Jonas rolava de rir com os 'is' que os brasileiros enfiam nas palavras inglesas. Is-tri-pi-ti-si era o seu estrangeirismo brasileiro preferido.
Quando minha mãe e minha tia foram comigo pro Acre, fomos de Trip. Dentro do avião, quando a comissária de bordo agradeceu a nossa preferência em nome da Tripilinhas, minha mãe riu lágrimas.
Ontem Marcelo e eu chegamos no aeroporto às 4:30 da madrugada. Nosso avião para Vilhena faria escala em Cacoal. O avião tinha duas hélices e todos os barulhos e movimentos eram inversamente proporcionais ao seu tamanho. Na demonstração de procedimentos de segurança, não constava a parte das "máscaras de gás que cairão automaticamente em caso de despressurização da cabine".
Sobrevoamos Cacoal. Eram 6:30 e a neblina estava baixa. O piloto informou que não havia estação meteorológica em solo, e que não daria para pousar com auxílio de instrumentos - porque eles não existem. Tentou pousar duas vezes, mas o nevoeiro estava bem em cima da pista de pouso. Subiu e seguiu para Ji-Paraná. Pousou e deixou os passageiros que deveriam ter desembarcado em Cacoal. Decolou de novo, sobrevoou Cacoal e viu que dava para pousar. Os passageiros pacientes que tinham ficado em Cacoal esperando o avião pousar finalmente puderam embarcar para Vilhena.
Chegando em Vilhena, nos disseram que foi sorte conseguirmos pousar, porque a chuva estava se formando.
Na volta, percebemos que no aeroporto de Vilhena opera apenas uma empresa: Tripilinhas. Para ter acesso à sala de embarque, passamos pelo detector de metais. Nossa bagagem de mão foi estocada numa mesa enquanto passávamos pelo portal, ou seja, não há raio x para bagagem de mão. A funcionária que fica no detector de metais não usa uniforme. A sala de embarque tem uns cinco sofás bregas, de cores e modelos diferentes e uma TV passando novela da Globo.
meninamalouca
Noticiário da Pequena Lou.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Quer carona?
Ela vinha pedalando sua bicicleta quando reconheceu a vizinha parada no ponto de ônibus. Encostou o pé na guia e cumprimentou a outra com um sorriso entregue. A outra se aproximou, cumprimentou a vizinha e sua filha pequena que vinha no assento da frente:
- Você vai atéééééé lá de bicicleta?
- Vou. Quer carona?
- Você vai atéééééé lá de bicicleta?
- Vou. Quer carona?
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Remédio para Mustafá
Mustafá estava com uma diarreia brava. A veterinária disse que estava com infecção intestinal, provavelmente causada por ingestão de carne ou gordura cozida. Ajudei no diagnóstico, contando que Mustafá tinha o hábito de revirar o lixo da cozinha. E mesmo depois de trocar a lixeira por uma com tampa, ele virava o lixo.
Ela lhe deu duas injeções e receitou um remédio. Perguntou se eu conseguiria dar esse remédio, lembrando que muitos donos de animal preferem levar seu animal ao veterinário todo dia a ter que administrar eles próprios o remédio. Informou que na cartela vinha o dobro de pílulas que o gato precisava tomar - o que era bom pro caso de ele voltar a ter o mesmo problema.
Quase desisti de dar meia pílula pro Mustafá no primeiro dia. Ele espumava uma baba cor de rosa antes mesmo de ter ingerido a droga. Enrolado na toalha, ele esperneava com as quatro patas, rugia e me arranhava. Ele cuspia o comprimido, eu pegava outro. Até pedi pra Fran dar remédio pro gato revoltoso e aprendi a técnica com ela. Quando eu achava que tinha dominado a arte de fazer o gato engolir remédio, Mustafá me decepcionava. No fim de uma semana tomando meio comprimido a cada 12 horas (1 por dia), sobraram dois comprimidos. Moral da estória: Mustafá não tem remédio.
Ela lhe deu duas injeções e receitou um remédio. Perguntou se eu conseguiria dar esse remédio, lembrando que muitos donos de animal preferem levar seu animal ao veterinário todo dia a ter que administrar eles próprios o remédio. Informou que na cartela vinha o dobro de pílulas que o gato precisava tomar - o que era bom pro caso de ele voltar a ter o mesmo problema.
Quase desisti de dar meia pílula pro Mustafá no primeiro dia. Ele espumava uma baba cor de rosa antes mesmo de ter ingerido a droga. Enrolado na toalha, ele esperneava com as quatro patas, rugia e me arranhava. Ele cuspia o comprimido, eu pegava outro. Até pedi pra Fran dar remédio pro gato revoltoso e aprendi a técnica com ela. Quando eu achava que tinha dominado a arte de fazer o gato engolir remédio, Mustafá me decepcionava. No fim de uma semana tomando meio comprimido a cada 12 horas (1 por dia), sobraram dois comprimidos. Moral da estória: Mustafá não tem remédio.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Casa alagada - de novo
Li em algum lugar que caíram 113 mm de água em duas horas. O fato é que a minha casa alagou. Quinta vez que a Akari e eu passamos pelo processo. Dessa vez foram "só" 5 cm de água na casa inteira. Mas os móveis vão estragando, principalmente os de compensado.
A chuva forte começou lá pelas 5 da madrugada. Logo me pus de pé, acudindo as goteiras. A rua virou rio, o rio virou correnteza, tudo virou alagado. Antes que a água entrasse pela porta da casa, entrou pelo ralo do banheiro. Quando terminei de encher o primeiro balde com água marrom coletada no pano, fui chamar o Marcelo. Levantamos todas as coisas, vimos a água entrar e a luz acabar. Depois, no escuro mesmo, ajudamos a água a sair com o rodo. Às 7 da manhã continuava chovendo e escuro. Ainda de pijama e de barriga vazia, nos pusemos a passar pano embebido em desinfetante pela casa. Acabou a água da torneira. Quis ligar pras empresas de água e luz. Acabou o telefone. Celular sem bateria e sem crédito.
Deitei e dormi umas duas horas. Quando acordei, voltei a espremer pano em balde. A casa fedia. Tomamos café da manhã na cozinha, porque a área estava demasiado enlameada. A luz voltou ao meio-dia, a água veio tão fraquinha, que não sobe na caixa. Nada de lavar louça, dar descarga ou tomar banho no banheiro do Marcelo. A faxineira veio em plena terça-feira de carnaval. Cynthia e Fran vieram trazer doces e notícias do resto do mundo.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Meu tempo de volta
Sim, eu fui avisada. Mas insisti. A curiosidade venceu. E quem levou o prejuízo fui eu. No começo, eram as mesagens fofinhas sobre "graça" e a luz estourada que me incomodavam. Depois o movimento de câmera foi me nauseando. Os ângulos e enquadramentos da fotografia eram tão ousados, que beiravam o absurdo. Notei que o som era constantemente preenchido, mesmo que a trilha sonora fosse uma nota só. Daí eu percebi que não estava conseguindo acompanhar o fio narrativo. Quando o filme começou a contar a criação do universo, tive que rir pra não chorar. Na verdade, eu gargalhava de desespero. O que Brad Pitt e Sean Penn estão fazendo nesse filme?
A árvore da vida é um dos piores filmes que eu já vi na minha vida. Totalmente evangélico, totalmente americânico, altamente embaralhado: sobre tudo, mas ao mesmo tempo sobre nada. Passa do macro ao micro como passeia entre passado, presente e pós-morte.
