quinta-feira, 5 de março de 2009

Movimento horizontal, né?

Volto a tocar no assunto da bicicletada. O assunto me assombra faz uma semana. Não sei se é deformação acadêmica ou vaidade minha, mas eu gosto de torcer as palavras, revirar os conceitos e pedir por definições. Especialmente agora, que o assunto bicicletada e massa crítica estão em voga nos blogs dos participantes da bicicletada. Este é o assunto do momento por causa de algumas dissonâncias ocorridas na bicicletada de fevereiro.

A bicicletada se diz um movimento horizontal, ou seja, sem líderes. Ao invés de ficar no discurso vazio de que não há movimento social sem liderança, vamos deitar uma olhada na horizontalidade do movimento.

A bicicletada tem agenda, tem data marcada para acontecer. Alguém (indivíduo ou grupo) teve que estabelecer que toda última sexta do mês tem bicicletada, faça chuva ou não. Foi preciso estabelecer também o horário do evento: 18h concentração na Praça do Ciclista e 20h massa crítica. Além disso, é preciso que seja marcado no calendário que tal bicicletada é festiva (junina, dos executivos, da primavera, pelada e assim por diante) e que as pessoas venham paramentadas de acordo. Fora isso, ainda há aquelas bicicletadas que não caem na última sexta do mês, como a do dia mundial sem carro, a interplanetária, a próxima pelada etc. Alguém tem que pensar e divulgar isso tudo. Alguém tem que decidir o roteiro da massa crítica. Desta última vez estava estabelecido que a massa passaria na R. Amauri, pra provocar os consumidores daquela rua. Será que todos os participantes da bicicletada tinham lido aquela notícia que saiu na Veja São Paulo sobre os restaurantes, ônibus e valets? Pelo menos um ciclista leu e divulgou.

A bicicletada já existe faz uns anos e os participantes assíduos são rostos conhecidos, se não amigos. Esse grupo dos antigos pede pizza depois do pedal e vai na casa de um deles. Eu não faço parte deste grupo, porque só fui em poucas bicicletadas - muito cheias de gente. Existe uma certa divisão de tarefas no grupo de antigos que participa das bicicletadas. Não conheço o miolo do grupo, mas observo algumas referências cruzadas que indicam para alguns indivíduos. Tem os caras que fazem o corking. Tem o cara que mantém o blog mais lido e citado dentre os cicloativistas destes lados do Brasil. Tem o sujeito que é amigo de todos, companheiro de viagens e pedaladas. Tem os caras que agitam a saída, gritam palavras de ordem, discutem com polícia e tal. Tem a fotógrafa oficial da bicicletada. Tem ainda a pessoa que desenvolve toda a parte gráfica de divulgação (cartazes, pôsters, faixas, convites).

Esse grupo de pessoas é um grupo coeso, que se curte, se lê e faz referência cruzada. Outros que venham se agregar ao núcleo são bemvindos, claro. Alguns orbitam em volta dessa constelação, outros passam a fazer parte da formação e outros passam como chuva de meteorito. A simples existênca desse grupo mais núcleo-duro não aponta para um líder, mas para a não-horizontalidade do movimento. Se há um grupo de pessoas que se sente responsável pela realização da bicicletada, ela é mais que uma coincidência organizada: ela é filha de um certo grupo de pessoas.

Se o movimento fosse mesmo horizontal, as cenas de violência gratuita de ciclistas contra motorizados durante a bicicletada não seriam discutidas em tom de lástima. Existe um grupo de pessoas que se sente responsável pela bandeira da bicicletada. Um grupo que se alegra com o aumento de participantes, acha a massa crítica linda, que ela ganhou visibilidade e força, mas toma as vergonhas daqueles que agrediram alguns motorizados. Um grupo que se pergunta o que está errado no formato da bicicletada, o que dá brecha para essas atitudes, como é possível disseminar informação sobre os propósitos da bicicletada. Enfim, um grupo que se sente responsável pela bicicletada. Talvez este grupo não tenha consciência que se parar de anunciar a bicicletada, se parar de vir e se fizer de conta que ela não existe, a bicicletada provavelmente mingua.

