sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Osso duro de roer

Apesar de ter saído do cinema verde e vomitando, eu achava que Cidade de Deus era mais filme de gente grande do que Tropa de elite. Em Cidade de Deus, a favela é o personagem. No Tropa de elite, o capitão Nascimento é o herói. Num filme hollywoodiano, cheio de adrenalina e testosterona, um policial é o herói. A trilha sonora e o narrador dão o tom do filme.

Acabo de ver Tropa de elite 2. Menos adrenalina, menos trilha sonora, mais palavrão, muito mais tiro e aquele narrador com cartas na manga continua lá. A primeira cena do filme é a emboscada que armaram pro herói. Como é o herói que narra e o público brasileiro ainda não está acostumado com narradores mortos, o público confia, desde a primeira cena, que toda a estória será contada até o momento da emboscada. A poucos minutos do final, chega a cena da emboscada. Se o filme tivesse chegado a essa cena na metade, o público sacaria que "é cedo pro narrador morrer". A poucos minutos do final, o público já suspira pelo herói e rejubila quando percebe que a vítima da emboscada tinha armado pra cima do inimigo. A força e o descontrole (físicos) do capitão Nascimento se transformaram, no andar do coronel Nascimento, numa postura de tartaruga puxada pelo rabo.

Dos filmes que vi do José Padilha, fico com o Ônibus 174.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Música sem chão

Quando ouvi Mustapha, de Marisa Monte (disco Mais), pela primeira vez, me senti leve. Quando ouvi a música no fone de ouvido e de olhos fechados, tive a sensação da música não ter chão. Cada instrumento faz a sua parte, e todos são levemente desencontrados. Não são paralelos, são ilhazinhas. A voz feminina costura entre todos os instrumentos de percussão. Levante, (do disco Infinito particular, também da Marisa Monte), me parece o melhor exemplo de música sem chão: os sons viajam na música, atravessam seu mar, dão voltas nas ilhas e acenam pra voz que traça seu caminho na paisagem abstrata. A melhor imagem para concretizar esse tipo de sensação era um quadro do Kandisnky na sua fase Bauhaus.
Quando ouvi Vanessa da Mata pela primeira vez nos fones de ouvido e de olhos fechados, tive a mesma sensação de falta de chão (principalmente na Onde ir, do Planet Copacana). Cheguei à conclusão de que a escolha dos instrumentos leva a isso: não há uma bateria que cadencia o tempo, um baixo que ancora o ritmo, uma guitarra pé-no chão que acompanha a voz. A lógica rock n'roll não se fazia presente, por isso a sensação de flutuar no espaço abstrato. Mesmo os violões têm um papel de instrumentos de percussão que mais enfeitam do que sustentam a música. Mas eu não entendo nada de música.
Minha grande surpresa foi revisitar essa sensação de ouvir uma música sem chão ao ouvir Dire Straits. Nem precisou de fones de ouvido ou olhos fechados. A segunda parte de Why worry (do Brothers in arms) no volume 14 (nesse volume, os vizinhos acompanham bem) já me transportou prum espaço sem chão. Ora, Dire Straits é rock n' roll na veia! Então não são os instrumentos que criam a sensação, é o seu uso.
Não tenho ouvido musicalmente educado, nem nunca conversei com nenhum músico sobre essa sensação. Mas reconheço nos quadros de Kandinsky a organização dessas músicas que tentei descrever aqui. Ele mesmo corrobora a metáfora da imagem + som:

"Em geral, a cor é, pois, um meio para exercer influência directa sobre o espírito. A cor é a tecla. O olho é o martelo. O espírito é o piano com inúmeras cordas. O artista é a mão que oportunamente faz vibrar o espírito do homem segundo o seu capricho, através desta ou daquela tecla." (Düchting, H. Wassily Kandinsky, 2005, p. 17)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Paisagismo

Pentear o maracujá (que tava só no estrado da cama que eu perdi nos alagamentos da casa anterior) pra cima dos arames que puxei foi quase tão complexo quanto corrigir as redações dos meus alunos.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O gesto de escrever

