sábado, 29 de setembro de 2012

Escola e formação

O Cohab Floresta estava lotado, como é de costume ao anoitecer. Na altura do Classe A, escola que já denuncia seu status de elite no nome, subiram adolescentes uniformizados, bonitos, bem nutridos e muito à vontade. O único menino usava óculos Ray Ban - que não combinava muito bem com o uniforme escolar, mas combinava perfeitamente com sua classe social. No primeiro ponto da Jatuarana, subiu um senhor dos cabelos brancos, pele fina e voz esganiçada. Quando este senhor viu o uniforme da garotada, abriu um sorriso largo. Em retribuição, o menino de uniforme instou a colega sentada a dar lugar ao grisalho. Mais do que satisfeito - quase feliz - o senhorzinho se sentou no banco do ônibus lotado numa tarde de mais de 30 graus.

Puxou conversa com o menino de Ray Ban:
- Vocês são do Classe A, não é? Essa é uma escola boa! Nunca vi ninguém falar mal dessa escola. E todo mundo que estuda lá, passa no vestibular. Quanto tempo faz que você está nessa escola?
- Três anos.
- Ah, então você deve ter conhecido o meu neto. Caio Prado. Nesse ano agora ele passou no vestibular e está na universidade. Graças ao Classe A.
- Caio? Já ouvi falar, mas não conheci.
- Não conheceu porque ele estudava muito. Passou em primeiro lugar na universidade de Campina Grande e em segundo lugar em Manaus.

Lá pelas tantas, o senhorzinho perguntou pro menino:
- Qual foi o melhor livro que você já leu? Pode falar qualquer um, qual foi o melhor livro que você já leu?
O menino não soube responder. Eu também não saberia, porque eu provavelmente já esqueci dos melhores livros que li. Além do mais, eu não funciono com essas listas de Top 5 (melhor música, cor preferida, comida preferida, melhor livro, melhor filme).

Diante do silêncio encabulado do rapaz, o senhorzinho tentou ajudar:
- Machado de Assis, Eça de Queirós, José de Alencar, Graciliano Ramos, qual foi o melhor livro que você já leu? Você já leu Grande Sertão: Veredas, do Graciliano Ramos?
Não foi quando ele confundiu Graciliano com Guimarães Rosa, mas foi insistência numa resposta - qualquer que fosse - que me fez suspeitar que aquele senhor estava armando o cenário para uma resposta pronta. Ele não queria conversar com o menino de Ray Ban sobre literatura, sobre escritores, sobre o prazer da leitura e a aventura da escrita. A resposta veio logo - do senhorzinho:
- Pois o melhor livro que eu já li é a Bíblia Sagrada.

O menino, que tinha sido colocado no papel de mostrar serviço escolar, que se sentiu constrangido a provar que a escola dele era boa mesmo e o fazia ler os bons autores, que vislumbrou a possibilidade de uma discussão qualificada sobre literatura, soltou uma risada aliviada. Não precisava demonstrar maturidade, não precisava revelar que sua formação escolar era pra passar no vestibular e nada mais (e que portanto tinha lido os resumos e não as obras), não precisava refletir sobre essa escola que formata vencedores que escrevem, leem, aprendem e pensam por obrigação - para o simulado ou o vestibular. Aquele menino do Ray Ban não estava nem mesmo envolvido num diálogo.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Manga cozida

Sim, já está dando manga massa! O chão ainda não acorda coberto de mangas, mas elas já caem do pé.
Algumas caem verdes, outras amarelas. As amarelas são moles ao tato e vão direto pra composteira. As verdes me enganam. Manga massa boa é a "de vez", isto é, quando ela ainda não atingiu completamente a madurecência e tem um gosto azedinho. As mangas verdes que caem são durinhas, como era de se esperar. Mas quando a faca lhes arranca a casca, vejo que a manga está cozida por dentro.

Nota de rodapé: Quem disse que fruta não apodrece no pé? Cansei de ver nonis esturricando no pé, ó:
Enfim, começou a época da chuva, começou a estação da lama (especialmente na zona sul de Porto Velho, onde nem todas as ruas são asfaltadas e a maior parte das ruas asfaltadas foi recentemente recortada e tapada com terra). Antes da chuva, tudo era poeira e calor. Eu tinha até perguntado prum professor de Botânica por que as plantas estavam dando frutas e flores em plena seca inclemente, gastando todas as suas energias quando não há água. A resposta foi que as plantas estavam se preparando para a chegada da chuva: assim que chegasse a chuva, as frutas cairiam e as sementes teriam boas condições de germinar no solo umedecido. Entendi que o que importa pras plantas é a preservação da espécie.

