domingo, 31 de maio de 2009

Mandioca e a chuva

Mandioca, aipim, macaxeira. Olga me ensinou que não se pode comer mandioca nos meses que não têm 'r' no nome. Sobram maio, junho, julho e agosto. São os meses em que temos outono/inverno aqui no Brasil. Mais especificamente, são os meses em que chove menos.

Dei uma olhada no canaldotempo, e pude constatar que a regrinha do 'r' se confirma: a média de chuvas vai caindo nesses meses:

Maio: 74mm
Junho: 56mm
Julho: 43mm
Agosto 38mm

A partir de setembro chove mais, sendo o pico das chuvas em janeiro:

Setembro: 81mm
Outubro: 124mm
Novembro: 145mm
Dezembro: 201mm
Janeiro: 239mm

As 'chuvas de março' fecham o verão, e em abril chove quase metade do que tinha chovido em março e quase tanto quanto choverá em maio:

Fevereiro: 218mm
Março: 160mm
Abril: 76mm.

Como explicar o comportamento idiossincrático (em relação à sabedoria popular) de abril? Com outro dito popular!! Tive que recorrer a outra língua, mas funciona.
Aprilwetter: April, April, der macht was er will.

sábado, 30 de maio de 2009

A voz dela

Atendeu o telefone, apesar de ser um domingo de manhã. Desejou bom dia à voz que saía do telefone, apesar de já ter identificado que se tratava de uma ligação impessoal. O barulho de fundo era povoado de vozes forçosamente simpáticas. Mas aquela voz que tentava lhe vender um seguro de vida era muito agradável. Ele chegou mesmo a fazer perguntas à moça, para poder continuar a conversa e assim deleitar-se com o timbre escuro daquela voz envolvente. Quando ela perguntou se ele estava interessado no produto que ela queria vender, ele confessou tudo.

Estava completamente apaixonado por aquela voz. Será que ela poderia lhe dar o seu número, pra que ele pudesse ligar para ela de noite? Se ela preferisse não revelar o seu número, será que ela poderia, então, ligar para ele outra hora pra conversarem sobre outras coisas?

A moça ficou surpresa com a urgência dele, com essa obsessão pela sua voz. Mas ao mesmo tempo que se sentia assediada, sentia-se lisonjeada. Tentou lembrar quando tinha sido a última vez em que um homem tinha se interessado por ela assim. Sua voz tremeu um pouquinho quando revelou o seu número de telefone ao sujeito que lhe tomou uma hora de serviço e não fechou contrato.

Conversaram durante semanas pelo telefone. Ele a pressionava para um encontro, ela se esquivava sempre com uma desculpa diferente. Com o passar do tempo, as conversas se tornaram mais íntimas e mais longas. Começavam meio sem assunto, mas sempre terminavam com suspiros de ambos os lados da linha. Toda noite ele sonhava com uma mulher diferente, como se tentasse dar, em sonho, uma materialidade física àquela voz que o tinha enfeitiçado. Ela já não tinha mais desculpas plausíveis para não vê-lo, e para não se enredar ainda mais em mentiras, aceitou seu convite para jantar.

Ele chegou bem antes da hora combinada e sentou-se num lugar de onde podia monitorar a porta. A cada mulher que entrava, seu coração perdia uma passada. Ela sabia que ele era negro, alto, atlético, usava óculos e tinha rastas nos cabelos. Mas ele não sabia nada sobre ela. Conhecia a sua voz, sua risada, sabia adivinhar quando estava sorrindo e adorava ouvir os seus suspiros. Mas sobre sua aparência não sabia absolutamente nada.

Poucas mulheres entraram sozinhas. Ele temia que ela viesse com uma amiga, como por exemplo aquela loira ali, da mesa 5, que não tirava os olhos de cima dele. Chegou a flertar com uma morena de vestido cinza que estava esperando um moleque de andar gingado e gel no cabelo. Quando o relógio avisou que ela estava 2 minutos atrasada, sua ansiedade se transformou em tensão. Quando o relógio marcou 20 minutos de atraso, ela apareceu.

Seus olhos grandes imploravam desculpas pelo atraso, suas mãos nervosas se apertavam mutuamente no colo. Não foi preciso que ela abrisse a boca pra que ele a identificasse. Ela parecia ser a mulher mais medrosa, indefesa e desconfortável na própria pele que havia no recinto. Ela parou diante do degrau e olhou para ele. Ele entendeu que ela precisava de ajuda e foi até ela. Parou na frente dela, abaixou-se um pouco e perguntou:
- É você?
Tímida, ela respondeu com a voz falhando:
- Sim, Marco, sou eu.
Ele deu a volta nela, segurou a cadeira de rodas e a conduziu até a mesa.

