quarta-feira, 22 de março de 2017

Preço e valor

Fomos comprar uma cadeira de alimentação pra Agnes porque a de plástico que ficava em cima da mesa estava ficando perigosa. Depois que Agnes descobriu que tem pernas, começou a se empurrar pra trás, sentada na cadeirinha. O risco de tombar pra trás era grande.

As cadeiras mais caras apresentavam etiquetas com preços em torno dos R$ 600,-. As mais baratas custavam metade disso e todas eram de plástico. No canto da loja, vimos uma cadeira de madeira, dessas que tem em restaurante. Não tinha etiqueta de preço e estava meio torta, mas aos nossos olhos, valia mais que as de plástico. O vendedor foi conferir o preço e constatou que a cadeira de madeira custava um pouco mais da metade que a de plástico mais barata. Nossa reação foi de surpresa e ele explicou que é porque as de plástico têm marca. Isso agrega valor e assim aumenta o preço.

Na mesma loja, procuramos sapatinhos pra Agnes. O primeiro desafio foi descobrir qual é a numeração do pé dela. O segundo - e muito mais complicado - foi encontrar um calçado que não tivesse brilhantes, fitas, corações ou fosse cor de rosa. Naquela loja não tinha nenhum calçado normal, neutro, que não fosse sexy - ou pelo menos feminino. E assim a criança aprende desde cedo os valores da sociedade.

quinta-feira, 16 de março de 2017

11 meses

De presente de 11 meses, Agnes ganhou um quarto. O antigo quarto de hóspedes foi esvaziado e ganhou uma (bi)cama de solteiro, um tapete imenso, trocador e cômoda. Como esse quarto é mais vertical que a sala (tem muito mais opções pra se segurar em pé), Agnes está se exercitando bem mais. Engatinha entre cama e trocador, se põe de pé e tenta abrir as gavetas. Colocamos um colchão no chão, então ela dorme embaixo e eu em cima. Quando ela acorda, ou eu desço, ou ela sobe e continuamos dormindo juntas.

Pra que a cama de casal - que estava no quarto de hóspedes - tivesse espaço no meu escritório, tivemos que mudar estantes de livros e muitos livros. Duas estantes foram pra sala, e assim Luis aproveitou para colocar os livros dele em ordem também.

Criar um ambiente novo na casa provocou uma grande revolução!

quarta-feira, 8 de março de 2017

quarta-feira, 1 de março de 2017

Pernas, pra que te quero!

Agnes Maria já anda - mas com ajuda. Ela já coloca pé ante pé e muitas vezes nos dá a direção.
E quando ela consegue se segurar em alguma coisa, ela fica em pé numa boa. Balança um pouco, mas não cai. As pernas estão se acostumando com novas tarefas.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Humaitá

Perguntei pro Luis o que a gente ia fazer no sábado de tarde. Ele respondeu: passear. Pensei no Parque Ecológico, no Parque Circuito, até no shopping. Mas não imaginei o que ele tinha em mente. Ele disse que Humaitá fica a 2 horas daqui. A placa informa que são 189 km. Saímos de casa às 15h e pegamos o estradão retão em terreno ondulado.
Humaitá tem dois campi universitários: UEA e UFAM. Duas universidades públicas numa cidade tão pequena. E tem mais de uma praça e tem uma beira-rio. Enquanto Porto Velho está de costas para o Madeira, Humaitá dispõe bancos de praça na frente dele, pra que as pessoas possam acompanhar o que acontece no rio Madeira.
Tomamos açaí (bem melhor que o daqui, porque não tem gosto de xarope de guaraná) e depois deu vontade de jantar. Comemos um tambaqui minúsculo - a julgar pelo tamanho das costelas. E aí, já escuro, era pegar a estrada de volta. A estrada era bem sinalizada. O medo era a gasolina acabar. Fomos com meio tanque, e pela lógica a outra metade do tanque deveria ser suficiente pra voltar pra casa. Mesmo assim fiquei preocupada a viagem inteira (porque não há nenhum posto de gasolina no trecho). Fiquei tão aliviada quando vimos as luzes da cidade de Porto Velho, que acho que nunca senti essa emoção antes.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Que Maravilha!

