quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Curitiba

Pensamos numa cidade localizada entre Porto Alegre e São Paulo que não seja alvo de turistas nesse fim de ano. Chegamos a Curitiba. Os preços de hotel pareciam razoáveis, conseguimos passagens de avião e fomos. Luis precisa de silêncio e calma para escrever, afinal, o homem tem uma tese para entregar.

Assim que chegamos, notamos que a cama era desastrosamente disforme. Passamos o primeiro dia em Curitiba vendo, paralelamente, outros hotéis e como conseguir uma cama dura neste hotel. Na manhã seguinte o colchão foi trocado por um novo (tirado do plástico). Fomos ao Mercado Municipal e voltamos carregados de frutas frescas, secas e nozes.

Notamos que grande parte do comércio da cidade está fechado por causa do fim de ano e aprendemos (com sorte) que é preciso ligar antes de ir ao restaurante, para saber se está aberto. Caminhamos uns 4km até chegar a um restaurante japonês - ainda bem que estava aberto e que a comida era boa e o preço justo. Os outros restaurantes no caminho estavam fechados.

Estamos hospedados bem perto do Passeio Público, que começou como zoológico e ainda mantém algumas aves em jaulas. Talvez a população de homens de rua no centro de São Paulo seja tão grande (guardadas as devidas proporções) quanto aqui. Mesmo assim, o número de homens de rua sentados em bancos de praça com olhar vazio, dormindo em cantos ou na grama mesmo, conversando com alguém que a gente não vê, mancando apressadamente ou protegendo suas feridas é grande. Concentram-se no Passeio Público e praças do centro. No Parque Tanguá, nas beiras da cidade, havia três, um em cada banco, na parte de cima, onde turistas se aglomeram em poses soberbas para selfies na fonte.

Numa de nossas caminhadas, vimos um shopping cuja fachada era tomada por propagandas da Louis Vuitton e Prada. Entramos, para ver como é um shopping ostentação. Logo na entrada, dois guardas, um homem e uma mulher, posicionados a 20 passos um do outro, encaram as pessoas que entram no recinto. Não dão as boas-vindas, intimidam com o olhar quem não pode gastar ali. A sensação de andar por corredores largos e pátios externos ouvindo musiquinhas soft e sendo sempre vigiado é como estar numa bolha, em que a segurança e o conforto são mantidos com muito custo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Gramado

Oma e Luis
Todo Natal em Gramado é diferente. Dessa vez, a novidade foi o Luis. Estivemos em Gramado em dezembro de 2013, mas foi para o nosso casamento. O Natal nós passamos em Cachoeiro de Itapemirim, com o pai do Luis.
Ruth e Gerhard
Gerhard recuperou as forças para o Natal, conforme ele tinha se proposto. Tinha tido um anúncio de infarte, emagreceu muito e deixou todo mundo preocupado.
Gabriela e Keki
Gabriela está grande, descobriu que o problema não era leite e parece uma mini-adulta conversando na mesa.
Lou&Luis
Fomos visitar Harro, meu pai biológico. Luis e Harro se entendem muito bem e sou grata ao Luis por facilitar esses encontros que não são fáceis pra mim.
Harro Kleppa

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

No sítio

Daniela, Gu, Du, Tia Sonia, Luis, Tio Rodrigo, Darinha (escondida) e Soninha
Luis e eu fomos visitar a família mineira (a parte da mãe do Luis) e passamos o fim de semana no sítio, a uma hora de Belo Horizonte. Casa cheia, mesa farta e muita conversa.
Casa de periquitos
Tio Rodrigo é criador de passarinhos. Vimos pintagóis de variadas cores, canários, pintassilgos e periquitos. Quando chegávamos perto, um silêncio inusitado de poucos segundos interrompia a conversação constante dos passarinhos.
Urucum
Numa manhã, saímos para caminhar e só voltamos pro almoço. No dia seguinte, senti a musculatura reclamando. Muito bom caminhar em estradas de chão, lembrei da Estrada Real.
Genial

Eu
E antes de partir, um pequeno convite à recordação da infância: cigarras.
Casca de cigarra

domingo, 21 de dezembro de 2014

Santa Teresa

Luis tinha uma reunião marcada no BNDES, o prédio preto atrás do cone iluminado (que é uma catedral). Fomos os dois para Santa Teresa, de onde se vê a cidade do Rio de Janeiro. A vista é linda, mas os preços lá em cima infelizmente são para turistas. Aliás, percebemos que muitos estrangeiros moram em Santa Teresa. E outra: os taxistas não gostam de subir o morro.