Ela teve a sensação de estar conversando com um médico, porque ele só falava sobre a sua deficiência. Ele teve a sensação de ter sido enganado. Nem a voz não era mais a mesma! No telefone, a voz dela tinha uma aura mágica. Ali, ao vivo, não tinha nenhum poder sobre ele. Ambos fizeram questão de perder contato depois daquele primeiro encontro.

Devo a estória a Marco Esteves.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Pedalar é perigoso?

Tirinhas do Yehuda Moon

Qual é o problema? Vou pedalar pra escola. Como isso pode ser perigoso? Carai! Esse era o pai do Dave! Ei, ei, tem gente na calçada aqui! Ôu! Aquele era o pai da Sue. E aí, pronto pro teste? Depois do pedal pra cá, tô pronto pra qualquer coisa. Quer me ajudar a riscar portas de carros com chaves depois da escola?

Cada dia vejo mais ciclistas nas ruas. Talvez seja porque presto mais atenção neles hoje que quando eu não circulava tanto de bicicleta. Talvez seja porque o trânsito em São Paulo está cada vez mais lento, devido ao excessivo volume de carros nas ruas. É possível que alguns usuários de transporte coletivo tenham migrado para o modal bicicleta, porque se encheram de ficar em pé, apertados e suados em ônibus parados. Não está descartada a possibilidade que alguns motoristas tenham abandonado o carro em favor da bicicleta.

O grupo dos ciclistas nas ruas de São Paulo não é homogêneo. Alguns pedalam na calçada, outros na rua, poucos pedalam na minha contramão, outros me ultrapassam, uns usam capacete, outros não, poucos usam roupas esportivas, a maioria usa roupas de trabalho. De noite, percebo que muitos priorizam luzinhas vermelhas piscantes atrás de si e não têm farol branco na frente. Em dias de chuva, continuo vendo alguns gatos pingados pedalando com capa de chuva.

Mesmo que o número de ciclistas tenha aumentado, continua o mito de que pedalar na cidade é perigoso. Digo que é um mito, porque quem me alerta dos perigos de pedalar nas ruas não pedala e não sabe qual é a paisagem que eu vejo quando estou na Amarilda.


Certo, suba aqui. Como está o selim? Ele não devia estar usando capacete? Só estamos verificando a posição dele na bicicleta, minha senhora. Não vamos a lugar algum por enquanto. Ele vai ficar bem. Ele precisa do capacete. (suspiro) Ok. Tão pesado! Eu te disse! Bicicletas são perigosas!

Me alertam do perigo de assalto. Já fui vítima de tentativa de roubo da minha bicicleta amarela. Fiquei balançada por um tempo, sentia um frio na espinha quando passava pelo local onde o fato tinha acontecido, mas agora creio ter entendido que o objeto de desejo do outro é a minha bicicleta, não qualquer coisa pendurada em mim: bolsa, mochila, colar, brinco. E pra conseguir a minha bicicleta, o outro vai precisar usar de violência física. É muito diferente enfiar a mão numa janela aberta e arrancar um colar, relógio, celular ou brinco, ou mesmo quebrar o vidro de um carro e agarrar uma bolsa do que derrubar um ciclista pra pegar a bicicleta.
Meu campo de visão numa bicicleta é bem maior que num carro, e posso antecipar saias justas e ocupar outro espaço antes da corda apertar o pescoço.
Um dia eu estava pedalando na Água Espraiada. O farol estava fechado e me aproximei devagar da faixa de pedestres. Eu andava pela direita, entre a guia e uma fila de carros. Ouvi o barulinho de uma trava de porta descendo dentro do carro pelo qual estava passando. Dei risada: o passageiro daquele carro se trancou dentro do carro ao me ver chegando. Ter medo de ciclista beira os limites aceitáveis da paranóia de cidade grande.

Me alertam do perigo que são os motoristas. Isso eu acho impressionante. Motoristas me alertam do perigo que os motoristas representam. De fato, a falta de respeito dos motoristas é o maior complicador no trânsito. Motoristas de ônibus não têm paciência de trafegar atrás de um ciclista quando estão se aproximando do ponto de ônibus. Muitos preferem me ultrapassar pra me fechar logo em seguida, quando encostam no ponto. Outros motoristas não têm noção da minha velocidade e entram na via em que estou quase em cima de mim. Outros, ainda, entram sem olhar. Depois pedem desculpas.

Ok, agora resuma pra mim a essência do sentimento do motorista para com o ciclista. Na verdade não passa de esperanças e desejos. Metade dos motoristas espera não bater em ciclistas. E a outra metade deseja poder bater em ciclistas.


Thistle! O que você está fazendo? Você vai ser atropelada! Hein? Maureen? Ei, olha que legal! ... Espera - o que você disse? Nóis na bicicleta com caixa. Eu disse que você vai ser atropelada. Tem carros em todo lugar, não é seguro! Vamos ficar bem. Aqui não é Copenhagen, Thistle. Americanos não gostam de compartilhar a via. E como você sabe disso?


Eu me esforço para ser vista. Nos faróis, paro no campo de visão do motorista. Nas ruas, dou sinal de que vou mudar de direção e de que vou continuar seguindo reto numa bifurcação onde muitos viram à direita. Ocupo o meu espaço na faixa, forçando o motorista a me ultrapassar, não a me passar, tirando fina.

Me alertam do perigo que é pedalar de noite. Eu respondo que tenho luzinhas. Que piscam!

Agora um perigo que ninguém prevê - justamente porque não pedala em condições adversas - é a chuva torrencial. A visão de todo mundo fica embaçada pelo véu branco da chuva forte e eu fico menos visível. Usando a capa de chuva, meu campo de visão fica mais limitado, porque a visão periférica é obstruída pela capa. O vento transforma a capa numa vela. A água que não consegue se infiltrar na terra por causa do asfalto de junta e forma rios com correnteza e tudo. Nessas horas, é melhor parar num posto e esperar, ou continuar a pé, empurrando a bike.

Eu bem que avisei que hoje o vento estava forte demais pra usar a capa de chuva.

Viver é perigoso. Um trânsito em que as pessoas não conhecem as leis de trânsito, não sabem quais são as regras do jogo, é perigoso. Muitas pessoas encaram o trânsito como um campo de batalha, em que vale tudo pra chegar rápido. Espero que essa mentalidade mude.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Slick & slide: aprendendo

O pneu de cravos tava ressecado mesmo, pedindo pra ser trocado. Um espinho que se enfiou no pneu e furou a câmara foi a oportunidade pra botar um par de pneus slick (com faixas amarelas) na Amarilda. Agora ela tá altamente amarela.

No primeiro dia, pedalei feliz e contente pro trabalho. A bicicleta estava mais leve, como se eu estivesse pedalando numa marcha abaixo do que estava de fato. O pneu é mais fino que o cravejado, então tomei mais cuidado ao passar por cima das grades que tapam as valas pra escoamento de água dentro da garagem.

No segundo dia saí de casa toda faceira. Tinha chovido de noite e o chão estava molhado. Quando fui fazer a curva pra sair da Espraiada e entrar na Nova York tomei um chão que barbaridade, fui parar de costas no chão e não vi o chão chegar. Não entendo os movimentos que aconteceram ali. Ralei a mão direita, o bolso direto da calça e o joelho direito, mas tenho também um roxo na batata da perna esquerda e terminei com as costas no chão. Enfim. Ninguém veio conversar comigo, ver se estou bem, mas todos pararam. Tirei a bicicleta do chão, recolhi um negocinho que mais tarde se revelou ser a tampinha do bar-end e me instalei na calçada pra sentir as juntas e verificar a bicicleta. Não estava sangrando, mas a roupa estava suja. Nada, além da tampinha do bar-end, se desprendeu da bicicleta e o alforje protegeu o câmbio traseiro.

No mesmo dia, de noite, passei naquela mesma esquina numa velocidade bem tiazinha. O meu joelho estava inchado e doía quando era dobrado. Mas é com os erros que a gente aprende.

No terceiro dia, que coincide com o dia de hoje, choveu. Mudei os livros da mochila pro alforje à prova d´água, tirei a capa de chuva (um poncho, na verdade) do armário e lembrei que pneu slick escorrega. Usei os freios mais que normalmente, fui com calma e cheguei tranqüila no subsolo2. Pendurei a capa no bicicletário mesmo, porque eu apostava que ninguém além de mim viria pro trabalho de bike em dia de chuva. Ganhei a aposta. Lá na Samsung dei aula descalça. Próxima vez que chover levo um par de meias secas e um par de tênis no alforje. Outra coisa que aprendi.

A chuva de hoje e a consciência de que o pneu slick não segura a onda na curva como o pneu cravejado me fizeram pensar na velocidade em que eu costumo trafegar de bicicleta. Por motivos de força maior estou aprendendo a pedalar devagar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Instruções precisas

- Monica, como você faz purê de batata: com esse negócio aí?
- É, com isso aí.
- E aí como faz? Coloca a batata aqui dentro e bota esse lance aqui e aperta assim?
- Isso.
- Ah, legal.
- Uai, mas como é que você tá acostumada a fazer purê?
- Com um troço que aperta...
- Ah, já sei! Faz tchuqui, tchuqui!
- É (sorri) tchuqui tchuqui (desata a rir)
- Ah, vá! Você me entendeu!

domingo, 24 de maio de 2009

Linguagem própria

Enquanto seres humanos, somos contadores e consumidores de estórias. Contamos e absorvemos estórias em diferentes mídias: escrevemos/lemos livros, encenamos/assistimos peças de teatro, dirigimos/assistimos filmes no cinema, fazemos/lemos quadrinhos, lemos/ouvimos audiobooks.

Cada um desses meios dispõe de diferentes recursos narrativos, exclusivos de cada forma de contar a mesma estória. Percebemos com clareza que esses meios dispõem de linguagem própria quando uma estória, contada num meio, passa a ser contada em outro meio. É nessa passagem de um gênero textual para outro que podem acontecer grandes saltos qualitativos.

Saltos escada abaixo. Olga e eu fomos ver uma peça de teatro chamada Por um fio. Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de Drauzio Varella. Nunca li nenhum livro do médico, mas aposto que ele seja um escritor no mínimo cuidadoso com as palavras. Em Por um fio, o médico reúne experiências, conversas e confissões de pacientes terminais. Mostra como vítimas de câncer e doenças decorrentes da Aids e seus parentes/amigos próximos lidam com a (iminência da) morte. Imagino um livro sóbrio e triste. A peça de teatro não passava do texto do livro, proferido por duas pessoas, alternadamente. O cenário se manteve o mesmo parque com ávores sem folhas e bancos demais pra ser verdadeiro. O figurino não mudou durante a peça. Além do texto não havia quase nada de cênico. A linguagem própria do teatro foi ignorada nessa peça teatral.

Pulinhos no mesmo degrau. A maioria dos best-sellers não passa de um roteiro. Dariam ótimos filmes de ação. Por isso Anjos & Demônios, ou o Código Da Vinci ou qualquer livro do John Grisham (só menciono aqui os que li) viram filme sem grandes mudanças no texto. O livro já era um roteiro. Acontece tanta coisa dramática, existe tanta grandiosidade nos atos, na tragédia das ações, que o livro prende. Mas ele não prende pela experiência literária, pelo sabor das palavras, pela textura do som, pela cor das metáforas. A linguagem própria da prosa literária é ignorada nesses livros que viram filme e vice-versa. Talvez por isso O Amor nos Tempos do Cólera em versão cinematográfica tenha decepcionado tanto: perdeu-se a poética e manteve-se a estória.

Saltos escada acima. Gosto muito de Neil Gaiman, um escritor/quadrinista inglês que passou alguns anos nos EUA. Além de transitar por diferentes sotaques, o homem também se move por diferentes gêneros: Sandman é sua mais consagrada série em quadrinhos; Neverwhere, Anansi Boys e American Gods são romances; Fragile Things é uma coletânea de short stories; Stardust é um conto de fadas para adultos; Coraline é um conto de fadas para crianças. Neverwhere, Coraline e Stardust viraram filme. Só posso comparar o livro com o filme no caso de Stardust, e percebo que a linguagem cinematográfica foi muito bem explorada na adaptação. A 20 minutos do fim do filme, a bruxa-rainha tem nas mãos um boneco de vudu que transmite as dores para Septimus, o último herdeiro do reino. Ela quebra um braço e uma perna do boneco, Septimus sente a dor dos ossos fraturados. Ela solta o boneco na água, e antes do boneco cair na água, Septimus enche os pulmões de ar. Assim que o boneco mergulha na água, Septimus começa a flutuar no meio do salão. Seu corpo bóia e ele se movimenta como se estivesse embaixo da água. A trilha sonora e o close nos cabelos que se movimentam lentamente na água dão relevo à cena. No livro, Septimus não morre afogado, nem não há nenhum boneco de vudu. A imagem que criaram para a morte do personagem no filme é genial, justamente porque lança mão da linguagem própria do cinema. Outra surpresa agradável foi ouvir o audiobook Anansi Boys, porque o leitor do livro soube imitar magistralmente os três sotaques predominantes no texto: britânico, americano e jamaicano. Ouvir os sotaques foi infinitamente mais divertido do que lê-los.

Minha mais recente fonte de curiosidade é Budapeste. Sei que se trata originalmente de um livro escrito por um músico. Não li este livro do Chico Buarque, mas vi o filme. No filme, há vários recursos cinematográficos que despertam a minha curiosidade: como é que isso tava no livro? A cena em que ele vê a majestosa estátua cortada de Lenin passando no navio é marcada pela trilha sonora. Tem uma cena em que a câmera fixa no rio e vira de ponta-cabeça. Na estória, o personagem principal aprende húngaro e a gente (que não sabe húngaro) tem que ler as legendas em português. Essas soluções cinematográficas correspondem a que problemas narrativos? Foram usadas cores de tinta diferentes, como acontece na História sem Fim, de Michael Ende? Foram usadas fontes diferentes ou foram inseridas imagens, como em Extremely loud and incredibly close, do Safran Foer? Minha curiosidade me diz que Budapeste será o meu próximo livro.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Pedal do silêncio

Foi o adjetivo 'silenciosa' que me seduziu para a bicicletada ontem de noite. Estava previsto um 'pedal do silêncio', uma manifestação internacional de luto pelos ciclistas mortos e feridos em acidentes de trânsito.