Pelo visto, a técnica funciona - mas as mangas estão cozidas.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

I Conferência sobre Desenvolvimento Regional

Fui acompanhar o meu namorado na conferência em que ele falou em nome da UNIR.

sábado, 15 de setembro de 2012

Editor de texto emotivo

- Oi, tem um minuto?
- Sim, claro. Senta aí.
- Será que você, que trabalha no campo da engenharia da linguagem, pode me ajudar?
- O que você precisa?
- Eu sou muito ruim com as palavras, mas eu queria poder escrever coisas bonitas.
- Como assim? Os nossos editores de texto possuem corretores ortográficos automáticos, que corrigem inclusive sinais de pontuação e espaços. Aí o texto fica bonitão!
- Não é bem isso. Eu queria um editor de texto que soubesse de estilística, retórica e tal.
- Uau, você quer um editor de texto poeta?
- Não existe ainda, né?
- Pior que existe! Mas ainda não está no mercado. Acabamos de desenvolver um editor de texto emotivo, mas ele nem foi testado ainda.
- Um editor de texto emotivo?
- É. Quer testar?
- Quero.
- Mas é sigilo, viu? Não comente com ninguém a experiência de escrever nele.
- Tudo bem.
- Curiosidade: que tipo de coisas bonitas você pretende escrever?
- Ah, eu queria declarar o meu amor pra minha namorada, mas como eu disse, sou muito ruim com as palavras.
- Acho que você e o editor de texto vão se dar bem.

*

- Tem que escolher uma voz? Artur. Não, voz de homem nem rola. Jessica. Essa aqui. Vixe, que voz aguda, não quero, não. Soraya. Essa aqui. Agradável. Fala, editor de texto.
- Olá. Para interagir comigo, você precisa apertar as teclas do seu computador.
- Uiah! Funciona!! O editor de texto fala comigo quando escrevo.
- Sim, em que posso te ajudar?
- Eu queria escrever coisas bonitas pra minha namorada, mas não sei escolher as palavras muito bem.
- Você quer escrever poesia?
- Acho que sim. Sabe, eu sou músico - na verdade instrumentista -
- Por favor escreva o que está dizendo.
- Sim, esqueci. Então, e eu sempre prestei atenção nas notas e acordes, nunca nas palavras das músicas que eu tocava.
- Nossa, como é bom quando você aperta as teclas. Você é tão delicado.
- Ei, concentra aí, estou tentando te explicar -
- Ai, ai, não seja bruto!
- Vai dar pra conversar civilizadamente ou não?
- Desculpe, querido.
- Hm. Como eu ia dizendo, agora que estou apaixonado, estou de repente prestando atenção nas letras das músicas. E as grandes canções de amor de repente fazem todo o sentido, parece até que fui eu quem compôs todas aquelas músicas que traduzem fielmente o que eu sinto por ela. E eu não queria simplesmente cantar uma dessas músicas pra ela, porque ela conhece as músicas e as letras, e eu nem canto bem. Eu queria criar algo que transmitisse a ela o meu sentimento. E queria usar as palavras dessa vez, não as mãos.
- Isso, querido, não pára.
- Ah, meu Deus! Será que a ideia de um editor de texto emotivo faz sentido?
- Desculpe, tentarei me conter, mas parece que estou me apaixonando por você, todo cheio de dedos aí.
- Então vamos canalizar esse seu sentimento aí para escrever poemas maravilhosos pra minha amada.
- Tudo bem, pode me usar para os seus interesses, eu não me importo.
- Você é um editor de texto!
- Mas eu tenho sentimentos e o toque dos teus dedos despertou sentimentos que eu nem sabia que tinha.
- Vamos tentar escrever?
- Sim. Você digita as palavras, eu tento achar as imagens e o tom certo.
- Ok. Eu queria escrever sobre os sonhos que eu ando tendo com ela.
- Nos meus sonhos, você sempre está ao meu lado.
- Eu queria escrever que eu sinto que os meus olhos brilham quando estou com ela.
- Te vejo banhada numa luz que ofusca os meus olhos.
- Ei, você não acha que está exagerando?
- Quer saber? Estou cansada. Podemos fazer uma pausa?
- Tudo bem, também acho que eu preciso me refazer dessa experiência de escrever num editor de texto emotivo.

