sábado, 9 de junho de 2018

Galinhas

Um dia, Luis chegou aqui em casa com um patinho amarelo. Agnes e eu nos alegramos, mas ele ficou a noite inteira grasnando na nossa janela, desesperado. Na manhã seguinte, Luis levou o pato embora e o trocou por uma galinha. 

Os porquinhos da índia tiveram que aprender a conviver com a galinha, que sempre disputava comida com eles e os botava pra correr. Agora eles pararam de se multiplicar e estão apenas gordos, comendo e cavando túneis na grama cortada que o Luis coleta no condomínio e joga pra eles.
Orelinha rosa é a mãe dos dois;
o albino é macho e come de olhos fechados mesmo
Aí essa galinha passou a querer entrar em casa pelas janelas. No começo, ficava só na janela, depois resolveu conhecer a impressora, o escritório, a estante de livros, o corredor da casa. Eu botava ela pra fora pela janela, ela voltava. Não fugia, se deixava pegar, como se essa fosse a brincadeira. Agnes podia fazer carinho na galinha e ela nos seguia. Ela bota ovo dia sim, dia não. Quando Luis viaja, ela deixa de botar ovo - não importa quanto tempo ele fique fora. 

Luis achou essa galinha muito carente e arrumou uma codorna. A codorna era muito tímida e ficava o dia inteiro parada na parede. Quando a gente achou que a codorna tinha sumido, veio outra codorna. Até que, num dia de chuva, identifiquei a primeira codorna se mexendo no cantinho. Depois de um tempo, a primeira sumiu, a segunda também. E a galinha voltou a querer compartilhar da nossa vida dentro de casa. Cacarejava e cantava de galo, em alta crise de identidade. Conhece todo o terreno a que tem acesso, escolhendo lugares específicos para atividades particulares: dorme empoleirada perto da janela (pallets velhos viraram poleiros), o banheiro é no poleiro da outra janela, a banheira de poeira é no canto do muro, os ovos são depositados ou na caminha de grama que Luis fez pra ela num canto em que venta pouco, ou embaixo do poleiro onde ela dorme.

Galinhas são animais gregários, disse o Luis e voltou na loja que lhe havia vendido o pato, as codornas e a galinha. Escolheu uma galinha japonesa, chamada Nagasaki. Todos na loja se despediram da Nagasaki e lhe desejaram boa sorte. Disseram que ela não bota ovo, mas se botar, é um ovo vermelho.
No primeiro dia, as duas se estranharam bastante. A galinha botava a Nagasaki pra correr, não deixava ela comer nem descansar. Observando as duas, era evidente como a galinha estava acostumada a ciscar e caçar pequenos insetos. A Nagasaki passeava pelo terreno, mas não usava as pernas pra revirar o solo. Gostava de frutas e se mantinha em movimento o dia todo, apesar de nunca ter dado a volta na casa. Conhece a parte da casa que os porquinhos da índia também conhecem.

Aí o Luis observou que a galinha limpava as penas da outra, que elas andavam juntas e que a Nagasaki aprendeu a ciscar. Não houve mais tentativas de entrar na casa pela janela e os porquinhos da índia passaram a se interessar pela comida das galinhas. Quando Luis viaja, tomo sustos à noite, com as galinhas empoleiradas na janela do escritório dele batendo no vidro.

domingo, 3 de junho de 2018

Negociação de sentidos

Lidando com pessoas afásicas, aprendi que os sentidos são negociados. A figura do ouvinte não é passiva, mas chamada a colaborar com o falante na construção de sentidos.

Por outro lado, muitas vezes responder com ahã para enunciados incompreensíveis ajuda ao sujeito afásico a não ter que refazer seu enunciado. O ouvinte dá ao falante afásico a impressão de que foi compreendido, o que às vezes é uma grande recompensa. Durante a conversa, o ouvinte vai juntando pistas do que pode ter sido aquilo que ele não insistiu em "clarear".

Agnes não é afásica, mas às vezes fala coisas bastante obscuras. Às vezes eu digo ahã, às vezes eu pergunto se concordamos acerca do sentido. Até há pouco, quando eu perguntava ou repetia o que eu tinha ouvido mas não entendido, ela repetia o que tinha dito, com pronúncia mais cuidada. Normalmente isso bastava. O exemplo mais memorável desse processo é

bedêdsi > obedece? ... bedêdi > band-aid? SIM!!

Na nossa última negociação de sentidos, Agnes mobilizou o cenário em que ocorre o objeto que ela queria. Estávamos no estacionamento, entrando no carro. Ela disse:

eu qué leissinho > lencinho? ... geladêla! > leitinho? SIM!!!