Gostei muito de ver o bonde (nos adesivos nos carros, nos bottons, nas camisetas) amarrando a identidade de Santa Teresa. Se o bonde funcionasse, não haveria necessidade de tantos ônibus com motoristas raivosos e velozes, não haveria tantos carros estacionados ao longo das ruas estreitas e não haveria tantos acidentes.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Desbarrancados

Esposa do Zezinho e a rachadura no chão
Luis e eu fomos até a casa do Zezinho, no Belmont, para pedir ajuda para transportar a placa grande, e nos deparamos com uma estrada péssima de um lado e o desbarrancamento da margem do rio de outro lado. A Estrada do Belmont, principal acesso ao porto - Porto Velho é uma cidade portuária - está toda esburacada. A casa do Zezinho fica entre a estrada e o rio que está engolindo diariamente a margem direita do baixo Madeira.
Desbarrancamento

Zezinho diz que o desbarrancamento acelerado e concentrado nesse tempo e espaço se deve à atividade dos garimpeiros que dragam o leito do rio. Ao retirarem terra do meio, fragilizam as margens.
Fofoca: conjunto de dragas
Acreditamos que a atividade garimpeira tenha influência no desbarrancamento da margem, mas não acreditamos que as fofocas sejam as únicas responsáveis por isso, já que sabemos que desde 2012 a erosão a jusante de santo Antônio é devastadora. O Bairro Triângulo está sendo destruído desde então pela força das águas que saem da usina.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Arirambas: placa, animais e frutas

Damian segurando a placa pequena
Luis e eu mandamos fazer duas placas (uma grande, outra pequena) para demarcar a terra titulada do Jairo, em que fica a reserva ecológica do Arirambas. Quando a grande estiver instalada, tiramos outra foto.

Seis pintinhos novos
Damian nos atualizou sobre os animais domésticos: morreu um frango, nasceram seis pintinhos. O coelho continua bem e Tucumã é um bom companheiro.
O coelho
 Falou também dos macacos, sapos e passarinhos. Tudo se mexe o tempo inteiro na floresta.
Damian e Tucumã
 Como ele tinha coletado castanhas recentemente, nos deu três ouriços.
Ouriços de castanha
Saí rodeando a casa, tirando foto do que tinha nascido/ dado pra mostrar pra Siomara, Jairo, Jarina e Uirá.
Esqueci o nome, mas não é babaçu

Cupuaçu

Pupunha

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Castanha fresca

Ouriço de castanha com 21 castanhas dentro
Castanha com casca e sem casca
Aqui no norte, onde se produz castanha, é costume comer a castanha fresca. O que se compra no supermercado é a castanha seca, desidratada e no vácuo, bem diferente da castanha fresca, que tem uma consistência quase de coco.

A castanha mais fresca que eu comi na minha vida foi a que Damian tirou do ouriço, depois tirou um lado da casca, Luis e eu descascamos. Narcísio estava com a gente embaixo da castanheira.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Meus dentes de volta

Minha dentista tinha marcado, mês passado, de fazer o molde para a contenção móvel num dia de dezembro e dois dias depois retiraria o aparelho fixo. Como ela tinha ficado de me passar o valor do aparelho móvel que eu vou ter que usar por 6 meses (depois de 1 ano e 7 meses de aparelho fixo), liguei lá no consultório. Descobri que a minha dentista estava em Fortaleza, no hospital. Outra dentista me atenderia nos dias marcados. Essa outra dentista não acreditou que os aparelhos móveis (superior e inferior) ficariam prontos em dois dias, mas manteve as datas.

