segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A internet

Ainda hoje a Cynthia me disse que "hoje em dia se acha tudo na internet". Não achei as legendas em português pra segunda metade de Devdas, um filme bollywoodiano que eu tava vendo, mas também confesso que não me esforcei muito pra procurar. 

Além de "ter de tudo", a internet é rápida. A notícia de um acidente crime de trânsito (citando Willian Cruz) horroroso envolvendo um carro, a bicicletada (massa crítica) de Porto Alegre e 16 ciclistas feridos circula em alguns blogs. De link em link, cheguei no blog da massa crítica de POA. Ali está relatado não só o chocante incidente em que um motorista varre um grupo de ciclistas para abrir passagem, mas também a dificuldade de lidar com as autoridades que deveriam amparar, socorrer e interceder pelos ciclistas. Eu sei como a polícia demora para vir ao local, fazer BO. Eu sei como a lógica do fluxo que deve continuar oprime o acidentado que só quer registrar a desgraça que o abateu. E eu sei que a bicicleta não é um dos veículos contemplados num boletim de ocorrência e que "atropelamento" é colisão contra pedestre. E pronto, já estou simpatizando com pessoas que nunca vi na vida, torcendo pra que se recuperem do susto, que o motorista daquele Golf preto seja responsabilizado (punido) e que os ciclistas sejam respeitados em seus veículos.

E veja: eu que ia escrever sobre Shahrukh Khan, acabei chamando atenção para mais uma barbárie de trânsito no Brasil com direito a videos pós-acidente editados (em HD) e crus (com voz tremida por causa do espanto e câmera inquieta pra registrar todos os danos) e uma reportagem que saiu no telejornal.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Moro no Nova Floresta

Liguei pro Davi e disse que a minha casa está parecendo uma floresta. Ele riu e disse que vinha cortar grama hoje ou amanhã.
Não é só o jardim que dá sinais de desdomesticação: ontem Akari deixou um rastro de penas pela casa toda. Não vi nenhum passarinho. Achei meia lagartixa morta no meio das penas, mas duvido que a gata tenha depenado uma lagartixa. Ora, se Deus não deu asas nem às cobras (que não têm pernas!), não daria às lagartixas (nem mesmo as amazônicas...).

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Mofo pós-férias

Quando nos encontramos, não conversamos primeiro sobre o que fizemos nas férias, mas sobre as surpresas que tivemos quando voltamos ao batente: tudo estava mofado.

Grande parte da roupa escura, as sandálias de couro (as Havaianas também), colares de côco, açaí e outras sementes, tábuas de madeira, as paredes dos armários, travesseiros, malas e mochilas estavam cobertos de mofo. Os selins, a fita do guidão da Caloi 10 e a corrente (!!!) da Amarilda estavam mofados.

O laboratório de Química estava uma floresta verde-cinza. O meu departamento nem mofou, porque funcionou a todo vapor nas férias.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Matando o tempo

O holandês à direita está fotografando coisas à sua volta. Os objetos mirados por sua câmera são os mais variados: a namorada loira e magra, o lixo amassado em cima da mesa, o imenso vazio da sala do Gate B1, as pessoas na fila do controle de passaporte.

O alemão à esquerda está deitadão em duas cadeiras e segura o mesmo saco amarelo de porcaritos que os seus amigos. Não sei nem se é doce ou salgado, mas lhes serve como passatempo.

Um gordão mais ali na frente está completamente mergulhado na sua leitura. Eu já li todos os jornais que pude acompanhar nas mãos dos outros, já dormi embaixo da TV e meus sonhos deram cor e forma às notícias do mundo.

Mudei de Gate, mas no almoço voltei ao mesmo lugar onde tinha tomado café da manhã. Cheguei quando ainda estava escuro e partirei na escuridão. Tenho 13 horas e 25 minutos de permanência no maior aeroporto em que já pus os pés. Já vi três pessoas perdendo o avião. Eram do tipo que chega correndo e esbaforido ao guichê, engole a má notícia e sai cuspindo palavrões.