Eu achei genial como ela insistiu em ser compreendida. Fiquei até pensando nas 3 posições da criança em relação à linguagem, segundo Claudia Lemos. Até onde estudei Aquisição de Linguagem, os nomes das posições não significam que acontecem numa dada sequência, apenas indicam ausência de nome melhor.

1 posição: a criança incorpora em sua fala fragmentos da fala do outro (que barulho é esse? fala comigo. Agnes diz essa sequência em bloco)
2 posição: a criança dobra, experimenta, mastiga e deforma a língua (eu fazei/ círculololô)
3 posição: a criança se posiciona em relação aos próprios enunciados (eu disse/ eu perguntei/ eu quis dizer), ou seja, usa a metalinguagem.

No exemplo da geladeira, Agnes não usou a metalinguagem, mas percebeu que a linguagem usada por ela foi um mistério pra mim, portanto era preciso reformular.


terça-feira, 29 de maio de 2018

domingo, 27 de maio de 2018

31. Reunião Anual da ABEU

Fui à 31. Reunião anual da ABEU (Associação Brasileira de Editoras Universitárias) via Confins (onde esperei por 7 horas). Cheguei em Santos Dumont e peguei um Uber para a Fiocruz, onde aconteceu a abertura do evento. Quando fiz a primeira foto de mim, pra mandar pra Agnes, reconheci a moça que saiu na foto por acidente: ela foi minha aluna em Santa Maria, quando ministrei o curso de editoração de livros. Na época, ela era estagiária da editora da UFSM. Agora é revisora concursada.
Na abertura, Conceição Evaristo e Eliana Yunes deram o tom do evento e foram citadas, mencionadas e mostradas ao longo dos dias que se seguiram. Depois, no ônibus a caminho de Petrópolis, fui ouvindo relatos de gráficas muito ruins, revisores terceirizados muito ruins, fui percebendo a importância de ter uma equipe de editoração na editora e fui conhecendo meus pares: colegas editores.
Fui percebendo a presença marcante da Fiocruz nas rodas de conversa e na organização. Por mais que a Fiocruz tenha uma editora e uma postura politicamente defensável, eles não tratavam das pressões a que está sujeita uma editora universitária. Pressões burocráticas internas à universidade (por exemplo, a filiação da ABEU demorou um mês e meio para ser paga pela UNIR. O comprovante de pagamento me foi enviado no último dia do evento), pressão dos autores que precisam publicar (mas nem sempre apresentam material publicável), não ter equipe e ter que terceirizar o serviço que muitas vezes não é bem feito, não ter reconhecimento da própria instituição etc.
No penúltimo dia, as regiões se reuniram em separado. Na foto acima estão, da esquerda pra direita, o editor da Editora da UFRR, EDUFRA (Rural do Amazonas em Belém), UFAM, EDUFT (Tocantins), EDUFRO (eu) e dois da Editora da UEA. Fizemos um pacto de nos ajudarmos mutuamente, porque percebemos que temos realidades similares.

Durante o evento, além do pessoal da Fiocruz, falaram representantes da CAPES, FAPEMIG, Biblioteca da UFSC, Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Assessor da Senadora Fátima Bezerra e alguns editores notáveis (ou pelo tempo no exercício da função ou pela atividade pós-lançamento: participação em feiras, festivais, bienais, conversas com autor, oficinas, performances na praça).

Eu assumi a Edufro há menos de um ano e ainda não acompanhei nenhum livro da submissão à publicação. Mas eu montei o catálogo da editora, para que a comunidade soubesse o que a Edufro já publicou, fiz o novo site da editora, convidei o Conselho Editorial, conversei com Pró-Reitores, Diretores de Núcleo e Coordenadores de Programas de Pós sobre suas demandas, chamei novos parecersitas ad hoc a se cadastrarem, propus novo regimento interno e uma política editorial (não tinha), comecei campanha de propaganda institucional com os estagiários e fui na Reitoria pedir financiamento de publicação de livro. Ter participado desse encontro me fez sentir menos solitária nessa jornada e mais armada de argumentos para negociar por uma equipe maior que eu + 2 estagiários.

Aí começaram os rumores sobre a greve, o medo de não conseguir voltar pra casa. Havia iniciado uma greve forte dos caminhoneiros que impedia o combustível de chegar aos postos. Sem gasolina, sem abastecimento (alimentos, transporte, serviços), todo mundo parado. Era a tão esperada greve dos trabalhadores, mesmo que eles fossem, em sua maioria, passivos. Muitos de nós, participantes da Reunião da ABEU, estávamos hospedados numa terceira pousada, indicada pelo site da ABEU, mas não atendida pela van da Fiocruz. Já desde o primeiro dia nos acostumamos (nós da foto acima e outros) a fazer rodízio de quem pede Uber pra ir pro Palácio do Itaboraí ou de volta pra pousada. No último dia, pegamos um Uber com placa de Duque de Caxias bem desorientado. Perguntei como ele tinha vindo parar em Petrópolis e ele respondeu que tinha trazido um grupo de pessoas que não estava conseguindo ônibus pra Petrópolis devido à greve. Começamos a entender o que se passava no resto do país.

