os motociclistas estão em toda parte (buzinando). Continuo sinalizando com o braço que vou mudar de direção e parando no farol, antes da faixa de pedestres. E sei que sou olhada por muita gente com respeito.

terça-feira, 24 de março de 2009

Eu fui

Uma vez, um aluno meu me disse que o asfalto em Paulínia era bom, por causa do intenso tráfego de caminhões pesados. A minha curiosidade venceu a minha imaginação e peguei a bicicleta e fui lá, ver se era verdade. Contei pra ele que o asfalto da Milton Tavares, que liga Barão a Paulínia, era ruim e que o asfalto do acostamento era particularmente horrível. Mas lá, na cidade, o asfalto era bom.

*

Ivan fez propaganda de um mecânico de bicicleta chamado Luciano. O figura não trabalha na bicicletaria mais próxima da minha morada, mas a minha curiosidade me empurrou pra longe mais uma vez.

Amarilda e eu cruzamos a zona sul até a altura da estação do metrô Sta. Cruz. Foram 17,48 km feitos em 58:45 minutos, sem nenhum atrito no trânsito. Os semáforos com suas luzes vermelhas, no meio das ladeiras aqui, antes do metrô Jabaquara, totalmente quebraram o meu ritmo e fizeram com que as atenções de muitos fossem deslocadas para aquela ciclista altamente ofegante.

O mecânico Luciano ficou feliz ao ouvir o nome do Ivan, antigo colega de trabalho. Olhou para os cabos que percorriam o quadro até chegarem aos seus destinos: os freios e o câmbio traseiro. Não desconfiou do comprimento do conduíte, mas de sua adequação. Mostrou cabos que encapam os cabos de freio e cabos que protegem os cabos do câmbio. Tá vendo? Esse aqui de freio é mole, maleável. Esse aqui, de câmbio, é mais duro. Se quiser, eu troco.

É a estória da rebimboca da parafuseta! Eu queria ser aprendiz de mecânico de bicicleta por 3 meses. Aí eu saberia reconhecer o que a bicicletaria que montou a Amarilda fez de errado, além de trocar os cabos de câmbio por cabos de freio e montar um pedivela que não combina com o cassete.

domingo, 22 de março de 2009

Encanando com a água

Informe publicitário da Folha de hoje
Vivemos num país em que havia recursos naturais em abundância. Foram tão explorados ao longo dos anos, da forte migração do campo para a cidade e da explosão demográfica, que agora estão escasseando. E não é a falta de chuva que causa a falta de água em cidades como São Paulo. É o desperdício. Hoje é dia mundial da água.

São Paulo já passou por um memorável apagão em 2001. Faltou energia e faltou água também. De repente eram feitas as contas de quanto se gasta em atividades (domésticas) diárias. A população foi esclarecida sobre como o custo da água é calculado na conta que vem todo mês. As pessoas aprenderam a fechar a torneira enquanto escovam os dentes, lavam a louça ou o cabelo. Em algumas pessoas, o efeito do apagão foi permanente, em outras não. Há maneiras diferentes de fazer um uso racional da água encanada: reduzir e reaproveitar.

Reduzindo

Não uso mais mangueira pra nada. As plantas eu rego uma a uma, com uma garrafa pet ou regador. Se tivesse carro pra lavar, usaria um balde e panos. Tenho a impressão de que a mangueira convida mais a esbanjar água que as constantes idas e vindas e carregamentos de baldes.

Torneira pingando
Aprendi que goteiras desperdiçam água e não me contenho quando vejo uma: vou lá e aperto a torneira, mesmo que não seja na minha casa. Se não adiantar, converso sobre o vazamento e divido o problema com mais gente.

Embaixo da ducha
Morei numa casa em que a resistência da ducha só dava conta de aquecer a água por 15 minutos. Depois disso, ouvia-se um estalo e a água vinha fria. Foi assim que aprendi a tomar banhos de 15 minutos ou menos.

Fui num albergue na Europa (não lembro mais onde foi) e o chuveiro era um esquema parecido com aquele que temos nas torneiras de muitos banheiros públicos. O fluxo de água pára sozinho, depois de x tempo. Para acionar a água novamente pelo mesmo tempo, é preciso apertar a torneira. Quando a água do chuveiro do albergue acabou a primeira vez, fiquei surpresa e com frio. Instintivamante, apertei o botão de novo e o meu problema foi resolvido por x tempo. Quando a água acabou de novo, achei que a brincadeira não tinha graça e apressei o meu ritual sanitário.

Dividi quarto com uma moça de Cuiabá, que tinha o hábito de tomar 3 banhos diários. Apesar de Campinas não fazer tanto calor e ter um ventinho soprando, ela manteve o hábito. Nas nossas assembléias de república, discutimos formas de conter gastos da casa e ela entendeu que três banhos eram psicologicamente requeridos, mas fisiologicamente desnecessários. Reduziu pra 2.

Reaproveitando
Se é inevitável consumir um certo tanto de água, isso ainda não quer dizer que a água que sai da torneira deve ir direto ao esgoto. Ouvi dizer que na Alemanha a água que sai da torneira custa x e a água que entra no ralo custa 4x. Além do consumo humano e irrigação das plantas, há uma alternativa para mudar o caminho entre a torneira e o ralo: coletando a água e usando-a em outro lugar.

Máquina de lavar roupa
A máquina de lavar usa muita água, porque enxágua a roupa mais de uma vez. Dependendo do programa, nível de água que estabelecemos e produtos que colocamos, o consumo de água flutua. Mas essa água, depois de usada, vai pro nosso sistema de esgoto, onde é contaminada pela a água da privada, pia e tal. Ainda dá pra captar essa água no tanque, em baldes, e usá-la pra lavar quintal. Assim não é preciso usar produtos de limpeza agressivos para limpar o quintal.

Na pia da cozinha
Nem toda louça suja precisa ser lavada. Migalhas de pão no prato não precisam ser removidas com água, bucha e detergente. Nem toda louça precisa ser lavada com detergente. Detergente serve para remover gorduras e fazer espuma. Por mais que gostemos de espuma, precisamos ter a consciência de que estamos poluindo a água com detergente. Quando lavamos vegetais, podemos muito bem coletar esta água para depois regar as plantas de vaso.

Nomes de linhas

Nunca peguei o JARDIM HERPLIN nem por engano, porque tenho medo de herpes. Não gostava muito de pegar o SOCORRO, porque eu ficava imaginando o ponto final dessa linha como sendo um lugar obscuro. Mas sempre desconfiei que não tinha batata nenhuma no ponto final do LARGO DA BATATA.

Um colega de faculdade pegava o ANHANGABAÚ, mas como o ônibus o lembrava dos Flinstones, ele passou a apelidar a linha de ANHANGABADABADÚ. Na placa do meu ônibus escreveram as letras tão grandes, que não sobrou espaço pros suprassegmentais (o til) e ficou BUTANTA.

Andei reparando que qualquer tentativa poética no nome da linha denuncia um certo grau de periferia. Nomes de mulher são brandos, e não evocam tanto a imagem de lixo na rua, vielas apertadas, desocupados nas ruas e cores confusas. JARDIM ANGELA, JARDIM SELMA e JARDIM MIRIAM não são tão ruins assim. Mas VILA JOANIZA e VILA CARMOSINA evocam um "vixe" que ainda fica chiando nos ouvidos por um tempo.

