sábado, 29 de novembro de 2014

Ciência por encomenda

Está rodando na TV aberta uma campanha da Santo Antônio Energia. A primeira peça publicitária foi exibida em meados de novembro. Uma moça anuncia um livro chamado "Peixes do Madeira", patrocinado pela Santo Antônio Energia, em que são catalogados todos os peixes encontrados no rio Madeira antes da construção da hidrelétrica. A moça diz que o livro foi lançado "há pouco".

Fui ao site da Santo Antônio Energia e conferi que os 3 volumes foram publicados em 2013. Pois é: 2014 está quase acabando e o livro foi lançado "há pouco". O deslocamento não é só temporal, mas também é ético: uma usina hidrelétrica financia um estudo para inventariar todos os peixes que havia no rio antes de exterminá-los. Entendo o livro como uma tentativa de empalhar um exemplar de cada espécie nova, rara, desconhecida e de uso comercial antes da implantação da barragem.

Catalogar a diversidade biológica - sabendo que a vida de todos os animais catalogados está ameaçada por quem paga o estudo - é fazer ciência?

A segunda peça publicitária é sobre o pirarucu de cativeiro criado no Reassentamento Santa Rita (responsabilidade da Santo Antônio Energia). A mesma moça anuncia euforicamente que agora há mais pirarucu em cativeiro que no rio Madeira. Isso é monocultura, homogeneização da vida. O que aconteceu com a biodiversidade celebrada em "peixes do Madeira?"

Desde 2012 os pescadores perceberam que o peixe que estavam acostumados a pescar sumiu. Tiveram que pescar mais longe, tiveram que pescar outros peixes. Com a cheia de 2014, pela qual as usinas são co-responsáveis, o ecossistema foi drasticamente transformado. Com a cheia, todos os lagos-refúgio em que havia alevinos (peixes jovens) foram transformados em rio de lama. Os locais de desova foram desfigurados. Os ribeirinhos anunciam agora uma grande crise do peixe nos rios.

Enquanto isso, Rondônia se transforma no maior produtor de peixes em cativeiro com a ajuda da ciência e tecnologia. Essa ciência, que aceita compromisso com uma empresa, não se interessa pelo ciclo da vida, mas pela geração de lucro.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ciência e divulgação

Quando estive na Holanda, em Nijmegen, fui estudar Teoria da Adaptação com Herman Kolk, autor da teoria. Toda a teoria baseia-se na assunção de que a fala afásica não é resultado direto da lesão cerebral, mas de uma adaptação que o sujeito afásico faz à sua lesão. Essa adaptação, no caso de pessoas com fala agramática, seria temporal: o sujeito percebe que, devido às pressões da situação do diálogo, não tem tempo para encontrar e combinar as palavras, então fala "telegraficamente".

Cheguei em Nijmegen com dados de MS e OJ, sujeitos brasileiros que falam português. Kolk não entende português, mas compartilhamos as categorias de palavras. A solução encontrada pelo meu orientador foi transformar os dados em números. Pediu que eu contasse omissões, substituições e acertos de preposições. Fiquei intrigada: se a teoria toda foca não na lesão, mas na adaptação, se o analista estuda o que é de fato falado, não o que "foi perdido por causa da lesão", posso ainda falar em omissões e substituições? Comentei com Jonas (estudante) que estava diante de uma incoerência teórica. Jonas respondeu, mais ou menos, uma citação que encontrei ontem na Autobiografia científica de Max Planck:

"Uma nova verdade científica nunca triunfa porque se consegue convencer os adversários, mostrando-lhes argumentos. Novas verdades científicas só são possíveis quando os teóricos adversários morrem e surge uma nova geração para a qual a novidade faz sentido." (adaptado p. 30)

Brinquei dizendo que não adiantava esperar o teórico morrer, porque ele tinha discípulos. Já de volta ao Brasil, e com um senso de necessidade de justificar a minha bolsa na Holanda, escrevi um artigo fruto do meu trabalho na Radboud Universiteit. Kolk assinava comigo um texto em que eu não contabilizava omissões nem substituições, mas analisava o que tinha sido dito; e mandei o texto pra Aphasiology. Voltou com pedido de correções. Corrigi, mandei pro orientador ver as mudanças. O orientador estava de mudança para os Estados Unidos, não teria tempo para ver o texto e pediu para que eu retirasse o seu nome do artigo. Tirei o nome dele e mandei pro periódico. Responderam que não publicariam o texto.