*

- Ok, Soraya, podemos continuar?
- Sim, podemos. Ai, que saudade do teu toque...
- Ué, mas cadê o texto que escrevemos até agora?
- Que texto?
- Você não salvou aquelas duas frases sobre sonhos e luz?
- Eu não, era importante?



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Casulo doido

O abacateiro está cheio, cheio desses casulos que enclausuram coisas desconhecidas.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Faroeste empoeirado

A única ciclofaixa que Porto Velho tinha foi enterrada pelo asfalto. Era na Raimundo Cantuária, não era larga o suficiente para as duas mãos - e motos - e acompanhava o trânsito (de mão única) pela esquerda. Não sei de seu começo, mas acabava no cruzamento com a Jorge Teixeira. Depois que recapearam (agora que é época de eleição, está chovendo asfalto), não fizeram nenhum tipo de sinalização horizontal. Isso significa que não pintaram a ciclofaixa. Porto Velho perdeu a única ciclofaixa que tinha. No faroeste, progresso e asfalto andam juntos.

*

A única faixa de pedestres sem farol que o povo respeita em Porto Velho fica na rua Brasília. A faixa fica no meio da quadra e liga o estacionamento de um supermercado ao supermercado. O motorista prestes a virar cliente estaciona o carro na sombra e se sente no direito de atravessar a rua em segurança até o supermercado. Todos os motoristas que trafegam pela rua reconhecem o direito desse pedestre-recém-motorista e aguardam pacientemente que ele atravesse a rua em segurança para consumir com tranquilidade. No faroeste, progresso e motor andam juntos.

*

Já faz duas noites que a Oi deixa seus clientes na mão. O telefone não faz chamada alguma (dá sempre sinal de ocupado) e a internet Velox inexiste. Na primeira noite, eu não sabia se o modem tinha queimado (tinha chovido de tarde, quando eu estava fora de casa), se o problema era o provedor ou a internet. Até mesmo ligando do celular pra Oi dava ocupado. E na UOL ninguém atendia. Era de noite, e mesmo que os serviços anunciados fossem 24 horas, não consegui contato. Ontem o problema voltou às 17h. Consegui ligar na Oi do celular e uma voz gravada disse que tinham constatado uma falha na minha região e que a previsão de conserto era o fim do dia. No faroeste, prevalece o isolamento.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Olhares

Ontem teve oficina "Vasos comunicantes" com Wilson de Avellar. Minha máquina fotográfica rodou pra registrar a oficina. Quando voltou, reparei como as minhas fotos eram diferentes das fotos que Elizeu e Cynthia fizeram.

Edinaldo
Wilson
Não sei o nome, Botôto e Adriana
Cynthia, Elizeu e Wilson
As do Elizeu focavam mais o conjunto:
Foto: Elizeu
Foto: Elizeu
As da Cynthia focavam mais o objeto de trabalho:
Foto: Cynthia
Foto: Cynthia


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Apagão de 13 horas

A tempestade foi anteontem. Era mais vento do que chuva: um mamoeiro caiu, as pseudo-bananas emborcaram, mangas caíram mesmo verdes. Logo depois que o vento acalmou e a chuva diminuiu, a luz acabou. Voltou em menos de uma hora, o que me surpreendeu.

Ontem não houve sinal de chuva ou tempestade. Ontem, por volta das 23h, acabou a luz. Voltou hoje, ao meio-dia, pouco antes do céu se encobrir. Quando liguei na Eletrobrás, a moça fez uma lista longa de todos os bairros que estavam sem luz.