Eu me incluo no grupo dos acidentados, talvez até feridos (fui pro hospital pra que eu constasse como vítima no BO e depois fiquei mancando por um mês, fiz fisioterapia e tudo). Mas, fora as cicatrizes, não carrego as seqüelas dos meus acidentes de bicicleta no corpo. Não perdi a mobilidade, o emprego ou a validez por causa de um acidente de trânsito em que eu fosse o elo mais fraco. Mas sei que outros ciclistas perderam membros, auto-estima, seu lugar na sociedade, ou a vida em acidentes de trânsito. E sei que muitos destes acidentados não tiveram apoio médico/judicial e não entraram para as estatísticas de acidentes de trânsito.

Colisões de bicicletas com veículos motorizados eram (talvez ainda sejam, não queremos precipitar otimismo aqui) contabilizadas como 'atropelamentos', ou seja, o ciclista passa(va) a valer como pedestre. Quando a bicicleta era (talvez ainda seja, deixei de dialogar com o poder público faz um tempo, por isso não sei) considerada como veículo, então elas engrossavam os números de acidentes envolvendo motos. Isso acontecia (talvez ainda aconteça) porque a categoria 'bicicleta' não existe na contagem das concessionárias de rodovias.

No meu BO tem lá espaço pro policial rodoviário preencher a marca, modelo, ano de fabricação, cor e número de placa do veículo; como se o meu veículo tivesse isso tudo. Quanto à minha lesão, consta lá 'leve' (as opções são: fatal, grave, leve, ileso), mas não é especificado que eu tinha luxado o pé direito, que eu viria a quebrar 2 anos e 24 dias depois. O cenário do acidente recebe descrição detalhada, mas não é dada atenção ao tipo de ferimento da vítima. Se o ferimento tivesse sido grave, não haveria um campo de múltipla escolha para preencher que partes do corpo foram lesionadas - e de que maneira.
Quando é que acidentes envolvendo ciclistas serão contados de maneira separada? Quando é que as vítimas deixarão de ser enquadradas como 'passageiros' ou 'pedestres'? Quando é que os ciclistas acidentados serão acompanhados e usados como base de estudo para a prevenção de acidentes?

E no caso de mortes de ciclistas, o que acontece? Lembro de uma notícia de que haviam morrido vários ciclistas de uma vez. Pedalavam speed bikes pelo acostamento e foram varridos por um caminhão. A conseqüência das mortes foi a proibição da circulação de bicicletas pelo acostamento daquela via. Simples. Não lembramos que o motorista que colidiu com um ciclista e provocou sua morte responde por um crime.

Sei que a bicicletada não vai responder a essas perguntas, nem correr atrás de mudanças no status quo, porque não é uma ong ou oscip. Mas a idéia de simplesmente pedalar em silêncio com outras pessoas me atraiu pra Praça do Ciclista.

Havia dois pontos de saída: a bicicleta-fantasma da Márcia Prado e a Praça do Ciclista. Não creio que tenhamos somado muito mais de 100 pessoas. A maioria estava vestida de branco, eu estava usando roupas de frio que eu não tinha doado naquele meu surto de em-Rondônia-não-faz-frio.

Pedalamos devagar, ocupando 2 faixas na Paulista. A massa crítica não gritava, não pedia pra 'quem gosta de bike, buzina!' não apitava, não emanava nenhum funk dos infernos. Por pedalarem silenciosos, os integrantes da massa se sentiram mais unidos. Por pedalarmos em silêncio, pudemos ouvir com mas nitidez todas as buzinadas irritadas, os xingamentos raivosos e conselhos estúpidos dos motoristas. Desta vez não chamamos as pessoas às janelas, não arrancamos sorrisos de pedestres, não fomos atração de circo. Éramos apenas um grupo de ciclistas atrapalhando o trânsito em plena quarta-feira. Eu aproveitei pra olhar na cara das pessoas presas no trânsito. Ultimamente não tenho olhado pras pessoas no trânsito: vejo carros e espaços por onde a minha bicicleta passa.

Chegamos à bicicleta-fantasma e acendemos velas, colocamos flores na bicicleta branca e fizemos uma roda pra ouvir as palavras emocionadas de um palhaço. Havia no ar uma vibração de 'não vamos esquecer', mas ao mesmo tempo também um sentimento confortante de 'não estamos sozinhos'. Bem o tom que paira numa reunião de sobreviventes que se lembram de vítimas.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O que impressiona

Passo algumas horas, por quatro dias seguidos, dentro de uma empresa. Meus caminhos lá dentro não são longos: garagem, elevador, corredor, sala de beber água, banheiro, sala de reuniões, corredor, elevador e garagem.

Nos primeiros dias, algumas bicicletas no bicicletário me impressionavam: olha, o cara deixa todos os acessórios (luzinha, velocímetro, bolsinha) pendurados na bike dele; uau, uma Cannondale pendurada aqui; ahá, uma bike nova! Mas depois de 3 semanas já conheço todas as bicicletas e seus lugares de estimação. Algumas já juntam poeira de estacionamento e parecem ter sido esquecidas pelos seus donos.