A gente só ia buscar uma coisinha esquecida na casa do Seu Arnaldo. Acabamos sentando pra tomar café e comer tapioca e bolo. Como dali a gente ia na casa do Jairo, buscar outra coisa deixada muito tempo atrás, Luis pediu pro Seu Arnaldo separar um pé de João Gomes (que ele chama de carirú), que pegaríamos na volta.

No sítio, fomos juntando jambo, cupuaçu caído no chão e limão; pegamos a assadeira e a tábua. Ainda passamos no Damian, sentamos, tomamos outro café e voltamos no Seu Arnaldo que estava nos esperando com essa fartura da foto.
Cheiro verde, espinafre (na bacia rosa), couve, chicória, pimentas variadas, quiabo, manjericão, João Gomes e farinha torrada ontem. Perdemos a feira de sábado e de domingo, mas fizemos a feira no Maravilha.

Audiência Pública Comunitária

 
Ontem Agnes participou da primeira audiência pública comunitária da Comunidade Maravilha. Como há um trecho da estrada da beira que oferece perigo iminente de desbarrancamento, fomos até o km 4,5 e demos a grande volta por trás, passando inclusive pela fundiária do Jairo.
Mesmo chegando tarde, não fomos os últimos a chegar. Chovia e não tinha luz. Microfone e caixas de som se tornaram obsoletas e o esquecimento da impressora deixou de ser trágico. As pessoas foram se achegando aos poucos. Quando vieram as autoridades da prefeitura, a audiência começou e foi conduzida por dois jovens da Comunidade Maravilha.
Uma audiência é um momento de se ouvir. E a comunidade se organizou para falar o que afligia as famílias:
  • desde a cheia de 2014, ainda há pessoas morando em barracas, com medo de construir casa nova e a Defesa Civil tirar, porque depois da cheia tudo às margens do Madeira foi batizado de área de risco;
  • uma área atrás do lago Maravilha, destinada a um assentamento para desalojados da cheia de 2014, está sendo ocupada por pessoas que estão praticando roubos, furtos, largando lixo e poluindo o lago;
  • a estrada da beira está desbarrancando progressivamente por causa das balsas e barcos que aportam nas margens do rio;
  • energia é um problema;
  • o fornecimento de água mineral pela Defesa Civil foi interrompido;
  • a especulação imobiliária está esticando seus braços em direção à margem esquerda do rio, que é APA (Área de Proteção Ambiental) - e os ribeirinhos não necessariamente possuem título das terras.
 
O prefeito mesmo não veio, mas duas secretarias importantes (Meio Ambiente e Assistência Social) se fizeram presentes, além da Defesa Civil municipal, Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo de Estado e EMATER.
Nesse formato de audiência convocada pela comunidade, a comunidade se manifestou primeiro. Em seguida, representantes de entidades como CPT, Madeira Vivo, Igreja Católica, UNIR e Coletivo Popular Direito à Cidade reforçaram o apoio à comunidade, declarando suas alianças com a comunidade Maravilha na frente das autoridades do governo (da cidade e do estado). Por fim, os representantes do governo assumiram o compromisso de resolver ou ajudar a encaminhar as demandas da comunidade. Ficou acordado que é preciso formar uma comissão/associação da comunidade Maravilha que seja independente e representativa.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Objeto: livro

Foucault é uma boa base para ficar de pé

Intimidade com gramáticas e dicionários desde cedo

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Quando a nossa visita vira visita do nosso amigo

Philip na casa do Damian
Finalmente meu irmão veio nos visitar. Em 2014 ele já esteve no Brasil, com passagem pra PVH, mas desistiu de última hora e voltou pra Alemanha antes do planejado. Em outras palavras, ele me devia essa visita há tempos. E quando ele veio, perguntamos a ele se queria passar uma noite na floresta.
Luis e Agnes
Ele topou na hora. Eu não estava bem (eu tinha tomado três tigelas de açaí que tava saindo como entrou, fora a gripe que me pegou) e achei que não seria confortável pra Agnes dormir na casa do Jairo. Como eu estava mal, Luis teve medo que eu não conseguisse cuidar da menina. Damian convidou o Philip para dormir lá e assumiu o nosso hóspede.
Philip e Damian
Debaixo de chuva, voltamos lá na manhã seguinte com um bolo de milho. Tinha chovido grande parte da noite e toda a manhã. Me senti mal de deixar o meu irmão assim, no meio do mato, com um sujeito que recém tinha conhecido. Mas ele tava feliz da vida. Tinham feito trilha na floresta de noite, apagaram todas as luzes e escutaram os sons da mata. Philip disse que se sentiu numa catedral.