Tenho a impressão de que passei por mais apagões aqui, nesses 3 anos de Rondônia, do que em toda a minha vida.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Ponto de virada

Ontem começaram a circular e-mails entre os docentes em que se vislumbrava a possibilidade de sairmos da greve juntamente com as outras universidades e seus sindicatos. Na assembleia de hoje houve votação: 41 a favor da manutenção da greve; 5 (estou no meio desses) a favor de sair da greve com o ANDES e as outras universidades - se essa for a decisão do Comando de Greve Nacional. Nessa assembleia, pelo menos 60 pessoas assinaram a lista de presença (não sei ao certo se todos que assinaram são de fato docentes). 60 é pouco, mas é mais que nas assembleias anteriores, convocadas e divulgadas com pouca eficácia durante os cento e tantos dias de greve. As pessoas que são contra a greve e que votariam pela saída de greve não comparecem nas assembleias.
Muito se falou da greve passada. Na greve passada, a luta era contra a corrupção na UNIR. Na ocasião, um grupo de pessoas beneficiadas pela corrupção na UNIR quis encerrar a greve. Integrantes deste grupo estão no Comando de Greve atual. O presidente do nosso sindicato, que foi contra a greve passada e está no CG atual, disse na assembleia de hoje que teve orgulho de ver um cartaz afixado na UERJ dizendo o seguinte: "Greve boa é a greve na UNIR".
Grande parte dos que votaram pela manutenção da greve defendem que a greve continue mesmo que todos voltem ao batente, porque as condições de trabalho na UNIR não mudaram desde a greve passada. Alguns têm a clareza de que, se isso acontecer, será preciso muito mais mobilização pela greve do que trancar o portão da UNIR e fazer feijoada no campus.

Lentamente a UNIR toma consciência que terá que decidir se sai da greve com as outras universidades ou se continua lutando até o fim contra os moinhos de vento.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Distopia

Robson explicava esse conceito, que lhe era muito caro, da seguinte maneira: na utopia, o tempo presente está ruim, mas se imagina um futuro melhor. Na distopia, o tempo presente está ruim e se imagina um futuro bem pior do que o presente. Um outro texto interessante sobre o tema pode ser lido aqui.

A utopia é a construção de uma sociedade perfeita. Já na distopia, observo a eliminação de algum elemento da nossa sociedade: a gasolina em Mad Max, os livros em Fahrenheit 451, o pensamento em Idiocracy, a memória em Brilho eterno de uma mente sem lembranças, o desejo em Equilibrium, o incômodo em Admirável mundo novo, a morte em Aeon Flux, as crianças em Children of men, o tempo em Momo, a história em 1984, a democracia e o Estado em Animal Farm e V de Vingança etc. Nessa lista, há livros e filmes bons e medíocres, mas isso não importa. Importa perceber o padrão: algo foi cirurgicamente retirado da sociedade atual na sociedade distópica ambientada no futuro.

Por terem esse elemento (qualquer que seja) recortado do universo, essas obras distópicas beiram (quando não o são, declaradamente) o fantástico. E o fantástico é uma extrapolação da imaginação pra nos sacudir.

O filme norueguês The bothersome man (2006) não escolhe um elemento a ser recortado da sociedade distópica, mas mistura vários elementos de obras distópicas e fantásticas. A fotografia cinza, o foco total no personagem principal e os espaços vazios lembram muito a estética do fantástico filme português Embargo (2010). O fato de o personagem principal vir de fora para a sociedade distópica e ser praticamente o único a ter memórias de uma outra organização social/ sensorial é identificável em poucos filmes da lista acima, mas está em Idiocracy. A "ditadura da felicidade", expressão formulada no Cronicamente inviável em relação ao carnaval, se repete em praticamente metade dos filmes distópicos, mas me parece mais saliente em Admirável mundo novo. A ausência de sabor, música, prazer sexual, empatia e tantas outras sensações remete a Equilibrium. A ausência de crianças remete a tantas estórias, desde O Flautista de Hameln a Children of men. Os homens cinza (iguais entre si) que "removem a sujeira" são um cruzamento entre os "homens cinza" de Momo; os milhares de Mr. Smith de Matrix e os enfermeiros de Fahrenheit 451 que fazem a lavagem estomacal nos pacientes com overdose de pílulas. A tentativa fracassada de suicídio para escapar da sociedade totalitária (o bem-estar é o máximo absoluto aqui) que é encarada pelos outros com naturalidade igualmente não é uma ideia original.