Quando estou no Paraíso, tenho que pegar o ELDORADO. Ah, sim, existe a variante: JARDIM ÉDEN, mas é outra linha e fica em outro lugar. O VILA NATAL volta como VILA IMPÉRIO. Um dia, num momento de dislexia brava, li VIA INFERNO. Esse também não é bom de pegar, decidi.
Mas voltando à poética e à dualidade céu-inferno, temos a alternativa: NOVO HORIZONTE.

Vila e Jardim são estratégias de amenizar a pobreza do destino, mas não são as únicas disponíveis. Há também PARQUE RESIDENCIAL COCAIA e CHÁCARA BELA VISTA.

Como são chamadas as linhas de ônibus que vão para os bairros nobres da cidade? Veja bem, ônibus em bairro chique só serve para levar e trazer os empregados, e o ponto final não é no tal bairro chique. O ônibus só passa nas principais avenidas que margeiam a zona residencial e boa. Se um dia você se perder num bairro residencial chique de São Paulo, vai se sentir completamente abandonado. Não há ninguém nas ruas a quem você possa pedir informação. Os muros são altos, as casas enormes, as ruas limpas, as árvores velhas. Não se vê crianças soltando pipa, jogando bola, sentadas na calçada ou brincando de esconde-esconde; não se vê mulheres carregando sacolas de supermercado, puxando carrinhos de feira ou conversando com a vizinha no portão; não se vê carros rebaixados com um som irado e o cara com o braço na janela, exibindo o seu orgulho. Não há ninguém nas ruas e não passa ônibus ali.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Ramona

No Natal, cheguei pra minha vó e lamentei o fato de não ter trazido nenhum livro em alemão pra ela. Lépida e faceira, ela respondeu que tudo bem, porque tinha morrido uma senhora na comunidade, e alguns dos livros da falecida estavam agora numa caixa, na garagem. Se eu quisesse, podia escolher alguma coisa.

Fui na garagem e pesquei esses dois. Reparei como são parecidos: as mocinhas são loiras, estão usando vestidos vermelhos e estão quase derretendo nos braços de seus mocinhos, que estão em posturas muito similares, têm expressões parecidas e biotipos semelhantes. Ambos os livros foram escritos por mulheres que adotam nomes pouco prosaicos.


Escolhi a Ramona, porque me lembrava a banda de rock Ramones. Eu achava que ia ser um romance picante, mas me decepcionei. Na minha lista de livros ainda não lidos continuam os romances pornográficos e manuais de auto-ajuda.

Vou explicar por que ainda não me considero iniciada nos romances de banca tipo Sabrina. Toda atração física da Ramona pelo Kirkby Welford (se liga no naipe dos nomes!) é descrita em termos anatômicos. Não tem graça:

Jetzt schien sein Herz - dieses verräterrische Organ - nicht mehr imstande zu sein, seine Lungen mit Sauerstoff vollzupumpen, so dass er nach Atem ringen musste. Seine Fingerspitzen brannten, wenn er Ramona nur berührte, und seine Stimmbänder versagten zuweilen den Dienst. (p. 247)

Agora seu coração - este órgão traiçoeiro - não parecia mais ser capaz de bombear oxigênio para os seus pulmões, de modo que respirava sofregamente. As pontas de seus dedos queimavam ao simples toque de Ramona, e suas cordas vocais falhavam por breves instantes.

Nesse quesito a biografia inventada da Maitê Proença era mais sutil e sugestiva. Mas em termos de planejamento da narrativa, ambos merecem a mesma avaliação.

Hm, parece que, depois dessa excursão, está na hora de voltar à boa literatura!

quinta-feira, 19 de março de 2009

Anedota da crise

Ele é formado em Educação Física, tinha um emprego na área, mas queria uma renda extra. Deixou o currículo em empresas, academias e clubes e foi chamado por uma empresa para dar aula de laboral.

Nunca tinha dado aulas de 10 min. para trabalhadores que exercem movimentos repetitivos. Passou um dia todo escolhendo a música que acompanharia os exercícios e pensando numa seqüência fluida de movimentos. Lembrou que demoraria 15 minutos para chegar na empresa e riu da ironia: passaria 3 vezes mais tempo em trânsito do que em aula. Intrigado, calculou os gastos com gasolina e depois contrastou o resultado final com o salário que receberia. Teria um lucro de algumas dezenas de reais. Em tempos de crise, R$ 60,- de lucro é dinheiro.

Foi apresentado para os seus alunos e deu a sua primeira aula, tenso, para 50 alunos. Dois dias depois, reparou que o número de alunos tinha dobrado. Perguntou a que se devia o fato e responderam que, devido à crise, o turno da noite foi juntado com o turno do dia. Ah, sim, a crise.
Na aula seguinte, reparou que metade de seus alunos não estava lá. Perguntou o que tinha acontecido, e responderam que um turno inteiro tinha sido demitido da empresa. Ah, sim, a crise.
Ao sair de sua aula seguinte, foi barrado no corredor e conduzido à sala do RH. Então, você não precisa vir mais. Eu sei. A crise. Ao chegar em casa, pesou as despesas e o salário recebido em notas velhas e mal-cheirosas. Deu empate.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Morar em São Paulo

Não acordo mais com a luz do sol ou o som dos passarinhos. Acordo com as marteladas que o vizinho dos fundos dá na parede e com as marteladas que os pedreiros dão no portão que estão instalando na casa do vizinho do lado. Tento dormir de novo, mas o alarme disparado de um carro e os latidos dos cachorros da vizinhança, irritados com o som do alarme, me arrancam da cama. Enquanto desço as escadas, o cheiro de café fresco faz tudo ficar bem outra vez.

Fui ao parque Alfredo Volpi, perto da USP, me alegrar com a sensação de poder pisar na terra. Ao sair de lá a pé, tentei alcançar a ponte Cidade Jardim, pra pegar o trem. Três faixas de carros passando constantemente às 17:30 fizeram com que eu reformulasse os meus planos. Era preciso atravessar a ponte dentro de um ônibus. Caminhei até o semáforo e me juntei aos pedestres que queriam atravessar a Av. dos Tajurás. O homenzinho verde acendeu e atravessamos até o canteiro central, mas não conseguimos atravessar a outra pista até a calçada, porque os faróis não estão integrados e privilegiam o fluxo contínuo dos motorizados. Ficamos lá, espremidos no canteiro central, mastigando o vento dos carros que passavam e inalando a poluição que soltavam pela traseira. Depois de muito apertar o botão do farol de pedestres e de muito esperar pela nossa vez, conseguimos atravessar. Perdi a paciência e caminhei até a Marginal, onde eu planejava pegar um ônibus até o Term. Sto. Amaro e de lá outro pra casa. Grande erro. Trânsito a partir da Ponte Morumbi. Resumo da ópera: demorei 2 horas pra percorrer 11km. Maravilha!

De bicicleta eu provavelmente demoraria 40 minutos pra percorrer essa distância, mesmo com morro no meio do caminho. Mas eu não tenho muita coragem de sair de casa com nenhuma das minhas bicicletas. Ninguém aqui pedala bicicletas como as minhas, elas chamam atenção. O cara da bicicletaria ali de baixo já me avisou que é pra eu ficar esperta se tiver dois caras (principalmente se for de boné) vindo na minha direção. Fora isso, o asfalto aqui é um coletivo de remendos e buracos e o espaço da rua é bem restrito.