O meu livro foi despachado por falta de atenção, as 75 músicas do meu mp3 player eu já ouvi. Não lembro de todas, mas lembro muito bem quando acordei com as músicas malucas do Jorge Ben Jor. Caminho de um portão ao outro. Outros caminham em círculos, enquanto conversam no celular. Devagarzinho, o tempo passa. As pessoas passam, aviões decolam e pousam. E eu escrevo pra matar o tempo.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Transição

Floresta reflorestada
Hortênsias invernadas
No inverno europeu, a vida se recolhe. O sol aparece mais tarde (9:00) e some mais cedo (16:30) - quando dá o ar da graça-, as cores se retraem e escurecem, os animais domésticos são recolhidos, os selvagens hibernam. Quando estivemos em Wernigerode, por exemplo, quisemos visitar uma caverna com estalagtites, estalamites e estalagnates. Estava fechada durante o inverno, servindo de abrigo para os animais adormecidos.
Josta = Johannisbeere + Stachelbeere
As pessoas continuam fazendo suas coisas. Talvez sorriam menos, talvez sejam um pouco mais melancólicas e preguiçosas, mas continuam fazendo suas coisas. Esperam pela primavera.
Schneeglöckchen
A primavera já se anuncia nos botões de folhas e flores, nas pequenas flores que indicam o fim do inverno.
Krokus
Semana que vem despenco no verão quente e úmido de Porto Velho, sem muita fase de transição.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A piada no avião

No avião, Philip sentou no assento da saída de emergência, onde ele tem mais espaço pras pernas compridas. Vi as indicações em toda parte e lembrei da piada da aeromoça portuguesa explicando as coisas básicas aos passageiros que não sabiam inglês:

Quando estiver escrito PUSH
não puxe. Empurre.
Quando estiver escrito PULL
não pule. Puxe.
Quando estiver escrito EXIT
não hesite: pule!

Reparei que os portugueses sentados na nossa frente morreram de rir.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Propaganda sincera

Num cartaz (não lembro nem do conteúdo do texto, mas ia numa direção "revolução anárquica") vimos, impresso no canto inferior direito, em letras miúdas, um anúncio.
Vende-se sapato usado [reparou no singular, né?]
Poucos quilômetros, como novo (exceptuando a sola). [O acordo ortográfico ainda tem um longo caminho pela frente...] Consumos de apenas 5 bifes aos 100km. [Peculiar, como se mede investimentos e rendimentos em terras portuguesas] O sapato em causa é para servir no pé esquerdo n.° 42; [viu como não era um par?!] considera-se a venda do sapato direito, n.° 39, [mas bah?] com meias incluídas, [é isso que chamam de "amor ao próximo"?] também elas usadas, [demorou] se por boa contrapartida [não é amor ao próximo, ainda estamos no $istema]. Tudo em bom estado de cheiros. [ligue djá... y la garantía soy jo!]