Fomos em dois ônibus para os aeroportos SDU e GIG. Muitos voos cancelados, outros tantos atrasados. Até Confins estava tudo certo, segundo o rapaz do check-in, e depois de lá também, porque Confins ainda tinha combustível. Brasília é que não tinha. O avião foi abastecido, 50 minutos de voo depois, chegamos em Confins. Saímos do avião, mas eu voltaria, já que o mesmo avião seguiria pra PVH. Entramos confiantes, vimos o caminhão abastecendo o avião de novo e daí o piloto informou que o combustível do caminhão tinha acabado enquanto nos abastecia. Havia notícia de uma caminhão que vinha escoltado para o aeroporto. A mulher atrás de mim parou de falar e cantar de Jeová e resolveu colocar música de louvor bem alto no celular pra todo mundo ouvir. Essa parte, de como cada um lida com o desespero, foi difícil de suportar. Pedi pra ela colocar os fones dela. Uma hora depois da hora prevista, fomos abastecidos e partimos.

Em Porto Velho não teve Uber (por R$ 16,00) e tive que pegar taxi (por R$ 55,00). Mas pelo menos tinha taxi! A caminhada teria sido bem longa e penosa...

domingo, 20 de maio de 2018

Jogo Ka

Agnes e eu recuperamos esse jogo de uma gaveta pouco usada. Chama-se Jogo Ka e foi feito (pensado e materializado) pelos meus pais, quando eles tinham a fábrica de brinquedos. Como a minha família reconhece o Jogo Ka, mandei essas fotos pra minha tia, pro meu irmão e pra cuidadora do meu pai pelo whatsapp (minha mãe não tem whats). Ulla logo reconheceu o jogo, mas lamentou que não se lembrava das suas regras.

Philip fez duas perguntas: jogo Ka? Você sabe jogar? Pra ambos eu respondi que Agnes ditava as regras do jogo. Por exemplo, como montar o tabuleiro, onde colocar quais peças e como desmontar tudo depois. O jogo é tão móvel.

A cuidadora do Harro disse que mostraria as fotos pra ele, mas não tive retorno. Talvez ele se lembre do jogo e das regras. Philip me contou que Harro tinha orgulho de ter inventado um jogo melhor que xadrez.
Agnes ainda é muito nova pra jogar xadrez, mas joga Jogo Ka do jeito dela.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Editora para autores e editora para leitores


Editoras comerciais publicam quem paga e o que vende. Editoras universitárias têm um compromisso com a divulgação do conhecimento produzido na/para a universidade, mesmo que seus livros não tenham apelo comercial. Isso não significa, contudo, que a editora publica livros para atender às necessidades do autor sem considerar o público leitor.