A chuva que caiu ontem causou caos. Não vi os pontos de alagamento na cidade que o noticiário mostrou. Eu estava no telefone com uma moça que me dizia que lá onde ela estava (duas ruas pra cima) não tinha energia. Quando desliguei o telefone, caiu a força aqui também. Meu farol de bicicleta foi uma mão na roda até juntarmos velas suficientes para vermos o que estava no nosso prato.

Fui dormir ouvindo a criança doente da casa ao lado se esgoelando de tanto chorar, como todas as noites. Antes de apagar a vela, ouço uma buzina-sirene de carro de polícia chamando atenção ou espantando alguém na rua. O cheiro de pavio queimado me embalou no sono e todos os barulhos foram apagados.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Cenas insólitas

De noite, observo em pé e cansada, apoiando a cabeça no braço que segura a barra do ônibus parado no trânsito da 23, um mendigo acocorado de frente prum poste. Com uma caneta, ele desenha em cima da cal suja. Com o indicador, ameça seus desenhos e ordena que permaneçam ali.

* * *

Tenho febre e frio, não consigo dormir no novo quarto de hotel que me deram, que é quase na cozinha e emana sons e cheiros de cozinha, tenho dor de cabeça e o ar não circula. Levanto e vou até a recepção, preocupada com o meu estado de saúde. Pergunto pra moça:
- O que uma pessoa com malária tem?
- Uma pessoa com malária tem que ir no posto de saúde e fazer exame.

* * *

Olho pro velocímetro da Amarilda e vejo que ele registra uma velocidade de 30 km/h. Os carros que trafegam na pista, passam por mim a 120 km/h, e há radares espalhados no canteiro central que flagram abusos deste limite. Levanto o olhar e reparo em dois policiais medindo a velocidade dos carros. Percebo que o homem que segura o aparelho se vira para o outro e lhe pergunta alguma coisa. Quando os alcanço, ouço como o policial responde: não, bicicleta não.

sábado, 14 de março de 2009

Obrigada

Queria agradecer a todos que torceram por mim e se empolgaram com essa minha mudança. Marcos, a quem dei carona, é um bom candidato a futuro ciclista. Miriam, que me deu carona, certamente prestará atenção no acostamento da Bandeirantes na próxima vez que passar por lá. Kenia, Junior, Ruy e Gustavo, obrigada, fiz boa viagem. Olga ficou feliz em me ver de volta. Pedalante, valeu pela preocupação e pelas dicas. Dio, valeu pelo planejamento da rota. Ivan, eu vou lá na bicicletaria que você indicou.
Cheguei. Cansada, sedenta e muito suja.

Aqui?

O mapa indica uma Estrada turística do Jaraguá que cruza (mas não dá acesso) a Bandeirantes antes do Trópico e segue paralela à Bandeirantes por um tempo na altura do Rei da Pamonha. Depois entra na Anhanguera. Hoje achei difícil entrar na vicinal da Marginal, por causa do fluxo de carros, mas nem fiquei muito triste, não, porque fiquei imaginando que as opções que eu não consegui acessar são ruas de terra.

Imprudência

Um Ka branco seguia a 120 por hora na pista do meio, com o pneu de trás (e da direita) furado. Várias opções de explicação para esse fato passaram pela minha cabeça:
- a pessoa atrás do volante não tem nenhuma noção de física e não sabe que esta situação não é sustentável por muito tempo.
- a pessoa que está dirigindo não ouviu o barulho que o pneu furado está produzindo porque é surda, porque está ouvindo música no último volume, porque não acha que é com ela.
- a pessoa com o pé afundado no pedal está morrendo de pressa pra chegar num lugar em que alguém troque o pneu, ou para o compromisso marcado.

Um barulho de estouro. Vi a borracha do pneu furado arrancando parte da lataria do carro. O Ka mudou de faixas até chegar no acostamento e parou. Um caminhão passou por cima daquela parte que cobria a parte superior do pneu. A porta do Ka se abriu e a mulher recolheu a parte arrancada e amassada de seu carro. A outra porta se abriu e as duas foram apreciar a destruição, com as mãos no rosto.

Passei por elas, e quando vi um telefone SOS, voltei até o Ka. Uma estava com o celular na mão, a outra me deu atenção. Avisei que tem um telefone ali na curva, e que é melhor elas pedirem ajuda por aquele telefone que pedir ajuda pro marido, pai ou irmão.

Saí de lá me sentindo uma sobrevivente. Imagina se o pneu arranca a lataria do carro do meu lado e as coisas voam pra cima de mim?

Diferenças


O que eu pensava e o que aconteceu
Eu estava convencida de que teria pelo menos dois pneus furados nessa cicloviagem, e por isso estava carregando duas câmaras. Não tive nenhum pneu furado, nenhum raio estourado, nenhum cabo rasgado.

Outros ciclistas
Nenhum (zero!) ciclista passou por mim em todo o trajeto. Um veio, todo paramentado, na minha contramão, fazendo cara de mau e não tomando nota da minha existência ou do meu cumprimento. Não vi outro ciclista nos postos em que parei.

Conversas
Naquele posto em que eu tinha conversado com o ciclista que não usa capacete ou óculos de sol, conversei com um caminhoneiro. Ele me perguntou se não era perigoso viajar pelo acostamento e o papo descambou pra falta de prudência dos motoristas. Ele era caminhoneiro. Eu devia ter dito pra ele o quanto as buzinas de caminhoneiro me incomodam. Mais tarde passou por mim, buzinando. Tomei mais um susto.

Tempo
Não tenho velocímetro na Caloi 10, portanto as medidas são mais intuitivas. Saí de Barão às 10:00 e cheguei na estação Domingos de Moraes às 15 pras 3. Parei por pouco tempo nos postos dessa vez e tenho a sensação de ter atingido velocidades bem mais altas na Caloi 10. Calculo que eu tenha feito uma média de 25 km/h, mas posso estar errada.

Vento
Pode ser que não tenha ventado no domingo passado, quando vim com a Amarilda, mas dessa vez senti o vento (contra e lateral e dos caminhões). Atribuo essa percepção do vento ao peso da Caloi 10, que é mais leve que a Amarilda e não tinha alforjes.

Asfalto
Bah, a mudança de asfalto liso pra asfalto mais poroso era óbvia. Quando era subida e o asfalto era liso, eu pedalava com vontade e me surpreendia com o ritmo acelerado que me fazia subir a ladeira. Quando o asfalto na subida era poroso, eu tinha a sensação de que os pneus estavam derretendo, que a borracha grudava no asfalto, me segurando.

Caloi 10 pra SP

Eu estava em São Paulo e a minha última peça de mudança, a Caloi 10, estava em Campinas. Consegui carona pra Barão às 7:30 e chegamos às 9:00 em Barão. Entrei em casa e fiquei feliz em ver que a maioria das pessoas estava acordada. Quando pus o meu capacete, começou a chover. Esperei um pouquinho e saí de Barão Geraldo às 10:00.


Quando eu tava na D. Pedro, na altura do São Marcos, uma viatura da Polícia Rodoviária me ultrapassou e parou no acostamento, a alguns metros de mim. Dois fardados desceram e deram sinal pra eu encostar. Como o homem fez o mesmo gesto que faria para um motorista, não tive certeza se era comigo. Apontei pra mim e acenei com a cabeça, ao que ele acenou uma confirmação. (Veja que maravilha que não é o tempo da bicicleta. Dá tempo de trocar informações com o policial rodoviário antes de acionar os freios!)
Esticou a mão, me cumprimentou e perguntou onde eu moro e se não tinha outro caminho pra eu fazer, porque passar perto de favela não é seguro: os menino vem e passa ratsteria na sua bicicleta! Agradeci a preocupação e segui viagem.