Os países que nos atravessam

"Não somos nós que atravessamos os países,
mas são os países que nos atravessam a nós."
Coletado de um programa visto na TV em Portugal.
Philip andava pelas ruelas do Porto perseguido pela sensação de ter a germanidade entranhada na alma. Reparava em pequenos lixos nas ruas, nos cabos expostos e mal remendados, nas casas abandonadas, nas fachadas negligenciadas, na ausência de verde no centro histórico. As lojas que vendiam parafusos, ferramentas e ferragens lhe pareciam saídas de um túnel do tempo, o vendedor de castanhas que enfumaçava o mundo lhe pareceu quase uma ameaça.
Me sinto em casa no trânsito lento e levemente caótico em que o pedestre atravessa a rua quando dá, não quando o farol assim o permite. Depois de onze anos vivendo na Alemanha, Philip está condicionado a se orientar pelo semáforo e lhe chama atenção que atravessa as ruas correndo, entre um carro e outro.
Eu ficava intrigada com a intuição dos portugueses de que nós dois éramos turistas. Não fizemos passeios de barco nem de ônibus amarelo: usamos o transporte público comum e caminhamos bastante. Mesmo assim, ocasionalmente se dirigiram a nós em inglês. Philip comparou as roupas dos nativos com as nossas. Usamos roupas de montanhistas (como a maioria dos alemães, que vão à escola com mochilas Deuter ou Vaude, encaram a chuva e o vento com jaquetas The North Face e Jack Wolfskin e calçam Salomon e outras marcas de calçados para trekking). Em contrapartida, os portugueses usam guarda-chuvas, roupas de estilo mais pra social que esportivo - e em cores discretas. A minha jaqueta laranja poderia abrigar duas de mim e está, segundo o Philip, super fora de moda. De fato, ganhei-a de segunda mão quando chegamos aqui, no inverno de 1999. Sinceramente, eu achava que o jaco era só grandão, e nem tinha consciência que esse tipo de artigo também está sujeito às tendências da moda.
O caos foi o elemento português que demonstrou ao Philip como ele é alemão e como eu sou brasileira que mora em Porto Velho. Contudo, uma coisa nos pareceu tipicamente portuguesa: o jeito solícito dos portugueses. Como estávamos constantemente desorientados, perguntávamos por informações a torto e a direito. Todos - sem exceção - foram prestativos, simpáticos e dedicaram mais tempo aos nossos problemas do que esperaríamos de um alemão ou brasileiro.

Tomara que um dia eu volte

Foto: Felipe Szymanski
Tomara, tomara aqui
Foto: Felipe Szymanski
 Tomara, tomara cá
Foto: Felipe Szymansnki
Tomara que um dia eu volte nesse mesmo lugar
Foto: Felipe Szymanski
Um pouco eu deixo aqui
Foto: Felipe Szymanski
Um pouco de ti vou levar
Tomaracá - Grupo Tarancón

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Com um fotógrafo

Ao comparar as minhas fotos com as do Philip, chego a ficar triste. As dele são muito mais legais que as minhas. Ângulos, cores, temas, iluminação, tudo é muito melhor.

Favela

Não é a pobreza, é a riqueza de cores, linhas e ordens próprias. Não é a exclusão social, é o abandono completo de jardins e casas (às vezes prédios inteiros estão abandonados, vazios, decadentes e descascando). Não é a falta de planejamento, é o planejamento apertado, apoiado no outro, em cima do outro, que faz os dois brasileiros aqui pensarem que a favela não é da nossa terra, mas portuguesa.

Vinho do Porto

Para visitar as Caves, onde o vinho do Porto é produzido, armazenado, exibido e vendido, é preciso sair do Porto.
A ponte leva a Vila Nova de Gaia, e de lá se tem uma bela visão do Porto, porque o sol se põe sorrindo pro cais do Porto.
Entramos na primeira cave que se nos apresentou, não sentimos tanta dificuldade assim de decifrar o português nativo daqui e até provamos dois tipos de vinho - pra decidirmos nunca mais beber um gole sequer dessa bebida.

O outro lado do oceano

Finalmente vimos o outro lado do Oceano Atlântico. O mar é bravo e os molhes são fortes. O castelo que visitamos, no entanto, se chama Castelo de Queijo.
Ali onde o Douro deságua no mar, se dá um espetáculo da força das águas.

Lello

Cheguei à Livraria Lello com uma pergunta legítima: se tinham um certo livro que me foi encomendado. Mas acabei me encantando (como todos os outros presentes) com a decoração e escada decorativa no meio da livraria.
Tinha sabonete artesanal, quadros e outros produtos pouco prováveis de serem vendidos numa livraria. Entendo, porque afinal de contas, a livraria é um ponto turístico.

Peões

Não somos pedestres, mas peões e a passagem de pedestres é a via pedonal.