Tive que ler outras resenhas sobre o filme, porque eu não acreditava que esse filme tenha saído dos estúdios. E todas as resenhas que li eram positivas e viam a glória do filme. Quando li que ganhou a palma de ouro em Cannes, vi o mundo mergulhado numa nefasta onda new age.
Eu jamais assistiria um filme do Padre Marcelo ou Chico Xavier, porque esses filmes são claramente marcados como filmes religiosos e que veiculam uma religiosidade da qual não compartilho. As credenciais de A árvore da vida são: Brad Pitt, Sean Penn e palma de ouro em Cannes. Nenhum desses três elementos indica, nem de longe, que o conteúdo do filme é uma oração.
A árvore da vida é um dos piores filmes que eu já vi na minha vida. Totalmente evangélico, totalmente americânico, altamente embaralhado: sobre tudo, mas ao mesmo tempo sobre nada. Passa do macro ao micro como passeia entre passado, presente e pós-morte.
Tive que ler outras resenhas sobre o filme, porque eu não acreditava que esse filme tenha saído dos estúdios. E todas as resenhas que li eram positivas e viam a glória do filme. Quando li que ganhou a palma de ouro em Cannes, vi o mundo mergulhado numa nefasta onda new age.
Eu jamais assistiria um filme do Padre Marcelo ou Chico Xavier, porque esses filmes são claramente marcados como filmes religiosos e que veiculam uma religiosidade da qual não compartilho. As credenciais de A árvore da vida são: Brad Pitt, Sean Penn e palma de ouro em Cannes. Nenhum desses três elementos indica, nem de longe, que o conteúdo do filme é uma oração.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Nessas horas
Ele tem um despertador biológico embutido. Quando dá 18h, mais ou menos, o alarme toca. Aí ele começa a correr pela casa, tocar o terror pra cima da companheira de espécie, pular em cima de tudo que se mexe ou pode ser mexido e quebrado. Mastiga capas de livro, abraça pastas e força seus elásticos, rasga papel, amassa listas de presença e se diverte com cabos. Desarruma a cama, fura o mosquiteiro e enfia dentes e unhas na carne de quem tentar controlar Mustafá, meu gato endiabrado.
O detalhe é que "nessas horas" a descarga de adrenalina é intensa, mas dura pouco. Logo depois de ter danificado algum objeto ou a honra da Akari, Mustafá se enrola no rabo comprido e dorme.
O detalhe é que "nessas horas" a descarga de adrenalina é intensa, mas dura pouco. Logo depois de ter danificado algum objeto ou a honra da Akari, Mustafá se enrola no rabo comprido e dorme.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Morrer de raiva
Ainda posso morrer de outras coisas, mas contra a raiva estou vacinada.
Tomei a quinta dose da vacina.
Tomei a quinta dose da vacina.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Quando a língua dá um nó na cabeça
Depois da aula de morfologia, em que estudamos processos de formação de palavras, pedi que os alunos resolvessem exercícios. Nesses exercícios, eu queria que eles chegassem à formulação de regras. No entanto, antes de chegar nas regras, era preciso experimentar com as palavras.
Montei paradigmas com lacunas:
objeto pessoa estabelecimento
pipoca pipoqueiro pipocaria
jornal jornaleiro jornaleiria/ jornalismo
Mesmo nunca tendo ouvido ou visto as palavras pipocaria ou jornaleiria, quase todos preencheram a lacuna.
Menos unânime foi a resposta para o reverso de tossir e espirrar. A grande maioria se esforçou muito para achar a resposta certa e acabou deixando a lacuna em branco. Dois responderam não tossir e não espirrar e dois intrépidos responderam que é destossir e desespirrar. Depois dessas exceções, vinha a pergunta: existe uma regra geral? Existe, foi a resposta da maioria.
Eu esperava que os alunos chegassem à conclusão que o processo de derivação não é homogêneo, linear. E esperava que eles percebessem que o processo de flexão, ao contrário, obedecia a paradigmas claros. Tão evidentes, que eu poderia conjugar nomes (eu detergento, tu detergentas, ele detergenta etc.), já que as terminações de um paradigma sempre seriam as mesmas - nos verbos regulares. Inventei três palavras, uma para cada conjugação: felecar, soler e talir. Eu esperava que eles tomassem como modelo as terminações de verbos como cantar, comer e partir. Uma única pessoa acertou as três tabelas de verbos: uma estrangeira.
Perguntei se estavam seguindo alguma regra. A resposta mais surpreendente foi: Não, segui meu estinto! (Com ponto de exclamação mesmo).
Por fim, pedi que dessem três exemplos de palavras terminadas em diferentes sufixos (-ção, -vel, -izar, -ice, -ada). E não é que me aparecem, por exemplo, lição, piada, criável, musicalizar, difíce e calvice? Fada foi foda, porque eles não perceberam que um sufixo se junta a uma unidade de sentido; e f- não faz sentido.
Acho que os exercícios romperam barreiras linguísticas na cabeça dos meus alunos: se a professora pode inventar palavras que ela chama de logatomas, então agora pode tudo.
Montei paradigmas com lacunas:
objeto pessoa estabelecimento
pipoca pipoqueiro pipocaria
jornal jornaleiro jornaleiria/ jornalismo
Mesmo nunca tendo ouvido ou visto as palavras pipocaria ou jornaleiria, quase todos preencheram a lacuna.
Menos unânime foi a resposta para o reverso de tossir e espirrar. A grande maioria se esforçou muito para achar a resposta certa e acabou deixando a lacuna em branco. Dois responderam não tossir e não espirrar e dois intrépidos responderam que é destossir e desespirrar. Depois dessas exceções, vinha a pergunta: existe uma regra geral? Existe, foi a resposta da maioria.
Eu esperava que os alunos chegassem à conclusão que o processo de derivação não é homogêneo, linear. E esperava que eles percebessem que o processo de flexão, ao contrário, obedecia a paradigmas claros. Tão evidentes, que eu poderia conjugar nomes (eu detergento, tu detergentas, ele detergenta etc.), já que as terminações de um paradigma sempre seriam as mesmas - nos verbos regulares. Inventei três palavras, uma para cada conjugação: felecar, soler e talir. Eu esperava que eles tomassem como modelo as terminações de verbos como cantar, comer e partir. Uma única pessoa acertou as três tabelas de verbos: uma estrangeira.
Perguntei se estavam seguindo alguma regra. A resposta mais surpreendente foi: Não, segui meu estinto! (Com ponto de exclamação mesmo).
Por fim, pedi que dessem três exemplos de palavras terminadas em diferentes sufixos (-ção, -vel, -izar, -ice, -ada). E não é que me aparecem, por exemplo, lição, piada, criável, musicalizar, difíce e calvice? Fada foi foda, porque eles não perceberam que um sufixo se junta a uma unidade de sentido; e f- não faz sentido.
Acho que os exercícios romperam barreiras linguísticas na cabeça dos meus alunos: se a professora pode inventar palavras que ela chama de logatomas, então agora pode tudo.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
ASCOM
Eu sou muito ruim pra bate-boca. Eu travo e fico lá, respirando. Depois eu penso com cuidado em tudo que eu poderia ou deveria ter dito. Daí eu conto o que aconteceu.