Editora para autores
No contexto da lógica produtivista que mede quantidade em detrimento de qualidade, publicar capítulos de livros conta pontos no Lattes e na progressão funcional. No entanto, a necessidade de garantir estes pontos não pode ser o único estímulo para os autores. O livro não pode ser pensado apenas a partir das necessidades do autor, deve ser elaborado para um público leitor. Isso parece óbvio do ponto de vista do leitor, mas não de editoras para autores. Editais de publicação para publicar livros aprovados em editais anteriores é uma estratégia da editora atender à demanda de seus autores, fazendo com que os autores entendam a editora como um selo, não como uma editora que propõe projetos editoriais e que submete as propostas de livro a um processo de avaliação em três etapas: avaliação do editor, avaliação cega por pares e avaliação do Conselho Editorial.
Agências de fomento como a Capes e Cnpq estabelecem diretrizes formais para as publicações dos autores ao valorizar mais publicações do que participações em eventos. Para fins de progressão funcional, por exemplo, publicar a tese conta mais que publicar um artigo em periódico nacional. Publicar um capítulo de livro vale tanto quanto organizar uma coletânea. Participar de congresso, dialogar com os pares sobre o seu trabalho, expor o seu trabalho oralmente não conta pontos para fins de progressão funcional. Essa ordem de valores influencia as escolhas das pessoas.
Há quem faça o cálculo comparativo entre os gastos de uma ida a congresso (e consequente publicação em anais) e os gastos da publicação de uma coletânea. O resultado é que reunir textos de alunos numa coletânea e publicá-la (rateando os custos entre os autores) por uma editora comercial sai mais barato que enviar esses mesmos alunos para congressos. Acontece que os textos produzidos pelos alunos (normalmente artigos que servem como avaliação de fim de curso) dificilmente seriam aceitos por revistas científicas, se submetidos individualmente. Trata-se de estudos de caso que aplicam a teoria/metodologia apreendida durante um curso. Ou essa metodologia se dilui nos textos, ou é repetida exaustivamente em cada texto. Em ambos os casos, o leitor não entende por que esses textos estão juntos no mesmo livro e não percebe o fio vermelho que os costura. Em algumas coletâneas, os organizadores aparecem numa lista enorme, e assim cresce o número de pessoas que ganham pontos por publicação.
A ciência tem como característica definidora o diálogo entre pesquisadores. Nesse sentido, coletâneas são ótimos espaços para mostrar pesquisas coletivas, que se desenvolveram em diferentes laboratórios, por diversos pesquisadores que se debruçam sobre um mesmo problema. O papel do organizador do livro é dar vida e sentido à coletânea: seja propondo o trabalho coletivo aos autores, seja dirigindo - como um maestro - a produção dos textos, seja ordenando e justificando a ordem dos capítulos. Por isso o trabalho de costurar textos reunidos, escritos com diferentes propósitos (por exemplo, a aprovação ao final de um curso) é tão difícil e às vezes impossível.
Quando o livro é de um autor, editoras para autores publicam trabalhos que o autor já tinha pronto (dissertação ou tese, relatório de pesquisa ou algo que o valha) e adequou ao formato de livro. Fazer do livro a obra da vida inteira já não é mais projeto de ninguém nos dias de hoje. Infelizmente o que é posto em relevo é a produtividade do autor.
Na EDUFRO, poucos títulos são de autores/organizadores não ligados à universidade em que se situa a editora. Dos autores não vinculados à UNIR, quase todos publicaram literatura, e dentre eles está o atual governador do Estado, que publicou crônicas e contos. A maior parte das editoras universitárias não aceita propostas de ficção – e não temos exemplos de romances significativos publicados por editoras universitárias, porque os três pilares da universidade são ensino, pesquisa e extensão. A maior parte das editoras universitárias tradicionalmente prioriza a pesquisa. Contudo, não há publicação de pesquisa por parte de professores de outras instituições pela EDUFRO. Isso quer dizer que grande parte do conhecimento produzido sobre a Amazônia e Rondônia não se capilariza, não promove o diálogo onde o conhecimento é produzido.

Editoras para leitores
Editoras universitárias reputadas como a Edusp, Editora da UFMG, Fundação Editora da Unesp etc. publicam autores da instituição e fora dela em todas as modalidades que elas publicam. Organizam seu catálogo em séries e coleções e jamais algum autor pergunta para uma editora dessas se ela pode dar seu selo para um livro editado por outras editoras. Submeter um livro nessas editoras não equivale a pedir um favor, mas submeter o livro à avaliação. O autor/organizador sabe que a avaliação leva em conta a qualidade e relevância do texto e o potencial que o livro tem de se tornar referência.
O processo de avaliação da proposta de livro por dois pareceristas não identificados que não conhecem a identidade do(s) autor(es) é de suma importância numa editora universitária, bem como a avaliação que o Conselho Editorial faz do manuscrito com base nos pareceres. O livro é avaliado por seu mérito, não pela necessidade do autor/organizador de publicar.
A EDUFRO, que existe para suprir uma enorme lacuna editorial em Rondônia, não foi projetada para ser uma editora universitária. Fundada em 2001, seu primeiro regimento interno apareceu em 2008 e sua primeira proposta de política editorial foi elaborada na gestão atual. As regras de publicação não eram conhecidas pela comunidade, e talvez por isso os professores da UNIR se sentissem tão à vontade para pedir o selo da EDUFRO.
A ABEU (Associação Brasileira de Editoras Universitárias) se empenha, através de projetos de lei específicos para editoras universitárias[1], em possibilitar a plena profissionalização das editoras universitárias. A primeira reivindicação relaciona-se à rotatividade dos gestores na Reitoria (à qual a maioria das editoras universitárias é ligada), o que afeta a continuidade da gestão da editora, visto que o editor é indicado pelo reitor. A segunda diz respeito à equipe e a profissionalização do pessoal técnico que trabalha na editora. Em seguida vem a organização e dilatação do tempo para realizar programas/projetos editoriais. Por fim, destaco um mecanismo que estabelece que uma porcentagem mínima do orçamento da universidade seja regularmente direcionada para a editora. Autonomia, equipe competente, objetivos editoriais e financiamento continuado é o que qualquer editora para autores deseja para se transformar em editora para leitores e merecer o nome de editora universitária.