Entrei na Bandeirantes pensando se precisaria usar a capa de chuva que estava trazendo. Não choveu mais. O sol foi saindo devagarinho, até a minha pele ficar constantemente molhada e grudenta. Boa preparação pra Rondônia!
Se eu tivesse dormido na Oca e saído de lá às 6:00, eu teria chegado em São Paulo muito antes do horário em que bicicletas são permitidas no trem. Tomei sol na moleira, mas consegui entrar no trem numa boa.

O tempo


O tempo passa. Percebo a sua passagem quando me perco na cidade em que morei por 15 anos. Ofereci carona pelo caronasunicamp pela primeira vez na vida e marquei como ponto de encontro a ponte Cidade Universitária. Lá onde encostam as vans da Ponte Orca. Chego lá e dou de cara com um canteiro de obras. Agora é tudo do outro lado da ponte.

O tempo voa. Percebo suas asas batendo quando eu mesma dou referência de lugares que não existem mais. Eu ficava muito frustrada quando me davam instruções do tipo: desce no ponto da Telefunken. (Sabe quanto tempo faz que a Telefunken não existe mais?)


O tempo me engana. Não fui capaz de calcular o tempo que preciso de casa até a estação Sta. Cruz de manhã. Saí de casa às 6:00 e demorei 25 min até a APAE. Como eu tinha uma hora de tempo até a carona passar, subi a Loefgreen a pé (em 20min). E o que fazer com os outros 45 minutos? Mas se eu tivesse saído às 6:45, eu certamente teria me atrasado e perdido a carona.

O tempo muda. Não quero mais brincar de sol e chuva com você. Vamos à minha mais recente cicloviagem.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Descombinados

Aconteceu faz tempo. Olga tava viajando e eu cheguei na casa dela de madrugada, sem a chave. Como eu sabia onde a chave estava dentro da casa, quebrei a janela. Me espantou que os vizinhos não reagiram aos sons de vidro quebrando. Entrei na casa.

No dia seguinte terminei de quebrar o vidro, tirei as medidas (não tinha fita métrica, mas muito material de tricô) e fui na loja de material de construção. Pedi um pedaço de vidro. O vendedor perguntou se era liso ou canelado. Mostrou o canelado e lembrei que correspondia ao virdo que já estava na janela da Olga. Perguntou se as canaletas eram horizontais ou verticais e minha memória evocou as janelas da minha república em Barão. Pediu as medidas e eu tirei dois fios de lã de bolso. O homem riu de mim.

Voltei pra casa e instalei o vidro no vão. Acho que a janela ficou charmosa. O importante é que a Olga achou graça e não ficou brava comigo.

Fui na bicicletaria de periferia da zona sul de São Paulo. Perguntei se ele tinha o mesmo tipo de raio, ele disse que sim, e que custava R$ 50,- instalado. Um raio não pode custar tudo isso. Não! O jogo, porque eu não posso te vender só um raio preto: tem que ser o jogo. Lembrei da janela da Olga e pedi que instalasse um raio de R$ 0,30.

terça-feira, 10 de março de 2009

Você voltou!

Tinha um almoço com as amigas marcado na agenda da Olga. Fui junto, acompanhar a turminha da melhor idade. Nos conhecemos, porque afinal já morei 2 anos na Olga. Você voltou! Ai, que bom, finalmente acabou de estudar!

Os papos delas são diferentes: hoje eu estacionei o meu carro na vaga de idoso pela primeira vez! Eu diminuí 2 centímetros, e o meu marido também tá redistribuindo a massa corporal dele. Diminuiu na altura e aumentou pros lados.
Caminhando da bicicletaria pra casa, ouço alguém atrás de mim chamando algo parecido com o meu nome (podia ser Lu, mas também podia ser Ju, Su, Yu). Virei e surpreendi o carteiro. Alegre, esticou a mão: oi, Lou!! Você voltou! Tem até uma cartinha pra você, lembro que vi teu nome lá!

Já tô me sentindo em casa de novo e nem parece que passei 7 anos em Barão.

domingo, 8 de março de 2009

Elevador

As fotos não ficaram boas, porque entrar com uma bicicleta no trem chama atenção. Uma bicicleta amarela e com essas bolsas, então! Tirar a máquina da pochete e mirar pra cara de alguém eu achei ofensivo, então apertei o botão sem saber o que sairia na foto.
Na estação Domingos de Moraes não tem elevador ou rampa. Os seguranças disseram que levam cadeirante no braço. Eu levei a Amarilda no braço.
Em Presidente Altino tem elevador, e quando eu saí de um e quis entrar em outro, um funcionário veio conversar comigo que o elevador era pra cadeirantes, gestantes e idosos. Uma pessoa com malas muito grandes teria que usar as escadas. E tome escada!
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Jurubatuba mudou desde a última vez que usei o trem pra ir pra USP e agora é preciso descer numa plataforma, subir e descer escada pra chegar na plataforma onde o trem chegava antigamente, que é a plataforma que fica no mesmo nível que a rua. Subi com a bicicleta embaixo do braço e quando cheguei lá em cima, vi um monte de patricinhas de periferia saindo do elevador. Não eram deficientes, idosas ou gestantes. Eram gordas, mal-vestidas e feias. Apertei o botão do elevador. Quando ele chegou, saiu um homem igualmente fora dos parâmetros estabelecidos para usuários do elevador. Chegando embaixo, vieram dois funcionários pedindo pra eu evitar de usar o elevador. Apontei pras duas mocinhas esperando o elevador e discuti com o cara. É, elas tão erradas, mas a sua bicicleta sai muito fora do padrão. Sei.

Qual estação?

Eu queria pedalar até a Estação Ceasa, pra não ter que fazer baldeação em Presidente Altino, mas o asfalto irregular e o pouco espaço da via que saía da ponte me desanimaram. Pensei no raio partido, na velocidade desses motoristas que acabaram de sair da Anhanguera e estão chegando na cidade e ainda não aliviaram a pressão do pedal do acelerador. Conversei com um taxista e decidi caminhar até Domingos de Moraes empurrando a bicicleta. Quando vi a escada que dava acesso à estação, perguntei prum ciclista que tava indo pro Pico (do Jaraguá) se a rua do outro lado dava acesso ao trem. Ele me ensinou como chegar em Imperatriz Leopoldina. Mas a estação Domingos de Moraes é ali, eu só não quero descer a escada. Ah, é? Não sabia. Quando vou pro trem, vou de carro.

Tinha roupa suja, chaleira, toalhas, roupa de cama e mais umas coisinhas nos alforjes presos na bicicleta que carreguei escada abaixo.

Chegando em São Paulo

Eu tinha conversado com o Dio sobre maneiras de evitar a marginal quando chegasse pedalando em São Paulo. A Anhanguera cruza o rio, e do outro lado do rio tem trem, o que é muito bom num domingo. Como CPTM e metrô finalmente estão integrados, a permissão para bicicletas nos vagões serve para ambos: todo dia depois das 20:30, sábado depois das 14:00 e domingos e feriados o dia todo. Ainda acho muito pouco. Preferia ter que pagar uma passagem extra, mas ter a garantia de poder usar metrô ou trem quando quisesse.