7 comentários:

pedalante disse...

Olá jovem professora,

Boa reflexão sobre a bicicletada, beira as raias da Sociologia, transversalmente a psicologia social ( isso pq , vc não entrou na analise discursiva, dos blog, e troca de emials na lista).

gostaria de continuar essa prosa, em um café , na sua cidade - Campinas.

Abraços

p.s vou divulgar sua reflexão sócio/psico na lista, como link

André Pasqualini disse...

A horizontalidade do movimento da Bicicletada Paulistana esta justamente na possibilidade de uma pessoa que nunca foi na Bicicletada, aparecer e ter a mesma voz que teria um participante mais antigo.

Esse "Grupo" que você diz, é formado exatamente por pessoas que doam muita parte do seu tempo para divulgar e procurar realizar ações para que a Bicicletada tenha a mesma alegria e prazer que atraiu centenas de pessoas mês a mês.

Esse "grupo" realmente existe. A diferença desse grupo para outros grupos de movimentos (horizontais ou não) é que qualquer pessoa pode participar dele. Tanto é que temos nele pessoas que estão a mais de 4 anos e pessoas que estão a um mês.

Temos pessoas que sumiram, voltaram e sumiram novamente, é um grupo de pessoas que vão para a Bicicletada com o intuito um pouco mais amplo do que simplesmente participar do passeio. Sem desmerecer as pessoas que vão com esse intuito, eu mesmo já liguei o foda-se em algumas bicicletadas e procurei apenas curtir o role. Garanto que a experiência foi muito interessante.

Num grupo de pessoas tão heterogêneo, é comum que haja pessoas diferentes, umas mais ativas e outras mais passivas.

A bicicletada tem sim uma agenda, que é toda ultima sexta feira do mês. Por essa ótica, o lider da Bicicletada é a galera de São Francisco (EUA), que criou o Critical Mass e definiu que a data da celebração seria toda última sexta do mês, no horário do Rush.

Claro que no começo, um grupo de "amigos e conhecidos" (da qual não fazia parte), definiu as datas e horários, tanto é que antes ela era realizada no sábado e depois passou para a sexta.

Temáticas? Qualquer um propõe, vai no tema quem quiser. Mas é interessante que haja uma preocupação para que todos, mesmo os participantes que não olham a lista, saibam dos temas propostos para vir a carater ou não. Da mesma maneira que já conversei com pessoas, durante a bicicletada, que não sabiam do tema (pessoas da lista de discussão) já encontrei pessoas que foram a carater por terem recebido um convite da Bicicletada com o tema proposto.

Convites? Faz quem quer, já que todos sabemos as datas, qualquer pessoa pode se sentir a vontade de criar um convite e divulgar. Sei de donos de bicicletarias que bolaram um cartaz e divulgam a bicicletada. Nele colocam que ela ocorre toda última sexta feira do mês e deixam o cartaz fixado por meses em seus estabelecimentos.

Como você disse, a Bicicletada existe faz anos e a amizade entre os participantes é algo inevitável. O que gera o pedido de umas pizzas na casa de um dos participantes ou mesmo na própria praça, como ocorreu inúmeras vezes. O grande barato é que nessa pizzas, já vi várias pessoas novas que não se sentiram constrangidas e resolveram participar desse happy hour e hoje vejo essas pessoas em várias pizzas, bicibrejadas, etc.

Bicicletadas extras, essas sim, tirando o Dia Sem Carro, que é um movimento mundial, que é uma data que todo mundo que pedala sabe que os ciclistas vão se reunir, as demais são promovidas por um grupo e não pela "Bicicletada". Mas esses encontros não podemos dizer que é "a Bicicletada". Se for assim, segundo a globo, o evento do Bike Tour foi a maior bicicletada que essa cidade já viu.

Aliás, a Bicicletada é aquele movimento que começa as 18 horas da última sexta do mês e termina por volta das 23h00 do mesmo dia. O que ocorre depois são reflexões entre os participantes, pelos canais de comunicação que eles criaram. Seja uma lista de discussão, seja por uma página no Orkut, ou seja no bondinho que os leva para casa.