No primeiro dia, ela fez o molde (tive que explicar todo o meu histórico pra dentista nova, inclusive justificando por que a contenção inferior tinha que ser móvel, não fixa: porque os molares foram movidos e a contenção fixa não atinge os molares). No segundo dia, cheguei no horário marcado e fui submetida aos piores barulhos que um consultório odontológico tem para oferecer. Saí de lá com o aparelho móvel superior na boca. O inferior ... bem: "não explicaram direito pro protético que a contenção inferior era móvel, e como ele quase nunca faz contenções inferiores móveis, ele fez uma fixa". Tive que voltar lá de noite e agora estou com 2 aparelhos móveis que só devo tirar para comer.
Agora escovar os dentes é uma atividade fuida, lisa até. Passar fio dental agora demora 5 vezes menos tempo que com o aparelho fixo. E eu consigo assoviar de novo!

sábado, 29 de novembro de 2014

Ciência por encomenda

Está rodando na TV aberta uma campanha da Santo Antônio Energia. A primeira peça publicitária foi exibida em meados de novembro. Uma moça anuncia um livro chamado "Peixes do Madeira", patrocinado pela Santo Antônio Energia, em que são catalogados todos os peixes encontrados no rio Madeira antes da construção da hidrelétrica. A moça diz que o livro foi lançado "há pouco".

Fui ao site da Santo Antônio Energia e conferi que os 3 volumes foram publicados em 2013. Pois é: 2014 está quase acabando e o livro foi lançado "há pouco". O deslocamento não é só temporal, mas também é ético: uma usina hidrelétrica financia um estudo para inventariar todos os peixes que havia no rio antes de exterminá-los. Entendo o livro como uma tentativa de empalhar um exemplar de cada espécie nova, rara, desconhecida e de uso comercial antes da implantação da barragem.

Catalogar a diversidade biológica - sabendo que a vida de todos os animais catalogados está ameaçada por quem paga o estudo - é fazer ciência?

A segunda peça publicitária é sobre o pirarucu de cativeiro criado no Reassentamento Santa Rita (responsabilidade da Santo Antônio Energia). A mesma moça anuncia euforicamente que agora há mais pirarucu em cativeiro que no rio Madeira. Isso é monocultura, homogeneização da vida. O que aconteceu com a biodiversidade celebrada em "peixes do Madeira?"

Desde 2012 os pescadores perceberam que o peixe que estavam acostumados a pescar sumiu. Tiveram que pescar mais longe, tiveram que pescar outros peixes. Com a cheia de 2014, pela qual as usinas são co-responsáveis, o ecossistema foi drasticamente transformado. Com a cheia, todos os lagos-refúgio em que havia alevinos (peixes jovens) foram transformados em rio de lama. Os locais de desova foram desfigurados. Os ribeirinhos anunciam agora uma grande crise do peixe nos rios.

Enquanto isso, Rondônia se transforma no maior produtor de peixes em cativeiro com a ajuda da ciência e tecnologia. Essa ciência, que aceita compromisso com uma empresa, não se interessa pelo ciclo da vida, mas pela geração de lucro.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ciência e divulgação

Quando estive na Holanda, em Nijmegen, fui estudar Teoria da Adaptação com Herman Kolk, autor da teoria. Toda a teoria baseia-se na assunção de que a fala afásica não é resultado direto da lesão cerebral, mas de uma adaptação que o sujeito afásico faz à sua lesão. Essa adaptação, no caso de pessoas com fala agramática, seria temporal: o sujeito percebe que, devido às pressões da situação do diálogo, não tem tempo para encontrar e combinar as palavras, então fala "telegraficamente".

Cheguei em Nijmegen com dados de MS e OJ, sujeitos brasileiros que falam português. Kolk não entende português, mas compartilhamos as categorias de palavras. A solução encontrada pelo meu orientador foi transformar os dados em números. Pediu que eu contasse omissões, substituições e acertos de preposições. Fiquei intrigada: se a teoria toda foca não na lesão, mas na adaptação, se o analista estuda o que é de fato falado, não o que "foi perdido por causa da lesão", posso ainda falar em omissões e substituições? Comentei com Jonas (estudante) que estava diante de uma incoerência teórica. Jonas respondeu, mais ou menos, uma citação que encontrei ontem na Autobiografia científica de Max Planck:

"Uma nova verdade científica nunca triunfa porque se consegue convencer os adversários, mostrando-lhes argumentos. Novas verdades científicas só são possíveis quando os teóricos adversários morrem e surge uma nova geração para a qual a novidade faz sentido." (adaptado p. 30)

Brinquei dizendo que não adiantava esperar o teórico morrer, porque ele tinha discípulos. Já de volta ao Brasil, e com um senso de necessidade de justificar a minha bolsa na Holanda, escrevi um artigo fruto do meu trabalho na Radboud Universiteit. Kolk assinava comigo um texto em que eu não contabilizava omissões nem substituições, mas analisava o que tinha sido dito; e mandei o texto pra Aphasiology. Voltou com pedido de correções. Corrigi, mandei pro orientador ver as mudanças. O orientador estava de mudança para os Estados Unidos, não teria tempo para ver o texto e pediu para que eu retirasse o seu nome do artigo. Tirei o nome dele e mandei pro periódico. Responderam que não publicariam o texto.

