Mundo pequeno

Em abril de 2006, Carlos e eu decidimos fazer um ciclotour. Tínhamos acabado de fazer nossa primeira cicloviagem no carnaval, junto com outro amigo. Eles contam que eu desapareci no horizonte, deixando os dois pra trás. Dessa vez, eu estava disposta a aprender a me orientar pelo ritmo dos outros. A família do Carlos tinha uma casa vazia em Águas de São Pedro. De Campinas, eram aproximadamente 120 quilômetros.

Saímos de Campinas conversando animadamente. Mesmo depois que acabou o acostamento, seguimos em ritmo de atleta. Depois da pausa para o almoço, nossas forças nos abandonaram. Devem ter se acomodado numa cadeira do posto onde paramos e dado tchauzinho pra nós. Não vi, não posso dar certeza. Ficamos matutando como foi que ficamos desanimados daquele jeito. Não chegamos a parar por mais de meia hora, nem comemos nada volumoso ou pesado. Simplesmente bateu leseira aguda nos dois.

Com a sensação de ter os ossos moídos pelo cansaço, chegamos a Piracicaba. A chuva de quarta-feira ainda deixava suas marcas na sexta: o rio tinha um volume de água impressionantemente exagerado. Eu ficava pensando: esse tanto de água não cabe nesse leito de rio, tá errado, isso. Tentamos entrar na Esalq pra passear, mas o guarda disse que havia muitas máquinas no campus, empenhadas em remover as trocentas árvores que haviam caído durante o temporal. Entramos no Engenho, onde acontece o Salão do Humor. Grandes casarões vazios, tijolinho à vista, muitas teias de aranha e uma ponte pênsil que leva ao Museu da Água. Quanta água.

O sol nos castigava, o asfalto quente evaporava cheiros ruins, irregularidades na pista nos incomodavam, caminhões passando muito perto dos nossos cotovelos nos irritavam. A água tinha acabado, a boca grudava, as canelas estavam sujas de poeira. Passamos pelo portal de Águas de São Pedro que nos dava as boas-vindas, nos perguntando o que diabos estávamos fazendo ali.

Quando finalmente encontramos uma sombra, paramos para negociarmos nosso próximo passo. Carlos explicou que a cidade tem o formato de uma ferradura. A casa ficava numa ponta, os restaurantes na outra. Precisávamos decidir se era mais urgente tomar banho ou comer. Deu empate. Tiramos par ou ímpar e fomos ao restaurante.

Depois de comer, Carlos reparou num outdoor que parabenizava um certo Thiago por uma volta ao mundo de bicicleta. Caramba! O patrocinador (ou apoio) do outdoor era o restaurante onde estávamos sentados. Vixe, que coincidência! Curiosos, perguntamos ao garçom quem era esse Thiago. Ele não sabia, porque era novo na cidade.

Pagamos a conta e brigamos com uma garrafa de água que relutava em se acomodar no bagageiro da minha bicicleta. Dois sujeitos que nos observavam, vieram conversar:
- Oi, vocês estão vindo da onde?
- De Campinas.
- Legal. E tão indo pra onde?
- Aqui mesmo.
- Como assim?
- Nós chegamos.
- Vocês queriam vir pra cá, Águas de São Pedro?
- Sim. Oh, por acaso você sabe quem é esse Thiago aí do outdoor que deu a volta ao mundo de bicicleta e chegou semana passada?
- Sei. Sou eu.
- Eita! Bem-vindo de volta!

Que mundo pequeno era esse, que nos conduzia diretamente ao encontro de um ciclista aventureiro! Tudo mudou de novo. O cansaço deu lugar à alegria, que voltou pelo canal das nossas risadas. Carlos e eu fomos convidados para o sítio onde Thiago e família fariam um churrasco naquela mesma noite. Ele queria mostrar fotos da viagem aos familiares e amigos. Queria compartilhar suas aventuras na estrada com aqueles que ficaram.

Depois de um bom banho, fomos ao sítio da família do Thiago Ghilardi. Carlos jogou bola com os rapazes descalços, eu fiquei sentada na grama, achando legal estar ali e fazer parte da festa de uma celebridade desconhecida. Uma das mulheres sentou do meu lado e me perguntou se tínhamos filhos. Percebi que ela se referia ao Carlos e expliquei que ele era meu amigo, o que foi difícil de engolir: Vocês viajam juntos e são só amigos?

Thiago tinha juntado muita gente para esse churrasco, e foi assim que conhecemos o Tico, grande guerreiro de provas de ciclismo; Fabrício que vendeu o Fusca para comprar uma passagem para a Austrália e lá trabalhou nas plantações de kiwi por um ano; Matt que veio dos Estados Unidos para receber o Thiago em sua chegada; e o Thiago que rodou o mundo de bicicleta em um ano.

Quando já estava escuro, Thiago projetou fotos muito bem escolhidas na parede exterior da cozinha. Sentamos todos no chão e embarcamos num mundo cheio de montanhas, turbantes, comidas exóticas, hábitos estranhos e paisagens deslumbrantes. O mundo inteiro cabia naquela parede. Bombardeamos o Thiago com perguntas: Como você conseguia pedir comida nos lugares em que não falavam a mesma língua que você? Quanto tempo você parava para descansar? Onde você dormia? Qual lugar mais te impressionou? Divertido, respondeu a todas as perguntas com uma estória. Carlos e eu saímos de lá mó tarde, achando que a vida é bela e o mundo um lugar a ser explorado.

Na manhã seguinte, pedalamos a São Pedro. A estrada era tão ruim, que um raio da roda traseira da minha bicicleta (Azulosa, a minha fabulosa bicicleta azul) estourou e fez a roda dançar como um ovo. De volta em casa, enquanto o Carlos fazia a massa de pizza para os nossos novos amigos, eu perdi muito tempo matutando como se tira o cassete da roda traseira, pra trocar o raio. Carlos fez a massa da pizza sozinho, enquanto eu tentava trocar um raio da roda traseira. Eu me achava previnida, munida de raios extra e uma chave de raio. Para o meu desgosto, descobri que seria incapaz de trocar o raio sem uma chave que abrisse a catraca. Acabei trocando um outro raio meio torto, só pra ter tido essa experiência de ter as mãos pretas de graxa. Quando eu tava na pia, tirando a graxa com óleo de cozinha, tocou o telefone.

Carlos estava com as mãos brancas de tão enfarinhadas. As minhas tinham deixado de estar pretas naquele instante, então atendi. Era o Nicola, um amigo que participaria de uma prova de ciclismo em Rio Claro no dia seguinte. Disse que estava a 2 km do portal de Águas de São Pedro e aguardava instruções. Montei na minha bicicleta, e ela não desmontou. Fui buscar o Nicola no portal da cidade. Em seguida, vieram Thiago, Fabrício e Tico.

Nossa refeição seguinte, o café da manhã, foi tomado na casa da minha orientadora, em Piracicaba. Ficamos conversando tanto com ela, que acabamos voltando pra estrada com o sol a pino. De tarde, vários carros passaram por nós com bicicletas no topo. Era a galera do Raid de Rio Claro. Carlos e eu pedalávamos sofrendo. Eu visualizava os músculos das minhas coxas como cabos de aço que se rompiam. Minha roda traseira era um ovo, por falta daquele maldito raio. Em Hortolândia, achávamos que íamos morrer carbonizados naquela paisagem feia.

Chegamos em nossas casas com a sensação de termos ficado bem mais que um fim-de-semana fora, porque as estórias de todos que cruzaram o nosso caminho se incorporaram à nossa.