domingo, 5 de junho de 2011

Na onda do surf

A porta de entrada foi um livro, claro. Um livro escrito ao longo de cinco anos por uma jornalista. No livro, a jornalista procura ver as ondas de diversos pontos de vista. Susan Casey escreveu A onda (The wave: In pursuit of the rogues, freaks and giants of the ocean) depois de entrevistar executivos que trabalham em seguradoras de navios, capitães de navio, físicos que estudam o comportamento caótico das ondas, meteorologistas, cinegrafistas, fotógrafos e surfistas. Que ela puxa a sardinha pra brasa dos surfistas é evidente, tanto é que ela os acompanha a alguns lugares do globo em que quebram ondas gigantes.


Susan não é uma escritora, mas seu livro foi bem traduzido. O trabalho de Casey não é com o "poder criativo" das palavras, mas com a informação. Sua preocupação não é a relação entre significado e significante, mas a explicação do que são as ondas. Tampouco é uma narradora, no sentido de Walter Benjamin. Não vivencia a adrenalina do surf para chegar a uma moral, conselho ou transmissão de conhecimento prático. Escreve para compartilhar o que aprendeu sobre as ondas. Escreve como uma jornalista: usando uma vasta paleta de cores para despertar sensações.

Foto: Clark Little

Acima de tudo, fica evidente que quem escreveu o livro é uma mulher. Ela descreve os surfistas em detalhes (cor de cabelos, olhos, bermudas, altura, brancura do sorriso e cicatrizes no corpo) e guarda os momentos poéticos para Laird Hamilton, o guru do surf de ondas gigantes. Quando a autora foi a um congresso sobre ondas, contou que ficou surpresa ao ver tantas mulheres como homens no congresso. Mas só entrevistou os homens e os descreveu fisicamente (cor de olhos, cabelo, sorriso, roupa). No livro inteiro, Susan Casey só deu voz a duas mulheres: duas pesquisadoras de ondas que foram pegas de surpresa por uma tormenta em alto mar. Ah, desculpa! Tem uma vez que ela dá voz à esposa de Hamilton, deixando-a dizer: "Ele é assim mesmo".
Foto: Don King

Susan Casey faz o leitor leigo acreditar que Laird Hamilton é 'o cara'. O cara que é grande, forte, habilidoso e louco o suficiente para surfar as maiores ondas do planeta. O cara que, junto com seus parceiros, desenvolveu uma nova técnica de chegar na onda: tow-in. (Deitado em cima de uma prancha e remando, não dá pra pegar ondas de mais de dez metros, por causa da velocidade dessas ondas gigantes. O surfista é rebocado até a onda em alto mar por um jet ski. Como muita coisa pode dar errado, o parceiro do jet ski é o resgate, portanto rebocador e surfista formam uma equipe. Assim, o surfe de ondas grandes não é um esporte individual, mas de dupla.) Laird Hamilton é o cara que pensa o treino de surf, inovando com a técnica stand-up (o surfista fica em pé no pranchão com um remo na mão) e a prancha hydrofoil, em que o contato da prancha com a superfície da água é quase zero.

Foto: Tony Harrington

Como eu sou leiga nessas águas e não era capaz de mobilizar a minha imaginação para visualizar ondas de 30 metros, tow-in, stand-up, hydrofoil e a fúria das ondas, recorri às imagens. Vi o filme Billabong Odissey. Bill Sharp, idealizador da competição chamada Billabong XXL, que prometia - de início - um prêmio de 500 mil dólares a quem surfasse (e pudesse prová-lo) a maior onda da Terra, é o narrador do filme. O filme documenta a competição e mostra que o primeiro vencedor (Mike Parsons) recebeu só 60 mil dólares. Pra minha surpresa, Laird Hamilton não foi mencionado nem mostrado durante o filme. Eu já tinha entendido que o heroi da Casey era avesso às competições, que era um surfista quase zen, integrado com a Natureza, mas esperava que fosse ao menos mencionado quando Bill Sharp descreveu a evolução do surf.

Foto: Tom Servais
As estórias de surfadas históricas, a importância dos interpretadores climáticos, a relevância dos cinegrafistas e fotógrafos, a ausência de uma teoria que forneça instrumentos matemáticos para que os físicos calculem ondas e todas as tonalidades de azul da paleta de Casey me conduziram ao fim do livro. Pra comemorar, vi o filme brasileiro Surf Adventures 2 (eu já tinha visto o 1 alguns anos atrás porque os surfistas sempre me encantaram). Gostei bem mais do 2 do que do 1. Entendi tudo (!) e até reconheci o jeito de filmar de Mike Prickett (descrito pela Susan Casey) e dois figurões do surf (Carlos Burle e Kelly Slater). Estacionada na Amazônia, me apaixonei pelo surf.

4 comentários:

Ma disse...

Ô Lou! Primeiro a paixão pelo paraquedismo, agora pelo surf!! Assim não há coração de pai e mãe que aguente!
Eu sempre me pergunto porque você vive dentro dessa ilusão de invulnerabilidade. Cuidado. Não quero te perder por causa de uma ilusão. E: para me entender melhor, lembre-se de como você se sente (e sentia)em relação ao seu gato.

iglou disse...

Drama, drama, drama!
Sabe a quantos quilômetros estou do mar? A ilusão é sua: de achar que vou aprender a surfar.

Andréia Costa disse...

juro que, quando comecei a ler os cometários sobre o livro, pensei que surfava sim. e já ia convidar pra vir a fortaleza. muitos amigos aqui pra acompanhar nessa empreitada salgada!!

agora, quanto a ser mãe e preocupar-se: quero dar uma pranchinha pro lírio o quanto antes. já tenho professor pra ele.

será que também vivo essa ilusão??

iglou disse...

Hehehe. Ilusão ou não, nessa minha imersão no universo do surf, aprendi a respeitar o esporte. Antes eu curtia os surfistas, agora tiro o chapéu pro surf.