No mapa, várias vias ligam a Bandeirantes à Anhanguera. Mas o desenho é pequeno e não deu pra ver que as vias não se conectam. São viadutos que passam por cima da Bandeirantes, sem vias de acesso. Eu tinha estranhado que o careca não cogitou a possibilidade de eu passar pra Anhanguera. Não dá. Tive que chegar em São Paulo pela Bandeirantes mesmo, virar à direita, pegar a ponte da Anhanguera e consultar o mapa.

Cicloturismo?

No primeiro posto em que parei, reparei que havia muitos ciclistas. Homens magros e paramentados, pedalando suas speeds em grupos coloridos pra cima e pra baixo. Mas ninguém parava ali onde eu estava. Apareceu um casal de ciclistas. Descliparam as sapatilhas, endireitaram a coluna, sorriram pra mim e se separaram: ela foi no banheiro, ele veio conversar sobre os meus alforjes. Perguntou se eu tava fazendo cicloturismo. Respondi que eu tava fazendo mudança. Ah, mas pedalar com esses alforjes é ruim por causa do peso deles, não dá pra chimbar. Pelos gestos dele, imaginei o significado do que ele dizia e respondi que eu costumo pedalar sentada no selim.

O cara era careca e não usava capacete ou óculos de sol. Ele disse que pedala faz 40 anos e só usa essas coisas quando é obrigado, porque passou mais tempo da vida sem esses confortos que com eles. E fora isso, capacete machuca a careca. Me ensinou o melhor caminho da Bandeirantes até uma estação de trem e nos desejamos um bom pedal. Apesar do papo de competidor de elite dele, curti o cara.

Minutos depois, o casal me ultrapassa de speed. Muito tempo depois, os dois me passam numa van. Pararam no acostamento, deram ré e me ofereceram carona. Muito obrigada, mas eu vou pedalando, especialmente agora que já sei o caminho. Cê não tá sofrendo? Hehe, não.

Viu? Tem gente que a gente vê mais de uma vez na vida.

Segurança e conforto

O acostamento da Bandeirantes é muito sujo. Pedrinhas, cacos de vidro, restos de pneu de caminhão (borracha e arames muito finos), cadeados, chaves, plásticos, parafusos, pregos. A lista é longa. Um araminho se meteu na minha roda trás, do raio estourado, mas não o tirei de lá e o pneu não vazou. Fora os lixos, o acostamento tem canaletas que vazam a água da pista pelo acostamento pro mato. Foram preenchidas com asfalto, mas o desnível continua tá-dum ... tá-dum ... tá-dum.

Passei por 2 speedeiros trocando pneu. Também, com pneus muito mais sensíveis e um acostamento tão sem manutenção, não é de espantar. Segurança e conforto é pra quem trafega pela pista, não pra quem trafega pelo acostamento. Não há sombra em todo o trajeto!

Amarilda na estrada

Saímos de Barão às 7:30 e chegamos em São Paulo por volta das 13:30. Foram 104 km pedalados em 4 horas e 42 minutos, numa velocidade média de 22km/h. Primeira vez que usei os meus alforjes à prova d´água. São ideias. O calcanhar não pega no alforje, a traseira dele não entra nos raios, o fecho é de dobrar e são amarelos!
Depois de uma hora fora de casa, resolvi investigar o que era aquele barulhinho ocasional e porque as marchas não estavam entrando quando eu queria e porque a roda de trás não parecia se mover só pra frente. Raio partido. Raios que o partam! Não ouvi o estouro, nem sei se foi hoje. Mas a Amarilda foi firme.
Bebi 2 litros de água na estrada, fui ultrapassada por 10 speedeiros (eu contei) e muitas (bem mais que 10) mountainbikes em carros indo pra altura do Hopi Hari. Desconfio que hoje foi dia de competição.

Casa esvaziada

Ainda não fui chamada pela Unir e as secretárias de lá que conversam comigo por telefone não sabem quando o MEC vai autorizar a contratação dos camaradas que passaram no concurso de fevereiro. Pra não ter que pagar aluguel e pra aproveitar o interesse de uma moça na minha vaga, resolvi sair da república e voltar a São Paulo.

Pra Oca da Tapioca as coisas não mudam muito: continuam morando com uma gaúcha que faz doutorado em Lingüística e continuam usando a minha geladeira, fogão, mesa, estante e roteador. As duas meninas que ficam no quarto compraram o meu beliche (a única cama que tive em toda a minha vida), colchão de mola, escrivaninha (que era do meu pai) e cadeira.

O processo de dar e vender as coisas ainda não acabou, e teve seus altos e baixos. Me senti útil doando um saco de 100l de roupas pruma associação de assistência à criança (AMIC). Fiquei super feliz por conseguir vender o bongô pelo Mercado Livre, e o cara que comprou o bongô também está todo contente. Mas fiquei triste quando dei um par de cortinas pelo Freecycle pra uma dondoca. Pô, Freecycle é um lance legal de você dar coisas úteis pra pessoas que vêem utilidade naquilo que te atrapalha. A moça me escreveu que precisava urgentemente das cortinas e vinha retirar o mais rápido possível. Ignorei todos os vinte outros que me pediram as cortinas e dei preferência pra moça. Chegou de carrão, óculos escondendo a cara, maquiagem escondendo a pele ruim e um salto muito alto, disfarçando o tamanho. Depois mandou foto das cortinas no quarto dela. Super legal. Outra coisa triste foi o valor que o brechó me pagou pelas minhas roupas de frio e o que o sebo me pagou pelos meus livros. Mas assim tenho menos coisa pra carregar.

Passei os últimos dias encaixotando livros e me desesperando com a quantidade de papel que tenho. Mas não consigo me desfazer dos meus quadrinhos... Depois que encaixotei as minhas coisas de cozinha, os moradores ficaram assombrados: a panela de pressão é tua? Você vai mesmo precisar de todos os seus garfos, colheres e facas? Esse espaço todo no armário da cozinha é normal?

Ainda preciso voltar lá duas vezes: uma vez com um carro, pra trazer todas as inumeráveis caixas; e outra pra trazer a outra bicicleta. Amarilda veio hoje. É, e falta me despedir da galera, porque só o Gustavo me viu hoje, por volta das 6:00, quando ele estava indo dormir.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Chamando pra discussão

Anônimo volta a chamar pra discussão:

Engraçado, se não fosse trágico!

Quando da discussão sobre o em si da bicicletA, sobre a transposição dos termos e seu desdobramento materializado na legitimidade daqueles que dizem nos representar: ficamos às moscas! Só um moço lá que...não entendi mto bem o que quis dizer!

Agora.......que a senhorita endiabrada toca a ferida das relações de poder e das macro-estruturas eis que surgem infinitos pedevela de gabinete pra resguardar um grupo, espaço ou ideal e dizer que é isso ou aquilo! Conseguem até identificar o eixo espistomológico da conversa (as ciências sociais agradecem, ou não!), mas ainda assim não me ajudam a esclarecer como poderíamos garantir o acesso a informação de modo que ao término de cada pedal realmente se experimentasse novas formas de esclarecimento sobre as reais condições de uso da bicicleta no mundo que é!


Será que ninguém tem nada a dizer sobre o post da transposição de termos?
Da limitação de um movimento que faz corking em construir uma ação educativa, que penetre nos hábitos e transforme a cultura?
é muito mouse e pouco guidão!
é muito discurso e pouco legado!


Tô virando sua fã, Anônimo!

