terça-feira, 3 de março de 2009

Carrocracia

Mamá, los autos son seres que atacam al hombre para defenderse de quê?
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Era noite e havia pouco movimento em Barão Geraldo. Desci a Albino, que é apertada mesmo e parei no farol vermelho ali do Santander. Um ônibus quase não conseguiu parar atrás de mim. Olhei pra trás e vi a lataria do ônibus pertinho do meu ombro. Pôxa, não dava pra ter freado antes? Olho pro motorista e aponto pro farol fechado. Com as duas mãos, ele mostra a rua vazia.
Existe a lenda de que não é seguro parar no farol à noite. Alguém pode surgir de alguma sombra e te assaltar. Tanto é que alguns faróis não registram mais os motoristas que passam o farol vermelho a partir de um certo horário. Em Campinas e Barão este horário é 19:00. Isso é terrorismo.
O motorista do ônibus adota pra si essa mentalidade, apesar de não correr risco nenhum de ser assaltado (ele está sentado num lugar muito alto, as janelas também são altas e as portas não abrem a não ser que ele queira que abram). Pode ser também que ele estava simplesmente curtindo a alta velocidade em que estava, já planejando o momento em que me ultrapassaria, quando de repente a ciclista pára no farol vermelho, cortando o seu barato.
* * *
Era de tarde, um calor dos infernos. Sinalizei que viraria à direita, em direção ao Terminal de Barão e parei antes da faixa de pedestres, pra mulher que ainda estava na calçada atravessar para o Terminal. Buzinas atrás de mim, mas o meu pé já estava no chão. A mulher olha assustada pra Kombi fazendo carreto, eu sinto a pancada do retrovisor da Kombi no meu ombro esquerdo. Grito um palavrão, mas duvido que os taxistas ali, a galera da frutaria e do Terminal tenha entendido por que eu parei e porque a Kombi não parou. Eu devia ter gritado outra coisa mais esclarecedora, mas só saiu palavrão.
A mulher se recolheu atrás do poste e ficou esperando eu passar. Eu devia tê-la informado que eu parei pra ela passar e só voltaria a me movimentar quando ela tivesse atravessado a rua. Esperei, ela foi, eu fui. Pedestre sempre dá primazia pro motorizado, sempre espera e não sabe que tem preferência (especialmente nas faixas de pedestre) garantida no Código de Trânsito. Pedestre se coloca no papel de vítima e desconhece seus direitos e deveres, dando assim todos os direitos ao carro que quer passar. E o carro passa buzinando, reforçando a carrocracia.

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