Mandei pro Journal of Neurolinguistics e obtive resposta no dia seguinte: seu texto foi rejeitado sem ter sido encaminhado a pareceristas porque não se encaixa no perfil da revista. Me pergunto se o texto teria sido ao menos avaliado se o nome do Kolk constasse duas linhas abaixo do título.

Essa foi a primeira barreira na minha vida de pesquisadora. E foi a primeira vez em que eu me coloquei no papel de contestadora de uma "verdade". Entendi que não era exatamente o conteúdo do meu trabalho que estava sendo cogitado para publicação, mas o sobrenome de quem assina o trabalho. A lista de revistas que rejeitaram meus textos é grande, e isso talvez tenha a ver com o fato de que eu não construí uma carreira com um único tema. Das preposições migrei para o agramatismo, dali para as marcas de oralidade nos textos dos meus alunos, dali para os sinais de pontuação.

Em todos esses anos, recebi pouquíssimas críticas. Aconteceu de eu apresentar um trabalho no GEL para a monitora da sala, porque não havia mais ninguém na sala. Tenho a impressão de que as críticas ao meu trabalho não vêm dos pesquisadores que leem o meu trabalho publicado, mas das pessoas que decidem se ele será publicado ou não. E mesmo esses pareceristas têm, na minha experiência, rejeitado ou publicado, sem se debruçar sobre o tema.

A ciência é feita por pessoas. A divulgação da ciência é feita por pessoas. Se a ciência pretende produzir conhecimento, os divulgadores da ciência deveriam explicar por que rejeitaram determinados trabalhos, porque esse conhecimento sobre as fragilidades do trabalho ajudam o pesquisador a repensar o seu trabalho.

Recentemente me inscrevi para o congresso da ABRALIN com um trabalho sobre o sistema de sinais de pontuação. Havia milhares de simpósios em que eu poderia submeter um resumo do meu trabalho. Escolhi um e mandei o resumo - depois de pagar a anuidade da Abralin. Não recebi a carta de aceite no prazo estabelecido pela organização, então escrevi para as coordenadoras do simpósio e para a Abralin. Demorou, e quando veio a resposta, foi indireta: acesse sua área restrita no site do congresso. Acessei. Não havia parecer, não havia justificativa. Estava escrito reprovado. Pensei: ok, as coordenadoras do simpósio não me conhecem. E como quase não há estudos sobre os sinais de pontuação, nem devem imaginar como se estuda isso de maneira diferente do que existe nas gramáticas. Continuei pensando: errei de simpósio. Talvez, se eu tivesse inscrito o trabalho em outro simpósio, teria o trabalho aceito. Impossível inscrever-se em outro simpósio apesar das inscrições ainda estarem abertas. Perguntei na organização do evento e confirmaram: impossível.

Cynthia me contou que uma vez participou de um congresso da ABRALIC. Pagou anuidade e inscrição, foi, apresentou e voltou. Dois congressos da Abralic depois, resolveu submeter trabalho lá de novo. Só aceitariam proposta de trabalho se ela pagasse as anuidades dos anos em que não participou do evento mais aquela anuidade atual. O congressos por acaso são clubes?

Ontem Marcelo Gleiser, maior divulgador de ciência escrevendo em jornal no Brasil, se despediu de sua coluna dominical na Folha. Foi expulso do clube? Recebo e-mails de periódicos oferecendo publicação em troca de dinheiro. Me convidam para entrar no clube? A Capes incentiva os seus bolsistas a publicarem, divulgarem seus trabalhos, mas não repassa a segunda metade do orçamento anual (para o PIBID, do qual sou coordenadora institucional), de modo que os bolsistas ficam sem passagens e sem diárias. O clube fechou?

domingo, 23 de novembro de 2014

Ecológico

Estou dando um curso de Introdução à Linguística do tipo que passamos por algumas disciplinas da Linguística (Fonética, Fonologia, Morfologia, Semântica, Sintaxe e Pragmática). Quando fui corrigir o exercício de Semântica em que eu pedia que fornecessem exemplos (sem a definição, sem sinônimos) para algumas palavras, fui surpreendida com as respostas dadas no item ecológico.