Escher

Lendo as redações dos meus alunos, aprendo muita coisa, inclusive sobre o gesto de escrever. Quem fala em 'gestos' é Flusser. Eu só tenho um xerox do Gesten: Versuch einer Phänomenologie, que eu tirei na USP, muitos anos atrás. Fiquei com preguiça de traduzir, então procurei na internet qualquer coisa sobre o gesto de escrever e topei com uma página verdona em que estava pendurado um texto do Gustavo Bernardo sobre Os gestos de Flusser. Recortei um trecho do Flusser sobre o gesto de escrever:

É falso dizer que a escritura fixa o pensamento. Escrever é antes uma maneira de pensar. Não há nenhum pensamento que não se articule através de um gesto. Antes de sua articulação o pensamento é somente uma virtualidade, vale dizer, nada. E se realiza através do gesto. Falando com propriedade, não se pode pensar antes de fazer certos gestos. O gesto de escrever é um gesto do trabalho, graças ao qual as idéias se realizam em forma de textos. Ter idéias não escritas significa na realidade não ter nada. Quem afirma que não pode expressar seus pensamentos, o que está dizendo é que não pensa. O que importa é o ato de escrever; tudo o mais é puro mito. No gesto de escrever o chamado problema estilístico não é nenhum apêndice: é o problema por antonomásia. Meu estilo é a maneira pela qual escrevo; ou, o que é o mesmo, é o meu gesto de escrever. Le style, c'est l'homme.


Especialmente em textos argumentativos sobre algum assunto polêmico, tenho a sensação de perceber como a opinião do escrevente se forma durante o ato de escrita.

Por incrível que pareça, aqueles que já tinham uma opinião formada sobre o assunto, não organizaram seu texto de maneira linear. Apresentavam sua posição, mas logo embarcavam em digressões, embaralhavam argumentos e quase nunca ilustravam seus argumentos com exemplos.

Aqueles que tinham uma intuição de que posição assumir, fizeram seu trabalho de pesquisa, coletaram dados, organizaram seus dados, articularam informações e as usaram para justificar sua opinião. Nesses casos, tive a sensação de que o gesto de escrever organizava seus pensamentos e que o texto resultante era uma opinião muito mais formada do que a intuição que tinham antes de começarem a escrever.

Tive a sensação de que aqueles que já tinham uma opinião formada, não chegaram a ela caminhando sobre as próprias pernas. Seus textos eram pouco argumentativos: mais esperneantes.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Vieram!

Que surpresa boa, ver as primeiras flores de maracujá! É possível que eu consiga levar sementes de maracujá dessa casa (que será demolida no ano que vem). Já estou fantasiando com o cheiro de maracujá alegrando a minha vida.

domingo, 14 de novembro de 2010

Pequeno dicionário dos esfarelados

Com a palavra em lascas: lascado.
Com o coração em pandarecos: abandonado.
Com o corpo em frangalhos: coitado.
Com os restos: sobrando.
Com a memória aos pedaços: desencontrado.
Com a auto-estima em migalhas: esmigalhado.
Com a personalidade em cacos: doido.
Com a vida em retalhos: desalinhado.

sábado, 13 de novembro de 2010

Universidade pública, né?

Uma universidade pública tem compromisso com o ensino, a pesquisa e a extensão. Uma universidade particular tem compromisso com o ensino e o lucro gerado por essa mercadoria. 

Nesse sentido, imagino que a vida universitária de um aluno de universidade particular seja mais parecida com a vida de um aluno de escola do que com a vida de um aluno de universidade pública. Fazendo pesquisa, o aluno da pública aprende a refletir sobre os conceitos aprendidos, antes de aplicá-los. Imagino que o aluno da particular, que não tem contato com a pesquisa (porque seus professores não são pesquisadores e porque não alfabetizam seus alunos em procedimentos científicos), receba o ferramental teórico como uma Verdade aplicável aos fenômenos. O aluno da pública, iniciado na pesquisa, sabe que as teorias e os modelos não são completos ou suficientes para explicar os fenômenos: são, antes, óculos que se usa para analisar os fenômenos. Pena que se faz pouca pesquisa na Unir.

Um aluno da universidade pública (que oferece cursos de extensão) pode fazer vários cursos (pagos, mas os preços são menores que fora da universidade) que não estão relacionados com a sua graduação ou pós-graduação. A Unicamp, por exemplo, oferece cursos de línguas estrangeiras, esportes e circo, dentre outros. Oferece ainda eventos como cinema gratuito (3 sessões diárias durante a semana) e apresentações da orquestra (aos domingos) na Casa do Lago. A Unir não oferece cursos de línguas estrangeiras nem de esportes na extensão (porque não tem infra-estrutura: piscina de verdade, quadras - no plural, vestiários, ginásio etc.). A Unir oferece alguns poucos eventos de extensão, como por exemplo o cineclube deLírio.