Meus dois amores

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Monitoramento do rio Madeira

Fonte: CPRM. Clicando na imagem, ela aparece maior
O rio Madeira sai da calha quando a cota chega a 14 metros. Atualmente o rio está (em Porto Velho) na cota 12. O gráfico acima, coletado na CPRM, mostra que o nível do rio (linha azul) se manteve na cota 10 até a noite do dia 11 de janeiro. As linhas pretas verticais na parte superior do gráfico indicam o volume de chuva. Pouca chuva pra muita elevação de nível.

No dia 30 de dezembro de 2016, o Ibama autorizou a elevação da cota da usina de Santo Antônio de 70,5 para 71,3m, para que as 50 turbinas instaladas possam funcionar melhor. O plano original prevê 44 turbinas e cota 70,5m. O Gerente de Operação da SAE disse pra câmera que durante a cheia de 2014 a cota de 70,5 m foi mantida. Elevação de cota significa mais água armazenada, mais energia e mais área alagada a montante (antes da barragem). Entre os dias 03 e 10 de janeiro ocorreu grande estabilidade no nível do rio Madeira a jusante: a usina estava segurando água para chegar na cota 71,3. Pra subir 80 cm na régua da barragem, é preciso acumular água por uma semana!

O Diário da Amazônia de hoje traz uma matéria sobre aumento anormal de chuvas. Não menciona o nível do rio. A cidade está voltada de costas para rio.

O aumento do nível do rio Madeira está acontecendo muito rápido. De ontem pra hoje subiu um metro. De ontem pra hoje choveu 10 milímetros. O jornal prepara o leitor pra chuvas que virão, a usina comemora o aumento da cota. Não encontro boletins de monitoramento nem na ANA nem na CPRM, apenas informes diários. É preciso fazer o exercício de juntar esses fragmentos e entender o cenário que se desenha: risco de outra cheia - e não é por causa da chuva. Quem controla o rio Madeira não é o clima, mas as duas usinas hidrelétricas instaladas nele.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Gris

Gris foi o nome escolhido para o/a nosso/a coelho/a. Gris é traduzido como cinza do espanhol e do francês, é neutro, curto e não parece grego nem alemão. Agradeço a Fernanda Perim pela sugestão (dentre tantas outras).
Agnes empolgada com Gris
Se tivermos outro coelho, vai ser branco e vai se chamar Gavagai.
Gris em pé

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Em busca de um nome para o coelho

A gaiola custava quase 10 vezes mais que o coelho, então compramos só o coelho e o deixamos no jardim. Nos primeiros três dias seguidos aqui em casa, choveu direto e o coelho se escondeu embaixo da citronela. Quando ele cansou de viver assim, deu a volta na casa e se alojou na casinha do gás, entre potes de planta e restos de projetos.

O coelhinho cabe na palma da minha mão e ainda não investigamos o que ele tem entre as pernas. Mesmo sem saber se é menino ou menina, precisamos de um nome pra ele. Toda empolgada em usar uma referência da Linguística, sugeri Gavagai.

Ok. Pra quem não conhece a história, aqui vai: um linguista e um falante de uma língua nativa que o linguista está empenhado em descrever estão sentados num tronco na floresta quando passa um coelho branco. O informante exclama "gavagai" e o linguista anota em seu bloquinho que a tradução da palavra "gavagai" é "coelho branco". Esse é o problema da indeterminação da língua de modo geral e da tradução. O linguista não sabe o que significa "gavagai". Pode ser "cuidado", "fugiu", "perdi a oportunidade", "comida" e tantas outras coisas. Esse é um exemplo do Quine, bastante corrente na Linguística. Quando Rajagopalan (indiano) nos contou esse exemplo numa aula de Pragmática, ele disse: no meu país, vacas são deidades. Por que gavagai não poderia, então, referir a Deus?