A campanha de que "todos somos peões!" quer chamar atenção para os 1166 mortos em 2009 no trânsito de Porto. Hoje de noite, vindo pro restaurante que tem wireless grátis, vimos uma senhora atropelada por um ônibus. Muito sangue e som de ambulância: mais uma vítima.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Cobertura total

Trouxe o meu celular Nokia que funciona pela operadora TIM. (É que as minhas férias não se passaram exclusivamente na Europa - passei antes por Gramado, São Paulo e Campinas.) Chegando na Alemanha, o meu irmão quis saber se dava jogo de botar um chip alemão no celular. Pra saber se isso funcionava, era preciso saber se o celular estava bloqueado ou não. 

Fomos à loja e perguntamos ao atendente da O2 se o meu celular era bloqueado. O moço sentiu o peso do aparelho, reparou no adesivo da TIM, respirou fundo e me disse que aquele era um celular austríaco bloqueado. Dei risada e me dei conta de que só a Áustria tem TIM. Quando eu disse que o celular era brasileiro, o atendente suspirou e puxou pela memória as melhores férias de sua vida. Contou causos de João Pessoa, descreveu os cheiros e disse que às vezes é até melhor nem conhecer esses lugares paradisíacos - especialmente quem volta a viver a vidinha na Alemanha.

Compramos um chip da Tchibo, que na verdade é uma marca que vende roupas, cafeteiras, guarda-chuvas e outras coisas. O chip eu tentei colocar no celular abandonado (já ouviu falar em obsolescência programada, né) do meu irmão, mas daí o celular quis saber o número PIN. Inventei umas sequências de números, daí ele pediu um número PUK. Daí então dei uma olhadinha no manual do usuário.

A bateria do celular obsoleto do meu irmão tava dando problema, então tentei enfiar o chip Tchibo no meu celular. Pediu o PIN e eu dei. Tudo certo, o telefone não estava bloqueado. Quando eu telefonava com o meu irmão a partir de um trem em movimento, a ligação caía. Funklöcher: buracos na rede de transmissão. A cobertura não parecia ser excelente em nível nacional.

Quando eu fui pra Espanha, achei que eu fosse ficar sem cobertura. Em Tarragona, a Movistar assumiu o posto da Tchibo. Em Terra Seca (onde a Gabriela faz natação), a minha operadora passou a ser Orange. A caminho de Barcelona, na altura de Altafulla, o celular indicava ser da Vodafone ES, e em Barcelona voltou a ser Movistar.

Enfim, as operadoras parecem trabalhar em parceria para não deixarem o cliente que se desloca na União Europeia desconectado. Amanhã vou a Portugal, vamos ver o que acontece lá.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Reclamação e cultura

Me sinto mais brasileira quando estou fora do Brasil. Isso acontece quando observo comportamentos que não fazem parte da minha cultura. Um desses comportamentos é a reclamação.

Na Alemanha, as pessoas reclamam quando estão descontentes. Muitos exageram o tom, reclamam por força do hábito e não se dão conta de que reclamam de barriga cheia. Mesmo assim, as relações sociais de respeito mínimo não se desfazem: é possível reclamar de um serviço, por exemplo, ser atendido com um sorriso (em vez de um olhar dardejante) e agradecer com um sorriso pelo atendimento da reclamação. Em outras palavras, a reclamação não é uma ofensa pessoal, mas a exigência de um item contratual (tipo: estou pagando por um prato de comida quente, portanto vou reclamar se a comida estiver fria) ou de um direito.

No, Brasil, reclamar não é de bom tom. Se um brasileiro reclamar, por exemplo, que a comida está fria, ele pode contar com a possibilidade de ganhar um inimigo e não deve se surpreender se o cozinheiro ou garçom  cuspir no seu prato. Tenho a impressão que, para os brasileiros, reclamação e gentileza são coisas completamente diferentes, que não se misturam nem sob pressão.

Nesses exemplos, um serviço esperado não foi cumprido e o usuário reclama. Me parece que o nível de tolerância dos brasileiros a serviços insatisfatórios é maior com o prestador de serviços do que o nível de tolerância dos alemães. Para os outros (os amigos, por exemplo), tanto os brasileiros como os alemães reclamam - e com gosto. Porque aí se tem um aliado, que vai contar outras estórias de serviços mal prestados; não se tem um oponente que detesta receber reclamações (alguém gosta?).

