segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Os países que nos atravessam

"Não somos nós que atravessamos os países,
mas são os países que nos atravessam a nós."
Coletado de um programa visto na TV em Portugal.
Philip andava pelas ruelas do Porto perseguido pela sensação de ter a germanidade entranhada na alma. Reparava em pequenos lixos nas ruas, nos cabos expostos e mal remendados, nas casas abandonadas, nas fachadas negligenciadas, na ausência de verde no centro histórico. As lojas que vendiam parafusos, ferramentas e ferragens lhe pareciam saídas de um túnel do tempo, o vendedor de castanhas que enfumaçava o mundo lhe pareceu quase uma ameaça.
Me sinto em casa no trânsito lento e levemente caótico em que o pedestre atravessa a rua quando dá, não quando o farol assim o permite. Depois de onze anos vivendo na Alemanha, Philip está condicionado a se orientar pelo semáforo e lhe chama atenção que atravessa as ruas correndo, entre um carro e outro.
Eu ficava intrigada com a intuição dos portugueses de que nós dois éramos turistas. Não fizemos passeios de barco nem de ônibus amarelo: usamos o transporte público comum e caminhamos bastante. Mesmo assim, ocasionalmente se dirigiram a nós em inglês. Philip comparou as roupas dos nativos com as nossas. Usamos roupas de montanhistas (como a maioria dos alemães, que vão à escola com mochilas Deuter ou Vaude, encaram a chuva e o vento com jaquetas The North Face e Jack Wolfskin e calçam Salomon e outras marcas de calçados para trekking). Em contrapartida, os portugueses usam guarda-chuvas, roupas de estilo mais pra social que esportivo - e em cores discretas. A minha jaqueta laranja poderia abrigar duas de mim e está, segundo o Philip, super fora de moda. De fato, ganhei-a de segunda mão quando chegamos aqui, no inverno de 1999. Sinceramente, eu achava que o jaco era só grandão, e nem tinha consciência que esse tipo de artigo também está sujeito às tendências da moda.
O caos foi o elemento português que demonstrou ao Philip como ele é alemão e como eu sou brasileira que mora em Porto Velho. Contudo, uma coisa nos pareceu tipicamente portuguesa: o jeito solícito dos portugueses. Como estávamos constantemente desorientados, perguntávamos por informações a torto e a direito. Todos - sem exceção - foram prestativos, simpáticos e dedicaram mais tempo aos nossos problemas do que esperaríamos de um alemão ou brasileiro.

Um comentário:

matias disse...

que bonito post, posts da viajem como um todo. Como é bom viajar e ser atravessado por esses outros mundos