Mandei pro Journal of Neurolinguistics e obtive resposta no dia seguinte: seu texto foi rejeitado sem ter sido encaminhado a pareceristas porque não se encaixa no perfil da revista. Me pergunto se o texto teria sido ao menos avaliado se o nome do Kolk constasse duas linhas abaixo do título.

Essa foi a primeira barreira na minha vida de pesquisadora. E foi a primeira vez em que eu me coloquei no papel de contestadora de uma "verdade". Entendi que não era exatamente o conteúdo do meu trabalho que estava sendo cogitado para publicação, mas o sobrenome de quem assina o trabalho. A lista de revistas que rejeitaram meus textos é grande, e isso talvez tenha a ver com o fato de que eu não construí uma carreira com um único tema. Das preposições migrei para o agramatismo, dali para as marcas de oralidade nos textos dos meus alunos, dali para os sinais de pontuação.

Em todos esses anos, recebi pouquíssimas críticas. Aconteceu de eu apresentar um trabalho no GEL para a monitora da sala, porque não havia mais ninguém na sala. Tenho a impressão de que as críticas ao meu trabalho não vêm dos pesquisadores que leem o meu trabalho publicado, mas das pessoas que decidem se ele será publicado ou não. E mesmo esses pareceristas têm, na minha experiência, rejeitado ou publicado, sem se debruçar sobre o tema.

A ciência é feita por pessoas. A divulgação da ciência é feita por pessoas. Se a ciência pretende produzir conhecimento, os divulgadores da ciência deveriam explicar por que rejeitaram determinados trabalhos, porque esse conhecimento sobre as fragilidades do trabalho ajudam o pesquisador a repensar o seu trabalho.

Recentemente me inscrevi para o congresso da ABRALIN com um trabalho sobre o sistema de sinais de pontuação. Havia milhares de simpósios em que eu poderia submeter um resumo do meu trabalho. Escolhi um e mandei o resumo - depois de pagar a anuidade da Abralin. Não recebi a carta de aceite no prazo estabelecido pela organização, então escrevi para as coordenadoras do simpósio e para a Abralin. Demorou, e quando veio a resposta, foi indireta: acesse sua área restrita no site do congresso. Acessei. Não havia parecer, não havia justificativa. Estava escrito reprovado. Pensei: ok, as coordenadoras do simpósio não me conhecem. E como quase não há estudos sobre os sinais de pontuação, nem devem imaginar como se estuda isso de maneira diferente do que existe nas gramáticas. Continuei pensando: errei de simpósio. Talvez, se eu tivesse inscrito o trabalho em outro simpósio, teria o trabalho aceito. Impossível inscrever-se em outro simpósio apesar das inscrições ainda estarem abertas. Perguntei na organização do evento e confirmaram: impossível.

Cynthia me contou que uma vez participou de um congresso da ABRALIC. Pagou anuidade e inscrição, foi, apresentou e voltou. Dois congressos da Abralic depois, resolveu submeter trabalho lá de novo. Só aceitariam proposta de trabalho se ela pagasse as anuidades dos anos em que não participou do evento mais aquela anuidade atual. O congressos por acaso são clubes?

