quarta-feira, 18 de março de 2009

Morar em São Paulo

Não acordo mais com a luz do sol ou o som dos passarinhos. Acordo com as marteladas que o vizinho dos fundos dá na parede e com as marteladas que os pedreiros dão no portão que estão instalando na casa do vizinho do lado. Tento dormir de novo, mas o alarme disparado de um carro e os latidos dos cachorros da vizinhança, irritados com o som do alarme, me arrancam da cama. Enquanto desço as escadas, o cheiro de café fresco faz tudo ficar bem outra vez.

Fui ao parque Alfredo Volpi, perto da USP, me alegrar com a sensação de poder pisar na terra. Ao sair de lá a pé, tentei alcançar a ponte Cidade Jardim, pra pegar o trem. Três faixas de carros passando constantemente às 17:30 fizeram com que eu reformulasse os meus planos. Era preciso atravessar a ponte dentro de um ônibus. Caminhei até o semáforo e me juntei aos pedestres que queriam atravessar a Av. dos Tajurás. O homenzinho verde acendeu e atravessamos até o canteiro central, mas não conseguimos atravessar a outra pista até a calçada, porque os faróis não estão integrados e privilegiam o fluxo contínuo dos motorizados. Ficamos lá, espremidos no canteiro central, mastigando o vento dos carros que passavam e inalando a poluição que soltavam pela traseira. Depois de muito apertar o botão do farol de pedestres e de muito esperar pela nossa vez, conseguimos atravessar. Perdi a paciência e caminhei até a Marginal, onde eu planejava pegar um ônibus até o Term. Sto. Amaro e de lá outro pra casa. Grande erro. Trânsito a partir da Ponte Morumbi. Resumo da ópera: demorei 2 horas pra percorrer 11km. Maravilha!

De bicicleta eu provavelmente demoraria 40 minutos pra percorrer essa distância, mesmo com morro no meio do caminho. Mas eu não tenho muita coragem de sair de casa com nenhuma das minhas bicicletas. Ninguém aqui pedala bicicletas como as minhas, elas chamam atenção. O cara da bicicletaria ali de baixo já me avisou que é pra eu ficar esperta se tiver dois caras (principalmente se for de boné) vindo na minha direção. Fora isso, o asfalto aqui é um coletivo de remendos e buracos e o espaço da rua é bem restrito.

A chuva que caiu ontem causou caos. Não vi os pontos de alagamento na cidade que o noticiário mostrou. Eu estava no telefone com uma moça que me dizia que lá onde ela estava (duas ruas pra cima) não tinha energia. Quando desliguei o telefone, caiu a força aqui também. Meu farol de bicicleta foi uma mão na roda até juntarmos velas suficientes para vermos o que estava no nosso prato.

Fui dormir ouvindo a criança doente da casa ao lado se esgoelando de tanto chorar, como todas as noites. Antes de apagar a vela, ouço uma buzina-sirene de carro de polícia chamando atenção ou espantando alguém na rua. O cheiro de pavio queimado me embalou no sono e todos os barulhos foram apagados.

Nenhum comentário: