terça-feira, 16 de novembro de 2010

O gesto de escrever

Escher

Lendo as redações dos meus alunos, aprendo muita coisa, inclusive sobre o gesto de escrever. Quem fala em 'gestos' é Flusser. Eu só tenho um xerox do Gesten: Versuch einer Phänomenologie, que eu tirei na USP, muitos anos atrás. Fiquei com preguiça de traduzir, então procurei na internet qualquer coisa sobre o gesto de escrever e topei com uma página verdona em que estava pendurado um texto do Gustavo Bernardo sobre Os gestos de Flusser. Recortei um trecho do Flusser sobre o gesto de escrever:

É falso dizer que a escritura fixa o pensamento. Escrever é antes uma maneira de pensar. Não há nenhum pensamento que não se articule através de um gesto. Antes de sua articulação o pensamento é somente uma virtualidade, vale dizer, nada. E se realiza através do gesto. Falando com propriedade, não se pode pensar antes de fazer certos gestos. O gesto de escrever é um gesto do trabalho, graças ao qual as idéias se realizam em forma de textos. Ter idéias não escritas significa na realidade não ter nada. Quem afirma que não pode expressar seus pensamentos, o que está dizendo é que não pensa. O que importa é o ato de escrever; tudo o mais é puro mito. No gesto de escrever o chamado problema estilístico não é nenhum apêndice: é o problema por antonomásia. Meu estilo é a maneira pela qual escrevo; ou, o que é o mesmo, é o meu gesto de escrever. Le style, c'est l'homme.


Especialmente em textos argumentativos sobre algum assunto polêmico, tenho a sensação de perceber como a opinião do escrevente se forma durante o ato de escrita.

Por incrível que pareça, aqueles que já tinham uma opinião formada sobre o assunto, não organizaram seu texto de maneira linear. Apresentavam sua posição, mas logo embarcavam em digressões, embaralhavam argumentos e quase nunca ilustravam seus argumentos com exemplos.

Aqueles que tinham uma intuição de que posição assumir, fizeram seu trabalho de pesquisa, coletaram dados, organizaram seus dados, articularam informações e as usaram para justificar sua opinião. Nesses casos, tive a sensação de que o gesto de escrever organizava seus pensamentos e que o texto resultante era uma opinião muito mais formada do que a intuição que tinham antes de começarem a escrever.

Tive a sensação de que aqueles que já tinham uma opinião formada, não chegaram a ela caminhando sobre as próprias pernas. Seus textos eram pouco argumentativos: mais esperneantes.

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