A vice-reitora no exercício da Reitoria esteve ontem na reunião do Fórum para justificar seu distanciamento do Fórum. Disse que está apagando um incêndio atrás do outro na Unir, que não tem tempo pra nada, que foi catando quem estava por perto para pedir ajuda. Como exemplo, ela citou a necessidade de um assessor de comunicação. Disse que tinha me convidado e que logo em seguida eu tinha entrado em férias e que ela não tinha como saber quando eu voltaria de férias e então resolveu colocar outro na ASCOM.
Na linha do tempo, as coisas se desdobram de outra maneira. Antes do fim da greve, depois da renúncia do reitor, quando a vice já estava no exercício da função, ela me convidou para ser da ASCOM. Eu, que sou lisa, não disse nem que sim nem que não. Rivoiro, colocado lá pelo Januário, era o sujeito na ASCOM. Acompanhei o Boletim de Serviço e notei que ele continuava lá. Uma semana depois, resolvi me apresentar pra Cristina. A reitoria ainda estava sem energia, ela estava correndo e atrasada. De costas pra mim, acenando e caminhando, ela gritou: "te ligo". Nos dez dias seguintes, nada aconteceu em relação à ASCOM. Cristina foi numa reunião do Fórum lá no Paulo Freire para apresentar sua equipe. Não fui mencionada.
Saí de férias dia 15 de dezembro por 15 dias. Assim que voltei, fui almoçar no restaurante pertinho da reitoria. Cristina me viu e me cumprimentou. E o Rivoiro continuava na ASCOM. Retomei as minhas aulas, passaram mais duas semanas e (fiquei sabendo disso ontem) Adilson foi convidado para assumir a ASCOM - e recusou. Pelo Boletim de Serviço, fiquei sabendo que o Rivoiro tinha sido exonerado na terceira semana de janeiro e que outro (não conheço o sujeito) tinha assumido o cargo. Dois dias depois, Júlio Rocha manda uma nota sobre os haitianos para ser publicada pela ASCOM no site da UNIR para a Cristina e para mim. (A ASCOM tem e-mail próprio, não faz sentido ele mandar releases que quer ver publicados para a reitora em exercício e para aquela a quem o cargo da ASCOM tinha sido prometido no ano passado.) Além do material a ser publicado, ele informava a Cristina que eu tinha voltado de férias. Fiquei muito brava com o Júlio, porque deu a entender que ele estava me fazendo um favor: fui eu quem avisou a Cristina que você já estava aqui, e assim conseguiu o cargo.
Agora vem a Cristina dizer que quando precisou de mim, eu não estava por perto. Todo servidor público tem o direito e o dever de usufruir de férias. Se eu tirar férias e assumir um cargo, assinar ata de reunião ou qualquer outra coisa durante o período de férias, posso ser penalizada.
Em tempo: no Boletim de Serviço do dia 27 de janeiro, Rivoiro volta a ser o assessor de comunicação.
A vice-reitora no exercício da Reitoria esteve ontem na reunião do Fórum para justificar seu distanciamento do Fórum. Disse que está apagando um incêndio atrás do outro na Unir, que não tem tempo pra nada, que foi catando quem estava por perto para pedir ajuda. Como exemplo, ela citou a necessidade de um assessor de comunicação. Disse que tinha me convidado e que logo em seguida eu tinha entrado em férias e que ela não tinha como saber quando eu voltaria de férias e então resolveu colocar outro na ASCOM.
Na linha do tempo, as coisas se desdobram de outra maneira. Antes do fim da greve, depois da renúncia do reitor, quando a vice já estava no exercício da função, ela me convidou para ser da ASCOM. Eu, que sou lisa, não disse nem que sim nem que não. Rivoiro, colocado lá pelo Januário, era o sujeito na ASCOM. Acompanhei o Boletim de Serviço e notei que ele continuava lá. Uma semana depois, resolvi me apresentar pra Cristina. A reitoria ainda estava sem energia, ela estava correndo e atrasada. De costas pra mim, acenando e caminhando, ela gritou: "te ligo". Nos dez dias seguintes, nada aconteceu em relação à ASCOM. Cristina foi numa reunião do Fórum lá no Paulo Freire para apresentar sua equipe. Não fui mencionada.
Saí de férias dia 15 de dezembro por 15 dias. Assim que voltei, fui almoçar no restaurante pertinho da reitoria. Cristina me viu e me cumprimentou. E o Rivoiro continuava na ASCOM. Retomei as minhas aulas, passaram mais duas semanas e (fiquei sabendo disso ontem) Adilson foi convidado para assumir a ASCOM - e recusou. Pelo Boletim de Serviço, fiquei sabendo que o Rivoiro tinha sido exonerado na terceira semana de janeiro e que outro (não conheço o sujeito) tinha assumido o cargo. Dois dias depois, Júlio Rocha manda uma nota sobre os haitianos para ser publicada pela ASCOM no site da UNIR para a Cristina e para mim. (A ASCOM tem e-mail próprio, não faz sentido ele mandar releases que quer ver publicados para a reitora em exercício e para aquela a quem o cargo da ASCOM tinha sido prometido no ano passado.) Além do material a ser publicado, ele informava a Cristina que eu tinha voltado de férias. Fiquei muito brava com o Júlio, porque deu a entender que ele estava me fazendo um favor: fui eu quem avisou a Cristina que você já estava aqui, e assim conseguiu o cargo.
Agora vem a Cristina dizer que quando precisou de mim, eu não estava por perto. Todo servidor público tem o direito e o dever de usufruir de férias. Se eu tirar férias e assumir um cargo, assinar ata de reunião ou qualquer outra coisa durante o período de férias, posso ser penalizada.
Em tempo: no Boletim de Serviço do dia 27 de janeiro, Rivoiro volta a ser o assessor de comunicação.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Everest: companheiros e clientes
Sempre gostei de literatura de expedição, apesar de ainda não ter lido os relatos de Amundsen, Scott ou Shackleton, os mais clássicos desse gênero. Pois acabo de ler No ar rarefeito, de Jon Krakauer, sobre "a tragédia no Everest em 1996" (pus entre aspas porque é o que está escrito na capa do livro).
Antes de abrir o livro, tive a mesma sensação que me acometeu quando estava fila do cinema para ver Titanic: "quatro horas na fila e três horas de filme para ver um navio afundar." Já pelo título eu podia imaginar que muita gente ia morrer. Mas eu não podia imaginar que ao fim do livro eu teria a sensação de conhecer grandes alpinistas. De fato, Jon escreve muito bem e desenha com habilidade o cenário gélido que é o topo do mundo. O livro é muito bem planejado: cada capítulo é uma etapa da expedição, com títulos como, por exemplo, Acampamento 1, 13 de abril de 1996, 5943m ou Crista sudeste, 10 de maio de 1996, 8400m. E cada capítulo tem como epígrafe um trecho retirado de outra peça de literatura de expedição que casa com o conteúdo do capítulo. O narrador é um sobrevivente que carrega para o livro um rastro de culpa pela morte de outros que chegaram ao cume junto com ele.
Krakauer é um montanhista relativamente experiente (em rocha) que foi ao Everest para fazer uma matéria para uma revista (Outside) sobre a comercialização do Everest. Escreveria não somente sobre a montanha de lixo acumulado no Himalaia, mas também sobre a relação que os diletantes pagantes têm com a montanha mais alta do mundo. Tornou-se integrante de uma expedição que contava com guias, sherpas (nativos que trabalham basicamente como burros de carga) e clientes. Tanto na revista como no livro retrata sua percepção de que mesmo que os guias fossem companheiros entre si ou do líder da expedição, havia uma relação de trabalho norteando a escalada. A missão era claramente levar os clientes ao topo do mundo. E os clientes queriam subir o Everest não porque fossem qualificados, mas porque tinham dinheiro e a ideia fixa de cometer uma extravagância. Só que o topo do Everest (8.848m acima do nível do mar) é apenas a metade do caminho.