O professor que entra na universidade pública passou por um concurso. O professor que entra na universidade particular assina um contrato. Um professor de universidade pública é funcionário público (ativo permanente). Um professor da particular pode ser despedido por inúmeros motivos, inclusive descontentamento dos alunos.

A universidade pública é aberta. A Unir fecha seu portão nos fins de semana. Na Unir, alguns prédios são administrados por pessoas que saem para almoçar e trancam o prédio entre 12:00 e 14:00. Isso significa muitos banheiros a menos no horário do almoço. Na Unir, alguns prédios e salas têm dono (o cineclube foi expulso de uma sala no ano passado por uma professora que se sentia dona de uma sala que não usava).

A universidade pública é gratuita. Fiquei chocada quando ouvi que há professores de Medicina cobrando pelo xerox das provas aplicadas (R$ 2,80 por aluno, sendo que a prova não tinha 28 páginas). Para ser coerente com a gratuidade, existem cotas para os professores fazerem xerox. No IEL, Unicamp, cada professor tinha direito a 150 cópias gratuitas. Na Unir, poucos sabem que isso existe.

Muitos alunos da universidade pública partem para a iniciativa privada depois de formados (estudantes de Medicina, por exemplo, aprendem sobre saúde pública, mas não se sentem chamados pelos hospitais públicos: preferem as clínicas particulares). 

Um dos candidatos a reitor falava em 'privatização da Unir'. Na prática, a Unir está mais parecida com uma particular do que com uma universidade pública: não oferece moradia estudantil, restaurante universitário, hospital universitário, apoio jurídico e psicológico, passe livre. Não é aberta, nem completamente gratuita (vide xerox de prova e a cobrança de taxa de inscrição nos Mestrados) e mal e mal oferece pesquisa e cursos de extensão. 

Não espanta que os recém-chegados à Unir tramem seus planos de fuga: alunos calouros prestaram o ENEM, alunos veteranos desistem e tentam a sorte em outras universidades, professores pedem transferência, redistribuição, ou prestam concurso em outros lugares.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mais da mesma

Mais uma foto da Akari pra desviar o foco do processo seletivo do mestrado, das eleições pra reitor, do fim do semestre com 3 turmas escrevendo redações, da falta que fazem os que foram embora.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Distração

Foto da Akari pra eu evitar de reclamar da vida.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sem teto

Acho que eu nunca tinha visto um morcego tão de perto. 
São peludinhos.
Esse tava dormindo ao relento.
Queria ter conseguido olhar pra cara dele, mas não deu.
Um morcego acordado me pareceu menos bonitinho que um morcego adormecido.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Modernity

Sua bicicleta anterior tinha sido batizada de Evolution. Não era mais uma bicicleta nacional, comprada em supermercado: era importada e tinha lhe custado quase todo um salário. Evolution era ágil, robusta e bonita. Talvez esses tenham sido os motivos que ocasionaram seu furto.

Luis não podia viver sem bicicleta, especialmente depois que descobriu que existem bicicletas boas. Endividou-se e comprou um novo meio de transporte. Modernity era veloz, leve e linda. Luis falava de sua mais nova aquisição como quem suspira de paixão. Em casa, guardava a Modernity na sala; no trabalho, prendia-a num poste de luz na frente da entrada. Não deixava a bicicleta na garagem porque queria vê-la sempre.

Modernity chamava atenção. Presa no poste de luz da torre de escritórios, a bicicleta estilosa personificava o contraste entre a simplicidade branca e a opulência do vidro-espelho escuro. No trânsito, Modernity só parava nos semáforos, nunca nos engarrafamentos. No escritório, somente Luis era ciclista.