Lou-Ann Kleppa
Editora da Edufro
Portaria nº 557/2017/GR/UNIR


[1] Uma lei para as Editoras Universitárias. Revista Verbo, n. 12, 2015, p. 19.

domingo, 13 de maio de 2018

Dia das mães

Dedos na boca

Onde está Agnes?



sábado, 5 de maio de 2018

Elogio ao jardim

Nosso jardim está em flor.
Bromélia no pé de manga massa



Segundo Agnes, esse é uma flor-menina



Estamos colhendo muito coco

Orquídeas que Agnes ganhou no primeiro aniversário

Lágrimas de Cristo

terça-feira, 24 de abril de 2018

Descrição e prescrição

Hoje foi dia de seminário em Morfologia. Os textos propostos para os grupos tinham diferentes graus de extensão e complexidade, por isso eu podia esperar uma certa heterogeneidade das apresentações. O que não podia esperar, no entanto, era que um grupo silenciasse o texto que deveria apresentar.

O tema era concordância nominal, um assunto bastante tratado na escola e que estigmatiza o falante quando ele não marca o plural nos satélites do nome ou no próprio nome (os menino feio). Os alunos anunciaram que o texto que eles deveriam apresentar era científico, porém muito complexo, portanto iam se basear na Gramática Tradicional.

Ora, a Linguística costuma partir da Gramática Tradicional, porque ela é bastante disseminada, é a base comum, mas não serve aos propósitos da Ciência da Linguagem, já que apresenta regras de escrita ideal: o bom português - não como ele é, mas como deveria ser, se seguíssemos os bons poetas e literatos. A Gramática Tradicional é ponto de partida da Linguística para ser criticada depois, já que a Gramática Tradicional não se interessa pelo falante, pela sociedade que fala, pela língua em uso.

Na fala deles, apareceram o erro, o analfabeto que não sabe as coisas, ajudar o aluno, a regra culta. Disseram que o bom professor tinha que ter boa formação, bom senso e percepção social. Senti forte carga emotiva no grupo, como se tivessem pudores ou abjeção pessoal contra a variedade popular. Senti que a Gramática Tradicional virou Bíblia, hétero, correto, segurança.

Tive a impressão que os alunos se recusaram a reproduzir o texto em que a concordância da variante não-padrão (popular) é descrita e explicada, porque assim estariam ensinando à sua plateia como falar errado. Suspeito que não admitam que o que não é "certo" tem regras - para além de estar errado: ordem no caos? Tive a impressão de que esperavam que as aulas que se dá na universidade devem ser possíveis de ser dadas numa escola, para os alunos deles; que basta reproduzir o conteúdo e passá-lo adiante.

Mais tarde entendi que concordância nominal (e verbal) deve ser tabu pra eles, motivo de preconceito sofrido na pele. Eles entraram em Letras pra "aprender o português certo", não para refletir sobre a linguagem e por que a gente se entende quando usa a linguagem. Eles entraram em Letras porque perderam a prescrição na escola, se sentem no prejuízo.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Tchau, criancinhas

No começo, quando eu ia buscar a Agnes na escolinha (nessa em que ela está agora), ela dizia: "Tchau, kiancinhas, vou pra casa!" Agora que ela já está frequentando a escolinha faz mais de mês (tempo recorde que ela ficou seguidamente indo numa escolinha), ela fala das tias, das amigas, dos coleguinhas.

Chora quando a gente veste o uniforme nela, grita "escolinha não!", mas depois confessa que gosta de lá, das tias e dos coleguinhas. Buscar a menina na escola não é mais equivalente a salvá-la, como ela nos dava impressão nas escolinhas anteriores.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Quarentei

Cheguei aos 40 anos de idade.
Em dez dias, minha filha completa dois.
Duas arianas.
Agnes nasceu na véspera do impeachment da Dilma.
Eu completei 40 na véspera da prisão do Lula.
Dois presidentes pelo PT.
Que matemática!

terça-feira, 3 de abril de 2018

Consertar um Mac em Porto Velho

No fim de janeiro, logo depois que voltamos de férias, Agnes e eu estávamos conversando com a Oma no Skype, quando a menina no meu colo conseguiu abrir o copinho com líquido de fazer bolhas de sabão. O líquido se espalhou pelo teclado e minha mãe disse que deixou de nos ouvir por um momento. Conectei logo o HD externo, para que todos os dados fossem copiados enquanto durasse a bateria, mas ela não durou o suficiente. O teclado não respondia.

Desliguei e liguei de novo o computador, mas a primeira tela era da senha, e como nenhum botão de letra reproduzia letras, não consegui fazer mais nada.