"Grande parte do tempo eu atribuía meu desconforto crescente ao fato de que nunca tinha escalado junto com um grupo tão grande - ainda por cima um grupo de completos estranhos. (...) Numa escalada, ter confiança nos parceiros é uma das principais preocupações. As ações de um único alpinista podem afetar o bem-estar de toda a equipe. As consequências de um nó malfeito, de um tropeção, de uma pedra deslocada ou qualquer outra ação descuidada afetam a todos, não só àquele que cometeu o erro. (...) Todavia, confiança nos companheiros é um luxo impossível para os que participam como clientes de uma subida guiada; resta pôr toda a fé no próprio guia." (p. 49)
Cinco expedições são descritas no livro: a de Rob Hall, líder neozelandês que guiava a expedição da qual o autor fazia parte; a expedição de Scott Fischer, americano e rival (comercialmente falando) de Rob Hall; a expedição de Ed Viesturs, que estava filmando com a equipe da IMAX; a expedição dos taiwaneses nonsense; e a expedição dos sul-africanos mal amparados. Rob Hall tinha clareza de que guias, clientes e sherpas pertenciam a classes diferentes. Scott Fischer incentivava uma certa autonomia dos clientes. Ed Viesturs escalava com seus pares, os taiwaneses eram todos diletantes e os sul-africanos duvidosos. A diferenciação entre sherpas, guias e clientes faz com que o narrador não reconheça seu guia desorientado como parceiro (e se sente culpado por não ter controlado o oxigênio do outro), nem o pagante - que ressuscitou dos mortos e foi deixado sozinho na barraca durante uma tempestade. Tampouco o sherpa preocupado em carregar nas costas a cliente milionária e fraca (quando deveria guiar o grupo fixando as cordas) é reconhecido como companheiro. Falta o sentimento de responsabilidade pelo parceiro ou pelo grupo quando apenas o cume interessa (desculpe a piadinha cacofônica).
Parte da tragédia foi o mau tempo. Na minha interpretação, Krakauer atribui parte da tragédia à falta de companheirismo entre os que estavam lá em cima. Outra parcela significativa foi o volume de gente causando congestionamento na montanha. No dia 10 de maio, três expedições - em que havia mais clientes do que guias ou sherpas - subiram. Parar para esperar os outros era dureza: o corpo começava a congelar se não estivesse em movimento.
Já convivi com montanhistas, já escalei em academia (na Holanda) e em rocha (Agulhas Negras, Prateleiras e Pico da Bandeira), mas eu não tinha noção do que é o Everest, uma escalada no gelo ou essas alturas em que há um terço do oxigênio que tem aqui. Durante a leitura, o título do livro foi ganhando sentido. E durante a leitura, fui caçando imagens em movimento no Youtube, para entender por que era tão difícil respirar, dormir, comer e pensar ali, quase na estratosfera. Baixei Everest, da IMAX, e fiquei maravilhada.
O filme foi feito pela expedição de Viesturs e Breashears e tinha como objetivo documentar a subida (não ao cume) de um geólogo que instalaria medidores que monitoram a atividade sísmica da montanha, além de documentar a subida da primeira espanhola ao topo do Everest. Bem à la National Geographic, o filme é lindo. Esta expedição socorreu os sobreviventes das três expedições que subiram ao topo (e isso está no filme) e atacou o cume uma semana depois da tragédia narrada por Krakauer.
Se algum dia tive vontade de escalar montanhas muito altas, essa vontade já passou. Porque é muito sofrimento.
Antes de abrir o livro, tive a mesma sensação que me acometeu quando estava fila do cinema para ver Titanic: "quatro horas na fila e três horas de filme para ver um navio afundar." Já pelo título eu podia imaginar que muita gente ia morrer. Mas eu não podia imaginar que ao fim do livro eu teria a sensação de conhecer grandes alpinistas. De fato, Jon escreve muito bem e desenha com habilidade o cenário gélido que é o topo do mundo. O livro é muito bem planejado: cada capítulo é uma etapa da expedição, com títulos como, por exemplo, Acampamento 1, 13 de abril de 1996, 5943m ou Crista sudeste, 10 de maio de 1996, 8400m. E cada capítulo tem como epígrafe um trecho retirado de outra peça de literatura de expedição que casa com o conteúdo do capítulo. O narrador é um sobrevivente que carrega para o livro um rastro de culpa pela morte de outros que chegaram ao cume junto com ele.
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| Imagem veio junto com o filme EVEREST |
Krakauer é um montanhista relativamente experiente (em rocha) que foi ao Everest para fazer uma matéria para uma revista (Outside) sobre a comercialização do Everest. Escreveria não somente sobre a montanha de lixo acumulado no Himalaia, mas também sobre a relação que os diletantes pagantes têm com a montanha mais alta do mundo. Tornou-se integrante de uma expedição que contava com guias, sherpas (nativos que trabalham basicamente como burros de carga) e clientes. Tanto na revista como no livro retrata sua percepção de que mesmo que os guias fossem companheiros entre si ou do líder da expedição, havia uma relação de trabalho norteando a escalada. A missão era claramente levar os clientes ao topo do mundo. E os clientes queriam subir o Everest não porque fossem qualificados, mas porque tinham dinheiro e a ideia fixa de cometer uma extravagância. Só que o topo do Everest (8.848m acima do nível do mar) é apenas a metade do caminho.
"Grande parte do tempo eu atribuía meu desconforto crescente ao fato de que nunca tinha escalado junto com um grupo tão grande - ainda por cima um grupo de completos estranhos. (...) Numa escalada, ter confiança nos parceiros é uma das principais preocupações. As ações de um único alpinista podem afetar o bem-estar de toda a equipe. As consequências de um nó malfeito, de um tropeção, de uma pedra deslocada ou qualquer outra ação descuidada afetam a todos, não só àquele que cometeu o erro. (...) Todavia, confiança nos companheiros é um luxo impossível para os que participam como clientes de uma subida guiada; resta pôr toda a fé no próprio guia." (p. 49)
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| Imagem veio junto com o filme EVEREST |
Cinco expedições são descritas no livro: a de Rob Hall, líder neozelandês que guiava a expedição da qual o autor fazia parte; a expedição de Scott Fischer, americano e rival (comercialmente falando) de Rob Hall; a expedição de Ed Viesturs, que estava filmando com a equipe da IMAX; a expedição dos taiwaneses nonsense; e a expedição dos sul-africanos mal amparados. Rob Hall tinha clareza de que guias, clientes e sherpas pertenciam a classes diferentes. Scott Fischer incentivava uma certa autonomia dos clientes. Ed Viesturs escalava com seus pares, os taiwaneses eram todos diletantes e os sul-africanos duvidosos. A diferenciação entre sherpas, guias e clientes faz com que o narrador não reconheça seu guia desorientado como parceiro (e se sente culpado por não ter controlado o oxigênio do outro), nem o pagante - que ressuscitou dos mortos e foi deixado sozinho na barraca durante uma tempestade. Tampouco o sherpa preocupado em carregar nas costas a cliente milionária e fraca (quando deveria guiar o grupo fixando as cordas) é reconhecido como companheiro. Falta o sentimento de responsabilidade pelo parceiro ou pelo grupo quando apenas o cume interessa (desculpe a piadinha cacofônica).