Apareceram respostas que eu agruparia em três conjuntos: 1) ecológico é lá fora e lá longe, 2) ecológico é um produto que se compra/descarta, 3) ecológico é uma ação que não degrada o meio ambiente. Exemplos:

1) ambiente ecológico, parque ecológico, jardim ecológico, espaço ecológico, passeio ecológico;
2) carro ecológico, produto ecológico, lixo ecológico, rack ecológico, sofá ecológico, blusa ecológica, papel higiênico ecológico, sacola ecológica;
3) andar de bicicleta é ecológico.

Perguntei quantos na sala andam de bicicleta para a escola/trabalho, como constava nas respostas do exercício. Ninguém. 

Desde que nos ajuntamos em cidades, entendemos que a Natureza fica fora da cidade. Se tudo que está dentro da cidade não é natural nem selvagem, nossos animais de estimação se transformam em filhos. Para ter contato com a Natureza, é preciso sair da selva de pedra, por isso o meio ambiente, a Natureza ficam longe de nós e se transformam em programas de fim-de-semana.

Desde que entraram na moda, "sustentável" e "ecológico" são adjetivos que promovem produtos que, para serem produzidos, poluíram/degradaram muito. Não existe carro ecológico por definição - não só por causa do consumo de combustível (cuja obtenção não se dá sem impactos), - mas também por causa de sua produção: no processo de produção do carro, muitos excessos que não se decompõem na Natureza são gerados. Não existe lixo ecológico por definição - porque se o resíduo voltar a ser incorporado pelo ecossistema, não se trata de lixo, mas de adubo.

Se eu tivesse pedido, no exercício, que  fornecessem exemplos com a palavra "sustentável", é possível que tenha aparecido coisa pior. Desde que entraram na moda, essas duas palavrinhas acompanham qualquer nome de produto ou empresa, vide Energia Sustentável do Brasil (ESBR), o consórcio da UHE Jirau. Lembra da "Revolta de Jirau" em 2011? Lembra das famílias ribeirinhas que moravam em Mutum-Paraná que foram removidas pela Jirau para a company town da empresa, onde ficam alojados os trabalhadores da usina? Lembra da cheia histórica de 2014 que alagou parte da Bolívia? Energia Sustentável do Brasil.

Mas professora, disseram, se ecológico não é nem a natureza, nem as coisas que a gente compra, nem aquilo que a gente acha legal, mas não faz, então qual era a resposta certa?

Respondi que não havia resposta certa, mesmo porque o exercício pedia que escrevessem frases em que a palavra é exemplificada. O que eles responderam foi um reflexo do pensamento e uso da palavra nessa sociedade consumista em que estamos imersos, não uma reflexão sobre o significado de ecologia/ ecológico em si mesmo. Disse que eu esperava que eles fizessem a filosofia da palavra ecológico.

Ah, não! professora, nem me fale em Filosofia porque todo mundo dessa sala aqui reprovou em Filosofia.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A minha voz



Quando fizemos a pré-estreia do documentário Entre a cheia e o vazio na UNIR, Heloisa comentou que "ficou parecendo uma coisa TV Cultura, a narração". Confesso que sempre admirei a narração de Valéria Grillo no programa Planeta Terra (na TV Cultura) e fiquei surpresa com o fato de ela ter identificado "essa coisa TV Cultura" no documentário.

No dia da premiação no Fest Cine Amazônia, fui entrevistada por uma moça que elogiou a minha voz. Na aula de ontem, uma aluna (que ainda não viu o documentário) veio me dizer que um dia comentou com uma amiga de outra universidade que tinha uma professora (eu) com uma voz bonita e que a amiga tinha respondido: por acaso é uma professora que eu entrevistei no Fest Cine Amazônia?

Mandei o link do filme para vários amigos que eu não via há tempos; e aos poucos fui recebendo suas respostas. Junior, irmão tapioquense, disse que ficou com saudades ao ouvir minha voz. Telmo disse que ainda não tinha assistido o filme todo, mas tinha gostado da narração. Odir, um amigo que eu nunca vi ao vivo, logo perguntou se a narração era minha.