Procurei uma assistência técnica autorizada da Apple em Porto Velho. Não tem. Tem uma especializada. Levei o computador lá. Suspeitaram que o problema fosse apenas o teclado, fizeram orçamento e encomendaram um teclado que veio por Sedex. Chegou o teclado, instalaram, mas não deu certo. Disseram que o teclado tinha vindo com defeito. Achei estranho uma peça MacIntosh ter defeito, mas mesmo assim autorizei que encomendassem um segundo teclado. Esse não veio por Sedex. Três semanas depois, quando perguntei na loja especializada se o teclado tinha chegado, o rapaz me mandou o localizador do objeto nos Correios. Vi que o teclado tinha sido postado da Santa Ifigênia (SP), o maior camelódromo de eletrônicos que conheço.

Chegou o segundo teclado, comecei a pressionar pra que consertassem logo o meu computador, afinal de contas, eu já estava fazia mais de mês sem computador. Amanhã damos uma posição. Quatro dias depois, o próprio técnico me escreveu mensagem no whats, dizendo que ele suspeitava que o problema não era somente o teclado, mas também a placa lógica. No dia seguinte, concluiu que o problema era a placa lógica mesmo, que tinha oxidado, porque agora que ele tinha trocado a placa lógica, o computador tinha voltado a ligar. Peraí, quando eu entreguei o computador, ele ligava. Mandou fotos da tela pra provar que estava funcionando perfeitamente e do teclado - com caracteres russos ocupando metade das teclas.

Briguei com o técnico e com a loja por whats e fui lá, retirar o meu computador. Ah, mas seu computador não está aqui. Nem o técnico não estava, porque era terceirizado e não trabalhava para a loja especializada no horário comercial. Dois meses depois de ter entregue o computador para a loja especializada, consegui retirá-lo. Não paguei nada (nem o correio, nem os teclados), porque eles tavam se sentindo muito mal de terem se enrolado tanto.

Peguei o telefone e liguei pra assistência autorizada da Apple mais próxima daqui: Manaus. Não aceitam computadores enviados pelo Correio nem consertam nada que tenha sido exposto a líquido, porque oxida e uma peça vai estragando a outra. Liguei pra autorizada de Brasília e o rapaz me perguntou de que ano era o meu computador. 2011. Pois então: nenhuma autorizada pega qualquer máquina mais antiga que 5 anos pra conserto. Política da Apple. Obsolescência programada.

Um orientando do meu marido, entendido em coisas de informática, me indicou um técnico que conserta peças, ao invés de apenas trocá-las. Levei lá. Todos me disseram que eu não podia dar a ele o diagnóstico anterior. Depois de duas semanas, perguntei se ele tinha encontrado o defeito. Placa mãe queimada. Imaginei que placa mãe e placa lógica são dois nomes que apontam para o mesmo objeto no mundo. Sabia que esse técnico não tinha acesso a peças Mac para trocar e fazer testes. Perguntei quanto custava uma placa mãe. R$ 1.700,00 foi a resposta.

Gastei horas e horas vendo computadores usados no Mercado Livre. Avisei ao técnico que compraria então um computador usado, igual ao meu por R$ 2.000,00. Queria colocar o HD que contém todos os meus dados no novo (usado) computador. Combinamos assim. Ele me perguntou se eu não queria vender o meu velho como sucata, já que aparece muito Mac pra ele consertar e ele não tem as peças. Concordei, mas não falamos de valores.

Investi horas pesquisando computadores. Demorei muito a peneirar as opções e depois demorei muito pra me decidir entre os três finalistas. Acabei escolhendo o mais barato, mas que tinha o frete expresso mais caro. Apertei o botão de "finalizar compra" pelo Mercado Livre e deu erro. Tentei de novo, erro. Inseri os dados do cartão de crédito manualmente. Erro. Por pura teimosia, tentei mais algumas vezes. Não deu. Escolhi outro computador. Li a descrição, concordei, apertei o botão de "finalizar a compra" achando que não daria certo, mas deu. E eu não lembrava mais o que tinha comprado. E o anúncio não estava mais disponível, já que eu tinha efetuado a compra. Fui dormir com esse barulho na minha cabeça.

Na manhã seguinte, 7:30, toca o telefone. Era o meu banco perguntando se eu tinha feito movimentações suspeitas na noite anterior. Sim, fui eu, e eu quero saber por que não consegui efetuar a compra logo de primeira. Por motivos de segurança. Achei uma droga a segurança ser o bloqueio, mas depois fiquei sabendo que meu marido teve seu cartão clonado e foram feitas muitas compras de valor alto no Mercado Livre. Ele ficou achando o meu banco muito bom.

O frete expresso significava entrega em 5 dias úteis. Numa semana que tem feriado, isso significa: semana que vem, meu bem. Eu tinha taquicardias quando passava por carros amarelos dos Correios. Não aguentei a ansiedade e escrevi pro vendedor: qual é o ano do computador que eu comprei? 2011. Ufa, igual o meu velho!