Parte da tragédia foi o mau tempo. Na minha interpretação, Krakauer atribui parte da tragédia à falta de companheirismo entre os que estavam lá em cima. Outra parcela significativa foi o volume de gente causando congestionamento na montanha. No dia 10 de maio, três expedições - em que havia mais clientes do que guias ou sherpas - subiram. Parar para esperar os outros era dureza: o corpo começava a congelar se não estivesse em movimento.
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| Imagem veio junto com o filme EVEREST |
Já convivi com montanhistas, já escalei em academia (na Holanda) e em rocha (Agulhas Negras, Prateleiras e Pico da Bandeira), mas eu não tinha noção do que é o Everest, uma escalada no gelo ou essas alturas em que há um terço do oxigênio que tem aqui. Durante a leitura, o título do livro foi ganhando sentido. E durante a leitura, fui caçando imagens em movimento no Youtube, para entender por que era tão difícil respirar, dormir, comer e pensar ali, quase na estratosfera. Baixei Everest, da IMAX, e fiquei maravilhada.
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| Imagem veio junto com o filme EVEREST |
O filme foi feito pela expedição de Viesturs e Breashears e tinha como objetivo documentar a subida (não ao cume) de um geólogo que instalaria medidores que monitoram a atividade sísmica da montanha, além de documentar a subida da primeira espanhola ao topo do Everest. Bem à la National Geographic, o filme é lindo. Esta expedição socorreu os sobreviventes das três expedições que subiram ao topo (e isso está no filme) e atacou o cume uma semana depois da tragédia narrada por Krakauer.
Se algum dia tive vontade de escalar montanhas muito altas, essa vontade já passou. Porque é muito sofrimento.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Outra pessoa
Concluí que já é tarde demais para qualquer um querer ser eu. Então resolvi ser outra pessoa.
Sempre dou noni a quem me pedir. Até já tomei o suco espumoso da fruta, mas nunca tinha posto em prática a receita mais tradicional daqui: bate 3 nonis num litro de suco de uva e deixa fermentar por quinze dias (na geladeira). Toma um pouquinho só todo dia. Talvez eu tenha demorado tanto para fazer essa poção mágica por desconfiar do processo de fermentação na geladeira. Resultado: o cheiro é bem pior que o gosto, mas ainda não senti nenhuma mudança no meu corpo.
Outra revolução espontânea no meu comportamento é que decidi beber tereré. Não é chimarrão: a cuia é menor, a bomba é menor, a água é gelada - mas a erva é a mesma. Até que estou indo bem. Bebo todo dia.
Sempre dou noni a quem me pedir. Até já tomei o suco espumoso da fruta, mas nunca tinha posto em prática a receita mais tradicional daqui: bate 3 nonis num litro de suco de uva e deixa fermentar por quinze dias (na geladeira). Toma um pouquinho só todo dia. Talvez eu tenha demorado tanto para fazer essa poção mágica por desconfiar do processo de fermentação na geladeira. Resultado: o cheiro é bem pior que o gosto, mas ainda não senti nenhuma mudança no meu corpo.
Outra revolução espontânea no meu comportamento é que decidi beber tereré. Não é chimarrão: a cuia é menor, a bomba é menor, a água é gelada - mas a erva é a mesma. Até que estou indo bem. Bebo todo dia.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Selbstverständlich
Difícil traduzir isso: algo que é óbvio, natural, esperado.
Somos seres humanos, mas não nos identificamos uns aos outros como pertencentes a uma comunidade de humanos. Talvez agora, que temos uma certa noção de que estamos destruindo o planeta e que é preciso salvá-lo, o sentimento de empatia e identificação com o outro esteja querendo nascer. Sempre nos identificamos com grupos menores, como por exemplo o círculo da família, escola, igreja, local de trabalho. Por isso a resistência a identificar-se com um estrangeiro ou estranho.
Pequenos gestos "naturais", contudo, me mostram que existe um tipo de empatia imediata com o completo estranho.
*
A mulher desceu com dificuldade do ônibus. As muletas vinham na frente, os pés hesitantes seguiam. Alcançou o chão e olhou para o degrau que era a calçada. Esticou a mão para uma outra mulher parada no ponto de ônibus. Essa senhora reagiu com naturalidade: deu a mão à outra e ajudou-a a subir o degrau. Não trocaram uma palavra, não houve agradecimento nem constrangimento.
*
Hoje comprei um espelho de parede. O vendedor ainda perguntou como que eu ia levar, eu respondi que dava um jeito de aprender a levar um espelho do meu tamanho na bicicleta (a Barra Forte, em que pedalo com a coluna reta). Enquanto eu pensava, ia atravessando a avenida. Do outro lado da avenida, um homem se escandalizou com o meu malabarismo. "Cuidado, mulher!" Tentei sorrir. Ele simplesmente esticou a mão, pegou o espelho e correu um passos ao meu lado, me dando tempo de subir no selim e atingir o equilíbrio. Quando isso aconteceu, ele me devolveu o espelho. Agradeci mais de uma vez por esse gesto inesperado de solidariedade.
Somos seres humanos, mas não nos identificamos uns aos outros como pertencentes a uma comunidade de humanos. Talvez agora, que temos uma certa noção de que estamos destruindo o planeta e que é preciso salvá-lo, o sentimento de empatia e identificação com o outro esteja querendo nascer. Sempre nos identificamos com grupos menores, como por exemplo o círculo da família, escola, igreja, local de trabalho. Por isso a resistência a identificar-se com um estrangeiro ou estranho.
Pequenos gestos "naturais", contudo, me mostram que existe um tipo de empatia imediata com o completo estranho.
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A mulher desceu com dificuldade do ônibus. As muletas vinham na frente, os pés hesitantes seguiam. Alcançou o chão e olhou para o degrau que era a calçada. Esticou a mão para uma outra mulher parada no ponto de ônibus. Essa senhora reagiu com naturalidade: deu a mão à outra e ajudou-a a subir o degrau. Não trocaram uma palavra, não houve agradecimento nem constrangimento.
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Hoje comprei um espelho de parede. O vendedor ainda perguntou como que eu ia levar, eu respondi que dava um jeito de aprender a levar um espelho do meu tamanho na bicicleta (a Barra Forte, em que pedalo com a coluna reta). Enquanto eu pensava, ia atravessando a avenida. Do outro lado da avenida, um homem se escandalizou com o meu malabarismo. "Cuidado, mulher!" Tentei sorrir. Ele simplesmente esticou a mão, pegou o espelho e correu um passos ao meu lado, me dando tempo de subir no selim e atingir o equilíbrio. Quando isso aconteceu, ele me devolveu o espelho. Agradeci mais de uma vez por esse gesto inesperado de solidariedade.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Apropriação
João ficou emprecionado quando percebeu que tinha sido polpado. Absolvido, ele se compromentia a fazer tudo direito, andar na linha em meio as diversidades. Sabia que não tinha altorização para deixar o estado, mais nem se preoculpou com isso. Estava apenas desconformado que seu saldoso companheiro não tivera a mesma sorte que ele. Nem teve a chance de agradecê-lo pela boa compania.
Todas as pérolas acima foram cuidadosamente coletadas das redações dos meus alunos.