Veja, há esperança: Marcelo entrou em contato comigo (no post sobre a bicicletada junina), propondo a confecção de um manual sobre como se comportar no trânsito. Se a gente fizer esse manual em formato de panfleto, vai ser tanto pra ciclistas como pra motoristas. Mas é papel, provavelmente terá baixa distribuição e não mudará a vida de tanta gente. Em Campinas elaboramos (do grupo Campinas Cicloviável) um livrinho sobre a bicicleta e sobre como pedalar na cidade em parceria com a Emdec (equivalente à CET). O livrinho foi distribuído no Dia Mundial Sem Meu Carro Na Cidade de 2007, mas sobrou um monte.

A Emdec nos (Cicloviável) chamou pra darmos palestras pra professores da rede municipal (as multiplicadoras). Se não me engano, essas palestras se enquadravam na campanha Preferência pela Vida.
Foram 3 palestras pra 40 multiplicadoras cansadas em cada dia. Lembro que uma professora me disse numa palestra que, depois de ver que uma mulher pedala de Barão a Campinas e vai no cinema de bicicleta de noite, ela vai permitir aos filhos que pedalem nas ruas de Campinas. Uhú!!!

Em conseqüência desse contato com as multiplicadoras, fomos chamados por uma escola para ensinarmos as crianças de 1° e 2° série a se comportarem no trânsito. Tínhamos a esperança que essas crianças fossem de bicicleta pra escola, acompanhadas ou não de adultos, mas acabamos não voltando à escola pra saber que efeito a nossa intervenção teve.

Esse contato de cicloativistas com a escola foi esporádico e provavelmente só afetou a vida de 3 ou 5 pessoas. Mesmo assim, eu acredito no poder de formação da escola, e acho que é um local para se investir na formação de cidadãos capacitados para o trânsito.

Eu queria mesmo é que a TV passasse esse tipo de informação educativa nos intervalos comerciais, numa campanha assinada pela prefeitura ou órgão regulador de trânsito.

Museumsreif

Olha só o que eu achei. Maduro o suficiente pra ser peça de museu (>Museumsreif. E viva as línguas analíticas que sintetizam tudo numa palavra!).

De mudança

Toda vez que a gente faz mudança, percebe quanta tranqueira vinha acumulando. Numa pasta grande encontrei todas as minhas obras de arte produzidas no tempo de escola. Uma ou outra coisa valia a pena, mas o resto foi pro lixo. Me dei conta que eu fazia muitas camisetas. Os rascunhos estavam todos guardados:
Essa camiseta eu fiz pro Philip, mas aí um dia a mãe enfiou uma roupa nova e vermelha (que descoloriu, colorindo todas as outras roupas de cor de rosa) na máquina em que ela tava, e ele não usou mais a camiseta. Bobagem dele. A contraparte do rascunho eu ia usar pra fazer uma camiseta pra mim, pro meu irmão e eu sermos um par de vaso, apesar da distância geográfica entre nós. Não fiz.
Essa também foi pro Philip, e acho que a camiseta até já gastou. Desconfio que o desenho seja da minha mãe, e eu é que passei pro tecido da camiseta.
Fiz 8 camisetas pros meus amigos de faculdade e uma pra mim. Desenhei cada um fazendo o que gosta. Esse aí é o Paulo Punk. O Esteves toca violão clássico, o Dio conversa com um informante indígena, a Roberta está discutindo sobre as belezas do Rio, a Ellen está conversando com uma criança, a Vanessa está escrevendo, a Alessandra está representando no palco, o Everal está sentado num bar, o Rodrigo está todo moleque, no fundão da sala.
Outra camiseta que fiz pro Philip, quando eu ainda tava na escola. Ou será que foi pra mim?
Esses são trabalhos que a minha mãe quis jogar fora quando mudamos pra Nordwohlde. Acho que é um trabalho de faculdade, porque leva a data de 1976. Eu não pude permitir que fosse pro lixo.
Essa é uma xilogravura dela que também foi salva do lixo. As minhas coisas eu jogo fora na boa, mas as dela não dá pra dispensar. Bom, eu também não sou artista plástica, ela é.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Movimento horizontal, né?

Volto a tocar no assunto da bicicletada. O assunto me assombra faz uma semana. Não sei se é deformação acadêmica ou vaidade minha, mas eu gosto de torcer as palavras, revirar os conceitos e pedir por definições. Especialmente agora, que o assunto bicicletada e massa crítica estão em voga nos blogs dos participantes da bicicletada. Este é o assunto do momento por causa de algumas dissonâncias ocorridas na bicicletada de fevereiro.

A bicicletada se diz um movimento horizontal, ou seja, sem líderes. Ao invés de ficar no discurso vazio de que não há movimento social sem liderança, vamos deitar uma olhada na horizontalidade do movimento.

A bicicletada tem agenda, tem data marcada para acontecer. Alguém (indivíduo ou grupo) teve que estabelecer que toda última sexta do mês tem bicicletada, faça chuva ou não. Foi preciso estabelecer também o horário do evento: 18h concentração na Praça do Ciclista e 20h massa crítica. Além disso, é preciso que seja marcado no calendário que tal bicicletada é festiva (junina, dos executivos, da primavera, pelada e assim por diante) e que as pessoas venham paramentadas de acordo. Fora isso, ainda há aquelas bicicletadas que não caem na última sexta do mês, como a do dia mundial sem carro, a interplanetária, a próxima pelada etc. Alguém tem que pensar e divulgar isso tudo. Alguém tem que decidir o roteiro da massa crítica. Desta última vez estava estabelecido que a massa passaria na R. Amauri, pra provocar os consumidores daquela rua. Será que todos os participantes da bicicletada tinham lido aquela notícia que saiu na Veja São Paulo sobre os restaurantes, ônibus e valets? Pelo menos um ciclista leu e divulgou.

A bicicletada já existe faz uns anos e os participantes assíduos são rostos conhecidos, se não amigos. Esse grupo dos antigos pede pizza depois do pedal e vai na casa de um deles. Eu não faço parte deste grupo, porque só fui em poucas bicicletadas - muito cheias de gente. Existe uma certa divisão de tarefas no grupo de antigos que participa das bicicletadas. Não conheço o miolo do grupo, mas observo algumas referências cruzadas que indicam para alguns indivíduos. Tem os caras que fazem o corking. Tem o cara que mantém o blog mais lido e citado dentre os cicloativistas destes lados do Brasil. Tem o sujeito que é amigo de todos, companheiro de viagens e pedaladas. Tem os caras que agitam a saída, gritam palavras de ordem, discutem com polícia e tal. Tem a fotógrafa oficial da bicicletada. Tem ainda a pessoa que desenvolve toda a parte gráfica de divulgação (cartazes, pôsters, faixas, convites).

Esse grupo de pessoas é um grupo coeso, que se curte, se lê e faz referência cruzada. Outros que venham se agregar ao núcleo são bemvindos, claro. Alguns orbitam em volta dessa constelação, outros passam a fazer parte da formação e outros passam como chuva de meteorito. A simples existênca desse grupo mais núcleo-duro não aponta para um líder, mas para a não-horizontalidade do movimento. Se há um grupo de pessoas que se sente responsável pela realização da bicicletada, ela é mais que uma coincidência organizada: ela é filha de um certo grupo de pessoas.