Minha curiosidade era em relação aos ciclistas. Seriam eles guardas, faxineiros ou recepcionistas? Ou são os caras que perdem cabelo de tanto se estressar, ganham peso de tanto trabalhar sentados e não têm tempo para lembrar que a esposa, os filhos e o cachorro também querem um pouco de sua atenção? Um dia vi um ciclista chegando quando eu estava saindo de manhã. Todo suado, parecia intrigado ao ver uma mulher no bicicletário. Aproveitei o interesse dele e fui satisfazer a minha curiosidade: cê vem da onde? Mooca. Pedalei 20km. Cê faz isso todo dia? Não, todo dia não dá, mas 3 vezes por semana e venho pedalando. O cara era careca e barrigudo, portanto imagino que seu local de trabalho seja um escritório.

Quando reparo nas mulheres que trabalham em escritório, tenho a impressão de que elas se esforçam para chamar atenção através do som que os seus saltos altos fazem no chão. Quanto mais barulho, melhor. Não importa que andem de um jeito estacado, numa marcha dura, sem leveza e sem curvas. Compensam seu andar pouco feminino nos cabelos longos e sempre soltos, nas unhas pintadas e nos olhos maquiados.

Quando penso nos homens, lembro dos meus alunos me mostrando o novo modelo de celular que ganharam da empresa (Samsung), e que ainda não sabem usar. Lembro da alegria pueril nos seus olhos, quando um colega deles coloca o seu celular novo na mesa. Esticam a mão e tratam aquele aparelho como se fosse um brinquedo. O que parece impressioná-los é a tecnologia.

O que me impressiona é como essa tal tecnologia transforma o nosso mundo. Não só os prédios que brotam na Berrini, a Marginal parada, com um luminoso informando que são 180km de congestionamento às 18:30 de uma terça-feira, ou o espanto na cara das pessoas quando digo que não tenho nenhum telefone celular (agora a moda é ter 2). São também os nossos novos vícios de sempre receber mensagens, notícias, imagens, números. É o corpo da pessoa de escritório, deformado pelo sedentarismo, é a auto-afirmação das mulheres no barulho do salto alto. É a violência contra o próprio corpo que acorda antes do dia clarear e se deita moído. É o mito de que andar de bicicleta é perigoso, acampar não é mais pra minha idade, e que 'aproveitar a vida' só vai acontecer quando os filhos saírem de casa.

Sei que eu impressiono as pessoas por não usufruir dos últimos avanços da tecnologia e por não aparentar a idade que tenho. Demonstram sua admiração me chamando de 'crazy teacher'.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O pior banco do mundo

é o Santander. Não é só sua estrutura fragmentada que favorece a ocorrência de falhas e desencontros, mas é a incompetência dos funcionários que me atendem que faz com que eu eleja este e não outro banco como sendo o pior do mundo. Tenho bons motivos para tanto ódio.

Em 9 e 10 de janeiro a minha conta (corrente e poupança) foi limpada por um estelionatário. Imediatamente notifiquei o banco, que bloqueou o meu cartão. Passei um mês dependendo da boa vontade de uma tal de Gabriele Morales, a analista que estornaria o dinheiro que me tinha sido roubado. O dinheiro da conta corrente foi estornado, o da poupança foi ignorado por mais umas semanas. Assim que todo o montante desviado me foi devolvido, fechei a conta.

No dia 4 de fevereiro o gerente da minha conta universitária em Barão Geraldo me aconselhou a cancelar o cartão. Apertando os olhos, explicou que cancelar é diferente de bloquear, e cancelamos um cartão bloqueado antes de encerrar a conta. Perguntei sobre a fatura do cartão de crédito que viria me cobrando as coisas que o estelionatário (que pagou o IPVA do seu carro com o meu dinheiro) tinha comprado com o meu cartão. Apertou mais uma vez os olhos e amaciou a voz: Desconsidere, fique tranqüila.

Fim de março recebo uma ligação na casa da Olga. Senhora Lou, verificamos aqui que a sua conta foi manipulada por terceiros, e que o banco fez um estorno pra senhora. Acontece que o banco estornou um valor de R$ 6,00 a mais do que devia. Maravilha!! Já encerrei a conta faz um mês, como faço pra pagar por esse erro de cálculo de vocês? Aguarde contato.

Liguei no SAC do Santander e pedi orientação. A moça sugeriu que eu fosse em qualquer agência pra pedir que me gerem um boleto de R$ 6,00 que eu possa pagar no caixa. Fui na agência mais próxima e contei a minha triste e estranha história com o banco Santander pro gerente que, quando criança, atravessou uma porta de vidro (seu rosto era cheio de cicatrizes vetricais). O gerente do rosto marcado consultou-se com o seu superior, pediu o meu extrato, não conseguiu localizar nenhuma dívida ou diferença de R$6,-, tirou a calculadora da gaveta e mergulhou num silêncio profundo. Quando levantou os olhos dos seus cálculos, anunciou que o banco me devia mais de mil reais. Fui eu quem teve a sacada de verificar o saldo antes da clonagem do cartão e depois do estorno. Havia uma diferença de seis reais entre os valores. Aliviado, o moço pegou o gancho do telefone e ligou no SAC pra abrir uma manifestação e pedir orientação.