Todas as pérolas acima foram cuidadosamente coletadas das redações dos meus alunos.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Desperdiçados
Não é que eu tenha perdido o meu tempo, mas a sensação de frustração vem da intuição de que o autor desperdiçou as boas ideias de sua obra por não manipulá-las bem. A obra costuma contar com recursos formais muito interessantes, o que prende a atenção do público, mas no geral a condução dos elementos é mal orquestrada.
Sem limites (2011) serve como primeiro exemplo. Neste filme americano, uma droga que potencializa o cérebro é o vértice em torno do qual tudo gira. Potencializar o cérebro não significa ficar inteligente, mas disponibilizar memórias. Tudo que já foi lido, visto, ouvido ou experienciado se torna acessível. Só que no filme, quem toma a droga se sente invencível e consegue escapar das situações mais apertadas. Moral da estória: tudo que você precisa está dentro de você mesmo. Outro ponto negativo é que, segundo Iván Izquierdo, especialista em memória, a melhor coisa que a memória faz por nós é o esquecimento: ficaríamos presos ou loucos se não pudéssemos esquecer. Mas o filme é uma ficção, portanto vamos recorrer a outra obra de ficção para minar essa ideia de que o cérebro é memória e muita memória é bom. Funes, o memorioso de Borges é outro exemplo de que memórias prodigiosas não são desejáveis.
Os recursos plásticos do filme são bastante interessantes, mas não se bastam. Quando as pessoas tomam a droga, seus olhos brilham e as cores da cena são mais vívidas. A diferença entre tomadas opacas e cinzas e cenas brilhantes e coloridas não é tão notória como os contrastes entre o preto-e-branco e o colorido (para diferenciar a percepção do anjo Cassiel e a percepção do anjo caído) que apreciamos em Der Himmel über Berlin (Asas do desejo), mas é visível. Quando o escritor frustrado toma a droga e se senta para escrever seu livro, letras caem do teto e se depositam ao seu redor. Quando ele entende que o lance é ganhar dinheiro especulando na bolsa, o teto se transforma num letreiro tipo de aeroporto. Quando ele passa mal e sai correndo para vomitar, a imagem vira de ponta-cabeça. Esses ferramentas cinematográficas não valem a trama do filme, porque o grande objetivo não é mais escrever livros inspirados, mas ser presidente dos Estados Unidos. Isso é brochante: o sujeito tem superpoderes e quer ser presidente? Que imagem de presidente é essa que os estadunidenses têm?
Sem limites é um filme de ação. Talvez não devesse ser. Inception (A origem, 2010), cujo objeto de reflexão é o sonho, parece ser um filme de ação mais bem-sucedido que este. O diferencial possivelmente está na vontade de passar uma lição de moral: drogas têm efeitos colaterais indesejáveis e drogas são atalhos que cortam caminhos árduos, portanto desonestas.
Outro filme que me dá a sensação de ter desperdiçado uma ótima ideia é A pele que habito, mas como sei muito pouco de Almodóvar e de cinema, não sei apontar para o que me causa incômodo. Mais fácil é lembrar da autobiografia mal resolvida de Maitê Proença (preciso me desculpar: não havia nada mais interessante na estante na época). As ferramentas literárias se fazem presentes: os capítulos são escritos alternadamente em tinta preta e vermelha para diferenciar memórias inventadas de memórias verossímeis. A curiosidade de flaneur pela vida pessoal de uma pessoa famosa e as estórias de amantes movem o leitor para um final decepcionante. A autora perde o ritmo, não consegue amarrar as pontas e solta os fios da trama. Tem-se a impressão que ela desistiu do livro.
Essa leitura já está bem distante de mim no tempo. O último romance que li foi A noiva do tigre. Comprei na livraria do aeroporto porque achei a capa bonita e o título legal. Percebo agora que preciso rever meus critérios para escolher livros, apesar de saber que o livro recebeu o Orange Prize.
As duas estórias de fundo (do Homem Sem Morte e da Noiva do Tigre, ambas contadas à personagem principal por seu avô) se entrelaçam com a atualidade, em que a personagem principal atravessa fronteiras de países em guerra para recuperar os pertences de seu avô que se escondeu para morrer. Como marca característica da pós-modernidade, o texto é fragmentado. No entanto, há um descompasso enorme entre as estórias do avô e a atualidade que se expressa na histeria. As estórias do avô recebem um certo tratamento literário, ao passo que a história da personagem principal se aproxima mais de um relato. Esse relato é, em certa medida, histérico porque o leitor tem dificuldade de acompanhar a narrativa, imaginar o espaço ou mesmo o problema. E as duas estórias, tecidas como fios de cores diferentes, em certo ponto da narrativa se entrelaçam, mas logo se soltam. Novamente tenho a impressão que a autora abandonou a obra, não conseguiu amarrar as pontas, não concluiu o texto.
Talvez pela prática de revisar textos e corrigir redações, sinto-me frustrada por não poder ajudar a editar o texto, ajudar a pensar. O tempo dirá se Maitê Proença e Téa Obreht se tornarão escritoras (além de autoras).
Sem limites (2011) serve como primeiro exemplo. Neste filme americano, uma droga que potencializa o cérebro é o vértice em torno do qual tudo gira. Potencializar o cérebro não significa ficar inteligente, mas disponibilizar memórias. Tudo que já foi lido, visto, ouvido ou experienciado se torna acessível. Só que no filme, quem toma a droga se sente invencível e consegue escapar das situações mais apertadas. Moral da estória: tudo que você precisa está dentro de você mesmo. Outro ponto negativo é que, segundo Iván Izquierdo, especialista em memória, a melhor coisa que a memória faz por nós é o esquecimento: ficaríamos presos ou loucos se não pudéssemos esquecer. Mas o filme é uma ficção, portanto vamos recorrer a outra obra de ficção para minar essa ideia de que o cérebro é memória e muita memória é bom. Funes, o memorioso de Borges é outro exemplo de que memórias prodigiosas não são desejáveis.
Os recursos plásticos do filme são bastante interessantes, mas não se bastam. Quando as pessoas tomam a droga, seus olhos brilham e as cores da cena são mais vívidas. A diferença entre tomadas opacas e cinzas e cenas brilhantes e coloridas não é tão notória como os contrastes entre o preto-e-branco e o colorido (para diferenciar a percepção do anjo Cassiel e a percepção do anjo caído) que apreciamos em Der Himmel über Berlin (Asas do desejo), mas é visível. Quando o escritor frustrado toma a droga e se senta para escrever seu livro, letras caem do teto e se depositam ao seu redor. Quando ele entende que o lance é ganhar dinheiro especulando na bolsa, o teto se transforma num letreiro tipo de aeroporto. Quando ele passa mal e sai correndo para vomitar, a imagem vira de ponta-cabeça. Esses ferramentas cinematográficas não valem a trama do filme, porque o grande objetivo não é mais escrever livros inspirados, mas ser presidente dos Estados Unidos. Isso é brochante: o sujeito tem superpoderes e quer ser presidente? Que imagem de presidente é essa que os estadunidenses têm?
Sem limites é um filme de ação. Talvez não devesse ser. Inception (A origem, 2010), cujo objeto de reflexão é o sonho, parece ser um filme de ação mais bem-sucedido que este. O diferencial possivelmente está na vontade de passar uma lição de moral: drogas têm efeitos colaterais indesejáveis e drogas são atalhos que cortam caminhos árduos, portanto desonestas.