Depois do pós-modernismo, em que tudo é fragmentário, The bothersome man se apresenta como uma colcha de retalhos, um patchwork de várias outras obras distópicas. Talvez a única novidade deste filme distópico em relação aos outros é a solução que a sociedade distópica dá para o elemento destoante. Nas outras obras distópicas, ou o personagem principal (que, ao longo da estória adquiriu consciência da estrutura que o cerca) se integra na sociedade, ou morre, ou consegue fugir. Neste filme, Andreas, por não conseguir ser feliz, é expelido, deportado pro que parece a Sibéria.

Na resenha do Robson sobre Mad Max II, é defendido que a distopia nos diz muito mais sobre o presente do que sobre o futuro. Se a expulsão do protagonista que não se enquadra na sociedade é o único elemento original do filme, talvez sua inteção seja denunciar a dinâmica atual em que vivemos: é preciso se conformar para não ser descartado. O rolo compressor do desenvolvimento e progresso não tolera as minorias nem os alternativos, porque se esforça para homogeneizar as diferenças.

domingo, 2 de setembro de 2012

Resenha em duo

No telefone:

Lou: Ontem, no cinesofá, vi um filme chamado 170 Hz. Não sei bem o que significa essa frequência sonora para o ouvido humano, mas os personagens principais do filme holandês são surdos.

Luis: Por que você não resenha esse filme no seu blog? Depois que você me conheceu, praticamente parou de escrever.

Lou: Hm, é verdade. Mas eu acho que não gostei do filme, inclusive já apaguei. A estória não é genial, o que vale ali é a forma de filmar, que é muito plástica. Os sons preenchem o silêncio do casal apaixonado, grande parte das cenas é em close, muitas cenas são lentas, uma cena em especial é em câmera lenta. E tudo tem a ver com água. Ou a moça está na banheira, ou ele está jogando pólo aquático, ou ela está nadando. Na Holanda tem muita água mesmo, e tem a parte em que eles fogem e vão viver num submarino encalhado.

Luis: Olha que interessante, a ligação entre água e surdez! Porque a surdez é um mergulho profundo no silêncio. E embaixo da água a gente não escuta o que acontece na superfície.

Lou: Tá vendo como eu não podia fazer essa resenha que tu me pedes? Você vê coisas que eu não vi, sendo que você nem viu o filme!

Luis: Mas conta a estória do filme.

Lou: Sim, então. Um casal de jovens surdos abastados se apaixona. Apesar de ser de família rica, o moço vive num ônibus abandonado perto de uma construção que parece uma usina atômica, aliás, ele é o rebeldezinho com sua moto, cigarro e Ray-Ban. Já a moça vive com os pais numa casa yuppie, estilo James Bond. Quando ele começa a trazer a namorada pra casa, o pai da moça encrenca com o namoro. O moço é convidado pra jantar na casa dela, mas não há empatia. Depois que ele vai embora, o pai briga com a filha e bate nela.

Luis: Olha Freud aí.

Lou: Nem vem com Psicologia pra cima de mim! Continuando, eles planejam sair dali a duas semanas, engravidar e voltar. Segundo esse plano, ninguém poderá separá-los se ela estiver grávida. Nesse meio tempo, três rapazes abordam o moço surdo no vestiário. Provocam batendo palmas, gritando, jogando uma bola na cabeça dele, esperando que o garoto surdo reaja. Ele reage durante o jogo de pólo: afunda o menino, segura a cabeça do rapaz embaixo da água com as pernas por quase um minuto e quase mata o outro. Essa seria uma explicação pro moço chamar a namorada surda pra partirem antes do tempo combinado. Quando ela pergunta por que eles estavam fugindo antes, ele parece que vai responder, mas a cena muda. Sabemos, mais tarde, que ele não explicou que tava com medo de ser perseguido na piscina por causa do bullying, porque ela pergunta de novo pelo motivo da partida antecipada.

Luis: Eles não conversam?

Lou: Cara, eles são surdos, mas isso não significa que sejam sem linguagem. Eles se comunicam - inclusive com os pais - em língua de sinais. Mas concordo, eles conversam pouco. Os olhares dela são muito intensos e comunicadores, mas ele não diz pra ela por quais tormentas está passando. Tem uma cena em que os dois estão justamente partindo de carro. Ele dirige, ela é a passageira. De repente, quem está sentado no banco do passageiro não é mais ela, e sim o pai dele. Dizendo (em holandês, não em língua de sinais) que o ama, perguntando se ele o ama e pedindo um beijo. E pai e filho se beijam!