Mas o que disparou toda essa reflexão sobre reclamação e ser brasileiro foi um episódio no avião da Ryanair. Esta empresa oferece voos baratos (mesmo!) e quase nenhum conforto: paga-se por mala despachada, paga-se (caro) pela comida (poucos passageiros compram comida no avião), os assentos não reclinam nem meio centímetro, não tem TV nem rádio e o tempo todo os comissários de bordo tentam te vender produtos (comida, bebida, raspadinhas, duty free).

Passageiros Ryanair sabem que podem levar gratuitamente uma bagagem de mão que não ultrapasse 10kg e que se limite a certas proporções (55cm x 40cm x 20cm). Quando eu entrei no avião, a minha mala feita sob medida para voos Ryanair já não cabia nos compartimentos superiores. Me restava a alternativa de enfiar a mala embaixo do assento. Não foi fácil pressionar uma mala de 55 x 40 x 22cm pra debaixo do assento no corredor, mas consegui. Sentei e observei os gestos da comissária encenando a queda das máscaras de oxigênio e tal.

O cara sentado atrás de mim começou a chutar a minha mala. Perguntou meio rosnando se eu não podia botar a mala mais pra frente. Apontei pros meus pés e disse que não, senão os meus pés não teriam lugar. Senti todas as energias negativas que o cara atrás de mim despejou em cima de mim e da minha mala. Ele continuou chutando a mala. Verifiquei se dava pra colocar a mala embaixo do assento na minha frente, pra aliviar a tensão. Parecia estreito. A vantagem do banco da frente é que ele e o da frente estavam desocupados. De trás veio a voz grave indicando o banco da frente. Levantei, tirei a mala debaixo do meu assento, pedi licença pro cara que tava sentado na janela, na fileira em frente à minha e enfiei a mala embaixo do assento à frente do assento à frente do meu (compliquei, né: vazio, vazio, eu, reclamador). Vi que se eu tivesse colocado a mala embaixo do assento à minha frente, eu teria que dobrar os meus pés pra trás. Em outras palavras, me dei conta que a mala era maior que o assento.

Não quero nem discutir quem tinha razão (porque provavelmente eu não tinha), mas apontar para um outro contexto de reclamação. Não era o caso de eu fornecer um serviço mal feito, mas de invadir (sem me dar conta disso) o espaço do cara atrás de mim. Eu não teria incomodado o cara de propósito, apenas não calculei as consequências volumétricas da ação de colocar a mala embaixo do meu assento.

O contrato entre a pessoa que reclama e a pessoa que recebe a reclamação é acerca da má divisão do espaço compartilhado. O alemão atrás de mim se sentiu incomodado e reclamou. Eu me senti agredida pela reclamação dele, porque eu, como brasileira, teria reagido de maneira diferente. Pra mim, reclamar provavelmente não seria uma opção. Ou eu dobraria os pés pra trás, me adaptando à invasão do espaço, ou eu proporia uma solução (o banco da frente). Propor uma solução é muito diferente de reclamar, porque muda um elemento fundamental: a postura da pessoa. Não é possível reclamar sorrindo, mas é melhor propor uma solução com um sorriso no rosto.

Outra reflexão interessante sobre reclamações de brasileiros em relação a espaço (nas escadas rolantes) é do Dio e está aqui.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Fachwerk

Um aspecto tipicamente germânico da arquitetura é o Fachwerk. A madeira forma o esqueleto da casa, os tijolos preenchem os espaços entre a madeira. Isso significa, na prática, um monte de vigas e pilares no meio da casa e vento passando por entre as frestas. Sim, quando ventos de 148km/h varriam o Harz, sentimos uma brisa na casa. A foto de cima eu tirei de cima do beliche, a de baixo é da sala, no terceiro andar da casa vertical.
A cidade inteira - e muitas cidadezinhas ao redor de Wernigerode -  foi construída e depois reconstruída e restaurada em Fachwerk. A reconstrução foi necessária por causa de uma queimada histórica. Depois da reunificação das Alemanhas, a restauração foi no sentido de atrair o turismo através das casas em Fachwerk - que já é raro no resto da Alemanha. Na sala se vê vigas mais escuras, mais velhas. São as originais. As outras todas são resultado da restauração do Ferienhaus.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Schloss Wernigerode


De fora não é óbvio, mas o grande diferencial desse castelo é a sua assimetria. Os duzentos cômodos são todos um diferente do outro e quase nada se repete em termos de arquitetura.