Outro filme que me dá a sensação de ter desperdiçado uma ótima ideia é A pele que habito, mas como sei muito pouco de Almodóvar e de cinema, não sei apontar para o que me causa incômodo. Mais fácil é lembrar da autobiografia mal resolvida de Maitê Proença (preciso me desculpar: não havia nada mais interessante na estante na época). As ferramentas literárias se fazem presentes: os capítulos são escritos alternadamente em tinta preta e vermelha para diferenciar memórias inventadas de memórias verossímeis. A curiosidade de flaneur pela vida pessoal de uma pessoa famosa e as estórias de amantes movem o leitor para um final decepcionante. A autora perde o ritmo, não consegue amarrar as pontas e solta os fios da trama. Tem-se a impressão que ela desistiu do livro.
Essa leitura já está bem distante de mim no tempo. O último romance que li foi A noiva do tigre. Comprei na livraria do aeroporto porque achei a capa bonita e o título legal. Percebo agora que preciso rever meus critérios para escolher livros, apesar de saber que o livro recebeu o Orange Prize.
As duas estórias de fundo (do Homem Sem Morte e da Noiva do Tigre, ambas contadas à personagem principal por seu avô) se entrelaçam com a atualidade, em que a personagem principal atravessa fronteiras de países em guerra para recuperar os pertences de seu avô que se escondeu para morrer. Como marca característica da pós-modernidade, o texto é fragmentado. No entanto, há um descompasso enorme entre as estórias do avô e a atualidade que se expressa na histeria. As estórias do avô recebem um certo tratamento literário, ao passo que a história da personagem principal se aproxima mais de um relato. Esse relato é, em certa medida, histérico porque o leitor tem dificuldade de acompanhar a narrativa, imaginar o espaço ou mesmo o problema. E as duas estórias, tecidas como fios de cores diferentes, em certo ponto da narrativa se entrelaçam, mas logo se soltam. Novamente tenho a impressão que a autora abandonou a obra, não conseguiu amarrar as pontas, não concluiu o texto.
Talvez pela prática de revisar textos e corrigir redações, sinto-me frustrada por não poder ajudar a editar o texto, ajudar a pensar. O tempo dirá se Maitê Proença e Téa Obreht se tornarão escritoras (além de autoras).
domingo, 15 de janeiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Luto pelo colega
Soube que ele tinha morrido antes de saber quem ele era, porque eu estava no DRH quando uma técnica veio requisitar o processo dele. Quando chegaram os e-mails denunciando o seu desaparecimento, eu já sabia que estava morto, mas foi o momento em que identifiquei o professor de Arqueologia. O alarme se instalou: André tinha participado na greve. Será que a morte dele tinha alguma ligação com a greve da Unir? Será que o nome dele estava na lista dos que "desceriam o rio"? Será que morte dele tem a ver com minha vida?
A incerteza nos moveu por dois dias. A cada duas horas, descobríamos detalhes sobre a vida e morte do professor. Foi vítima de crime passional, o companheiro confessou.
Hoje foi dia de luto na Unir. Durante a greve, tivemos a oportunidade de nos conhecer. A identificação que aconteceu durante a greve de 79 dias chegou a ponto de a gente sentir que nossa família foi ampliada. Por isso, o que aconteceu com um de nós nos afeta a todos.
A incerteza nos moveu por dois dias. A cada duas horas, descobríamos detalhes sobre a vida e morte do professor. Foi vítima de crime passional, o companheiro confessou.
Hoje foi dia de luto na Unir. Durante a greve, tivemos a oportunidade de nos conhecer. A identificação que aconteceu durante a greve de 79 dias chegou a ponto de a gente sentir que nossa família foi ampliada. Por isso, o que aconteceu com um de nós nos afeta a todos.
Blumen
| Rosa de porcelana |
| A surpresa é a flor branca saindo da flor vermelha |
| Mustafá gosta de treinar boxe nesse microfone |
| Hibiscus |
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Castrado
A castração. Foi isso que Mustafá ganhou de presente no aniversário de oito meses. A veterinária que desde sempre cuidou do Mustafá insistiu que ele completasse pelo menos oito meses. E a conduta dela também era diferente da do outro veterinário que tinha castrado o Shaoran. Achei legal ela pedir que ele viesse em jejum; achei legal ela dizer que só me devolvia o gato depois que o visse acordando da anestesia; achei legal ela repetir que agora todos (Akari e Mustafá) devem comer ração de gato castrado. Só me surpreendi quando vi o Mustafá encurralado numa jaula, acima e ao lado de jaulas com muitos cachorros que não se cansavam de latir.
Eu tinha levado Mustafá de bicicleta, mas quando deu a hora de buscar, começou a chover. Chamei um táxi e fomos na chuva, buscar o meu gato. A voz do homem era totalmente destoante do seu corpo. Era um homem grande e forte, mas a voz...
Por tudo que aconteceu com o pequeno Mustafá hoje, ele veio quieto - sem soltar um miado sequer - no banco de trás do carro do taxista da voz fina. Não contei pro taxista o que tinha acontecido com o meu macho preferido.
Eu tinha levado Mustafá de bicicleta, mas quando deu a hora de buscar, começou a chover. Chamei um táxi e fomos na chuva, buscar o meu gato. A voz do homem era totalmente destoante do seu corpo. Era um homem grande e forte, mas a voz...
Por tudo que aconteceu com o pequeno Mustafá hoje, ele veio quieto - sem soltar um miado sequer - no banco de trás do carro do taxista da voz fina. Não contei pro taxista o que tinha acontecido com o meu macho preferido.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
1221
Essa é a postagem de número 1221, o reverso (inverso? espelho? contrário?) do nome de um álbum da melhor banda de rock do mundo. Espero chegar nas 2112 postagens.
Pupunha
Pupunha é uma das três palmeiras que dá palmito (juntamente com açaí e jussara). E depois do tucumã, vem a época da pupunha. Os cachos das frutas vermelhas enfeitam feiras, tendas e esquinas. Parei a minha bicicleta na vendinha que tem sempre farinha (de mandioca), (farinha de) tapioca e melancia.
Ele me deu a opção de comprar um cacho ou um quilo de pupunha. Expliquei que eu queria experimentar. Ele torceu o nariz e demonstrou falta de paciência com pessoas pouco experientes na culinária regional. Anunciou que me daria instruções e que era pra eu prestar bem atenção. Cortou as duas pontas de uma fruta e disse pra cozinhar com uma colher de sal por 20 minutos na pressão ou 45 minutos sem pressão.
Como ele não tinha dito nada sobre a casca, o gosto ou o acompanhamento, fui na interneta, pesquisar receitas de pupunha. Achei a receita-experiência da Vovó Cristina simpática.
Logo saquei que para descascar era mais fácil puxar a casca da pontinha pra cabeça.
O gosto é bem particular, mas lembra abóbora com mandioca. Talvez também lembre, bem de longe, pinhão, mas é só o cheiro.
Tem um caroço, sim. Gostei da pupunha: dá menos trabalho que o tucumã.
Ele me deu a opção de comprar um cacho ou um quilo de pupunha. Expliquei que eu queria experimentar. Ele torceu o nariz e demonstrou falta de paciência com pessoas pouco experientes na culinária regional. Anunciou que me daria instruções e que era pra eu prestar bem atenção. Cortou as duas pontas de uma fruta e disse pra cozinhar com uma colher de sal por 20 minutos na pressão ou 45 minutos sem pressão.