O filme rodou alguns sites, e no Diário do Centro do Mundo, o único comentário é praticamente uma reclamação da "voz irritante da narração". Achei curioso que a minha voz tenha virado objeto estético, quase se descolando do conteúdo que ela profere.

Queria que a minha voz servisse de guia, de fio condutor do filme, de alerta. Queria que a minha voz denunciasse que a seca em São Paulo e a cheia em Rondônia são ambas resultado de má gestão dos recursos hídricos e que os fenômenos climáticos são usados como escudo para fugir à responsabilidade pelos danos causados. 

domingo, 16 de novembro de 2014

Pequenas alegrias na sacada

Flor de tomate que foi polenizada manualmente

Tomatinho

Tomates ainda verdes

Folhagem

Flor da alfavaca

Acompanhando o crescimento da suculenta no ouriço de castanha

Suculenta que Liz nos deu em Castelo/ES

Sininhos ultrapassando os limites da sacada

sábado, 15 de novembro de 2014

Os comentários sobre Entre a cheia e o vazio

Foto: Walisson Rodrigues
Reparei que os meus amigos/parentes que não vivenciaram a cheia do Madeira de 2014 elogiaram o filme dizendo, assombrados, que no sul/sudeste/fora do Brasil se sabe muito pouco sobre Rondônia e os projetos hidrelétricos em rios amazônicos. Assombrados, porque percebem as dimensões do desastre apenas 9 meses depois que ele aconteceu, através desse documentário de 25 minutos.

Reparei que os não amigos, que criticam o documentário achando que somos ONG (não somos, nem mencionamos qualquer ONG justamente porque as ONGs todas silenciaram diante da catástrofe), que demos voz aos gringos (como se o sotaque do Philip Fearnside apagasse toda a sua trajetória de pesquisador do INPA), que a barragem foi submersa etc. e tal não sabem nada sobre Rondônia e os projetos hidrelétricos em rios amazônicos.

Para quem quiser voltar no tempo e acompanhar o processo de licenciamento das UHEs Jirau e Santo Antônio, recomendo O chamado do Madeira


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Prêmio Mapinguari

O ator Cacá Carvalho (seu personagem mais famoso foi o Jamata), que interpretou muito bem o grito do Mapinguari durante o FestCineAmazônia, me entregou o Troféu Mapinguari
Agradecemos a todos que se envolveram nessa contestação técnico-social registrada no filme Entre a cheia e o vazio. Existe relação entre as usinas e a cheia histórica? Crendice? Estudos preliminares indicam que um novo desastre está por vir. As usinas lavarão as mãos novamente? Acreditamos na força do Mapinguari e de todos nós juntos para que isso não se repita. Gracias ao FestCineAmazônia que reconheceu esse esforço coletivo!
Prêmio Lídio Sohn de Melhor Produção Cultural Rondoniense no FestCineAmazônia (2014).

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Pré-estreia e debate de Entre a cheia e o vazio

Nosso filme foi selecionado para o FestCineAmazônia (que vai de 4 a 8 de novembro). Antes disso, convidamos para a pré-estreia na UNIR e debate após exibição.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Bacuri

Jairo precisava de uns documentos impressos. Fazia muito tempo que eu não pedalava. Imprimi os papeis que a Siomara mandou, botei numa pasta, botei a pasta no alforje e fui encher os pneus da Amarilda. Passei óleo na corrente e um pano no selim e manoplas. Vesti minha bermuda acolchoada, prometi pro marido que tomaria muito cuidado e parti para a comunidade Maravilha, na margem esquerda do rio Madeira.

Atravessei a ponte sobre o Madeira pedalando no (meio) acostamento e peguei a estrada de terra. Vi árvores caídas e me dei conta que ter escolhido a bicicleta como veículo tinha sido uma boa aposta. Um quase-tornado tinha varrido Porto Velho 2 dias atrás e agora eu via os estragos.

Na primeira grande poça tinha uma moto parada. O casal montado nela estudava a situação. Passei devagar por eles e atravessei a poça pedalando. Sujou as pernas. A segunda grande poça era contornável por um caminho lateral. Depois dessa, não cruzei com mais ninguém na estrada. A terceira poça era um lamaçal revolvido que preferi não encarar. Desmontei da bicicleta, empurrei pela "praia" à direita e voltei à estrada.