Luis não gostou e justificou a impossibilidade de adotarmos esse nome porque "o coelho dessa história é branco, o nosso é cinza". Mas como ele não ofereceu nenhuma alternativa, saí perguntando prum monte de gente pelo whatsapp que nome dariam.

Um me informou que "gavagai" e "coelho" são sinônimos, portanto não há nada de errado com essa escolha. Outra respondeu que "gavagai" pode ser "coelho" apenas, sem especificar a cor. Foi sugerido
  • Copas, em referência à Alice no País das Maravilhas,  
  • Morel, referindo ao Dr. Morel de Bioy Casares (o que eu achei interessante, já que pensei em Sombra ou Fantasma, porque o coelho dá umas sumidas)
  • Foca, pra confundir as pessoas
  • Paulo Coelho ou Christian Grey (mas essa opção eu não vou considerar)
  • Subcomandante Marcos ou Zapata (mas eu acho Bakunin mais legal)
  • Cartola (eu achava que a Heloisa, que estuda animais na literatura tivesse algum nome de personagem na manga, mas saiu Cartola)
  • Leleco (aí eu perguntei se era esse o nome do personagem de um conto do Murilo Rubião e a resposta foi que não, que esse é Teleco, mas que nome de coelho de criança tem que ser Leleco. Sugestão da Cynthia, que me apresentou Murilo Rubião)
Ainda não definimos o nome. Quem quiser ajudar, sinta-se à vontade.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Despedida da Nicinha

No começo deste ano fomos notificados do desaparecimento da Nicinha, liderança do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens). Nicinha e outros desenraizados de Abunã pelo reservatório de Jirau estavam acampados em Mutum-Paraná, que um dia foi cidade.

Nossa primeira suspeita foi de que a Jirau tinha mandado silenciar uma voz ativa que incomodava. Com as investigações, foi-se descobrindo que uma outra família de acampados tramou o assassinato e escondeu o corpo. Um homem foi preso, fugiu, foi encontrado e preso no Acre.

No meio do ano, um corpo foi encontrado no reservatório da Jirau. Agora no fim do ano, o corpo foi reconhecido como sendo da Nicinha. Hoje teve a cerimônia de despedida na Igrejinha de Santo Antônio, de frente pra usina de Santo Antônio. O bispo celebrou a missa e muitas pessoas se fizeram presentes: os familiares da Nicinha, o MAB, a UNIR e amigos. No meio de tanta gente, o que eu senti foi a solidão do Ney, o companheiro dela, que sentou no chão, de frente pra caixa com os restos mortais dela e não controlou o choro. E todos nós choramos com ele.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

8 meses

Agora Agnes voltou para a curva normal de crescimento. Todos perguntam se engatinha, ou se já está "gateando", mas a resposta é negativa. Ela se vira e revolve, mas não descobriu ainda pra que servem os joelhos.

domingo, 11 de dezembro de 2016

O pequeno bem-te-vi

Luis e Agnes saíram cedo pra comprar pão. Na volta, tinha um filhote de bem-te-vi no meio da rua, que Luis recolheu. Uma das patas parecia estar lesada e pensamos que ele tinha quebrado o pé quando tentou voar e caiu. Se mexia pouco e não piava.

Ouvimos bem-te-vis lá fora e Luis colocou a caixa com o filhote de passarinho de frente pra mangueira. Depois de um tempo, o filhote começou a chamar e se pôs de pé. E apareceram muitos bem-te-vis, atendendo o chamado. E o gavião de olho. Luis escondeu o filhote no pé de manga e observamos casais de bem-te-vi entrando e saindo da mangueira.
Terminamos o café, cuidei da louça e fui olhar o passarinho. Não tava mais na mangueira. Tava no pé de acerola. Como foi parar lá? Confiei que tivesse aprendido a voar e quando voltei a olhar o pé de acerola, não vi mais o filhote.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Bodas de couro

Foto: Mario Venere

Dois gaviões


Esse gavião pousou no pé de manga, ficou observando a Agnes no meu colo e foi-se embora pra outro lugar.
Agradeço ao zoom da câmera a oportunidade de ver de perto esse gavião que vejo sempre nessa antena/para-raios.