Como ele não tinha dito nada sobre a casca, o gosto ou o acompanhamento, fui na interneta, pesquisar receitas de pupunha. Achei a receita-experiência da Vovó Cristina simpática.
Logo saquei que para descascar era mais fácil puxar a casca da pontinha pra cabeça.
O gosto é bem particular, mas lembra abóbora com mandioca. Talvez também lembre, bem de longe, pinhão, mas é só o cheiro.
Tem um caroço, sim. Gostei da pupunha: dá menos trabalho que o tucumã.
sábado, 7 de janeiro de 2012
Parida e desaparecida
No dia seguinte ao episódio da gata com os três filhotes, fui no posto de saúde, por desencargo de consciência. Eu já tinha sido mordida por cachorro quando era pequena e tinha levado injeção em seguida, mas isso foi há mais de 20 anos. Além disso, eu não suspeitava que a gata que mastigou as minhas mãos tivesse raiva, já que moramos no mesmo pedaço faz quase um ano e ela sempre se mostrou calma. Mas a consciência pedia sossego.
No posto, ralharam comigo e disseram que eu deveria ter tomado vacina imediatamente, porque raiva em humanos não tem cura. A pessoa morre de raiva. As mordidas mais profundas estavam inchadas, havia pus e deixar o braço pendente doía. A enfermeira preencheu o meu prontuário: agredida por gata parida e desaparecida.
Eu já tinha ouvido sertanejo falar em "vaca parida", mas não tinha me dado o esforço de distinguir as vacas normais que, como todos os outros animais, vieram ao mundo através de parto, das vacas paridas. Sentada na cadeira do posto de saúde, entendi que estava talvez diante de um fenômeno de gramaticalização: "gata que tinha parido" se transformou em "gata parida", sendo que o particípio "parido" assume a função de adjetivo. Há perda de material fonológico, reorganização semântica, mudança de categoria gramatical.
No entanto, foi a parte do "desaparecida" que mais me deu dor de cabeça. Porque se desse para observar o animal, eu não teria que tomar todas as injeções que já tomei e ainda terei de tomar. É preciso tomar vacina anti-rábica, que vem em cinco doses alternadas (no dia zero, três, sete, catorze e vinte e um). Como a vacina só faz efeito a partir da terceira dose, é preciso tomar, juntamente com a primeira dose, um soro. Mas soro é só um nome para uma bateria de injeções que tive que tomar no Cemetron.
A primeira dose de vacina eu tomei no posto mesmo. Na fila havia crianças de colo e mães que conversavam com desconhecidos sobre intimidades que eu preferia não ter ouvido. O padrão se repetia: entrava meia família, a porta se fechava. Silêncio por um longo período, depois o berro de uma criança recém-vacina. A porta se abria e um novo ciclo começava. Um senhor na fila comentou que criança sofre muito com injeção. Respondi: a gente também, mas nóis num chora.
No Cemetron todos usavam máscara protegendo nariz e boca. Até o guardinha. Pedi uma máscara pra enfermeira, mas ela riu. Mais tarde fui saber que no Cemetron são tratadas as doenças contagiosas (tuberculose, AIDS, malária etc.), por isso as máscaras. Passei três horas naquele lugar. Tomei injeção num braço, noutro braço, numa nádega, noutra nádega, na coxa e glicose na veia. Seis agulhas me picaram no hospital das doenças contagiosas. Agora ainda faltam as quatro outras doses de vacina.
No posto, ralharam comigo e disseram que eu deveria ter tomado vacina imediatamente, porque raiva em humanos não tem cura. A pessoa morre de raiva. As mordidas mais profundas estavam inchadas, havia pus e deixar o braço pendente doía. A enfermeira preencheu o meu prontuário: agredida por gata parida e desaparecida.
Eu já tinha ouvido sertanejo falar em "vaca parida", mas não tinha me dado o esforço de distinguir as vacas normais que, como todos os outros animais, vieram ao mundo através de parto, das vacas paridas. Sentada na cadeira do posto de saúde, entendi que estava talvez diante de um fenômeno de gramaticalização: "gata que tinha parido" se transformou em "gata parida", sendo que o particípio "parido" assume a função de adjetivo. Há perda de material fonológico, reorganização semântica, mudança de categoria gramatical.
No entanto, foi a parte do "desaparecida" que mais me deu dor de cabeça. Porque se desse para observar o animal, eu não teria que tomar todas as injeções que já tomei e ainda terei de tomar. É preciso tomar vacina anti-rábica, que vem em cinco doses alternadas (no dia zero, três, sete, catorze e vinte e um). Como a vacina só faz efeito a partir da terceira dose, é preciso tomar, juntamente com a primeira dose, um soro. Mas soro é só um nome para uma bateria de injeções que tive que tomar no Cemetron.
A primeira dose de vacina eu tomei no posto mesmo. Na fila havia crianças de colo e mães que conversavam com desconhecidos sobre intimidades que eu preferia não ter ouvido. O padrão se repetia: entrava meia família, a porta se fechava. Silêncio por um longo período, depois o berro de uma criança recém-vacina. A porta se abria e um novo ciclo começava. Um senhor na fila comentou que criança sofre muito com injeção. Respondi: a gente também, mas nóis num chora.
No Cemetron todos usavam máscara protegendo nariz e boca. Até o guardinha. Pedi uma máscara pra enfermeira, mas ela riu. Mais tarde fui saber que no Cemetron são tratadas as doenças contagiosas (tuberculose, AIDS, malária etc.), por isso as máscaras. Passei três horas naquele lugar. Tomei injeção num braço, noutro braço, numa nádega, noutra nádega, na coxa e glicose na veia. Seis agulhas me picaram no hospital das doenças contagiosas. Agora ainda faltam as quatro outras doses de vacina.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Catcatcher
Achei uma cesta e um cano de PVC fininho na casinha de entulhos (Schuppen). Prendi a cesta no cano e fui pescar gatinhos. A ninhada dessa vez só era de 3. Pus a cesta sobre um e fui trazendo o gatinho até pegá-lo na mão. Os outros dois vieram juntos e agarrados na cesta na segunda leva. Pus os três dentro da caixinha de gato e coloquei a caixinha no jardim, onde a mãe deles pudesse ver. Ofereci um potinho com comidinha mole, mas eles não entenderam o meu gesto. Pisavam dentro do potinho.
Pegar a mãe foi muito mais difícil e dolorido. Ofereci a comidinha pra ela, mas ela não comia (e fugia) quando eu ultrapassava a zona de segurança que ela tinha estabelecido. Abri a caixinha e ela passou a tolerar uma zona de segurança menor. Mas quando um filhote estava fora da caixinha e ela tentou pegá-lo pelo cangote pra carregar, dei o bote. Ela mastigou a minha mão, mas consegui colocá-la na caixinha. Família unida, saímos de bicicleta em direção à petshop.
Pegar a mãe foi muito mais difícil e dolorido. Ofereci a comidinha pra ela, mas ela não comia (e fugia) quando eu ultrapassava a zona de segurança que ela tinha estabelecido. Abri a caixinha e ela passou a tolerar uma zona de segurança menor. Mas quando um filhote estava fora da caixinha e ela tentou pegá-lo pelo cangote pra carregar, dei o bote. Ela mastigou a minha mão, mas consegui colocá-la na caixinha. Família unida, saímos de bicicleta em direção à petshop.
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