Ontem Marcelo Gleiser, maior divulgador de ciência escrevendo em jornal no Brasil, se despediu de sua coluna dominical na Folha. Foi expulso do clube? Recebo e-mails de periódicos oferecendo publicação em troca de dinheiro. Me convidam para entrar no clube? A Capes incentiva os seus bolsistas a publicarem, divulgarem seus trabalhos, mas não repassa a segunda metade do orçamento anual (para o PIBID, do qual sou coordenadora institucional), de modo que os bolsistas ficam sem passagens e sem diárias. O clube fechou?

domingo, 23 de novembro de 2014

Ecológico

Estou dando um curso de Introdução à Linguística do tipo que passamos por algumas disciplinas da Linguística (Fonética, Fonologia, Morfologia, Semântica, Sintaxe e Pragmática). Quando fui corrigir o exercício de Semântica em que eu pedia que fornecessem exemplos (sem a definição, sem sinônimos) para algumas palavras, fui surpreendida com as respostas dadas no item ecológico.

Apareceram respostas que eu agruparia em três conjuntos: 1) ecológico é lá fora e lá longe, 2) ecológico é um produto que se compra/descarta, 3) ecológico é uma ação que não degrada o meio ambiente. Exemplos:

1) ambiente ecológico, parque ecológico, jardim ecológico, espaço ecológico, passeio ecológico;
2) carro ecológico, produto ecológico, lixo ecológico, rack ecológico, sofá ecológico, blusa ecológica, papel higiênico ecológico, sacola ecológica;
3) andar de bicicleta é ecológico.

Perguntei quantos na sala andam de bicicleta para a escola/trabalho, como constava nas respostas do exercício. Ninguém. 

Desde que nos ajuntamos em cidades, entendemos que a Natureza fica fora da cidade. Se tudo que está dentro da cidade não é natural nem selvagem, nossos animais de estimação se transformam em filhos. Para ter contato com a Natureza, é preciso sair da selva de pedra, por isso o meio ambiente, a Natureza ficam longe de nós e se transformam em programas de fim-de-semana.

Desde que entraram na moda, "sustentável" e "ecológico" são adjetivos que promovem produtos que, para serem produzidos, poluíram/degradaram muito. Não existe carro ecológico por definição - não só por causa do consumo de combustível (cuja obtenção não se dá sem impactos), - mas também por causa de sua produção: no processo de produção do carro, muitos excessos que não se decompõem na Natureza são gerados. Não existe lixo ecológico por definição - porque se o resíduo voltar a ser incorporado pelo ecossistema, não se trata de lixo, mas de adubo.

Se eu tivesse pedido, no exercício, que  fornecessem exemplos com a palavra "sustentável", é possível que tenha aparecido coisa pior. Desde que entraram na moda, essas duas palavrinhas acompanham qualquer nome de produto ou empresa, vide Energia Sustentável do Brasil (ESBR), o consórcio da UHE Jirau. Lembra da "Revolta de Jirau" em 2011? Lembra das famílias ribeirinhas que moravam em Mutum-Paraná que foram removidas pela Jirau para a company town da empresa, onde ficam alojados os trabalhadores da usina? Lembra da cheia histórica de 2014 que alagou parte da Bolívia? Energia Sustentável do Brasil.

Mas professora, disseram, se ecológico não é nem a natureza, nem as coisas que a gente compra, nem aquilo que a gente acha legal, mas não faz, então qual era a resposta certa?

Respondi que não havia resposta certa, mesmo porque o exercício pedia que escrevessem frases em que a palavra é exemplificada. O que eles responderam foi um reflexo do pensamento e uso da palavra nessa sociedade consumista em que estamos imersos, não uma reflexão sobre o significado de ecologia/ ecológico em si mesmo. Disse que eu esperava que eles fizessem a filosofia da palavra ecológico.

Ah, não! professora, nem me fale em Filosofia porque todo mundo dessa sala aqui reprovou em Filosofia.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A minha voz



Quando fizemos a pré-estreia do documentário Entre a cheia e o vazio na UNIR, Heloisa comentou que "ficou parecendo uma coisa TV Cultura, a narração". Confesso que sempre admirei a narração de Valéria Grillo no programa Planeta Terra (na TV Cultura) e fiquei surpresa com o fato de ela ter identificado "essa coisa TV Cultura" no documentário.