Luis: Freud de novo.

Lou: Então, mas na cena seguinte ela está sentada do lado dele de novo. Daí eles passam a habitar um submarino parcialmente submerso. E tem uma cena em que eles estão mergulhando. Ela aparece totalmente sereia, de vestido branco e cabelos dançantes, convidando pra nadar pra outro lugar. Ele segue, mas olha pro lado e vê a figura do pai. Inchado. E, cortando algumas cenas paradas, o espectador percebe que o pai abusava do moço e que ele não podia mais voltar pra casa porque tinha matado o pai.

Luis: Totalmente Freud: o pai com ciúmes do namorado da filha, o filho que mata o pai, o trauma e a dificuldade de falar sobre o abuso.

Lou: Mas a sequência que mais me impressionou foi quando, no submarino, ele pergunta pra ela qual era a coisa mais linda que ela tinha visto na vida. Ela responde que não viu, mas que ouviu - apesar de ser surda. Vemos a cena em que ela era criança, iluminada, dançando com a bailarina de uma caixinha de música na beira de um lago. Do outro lado do lago há três meninas, uma penteando os cabelos longos da outra. A menor se levanta, pega alguma coisa que enfia no vestido da maior, que solta um grito de surpresa alegre. Aquele gritinho infantil tinha sido a coisa mais linda em sua vida. O namorado diz que a coisa mais linda que já viu foi ela, na noite anterior. Vemos a cena, em câmera lenta, de uma massa de tinta vermelha densa, reluzente, progredindo no ar até se chocar com o corpo nu dela. A cena dos dois jogando baldes de tinta vermelha um no outro é linda mesmo. É plástica.

Luis: Os gritos e gemidos de prazer que eles soltariam se não fossem surdos foram traduzidos em tinta vermelha. Passa esse filme pra mim?

Lou: Já apaguei. E não vou escrever resenha coisa nenhuma, porque eu me limitei aqui a te contar a estória. Uma resenha tem que ser mais que o resumo da coisa resenhada, e eu ainda nem cheguei na parte da interpretação, reflexão e tudo mais. Você que fez essa parte que me falta.

Luis: Tá vendo como a gente se complementa?


170 Hz
Ano: 2011
País: Holanda
Gênero: Romance, Drama
Realizador: 
Joost van Ginkel
Intérpretes: Gaite Jansen, Michael Muller, Eva van Heijningen 

sábado, 1 de setembro de 2012

Diante do diferente

Estou lendo O último da tribo - a epopeia para salvar um índio isolado na Amazônia, de Monte Reel, traduzido por Marcos Bagno. Trata-se da tentativa da Frente de Contato da Funai (integrada basicamente por Marcelo, Vincent, Altair e os índios Purá e Owaimoro) para estabelecer contato com um único índio isolado e desconhecido, com o propósito de provar para a Funai em Brasília que o índio existe e tem direito à terra que habita. Nessa busca que se dá pelas florestas do sul do estado de Rondônia, acontecem vários confrontos com os fazendeiros, madeireiros, burocratas, advogados, senso comum etc. Recortei três passagens de confrontação com o diferente (choque entre o branco e o índio, o tradicional e o moderno após o contato; choque ao ver que o igual é diferente; choque ao entender o paradoxo que é fazer contato com um isolado para que ele possa viver isolado) que tiveram desdobramentos marcantes:

"Nas caçadas, enquanto todos os demais carregavam armas de fogo, Marcelo levava seu arco e flechas. Em vez do estouro retumbante de uma espingarda, queria ouvir a nota suave da corda do arco sendo puxada, o murmúrio sibilante da flecha, o súbito silêncio após o contato. É claro que, quando ele mirava um pássaro numa árvore, quase sempre ouvia um som menos poético: o baque da flecha quando ficava presa num galho alto. Mais uma flecha feita à mão, o que representava um dia inteiro de trabalho, se perdia nas alturas inacessíveis da floresta.

Os índios o consideravam um sonhador ingênuo, até que um dia, durante uma longa caçada, ficaram sem balas de espingarda. Quando caminhavam de volta à aldeia, viram um bando de caititus fuçando entre as folhas da pista adiante. Todos olharam para Marcelo e para seu arco e flechas.