Se o movimento fosse mesmo horizontal, as cenas de violência gratuita de ciclistas contra motorizados durante a bicicletada não seriam discutidas em tom de lástima. Existe um grupo de pessoas que se sente responsável pela bandeira da bicicletada. Um grupo que se alegra com o aumento de participantes, acha a massa crítica linda, que ela ganhou visibilidade e força, mas toma as vergonhas daqueles que agrediram alguns motorizados. Um grupo que se pergunta o que está errado no formato da bicicletada, o que dá brecha para essas atitudes, como é possível disseminar informação sobre os propósitos da bicicletada. Enfim, um grupo que se sente responsável pela bicicletada. Talvez este grupo não tenha consciência que se parar de anunciar a bicicletada, se parar de vir e se fizer de conta que ela não existe, a bicicletada provavelmente mingua.

terça-feira, 3 de março de 2009

Estranho

Um louva-a-deus entrou no meu quarto e ficou lá por um bom tempo. Interagindo com ele, percebi como o bichinho é invocado. Não é à toa que um certo estilo de kung fu carrega o seu nome. Mas o que faz um louva-a-deus no meu quarto? Acho que foi a primeira vez na vida que vi um, e logo ele foi se emaranhar no meu cabelo...
Um grilo completamente frenético e atordoado passou por todos os cômodos da casa. Consegui fotografá-lo na cozinha. O que leva um grilo a explorar a minha casa? Sede ou fome? Faz uns dias que não chove e faz muito calor.
Ouvi o passarinho que caiu do ninho no limoeiro piar. Encontrei-o de boca aberta. Trouxe água num copo porque não achei nenhum conta-gotas na casa. Quis alimentar o bichinho e cortei uma lagarta (lagarta tem de monte, minhoca é que é difícil) em três e dei pra ele, numa pinça. Observei uma bolota escura descendo pela garganta transparente do passarinho. Parou de piar e de levantar a cabeça com a boca aberta.
Já é o terceiro passarinho que cai pra fora do ninho no limoeiro, e cai longe, bem no meio do quintal. Como ele caiu de lá? Amanheceu morto e coberto de formigas. Desconfio que eu tenha matado o bicho quando ofereci lagarta no jantar. Acho que as mães-pássaro dão comida regurgitada aos filhotes, pré-processada. Mas não sei.
Vários passarinhos entraram em casa nos 2 últimos dias. Se não entraram, voltaram várias vezes à porta fechada, de cabeça baixa. Que venham voando até a pia ou o fogão eu entendo porque já vi. Mas que venham pra debaixo da mesa, em cima do banquinho, no meio do chão da cozinha, que são lugares onde não tem comida nem água, me espanta. A insistência deles também me surpreende. É o calor, a falta de chuva, ou tem outra coisa influenciando esses comportamentos desinibidos?
Este passarinho da foto, todo paradão e se deixando fotografar de perto, morreu. Tombou de lado, fechou os olhos e parou de respirar.

Diálogo

Cabelo deixou um comentário que eu quero destacar:

Oi Lou!

Queria dizer uma coisa. Como um estudo sociológico da bicicletada, os textos esclarecem alguns fatos e demosntram as diferenças entre as formas de ação direta, perfeito. No entanto algumas coisas precisam ser ditas.

Ao contrário do que o anônimo disse, a "causa" não é só a bicicleta na rua, nem de longe é isso. Existe o problema dos carros tomando o espaço público, trafegando muito rápido dentro da cidade, do transporte público sucateado. A bicicleta surge como uma alternativa, mas ela sozinha não fará milagres.

Podemos passar horas discutindo sobre causas, formas de ação direta, maneiras de se conscientizar e pressionar o poder público, mas o principal é que várias pessoas, cada um a sua maneira tem feito a sua parte.

Quem gosta de bike mesmo, não usa ela como se fosse um carro do ano, né? Porque tem cara que "milita" pela bike, mas a dele parece um SUV de tanta peça importada, mas cada um cada um.

Acho que São Paulo precisa da bicicletada, mesmo ela seguindo ou não as "regras oficiais do jogo". Vamo que vamo que o mundo precisa da gente.

Oi Cabelo,

não acho que a causa da bicicletada seja bicicleta na rua, porque o que mais ouço durante as bicicletadas - e o que me preocupa é: ocupação das ruas pela bicicleta. E é o que acontece, porque as bicicletas acabam ocupando mais espaço que os motorizados durante a bicicletada.

Não acho que a bicicleta seja a solução dos problemas de trânsito, mas a educação para o trânsito, a meu ver, é um forte candidato. Se as crianças são educadas já nas escolas a pedalar na mão, nunca na calçada, sinalizando, parando no farol e respeitando pedestres, ótimo. A lentificação do trânsito também tem a ver com educação para o trânsito (do tipo instrução mesmo e do tipo multa por radar ou outras formas de concretizar o traffic calming, tipo lombada e afunilamento da via). O ciclista e o pedestre são os agentes de trânsito mais frágeis que há nesse nosso trânsito assassino, e isso precisa ser revertido, criando nos motorizados uma cultura de respeito ao ser humano (ao invés de desejo de velocidade, status e moda). Espero que campanhas educativas consigam criar esta consciência de respeito ao outro. Não subestime o poder das campanhas: usamos cinto de segurança com uma naturalidade impensável 15 anos atrás; e a população jovem no Brasil não acha cigarro cool, o que é o contrário dos adolescentes que começaram a fumar 15 anos atrás.

Conversei bastante com amigos sobre essa coisa de salvar o planeta e cada um fazer a sua parte. Salvar o planeta está na moda, assim como o aquecimento global está na moda. Está moda falar dessas coisas, mas as pessoas continuam lavando calçada com vassoura hidráulica, enfiando toda e qualquer mercadoria em sacos plásticos, ignorando vazamentos de água e deixando a luz do banheiro acesa. O conforto prevalesce e vejo poucas ações que de fato contribuam para a redução do desperdício ou reparação dos erros dos outros (despoluição dos rios e tal). Salvar o planeta ainda é um discurso abstrato pra a maioria da população, portanto as pessoas ainda não sabem qual seria a sua parte nesse processo. Tenho cá pra mim que a adoção de uma vida simples e mais ligada à natureza é uma forma de respeitar a si mesmo e o planeta.

Eu não uso a bicicleta para salvar o planeta. Eu pedalo porque eu não tenho carro. Não tenho carro porque sai caro ter carro. Eu não saberia nem mesmo consertar um carro. Não acho que o mundo precisa de mim enquanto ciclista. Me vejo mais como um exemplo de equilibrista entre as demandas da vida urbana (tenho computador, vou ao supermercado, uso produtos industrializados etc.) e uma vida simples (planto algumas coisas, cozinho, uso coletor menstrual, rejeito embalagens plásticas, caminho e pedalo, não tenho carro ou celular).

Não acho que São Paulo precisa da bicicletada, porque ela gera mais um conflito no trânsito. Acho que São Paulo precisa de campanhas educativas para o trânsito. Campanhas encabeçadas pelo poder público, que atinjam toda a população. Na Holanda, onde todo mundo pedala, as crianças aprendem a se comportar no trânsito na escola (não necessariamente com os pais). O trânsito é muito mais lento nas cidades porque as cidades são projetadas para ciclistas e pedestres. Existe um exemplo de uma cidade em que as sinalizações foram gradativamente retiradas: primeiro os faróis, depois as placas, as pinturas no chão, as calçadas. Todos compartilham a rua e a velocidade máxima é ditada por quem está na frente (seja o motorizado, ciclista ou o pedestre). Pra chegar nesse nível de respeito ao outro no trânsito foi preciso passar pela educação. Os ciclistas holandeses não usam capacete porque não é necessário.
Na China e na Índia o processo é o contrário: as coisas sempre funcionaram sem sinalização, e conforme o número de veículos motorizados foi aumentando, foi sendo preciso regulamentar o trânsito através de vias segregadas, faróis, placas e as pessoas começam a se armar contra as ameaças do trânsito (máscaras, capacete, roupas claras, vidro fumê, travas etc.).