No dia da premiação no Fest Cine Amazônia, fui entrevistada por uma moça que elogiou a minha voz. Na aula de ontem, uma aluna (que ainda não viu o documentário) veio me dizer que um dia comentou com uma amiga de outra universidade que tinha uma professora (eu) com uma voz bonita e que a amiga tinha respondido: por acaso é uma professora que eu entrevistei no Fest Cine Amazônia?

Mandei o link do filme para vários amigos que eu não via há tempos; e aos poucos fui recebendo suas respostas. Junior, irmão tapioquense, disse que ficou com saudades ao ouvir minha voz. Telmo disse que ainda não tinha assistido o filme todo, mas tinha gostado da narração. Odir, um amigo que eu nunca vi ao vivo, logo perguntou se a narração era minha.

O filme rodou alguns sites, e no Diário do Centro do Mundo, o único comentário é praticamente uma reclamação da "voz irritante da narração". Achei curioso que a minha voz tenha virado objeto estético, quase se descolando do conteúdo que ela profere.

Queria que a minha voz servisse de guia, de fio condutor do filme, de alerta. Queria que a minha voz denunciasse que a seca em São Paulo e a cheia em Rondônia são ambas resultado de má gestão dos recursos hídricos e que os fenômenos climáticos são usados como escudo para fugir à responsabilidade pelos danos causados. 

domingo, 16 de novembro de 2014

Pequenas alegrias na sacada

Flor de tomate que foi polenizada manualmente

Tomatinho

Tomates ainda verdes

Folhagem

Flor da alfavaca

Acompanhando o crescimento da suculenta no ouriço de castanha

Suculenta que Liz nos deu em Castelo/ES

Sininhos ultrapassando os limites da sacada

sábado, 15 de novembro de 2014

Os comentários sobre Entre a cheia e o vazio

Foto: Walisson Rodrigues
Reparei que os meus amigos/parentes que não vivenciaram a cheia do Madeira de 2014 elogiaram o filme dizendo, assombrados, que no sul/sudeste/fora do Brasil se sabe muito pouco sobre Rondônia e os projetos hidrelétricos em rios amazônicos. Assombrados, porque percebem as dimensões do desastre apenas 9 meses depois que ele aconteceu, através desse documentário de 25 minutos.

Reparei que os não amigos, que criticam o documentário achando que somos ONG (não somos, nem mencionamos qualquer ONG justamente porque as ONGs todas silenciaram diante da catástrofe), que demos voz aos gringos (como se o sotaque do Philip Fearnside apagasse toda a sua trajetória de pesquisador do INPA), que a barragem foi submersa etc. e tal não sabem nada sobre Rondônia e os projetos hidrelétricos em rios amazônicos.

Para quem quiser voltar no tempo e acompanhar o processo de licenciamento das UHEs Jirau e Santo Antônio, recomendo O chamado do Madeira


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Prêmio Mapinguari

O ator Cacá Carvalho (seu personagem mais famoso foi o Jamata), que interpretou muito bem o grito do Mapinguari durante o FestCineAmazônia, me entregou o Troféu Mapinguari
Agradecemos a todos que se envolveram nessa contestação técnico-social registrada no filme Entre a cheia e o vazio. Existe relação entre as usinas e a cheia histórica? Crendice? Estudos preliminares indicam que um novo desastre está por vir. As usinas lavarão as mãos novamente? Acreditamos na força do Mapinguari e de todos nós juntos para que isso não se repita. Gracias ao FestCineAmazônia que reconheceu esse esforço coletivo!
Prêmio Lídio Sohn de Melhor Produção Cultural Rondoniense no FestCineAmazônia (2014).