Luis era visto pelos colegas sedentários e acima do peso como atleta, alternativo, ecologicamente correto. Por tabela, atribuíam-lhe hábitos coerentes com a visão que tinham dele: vegetariano, abstêmio, não-fumante e revolucionário. Por ser diferente dos outros e inspirar possibilidades, tinha um certo número de admiradoras. Enquanto elas fumavam seus cigarros na frente do prédio e ele destrancava as correntes que prendiam Modernity ao poste de luz, puxavam conversa sobre hábitos saudáveis, a natureza agradece, pedalar na chuva, no sol, na poluição, medo do trânsito e o capacete que ele não usava. Era educado, sorria sempre e concordava com tudo.

Numa sexta-feira, final de expediente, Ana anunciou que na semana seguinte viria ao escritório com ele - de bicicleta. Mesmo sendo mais alta que ele, olhava-o de baixo para cima. Disse que queria aprender a pedalar na cidade. Despediram-se com o evasivo "vamos conversando no fim de semana" e logo Luis apagou a conversa de sua memória. No domingo à noite, recebeu uma mensagem pelo celular. Era Ana, perguntando quando e onde se encontariam na manhã seguinte para irem ao trabalho de bicicleta. Luis apenas removeu Ana de sua gaveta mental destinada às 'colegas' e a alocou na gaveta mental das 'pretendentes'. Não respondeu, nem ligou, nem mesmo imaginou o encontro.

No escritório, se trataram como de costume, ignorando completamente o episódio da bicicleta. Naquela semana, o número de pretendentes de Luis aumentou. Dessa vez, tratava-se de um colega que tinha migrado da gaveta dos 'camaradas' para a gaveta dos 'pretendentes'. Não tinha certeza absoluta, mas sentia que o nervosismo nas mãos, as falhas na voz e os constantes contatos para manter contato confirmavam a nova condição do Oscar. Este não era o primeiro homem a manifestar interesse por ele.

Chovia no dia que acabou numa confraternização. Luis percebeu que Oscar orbitava à sua volta e que havia uma bicicleta vermelha presa no orelhão ao lado da Modernity. Justo num dia de chuva aparecia uma nova bicicleta na frente do escritório. Pediu carona pro gerente e saiu da festa à francesa.

Ana e Oscar foram os últimos a voltar pra casa naquele dia. Ana foi de táxi, Oscar esperou ao lado da Modernity até o frio penetrar seus ossos. No dia seguinte, Oscar faltou ao trabalho: avisou que estava constipado. Ana e Luis foram sobrecarregados de números e se trataram como camaradas. 

No fim do expediente daquele dia, quando o elevador parou no sétimo andar, Moira entrou e cumprimentou Luis toda sorridente e jovial. Perguntou da Modernity. Luis estranhou que uma moça que trabalhava no sétimo andar soubesse o nome de sua bicicleta, mas devolveu o sorriso e disse que a Modernity ia bem, obrigado. Moira tocou seu ombro e saiu do elevador no sexto andar.

Da entrada do prédio, reparou que havia algo colado no guidon da Modernity. Chegou perto e identificou um bilhete preso com fita crepe. A caligrafia redonda expressava um elogio. O bilhete de duas linhas não trazia assinatura. Mentalmente, Luis computou: pretendentes = n+3.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Saiu do prelo


Finalmente o livro que Heloisa e eu organizamos saiu da gráfica! O livro é fruto da Semana de Letras que ocorreu em novembro do ano passado na Unir e conta com artigos de 31 autores diferentes. Foi preciso exercer diversos papéis para conseguir esse resultado: autora, revisora, esperante, editora, organizadora, mensageira, insistente, negociadora, acompanhante de papéis, sorridente, carregadora de livros.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sofrendo com os textos

Textos ruins me sugam a energia vital, me corroem as entranhas, violentam a minha inteligência e abusam da minha formação. Enfim, me desanimam profundamente. 
Textos ruins não são só aqueles escritos por pessoas que não dominam a ortografia de sua língua materna. 
Textos ruins não são só aqueles em que não existe qualquer forma de planejamento, escolha das palavras, lapidação de ideias ou qualquer indício de prazer de escrever.
Textos ruins são também aqueles escritos por pessoas que não têm vida interna (como já dizia o meu amigo Paulo Punk). Os textos de autores que não têm individualidade própria repetem o discurso da televisão, da igreja, dos filmes e seriados americanos.
Textos ruins são também aqueles que não acertam a medida do tom poético na prosa e transbordam o significante a ponto de as frases ficarem sem sujeito, os verbos sem ação e o leitor sem orientação.

Os textos que ando lendo são drogas pesadas.