Por que eu vou na bicicletada? Pra entender.

Carrocracia

Mamá, los autos son seres que atacam al hombre para defenderse de quê?
.
Era noite e havia pouco movimento em Barão Geraldo. Desci a Albino, que é apertada mesmo e parei no farol vermelho ali do Santander. Um ônibus quase não conseguiu parar atrás de mim. Olhei pra trás e vi a lataria do ônibus pertinho do meu ombro. Pôxa, não dava pra ter freado antes? Olho pro motorista e aponto pro farol fechado. Com as duas mãos, ele mostra a rua vazia.
Existe a lenda de que não é seguro parar no farol à noite. Alguém pode surgir de alguma sombra e te assaltar. Tanto é que alguns faróis não registram mais os motoristas que passam o farol vermelho a partir de um certo horário. Em Campinas e Barão este horário é 19:00. Isso é terrorismo.
O motorista do ônibus adota pra si essa mentalidade, apesar de não correr risco nenhum de ser assaltado (ele está sentado num lugar muito alto, as janelas também são altas e as portas não abrem a não ser que ele queira que abram). Pode ser também que ele estava simplesmente curtindo a alta velocidade em que estava, já planejando o momento em que me ultrapassaria, quando de repente a ciclista pára no farol vermelho, cortando o seu barato.
* * *
Era de tarde, um calor dos infernos. Sinalizei que viraria à direita, em direção ao Terminal de Barão e parei antes da faixa de pedestres, pra mulher que ainda estava na calçada atravessar para o Terminal. Buzinas atrás de mim, mas o meu pé já estava no chão. A mulher olha assustada pra Kombi fazendo carreto, eu sinto a pancada do retrovisor da Kombi no meu ombro esquerdo. Grito um palavrão, mas duvido que os taxistas ali, a galera da frutaria e do Terminal tenha entendido por que eu parei e porque a Kombi não parou. Eu devia ter gritado outra coisa mais esclarecedora, mas só saiu palavrão.
A mulher se recolheu atrás do poste e ficou esperando eu passar. Eu devia tê-la informado que eu parei pra ela passar e só voltaria a me movimentar quando ela tivesse atravessado a rua. Esperei, ela foi, eu fui. Pedestre sempre dá primazia pro motorizado, sempre espera e não sabe que tem preferência (especialmente nas faixas de pedestre) garantida no Código de Trânsito. Pedestre se coloca no papel de vítima e desconhece seus direitos e deveres, dando assim todos os direitos ao carro que quer passar. E o carro passa buzinando, reforçando a carrocracia.

É isso aí

Caro Anônimo, quis te dar maior visibilidade, porque acho que estamos em sintonia:

É bem triste formar a ínfima minoria que consegue fazer a distinção clara entre "critical mass" e "corking". Enquanto muitos desavisados, num lampejo de protagonismo social e na ânsia de participar de algum grupo imprimem ao imaginário social uma conotação que desgasta a imagem do uso da bicicleta no trânsito. Coisa de movimento social! Sempre querem carregar mais bandeiras do que suas próprias causas. Se a causa é a bicicleta na rua, precisamos pois então da bicicleta na rua e só! Só que aquelas pessoas, como você minuciosamente descreve, não são da turma da bicicleta na rua, são dessa tal de bicicletada!
Logo falta-lhes o conhecimento tácito, de quem experimenta, como bem diz, fechadas, brigas por espaço e atenção, poluição, buzinadas e vidros fumê impenetráveis.

Quem brinca de andar de bicicleta com seu "abadá", atrás do trio elétrico e dentro dos cordões de isolamento do corking não vai nem entender qual o problema do ciclista com um vidrô fumê que não dá seta! A baderna de massa dificulta o acesso e a socialização da informação! O uso do corking elimina de vez o exercício fundamental no indivíduo em qualquer condição de trânsito: O de Sinalizar e o de Comunicar-se!

Aposto que muitos devem sair de tal passeio analfabetos em relação a como se posicionar e de que maneira se fazer visível quando solitário no trânsito! Querem conscientizar os motoristas? Como? Se não fazem a lição de casa...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Transposição de termos

Foto: luna.rosa


Massa crítica (ou critical mass) é um termo que vem da Física e designa uma massa mínima necessária para desencadear uma reação. O termo foi transposto para um fenômeno de organização do trânsito observado na China comunista. Naquele contexto, a bicicleta era o principal meio de transporte da população e não havia sinalização de trânsito (farol, placa ou pintura no chão, muito menos lombadas e afunilamentos da via que funcionam como traffic calming). Na ausência de sinalização que organize o trânsito, emerge um sistema que foi chamado de critical mass. Este fenômeno é observável nos cruzamentos.

Num cruzamento tem a galera que passa (passantes) e a galera que espera (esperantes). Num dado momento, o número de esperantes é tão grande, que eles tomam a iniciativa de avançar. Intimidados pelo número de pessoas que se põem em movimento, os passantes páram e esperam. Essa dinâmica acontece sem que se troque sinais ou signos. É o contingente de pessoas que pressiona para o movimento.

Acontece que o nosso trânsito não se baseia na observação que o indivíduo faz do fluxo de pessoas. Temos semáforos, placas e pinturas de chão que nos orientam, e nas quais confiamos para que haja ordem no trânsito. A bicicletada não respeita estes reguladores do trânsito quando faz o corking. A pessoa que está no seu carro espera o farol abrir. Mesmo quando abre, não consegue sair do lugar porque tem uma barreira de ciclistas impedindo sua passagem. O farol abre e fecha 3 ou 4 vezes e a pessoa no carro não entende o que é a bicicletada ou por que deve se atrasar. Os pedestres sentem-se intimidados pelos ciclistas que passam no farol vermelho (gritando, olhando pros lados, segurando coisas numa mão). Não atravessam quando um ciclista pára e alguns outros páram atrás daquele ciclista, porque muitos outros não páram. Se um ciclista cool o suficiente gritar para os outros ciclistas pararem, os pedestres poderão atravessar a rua pela faixa de pedestres. Mas se o ciclista que gritar para pararem não for cool ou for desconhecido, seus gritos serão ignorados.

Houve um momento em que fizeram faixas pedindo paciência aos motorizados. Mas eu não vi nenhuma faixa deste tipo na bicicletada de fevereiro. O uso das faixas e do corking são formas de permitir que a massa de ciclistas passe sem dispersar. A dispersão é um problema porque na massa há ciclistas inexperientes, lentos, que páram para fotografar e filmar o movimento. Se a bicicletada formasse um bolo compacto, contínuo e ininterrupto de ciclistas, aí sim o termo massa crítica seria adequado. Mas não é o caso, e por isso a organização do trânsito não é espontânea, mas precisa ser regulada por corkings que contêm motoristas nervosos. Aí surgem os conflitos.

Sou a favor da bicicleta como meio de transporte. Vejo a bicicleta como um veículo que faz parte do trânsito e deve seguir as regras de trânsito localmente estabelecidas. Acho que qualquer movimento social que promove o uso diário da bicicleta mas organiza formas artificiais de protesto (como por exemplo a bicicletada ou passeios ciclísticos contra o aquecimento global) problemático, porque acaba gerando conflitos com motorizados, segregando a bicicleta e não seduzindo motoristas, pedestres e usuários do transporte coletivo a usarem a bicicleta.