Percebi que, com o meu número de CPF, qualquer funcionário do Santander que trabalha em frente a um computador pode acessar a minha conta, ver as milhares de manifestações que tenho aberto nos últimos meses, mesmo depois de eu ter encerrado a conta. Mas nem todos podem fazer alguma coisa, especialmente quando não são do setor certo.

Mudei de casa e continuei ligando no SAC do banco, pra saber como pagar os malditos R$ 6,00 que estavam me cobrando por incompetência deles. De tanto ligar e ser passada para setores diferentes, acabei conversando com a Viviane Marcolino, a moça que tinha me achado na casa da Olga e tinha descoberto os R$ 6,00. Ela quis saber quem tinha sido responsável pelo estorno que saiu a maior. Repare que eu sabia disso, mas ela não. Você também sabe: Gabriele Morales. Expliquei que eu tinha ojeriza a esse nome, porque passei um mês caçando essa mulher. Ah, é? - disse, em tom divertido - um momento, que eu vou ver se consigo localizar a Gabriele. Levantou e circulou pela sala dela. Voltou dizendo que a Gabriele não trabalhava mais no Santander. Uau, que novidade. Bom, senhora Lou. A senhora não consta como inadimplente na conta corrente. Para cobrar esse valor de R$ 6,- da senhora, o banco teria que abrir uma nova conta pra senhora, mas como isso custa mais que o valor que foi estornado a maior, vamos simplesmente perdoar essa dívida. Ótimo. Mas a senhora tem uma dívida no cartão de crédito.

Como assim, eu tenho uma dívida no cartão de crédito? Senhora Lou, ligue no SAC e converse com um de nossos especialistas em cartões. Liguei e a moça disse que haviam sido feitas duas compras em 9 e 10 de janeiro, que tinham sido canceladas por terem sido feitas por terceiros, mas depois foram reacionadas, por não terem sido contestadas. A senhora não foi informada que precisa escrever uma carta contestando as compras que não reconhece? O seu gerente não a informou? Então a senhora vai mandar uma carta por fax, esclarecendo que não reconhece as compras. Sim, o cartão já tinha sido cancelado, mas como a senhora não contestou as compras, elas foram relançadas. Sim, foi uma falha do seu gerente e um erro do banco, mas esse é o procedimento.

Bom dia senhora Lou, sou do SAC Santander e estou ligando para avisar que a senhora está com um cartão de crédito em aberto e uma fatura com 18 dias de atraso. Querida, vamos fazer as contas. Quantos dias temos entre o dia 9 de janeiro e hoje, dia 12 de maio? Um pouco mais que 18, né? O fax que eu mandei já chegou? Sim, e está sendo processado.

Bom dia, senhora Lou, sou do SAC Santander e estou ligando para informar à senhora que a sua situação com o cartão de crédito já está regularizada. Vamos estornar o valor que a senhora não reconheceu. Estornar?? Pessoa, eu não quero o dinheiro de vocês, eu não tenho conta nesse banco, não tem pra onde você devolver nada. Eu quero que essa dívida seja anulada, cancelada, perdoada. Entendeu? Perfeitamente, senhora. Sua dívida foi cancelada. Cê fez isso agora, enquanto conversava comigo? Sim. Cê apertou um botão aí e resolveu os meus problemas? Exatamente. Posso ajudar em mais alguma coisa?

Oi, meu nome é Lou, e eu tô ligando só pra conferir se a minha situação foi regularizada. Sim, senhora Lou, o valor de R$ 257,52 foi estornado, o que gerou uma taxa de R$ 19,79, que a senhora precisa pagar. Mas eu não pedi pra estornar! Entendo, foi um erro, vou pedir pra cancelarem essa taxa de R$ 19,79, o que deve acontecer num prazo de cinco dias úteis. Meu, esse banco é muito confuso e incompetente! Eu cancelei o cartão em fevereiro e agora em abril e maio vem cobrança de uma fatura que o banco reconhece que não é minha, mas mesmo assim me cobra, depois essa dívida me é estornada - não sei pra onde, já que não tenho conta, o que gera uma cobrança de quase 20 reais! Alô? Alô? Viviane Amaral? Que puxa, tô falando sozinha. ODEEEEIO esse banco, só pro caso de a gravação dessa conversa ainda estar rolando.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Meio máquina




Me sinto meio máquina. Minhas pernas são o meu motor, o estômago o tanque, a cama a recarga de bateria. Já é a segunda semana em que pedalo até a Berrini todo dia (exceto sexta) de manhã. Ida e volta são 10km. Isso não é muito, mas duas vezes por semana dou aula de tarde/noite a 7km de casa. Nas outras duas noites (sexta continua fora) volto no mesmo prédio na Berrini pra dar aula, o que soma mais 10km. Por acordar às 5:30, tenho fome de almoço às 10:30. Como dou aula de noite nos dias em que dou aula de manhã, durmo de tarde. Acordo atordoada de tanta imagem que vi em sonho.

