domingo, 22 de março de 2009

Nomes de linhas

Nunca peguei o JARDIM HERPLIN nem por engano, porque tenho medo de herpes. Não gostava muito de pegar o SOCORRO, porque eu ficava imaginando o ponto final dessa linha como sendo um lugar obscuro. Mas sempre desconfiei que não tinha batata nenhuma no ponto final do LARGO DA BATATA.

Um colega de faculdade pegava o ANHANGABAÚ, mas como o ônibus o lembrava dos Flinstones, ele passou a apelidar a linha de ANHANGABADABADÚ. Na placa do meu ônibus escreveram as letras tão grandes, que não sobrou espaço pros suprassegmentais (o til) e ficou BUTANTA.

Andei reparando que qualquer tentativa poética no nome da linha denuncia um certo grau de periferia. Nomes de mulher são brandos, e não evocam tanto a imagem de lixo na rua, vielas apertadas, desocupados nas ruas e cores confusas. JARDIM ANGELA, JARDIM SELMA e JARDIM MIRIAM não são tão ruins assim. Mas VILA JOANIZA e VILA CARMOSINA evocam um "vixe" que ainda fica chiando nos ouvidos por um tempo.

Quando estou no Paraíso, tenho que pegar o ELDORADO. Ah, sim, existe a variante: JARDIM ÉDEN, mas é outra linha e fica em outro lugar. O VILA NATAL volta como VILA IMPÉRIO. Um dia, num momento de dislexia brava, li VIA INFERNO. Esse também não é bom de pegar, decidi.
Mas voltando à poética e à dualidade céu-inferno, temos a alternativa: NOVO HORIZONTE.

Vila e Jardim são estratégias de amenizar a pobreza do destino, mas não são as únicas disponíveis. Há também PARQUE RESIDENCIAL COCAIA e CHÁCARA BELA VISTA.

Como são chamadas as linhas de ônibus que vão para os bairros nobres da cidade? Veja bem, ônibus em bairro chique só serve para levar e trazer os empregados, e o ponto final não é no tal bairro chique. O ônibus só passa nas principais avenidas que margeiam a zona residencial e boa. Se um dia você se perder num bairro residencial chique de São Paulo, vai se sentir completamente abandonado. Não há ninguém nas ruas a quem você possa pedir informação. Os muros são altos, as casas enormes, as ruas limpas, as árvores velhas. Não se vê crianças soltando pipa, jogando bola, sentadas na calçada ou brincando de esconde-esconde; não se vê mulheres carregando sacolas de supermercado, puxando carrinhos de feira ou conversando com a vizinha no portão; não se vê carros rebaixados com um som irado e o cara com o braço na janela, exibindo o seu orgulho. Não há ninguém nas ruas e não passa ônibus ali.

Um comentário:

Mariana disse...

Eu trabalho num delivery e todos os dias escuto nomes de pessoas, e a verdade, alguns são muito engraçados.
Os sobrenomes também são bastante engraçados, então passamos um bom momento no trabalho por coisas como essas.