Um dos grandes erros que eu vejo, é as pessoas acharem que a lista de discussão da Bicicletada "é" a Bicicletada, algo que ocorre até dentro da lista. Ela é apenas uma lista de discussão, aberta a quem quiser participar e que procura manter o mesmo espírito da Bicicletada.

Desculpe pelo longo comentário, mas o objetivo é justamente esclarecer algumas de suas dúvidas que são comuns a vários ciclistas que participam da Bicicletada.

Abraços

André Pasqualini

fixamente disse...

Olá,

Seu texto de reflexão, lembrou Cassirer (antropologia filosófica):
"Desenvolvemos a mania de dar nome às coisas, como se quisesse contar aos outros os seus nomes ou nos chamar a atenção para as coias que está se examinando. Olha e aponta para um objeto, ou toca-os com a mão, diz-lhe o nome olhando para os companheiros. Tal atitude não seria compreensível não fora o fato de que o nome, no desenvolvimento mental, exerce função de primeiríssima importância. Aprendendo a nomear as coisas, não acrescentamos simplesmente uma lista de sinais artificiais ao nosso conhecimento anterior de objetos empíricos já prontos. Aprende, antes, a formar os conceitos desses objetos, a entrar em acordo com o mundo objetivo. Daí em diante, pisa conceitos destes objetos, a entrar em acordo com o mundo objetivo." Os grifos são nossos.

..........

marciocampos disse...

Pense muito não, apenas se disponha a ficar depois das bicicletadas, dividir uma pizza, uma cervejinha ou suco, a conversar sobre as possibilidades, trazer opiniões e sugestões, encampe uma tarefa eleita importante por você mesma, faça ! Então será uma das dezenas ou centena de líderes.
É assim, quem determina o tempo que terá, a tarefa que fará e como é a própria pessoa, tudo em prol de um coletivo que se move em pequenas ações.
Mas ninguém é obrigado a nada, se quiser apenas continuar observando , observe, participe se sentir essa vontade.

É isso

Abraço

Márcio Campos

João Lacerda disse...

Professora,

Gostei MUITO da sua reflexão. Me sinto como um dos "vice-lideres". Mas não fui eleito pra nada e portanto não posso ser empossado.

Gosto muito de pensar durante a bicicletada e depois e acredito mesmo que não haja essa tão defendida horizontalidade. Tem que faça mais e qualquer um pode fazer.

É portanto algo democrático em que líderes naturalmente aparecem e tem tanto poder quanto os outros deixam que ele tenha. É uma liderança portanto realmente democrática, mas há sempre diversos focos de liderança.

Ficou apenas a dúvida, você foi a alguma bicicletada ou refletiu sobre isso diretamente de Campinas?

iglou disse...

Senhores,

muito obrigada pela leitura e pelos comentários. Quem sabe a gente se tromba por aí e amadurece mais essas idéias.

Anônimo disse...

Engraçado, se não fosse trágico!
Quando da discussão sobre o em si da bicicletA, sobre a transposição dos termos e seu desdobramento materializado na legitimidade daqueles que dizem nos representar: ficamos às moscas! Só um moço lá que...não entendi mto bem o que quis dizer! Agora.......que a senhorita endiabrada toca a ferida das relações de poder e das macro-estruturas eis que surgem infinitos pedevela de gabinete pra resguardar um grupo, espaço ou ideal e dizer que é isso ou aquilo! Conseguem até identificar o eixo espistomológico da conversa (as ciências sociais agradecem, ou não!), mas ainda assim não me ajudam a esclarecer como poderíamos garantir o acesso a informação de modo que ao término de cada pedal realmente se experimentasse novas formas de esclarecimento sobre as reais condições de uso da bicicleta no mundo que é!
Será que ninguém tem nada a dizer sobre o post da transposição de termos?
Da limitação de um movimento que faz corking em construir uma ação educativa, que penetre nos hábitos e transforme a cultura?
é muito mouse e pouco guidão!
é muito discurso e pouco legado!