Jairo, que costuma pedalar esse caminho (a mãe dele mora perto aqui de casa) se espantou que eu tivesse me atirado nessa aventura. Pois a aventura ainda nem tinha começado...

Agradeceu pelos materiais impressos e explicou que a ata que eu tinha trazido precisava constar - manuscrita - no livro de atas. Disse que a caligrafia dele era tão feia que teriam levar a ata num médico, pra decifrar o que estava escrito. Me prontifiquei a copiar a ata para o caderno de atas. Se peguei malária, foi ali, concentrada na transcrição do texto.

Como agradecimento, Jairo me deu frutinhas. Que frutinha é essa? Bacuri. Mas bacuri não é menino? É. E hoje é dia das crianças.

Voltei correndo contra o tempo. Quando cheguei na ponte, escureceu. E começou a chover. Tive que desmontar da bicicleta e empurrá-la pela via dos pedestres, porque não há acostamento (nem meio acostamento) para quem volta para PVH. Toda a lama em mim ou na Amarilda foi lavada pela chuva. Liguei as luzinhas da bicicleta e me integrei ao trânsito. Na subida pela Costa e Silva até a Farquar, um mar de lixo dominava a avenida. Os motoristas, apreensivos, aceleravam, espalhando ondas de água com lixo para os lados. A cidade não tem sistema de drenagem.

Quando cheguei no cruzamento com a Jorge Teixeira, tinha parado de chover. Em casa, o asfalto estava seco. Abri a porta de casa e vi a apreensão do Luis. Estava preocupado por eu chegar no escuro e por não ter ligado. O celular estava no alforje (e não abri o alforje por causa da chuva). No banho, senti o corpo todo tenso.

O azedinho doce do bacuri alegrou a ciclista cansada e trouxe adjetivos positivos à boca do Luis.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O passarinho e a gaiola

Sábado passado Luis e eu compramos um pintagol. Na loja, Luis escolheu esse passarinho por causa do canto, não porque se tratava de um pintagol. Descobrimos que ele era um híbrido de canária com pintassilgo mais tarde, através da internet.

Trouxemos o passarinho com o maior cuidado pra casa e escolhemos um lugar para ele: a varanda. Tivemos medo de expor demais o passarinho ao vento - e quando ventou forte, o trouxemos pra dentro de casa. Aos poucos, o passarinho foi se soltando. Só cantou como cantava na loja quando tocamos para ele o som de outros pintagóis que encontramos no Youtube. Ao som de outro pintagol, reagiu furioso: cantava forte e todas as suas penas se eriçavam (especialmente as do topo da cabeça, formando um topete). Ao som de canários, reagiu tranquilo. Ao som de uma pintagol fêmea nos presenteou com um espetáculo: passou a pentear suas penas freneticamente. Girava no poleiro, quase caía, asseava as penas das asas, cabeça, peito, tudo, contorcendo-se para ficar apresentável.

Estudamos nosso passarinho por horas. O passarinho tem 4 dedos em cada pé: 3 numa direção e outro opositor. No pé direito dele, reparamos que o dedo opositor não agarrava o poleiro. Pensamos em adaptar o poleiro mais grosso para ele, porque parecia grosso demais, já que o pé direito dele escorregava constantemente desse poleiro. Cheguei a inserir um hashi na gaiola, mas as cores de cobra coral em volta do hashi devem ter assustado o nosso passarinho.

Fomos dormir sabendo que tínhamos um animal doméstico em casa. Na manhã seguinte, pensei em levantar e ir ver o passarinho quando acordei às 6h. Mas daí eu pensei que 6h era muito cedo pra ficar em pé e decidi nem levantar. Mas Luis levantou em seguida e foi ver o passarinho.

Na versão dele, ele queria me trazer o passarinho porque tinha me ouvido falar no dia anterior que eu tinha muita vontade de tocar o passarinho, mas que não dava, por causa da gaiola.

Luis ficou parado na porta do quarto, com as duas mãos perto do coração. Explicou que o passarinho deu uma bicada pontiaguda na mão dele, se soltou e saiu voando em direção à escola. Não sabíamos se o passarinho tinha passado os dois anos de vida dele dentro da gaiola ou se tinha sido capturado. Não sabíamos se ele saberia se virar no mundo fora da gaiola.