Ontem de manhã recebi sms dos Correios avisando que o computador tinha saído pra entrega às 9:40 da manhã. Minha vontade era de ficar sentada na frente de casa, esperando o carteiro, mas a família e a casa tinham demandas mais urgentes. O vendedor me mandou mensagem dizendo que o computador tinha saído pra entrega. Eu sabia que eu não receberia a encomenda. Quando Agnes e eu estávamos saindo do condomínio atrasadas pra escolinha e pra aula, vi o furgão amarelo dos Correios na primeira rua do condomínio. Marido recebeu o pacote e mandou mensagem avisando que tinha chegado.

Hoje fui lá na assistência técnica onde o meu velho computador foi declarado sucata. Ligamos o novo Mac. Sistema operacional High Sierra. O técnico desligou o computador, abriu o notebook, retirou o hd e colocou o meu velho. Ligou de novo. Tela branca por 30 segundos, daí que apareceu a maçã. Devagar, foi processando as informações. Ligou e tava tudo lá, no sistema El Capitan. Negociamos o valor do Mac sucata. O acordo em que chegamos corresponde a metade da minha proposta inicial e o dobro da proposta inicial dele. Acho que foi bom negócio.

domingo, 1 de abril de 2018

Feliz Páscoa!

Na quarta-feira, Agnes voltou da escolinha assim

Na sexta e no sábado, pintamos ovos

E hoje é páscoa!

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Momo reversa

Momo, de Michael Ende, vive num mundo dominado pelos senhores cinzas. Pra Agnes, "cinza" ainda não existe.

Azul foi a primeira cor que ela denominou. Em seguida veio rosa. Depois de um tempo, apareceram verderoxo e pêtu. Depois de longo tempo de consolidação das cores que ela já dominava, vieram memelho e manelho. Grande surpresa foi marrão. Raramente aparece nalanja, e na maioria das vezes é associado à fruta. Branco entrou em algum momento como weiss.

Falta o que? Grau, gris, cinza, grey.
O mundo de Momo virá por último, por enquanto a infância é arco-íris.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Pouco antes de chegar

Eu vi a picada no meu braço, bem na dobra. Achei que era mosquito e fui invadida pela lembrança dos fatos que minha memória tinha empurrado pro porão.

Eu tava contente e achando que a viagem tava terminando e não haveria mais surpresas quando acertamos o caminho mais curto da casa do Ernesto para a Bandeirantes e quando depois, apesar de termos saído da Marginal Tietê e entrado na Dutra por engano, conseguimos acertar a Localiza, devolver o carro e fazer check-in. Daí começou a dor de cabeça e os remédios já tinham sido despachados.

Uma ginecologista em Santa Maria tinha diagnosticado que eu tenho tanta dor de cabeça, que me dá náusea e vômito. Receitou remédio pra dor de cabeça. O médico que me atendeu no hospital agora desconfiou que eu sofra de enxaqueca.

Fato é que comecei a querer vomitar no avião. Me ofereceram gelo e não consegui mais controlar a náusea e vomitei a viagem inteira, em intervalos de mais ou menos 10 minutos. Me ofereceram Dramin, tomei dois. Me ofereceram Jofix, não adiantou. É um impulso neurológico. O cheiro da comida, os chutes do menino sentado na poltrona de trás, o balanço do avião durante as turbulências, o choro da Agnes: tudo era gatilho pra vomitar o que não tinha. Quando sobrevoamos Cuiabá, me perguntaram se era pra descer. Eu não faria isso com todo mundo, o voo era direto e isso é raro.

Luis sentou em outro lugar, a comissária de bordo sentou do meu lado e ficou trocando um saquinho de enjoo usado por um novo. Fomos os primeiros a desembarcar, a equipe de bordo ficou cobrando da equipe de solo o atendimento médico solicitado assim que eu recusei o pouso em Cuiabá. Chamaram o SAMU (porque a ambulância da Unimed só em casos internos de remoção de paciente e outras exceções). Encontramos a ambulância antes das enfermeiras nos encontrarem.

Eu fui de ambulância pro hospital (claro que vomitei mais uma última vez), Luis, Agnes e as malas foram de taxi. Tomei medicação e soro na veia. Agnes não conseguiu dormir na sala de observação, nem eu. Alta madrugada chegamos em casa. Essa foi a primeira vez que as minhas náuseas me levaram (e a minha família e as malas) pro hospital. 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Apabô

Durante essa viagem, Agnes desenvolveu rapidamente a fala. Ela não produz os róticos (variantes de [r]), trocando-os por [l] quando intervocálicos (ex: tila ao invés de tira) ou simplesmente omitindo-os (ex: Pêdu ao invés de Pedro). Os sibilantes também não estão estabilizados. Reparei que em palavras com 3 sílabas, a tônica é reduplicada e a primeira cancelada (sassaku ao invés de casaco/ memente ao invés de semente). Desconfio que se trate de um processo de assimilação (apabô ao invés de acabou) em que ela percebe a sílaba tônica e organiza sua fala em torno dela.