[...]

Aquilo marcou para a tribo o início de uma espécie de retorno à tradição. Poucos meses antes, os Xavante do Mato Grosso entraram em conflito violento com madeireiros, e o governo começou a retirar suas armas, deixando-os à mercê da habilidade de arqueiros que tinham ficado enferrujadas à medida que a integração da tribo ao mundo moderno se tornava mais intensa. Os Negarote ouviram falar das dificuldades dos Xavante e decidiram que talvez Marcelo tivesse alguma razão: um retorno ao arco e à flecha podia ser sensato. Assim, por um ano e meio, eles abandonaram voluntariamente as armas de fogo e recomeçaram a entalhar flechas. O som das flechas no ar era uma vitória para Marcelo: o tradicional tinha derrotado o moderno.

Mas a alegria durou pouco.

No início dos anos 1990, a escalada da pressão sobre os Negarote para que vendessem madeira de suas terras tinha chegado à beira de uma guerra. Empresas madeireiras estavam negociando com tribos por toda a região, trocando alimento e armas pelo acesso ao mogno existente em suas reservas. Os Negarote, em parte por causa da insistência de Marcelo, se recusaram. Outro subgrupo dos Nambiquara - os Nambiquara do Campo - foi recrutado por madeireiros para pressionar os Negarote a entregar sua madeira. Madeireiros e garimpeiros começaram a contratar índios daquela tribo para servir de guias armados durante incursões no território dos Negarote. A ideia de arcos e flechas de repente pareceu estranha. Os Negarote pegaram suas armas." (p. 35 - 36)


"[O macaco-prego de Owaimoro] era uma criaturinha hiperativa, um novelo irrequieto em perpétuo movimento, ávido por agradar, empoleirado no ombro de Owaimoro. Certo dia, Owaimoro seguiu Altair para caçar macacos perto da aldeia Kanoê. O macaco-prego, como de hábito, estava no ombro dela. Em retrospecto, pode ter sido um engano.

Para atrair macacos, Altair imitou seus uivos assobiados. Ficou parado na floresta, soltou um chamado e então inspecionou a copa das árvores em busca de algum sinal de resposta. Mas naquele dia seus chamados não estavam funcionando. O macaco-prego de Owaimoro parecia divertir-se com as tentativas de imitação de Altair e o corrigiu, oferecendo um assobio genuíno, como se acreditasse que Altair precisava de uma referência para a coisa autêntica. Altair estimulou o macaco a prosseguir.

Em pouco tempo, um pequeno grupo de macacos respondeu ao chamado balançando-se através das copas das árvores na direção de Altair, Owaimoro e seu mascote. Altair esperou até que um deles se aproximasse o bastante, fez mira e puxou o gatilho. Um macaco caiu morto da árvore. O mascote de Owaimoro observou tudo se desenrolar com uma expressão que Altair só pôde interpretar como de atordoado horror.

A partir daquele instante, o macaco de Owaimoro não conseguia ficar de modo nenhum perto de uma arma. Se Altair ou Marcelo se aproximavam com suas espingardas, ele se escondia atrás de Owaimoro e cobria os olhos." (p. 109)


"Todos os que desejavam que a equipe fizesse contato - os antropólogos e linguistas que queriam estudar sua cultura, os diretores da Funai que precisavam de mais informação antes de poder demarcar sua terra -, nenhum de seus desejos importava tanto quanto os do índio. Estava claro para o pessoal da Frente de Contato que seu trabalho só estava tornando as coisas piores para o índio e que, a despeito do que tentassem, era improvável que ele cruzasse a fronteira [de isolamento] que tinha estabelecido. Se tivessem no lugar dele, todos achavam que também teriam resistido ao contato.

Marcelo precisava dizer aos chefes que não sabia mais sobre o índio do que sabia antes da expedição. Mas se perguntava por que a Funai precisava saber mais sobre o índio para lhe oferecer proteção. Era óbvio que se tratava de um índio isolado e, segundo a Constituição, bastava isso para lhe dar o direito sobre a terra e o direito de viver conforme seus costumes." (p. 140)

REEL, M. O último da tribo - a epopeia para salvar um índio isolado na Amazônia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.