Das kleinste Haus

A casa laranja é a menor casa de Wernigerode. A do lado é a casa que habitamos. Num dia, fiquei sozinha em casa, revisando um livro. Fiz almoço e tive o azar de superaquecer a frigideira - vazia. Quando pus a manteiga na frigideira infernalmente quente, ela logo ficou preta e a cozinha se perdeu na fumaça cinzenta. Abri a janela que dá pra rua. Os turistas olhavam pra dentro, e pela janela saía a fumaça e o samba-rock de Jorge Ben Jor: "moro num país tropical..."
Hoje a menor casa estava aberta pra visitação. Até 1976 tinha gente morando lá dentro. De lá pra cá virou museu. Além de ser pequena, a casa tem o pé-direito altamente baixo. Apesar dos pesares, a casa já abrigou uma família de 9 pessoas.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Mais um filminho

Reparem como a vegetação vai mudando ao longo da viagem: primeiro floresta de árvores misturadas, depois só pinheiros, depois cada vez menos árvores.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Der Brocken

Para subir ao ponto mais alto, ermo e frio do norte da Europa, é preciso primeiro sair de casa. E como a nossa casa em Wernigerode está situada ao lado da menor casa da cidade, isso significa um monte de turistas parados na porta de casa e enfiando a cara na janela da nossa cozinha.
Pegamos um trem a vapor, tipo Maria Fumaça, até Drei Annen Hohne (ou algo assim) e depois baldeamos pro trem que escala o Brocken.
A viagem de trem foi longa e lenta, atravessando uma floresta de Fichten (um tipo de pinheiro) e subindo sempre. Vi muitas pegadas de animais silvestres na neve, riachos congelados e ocasionais nuvens da Maria Fumaça. Chegando lá em cima, tivemos que correr pra ainda ver o sol, glorioso sol. Ventava muito e tudo doía.
Mas o pôr-do-sol espetacular valeu a pena todo o frio. Me perguntaram de quanto era a diferença entre ali e PVH. Respondi 50, mas acho que se forem consideradas as sensações térmicas, tá valendo: sensação térmica de 40°C em Porto Velho contra sensação térmica de -10°C no topo do Brocken. E olha que pra mim não tem diferença entre 0° e -9°, porque congela tudo do mesmo jeito.
O Brocken fica no Harz, que foi um dia Alemanha Oriental. Minha mãe reconhece resquícios de DDR nos banheiros públicos: é preciso sempre pagar uma moeda de 50 centavos. E tem que ser certinho, numa só moeda, não adianta ter o valor. Na história da Alemanha Oriental, o Brocken ocupou um posto estratégico. Hoje serve menos à segurança militar e mais à meteorologia (tem uma estação lá) e comunicação (tem outra estação de rádio e TV). Mas a maioria das pessoas que visita o Brocken vai mesmo é pra ver o mundo de cima.
O vento cruel e frio esculpiu umas formações pontudas na neve acumulada na cerca.
Subimos na torre que tem um restaurante, é um hotel e mirante. A ponta do Brocken está no centro do círculo.
Um cara tava filmando o pôr-do-sol de lá de cima. Pelo tempo que a câmera tava lá, suspeito que ele tava tirando várias fotos de tempos em tempos, pra depois mostrar um pôr-do-sol em Zeitlupe ("lupa do tempo". É que 'slow motion' parece paradoxal, porque o tempo normal do sol se pondo é mais lento que o vídeo que o cara lá supostamente vai criar).
Voltando a câmera para o mesmo objeto, nos despedimos do sol antes de entrar no último trem que desce.