Um pouco mais de um mês fora de casa, percorrendo o litoral de Fortaleza a Ubatuba e a fala desabrocha. Em outra viagem, de duas semanas, também longe de casa (Alemanha), ela aprendeu a andar.

Nesse tempo fora de casa, a grama cresceu, o bambu no muro da Vila foi cortado, 4 dos nossos 7 porquinhos da índia morreram (chuva e mucura), o mofo tomou conta de colares e sapatos e Damián fez uma pérgola pras nossas trepadeiras.

Parquinhos

Outlet de Feira de Santana/BA
Parque da Jaqueira, Recife/PE
Parque da Jaqueira, Recife/PE
Praça do Museu de Arte Moderna - Aterro do Flamengo/RJ
Praça do Coco, Barão Geraldo - Campinas/SP
Praça do Coco, Barão Geraldo - Campinas/SP

domingo, 21 de janeiro de 2018

Pedro

Eliza, Agnes, Ernesto, Pedro e Rodrigo
A primeira paixão da Agnes foi pelo Pedro, primo mais novo dela. Isso foi em agosto do ano passado, quando pousamos em Campinas antes da grande viagem pra Alemanha.

A segunda grande paixão foi por outro Pedro, filho mais velho de Marcão e Kika, que ela conheceu em Ubatuba. Ainda com este Pedro na cabeça, foi rever o prim(eir)o Pedro e o entusiasmo não foi diferente. Pêdu, Pêdu, Pêdu pela casa toda.
Bolhas de sabão

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Infinita highway

Tínhamos calculado que era mais barato devolver o carro alugado no mesmo lugar em que foi retirado e voar para outra cidade do que pagar a taxa de deslocamento que a locadora cobra. Pegamos o carro no Rio, rodamos pra Cachoeiro e adjacências, descemos pra Macaé e seguimos pra Ubatuba pela BR 101. Relembrei a viagem de bicicleta que fiz em 2006. Os 70km entre Paraty e Ubatuba eu tinha feito em um dia. De carro dava pra fazer mais num dia, mas foi o dia todo de curvas, radares, ultrapassagens e paradas em posto. Lá fomos acolhidos por Marcão, Kika, Dona Guega, Pedro e Miguel. Agnes se encantou com o Pedro e encantou a todos.

Caímos na tentação de assumir os custos da taxa de deslocamento, já que o nosso destino seguinte era São Paulo, mas a multa de cancelamento do avião era mais cara que a passagem. Então voltamos ao plano original: subir a Oswaldo Cruz até Taubaté, pegar a BR 116, devolver o carro no Rio, embarcar no avião e voar pra Guarulhos. Foi o dia todo de curvas, radares, ultrapassagens e paradas em posto.

Olhando pela janela do avião, notei que a rota era pelo litoral. Se houvesse luz, veria a 101 serpenteando a costa. Fizemos em 45 minutos o que demoramos o dia todo pra fazer por terra.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Jurubatiba

A melhor parte de Macaé é desconhecida, de acesso pouco óbvio e mal sinalizado. Trata-se do Parque Nacional de restinga da Jurubatiba. Agnes fez um pouco de trilha, achou o máximo ter o mar de um lado e a lagoa do outro e brincou na areia do rio.
Ficamos bastante tempo observando a diversão da nossa menina. Entrava na água escura sem medo, voltava, cavava na areia, buscava conchinhas.
Parado na água, Luis percebeu peixinhos mordiscando suas pernas. Ainda tinha biscoito na bolsa, então passamos a provocar grandes disputas dentro d'água. Muito peixe é sinal de água limpa.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Vovó Madá

Agnes e Madá estão se divertindo muito. Madá lembra de muitas musiquinhas (que eu estou aprendendo agora).

Monte Verde e Pedra Azul

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A ideia era passar o dia no clube de golfe Monte Verde, mas choveu e não pudemos andar de pedalinho na lagoa, brincar no parquinho etc. e tal. Andamos de trenzinho na chuva e fizemos a trilha até a cachoeira debaixo do guarda-chuva. Essa foi a primeira cachoeira que Agnes viu.

Saímos de Monte Verde e as nuvens limparam. Voltamos por Venda Nova e Castelo e no caminho passamos pelo Parque da Pedra Azul. Tinha ali um laguinho com peixinhos que Agnes adorou. Ela aprendeu a jogar pedacinhos de biscoito com entusiasmo.