Descemos com a gaiola vazia e fomos, às 6:30h, em pleno domingo, para a escola ao lado do nosso prédio. O guarda nem ouviu a história do passarinho até o fim. Foi abrindo a porta e nos deixou procurar o nosso passarinho. Confiávamos que seríamos capazes de reconhecer nosso passarinho sem nome pelo canto. Pela primeira vez, me dei conta de que todos os passarinhos cantam - e que há muitos passarinhos lá fora. O que antes era ruído, paisagem sonora, de repente ganhou contornos variados e precisos.

De tarde, reconhecemos o canto do nosso passarinho. Da varanda do sexto andar, Luis identificou um passarinho que voava desajeitado e pousou na churrasqueira. Descemos com a gaiola vazia, o saco de comida de passarinho, uma camiseta para jogar em cima dele e muita esperança de poder dar segurança ao nosso passarinho esfomeado e sedento e assustado, coitado. O passarinho se mostrou mais esperto e ágil que nós. Levamos a gaiola e o computador para a churrasqueira e tocamos todos os videos de pintagol para o nosso passarinho empoleirado num arco do ginásio da escola.

Na tarde do dia seguinte, chegamos a comer na churrasqueira ao som de pintagóis que saía das caixas de som. O nosso passarinho aparecia, olhava pra gaiola vazia, cantava, voava, cantava e desaparecia. Pouco antes do anoitecer, vimos o passarinho no muro que separa esse prédio do outro prédio. Passamos horas conversando com ele, brincando de esconde-esconde. Quando escureceu, ele se retirou para o prédio vizinho. Calculamos a hora em que ele estaria dormindo, com a cabeça encolhida e a guarda baixa e fomos, com a gaiola vazia, até o prédio vizinho. Para a nossa surpresa, o guarda noturno era criador de passarinhos, tinha vários curiós e conhecia pintagol. Na área de lazer do prédio vizinho, procuramos os três, com lanterna, pelo passarinho. Deixamos a gaiola vazia com o porteiro, na esperança de ele identificar e capturar o nosso passarinho de manhã, assim que ele começasse a cantar.

Na manhã seguinte, Luis buscou a gaiola vazia na nossa portaria. Todos os dias, o passarinho cantava e nós descíamos para conversar com ele. Já não levávamos a gaiola, comida, computador, porque percebíamos que deveríamos desistir da ideia de colocar o nosso passarinho de volta na gaiola. Ele estava voando bem, não escorregava dos fios ou galhos em que pousava e estava sobrevivendo à chuva e tempestade.

Hoje temos certeza de que ele sabe onde nós estamos: já o vimos empoleirado em cima do prédio atrás do nosso (de frente pra nossa varanda) e no nosso prédio (olhando para a janela da cozinha, do outro lado da casa). De certa forma, não conseguimos nos desligar dele: mesmo não sendo capazes de alimentá-lo ou protegê-lo (agora já não sabemos mais de que), descemos toda vez que o ouvimos e acompanhamos seu voo e seu canto. Numa vez que desci para ver nosso passarinho, fui seguindo-o até ser impedida de continuar: cheguei na grade que separa a piscina do resto do prédio. Olhando por entre as grades para o nosso passarinho, tive a estranha sensação de estar dentro de uma gaiola.

sábado, 27 de setembro de 2014

Abre-te, gergelim

Luis tinha jogado gergelim e chia num vaso. Foi crescendo uma planta que não sabíamos o que era. Aí ela formou flores brancas e essas cápsulas que se mantiveram verdes e fechadas durante um mês, aproximadamente.
Gradativamente as cápsulas foram secando (a temperatura média em Porto Velho é de 30º). Ajudei uma a se abrir e vi que cada cápsula era formada por quatro corredores de onde iam saindo os gergelins.
Não contei quantos saíram dessas cavernas, mas não me surpreenderia se fossem 40...

sábado, 20 de setembro de 2014

Ingá

Fui na feira e perguntei pro moço da banca de produtos orgânicos:

- Quanto é o ingá?
- Um é dois, dois é três.
- Me dê um, por favor.
- Pode escolher, patroa.
- Não sei escolher ingá.
- Então leve esses dois. E Deus lhe abençoe.
Eu nunca tinha comido ingá. Gostei.