A cabeça não desliga nesses quatro dias de trabalho, o corpo não descansa, a língua que me habita não é português.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Show de graça

A informação veiculada no site oficial da banda era que haveria shows durante quase uma semana, às 20:00. A distribuição dos ingressos aconteceria meia hora antes do evento, mas para garantir a ordem na fila, era preciso pegar uma senha, que seria distribuída 2 horas antes do show.

Chego na Av. Paulista duas horas antes do show e na calçada eu vejo pessoas maquiadas de palhaço, manipulando materiais circenses, usando roupas coloridas. Esta é a fila pro show do Teatro Mágico. Perguntei para um grupo de pessoas se aquele era o fim da fila e eles disseram que era o começo, porque já estavam ali desde cedo. Descobri que a primeira pré-senha tinha sido distribuída pouco depois das 15:00 e que haveria 3 shows na mesma noite, mas a terceira pré-senha já tinha sido distribuída, o que diminuía pra quase zero as minhas chances de ver o show naquela noite. Um menino do grupo perguntou se eu estava sozinha, e logo ofereceu a pré-senha do amigo que estava esperando com eles desde às 6 da manhã, mas não poderia ver o show, porque ficava tarde pra ele. O tal amigo confirmou que teria que voltar pra casa e me deu a sua pré-senha. Surpresa, agradeci. Uma menina que estava na borda da roda fez uma cara de decepção e reclamou que estava esperando por esse ingressso a tarde toda. Sorri pra ela como quem pergunta: e aí, cê vem tirar esse papel da minha mão? O desconforto gerado foi grande, e a saída do grupo foi persuadir o cara a não ir pra casa, mas ficar pra ver o show. Devolvi o ingresso, mas não tenho certeza se ele ficou com o papel ou deu pra menina consternada. Fui embora achando que só adolescente mesmo pra achar que tanto sacrifício vale a pena.

Outro show de graça na minha programação tabajara era no Terraço Itália, às 21:00. Retirada dos ingressos gratuitos 1 hora antes para ver a apresentação do grupo de dança Cisne Negro. Gato escaldado, apareci na bilheteria às 19:00 e peguei o meu ingresso. Só tinha menos de 10 e a minha amiga, que chegou meia hora depois, ficou sem. Fomos no bar tomar um suco e botar a conversa em dia. Voltamos para o auditório, sacar a situação e ver se conseguíamos ingresso pra Sueli. Na frente da bilheteria havia muitas pessoas desanimadas, segurando uma senha na mão e uma moça histérica apontando pro cartaz: tá vendo essa daqui? Sou eu! Eu ensaiei o grupo, e vocês não vão me deixar entrar??? Enquanto isso, apareceu uma moça concentrada, distribuindo ingressos pras amigas. Sobrou um, que ela deu pro segurança, que olhou pra blusa vermelha da minha amiga e lhe estendeu o último ingresso. Como já não havia mais lugar marcado, pudemos sentar juntas e apreciar o espetáculo. Não sei se/como a coreógrafa conseguiu entrar.

Resumo da ópera: se for de graça, apareça bem antes do horário anunciado pra distribuição dos ingressos. Se for um lance adolescente, lembre-se que eles gostam de fila, se pá até dormem na fila pra depois se gabarem do sofrimento que foi a aventura de esperar pra ver sua banda preferida.

domingo, 10 de maio de 2009

Giz

No Centro Social Sal da Terra não tem mais quadro negro nem branco. Tem lousa e giz. Minha roupa, cheia de pegadas das minhas mãos engizadas, revela sobre a aula que dei. Às vezes eu volto pra casa com a marca da mão cheia na perna da calça, com a testa branca ou o cabelo polvilhado de giz que ficou dançando pelo ar.

Numa aula de alemão para os meus alunos pré-adolescentes, pedi que viessem à lousa e representassem através de um desenho na lousa o que estava escrito nos papelzinhos que eu lhes dava. A empolgação com a atividade foi tanta, que quase terminou em gerra de giz.

Na aula seguinte, quando chegaram, um reclamou para o outro que o risco de giz que o outro tinha feito na camiseta do primeiro não tinha saído. O menino que chegou atrasado na sala, passou pela caixinha de giz antes de sentar na cadeira. Reclamei: não, não pega giz, não, que senão eu fico sem, véio! Tá bom, véio - resmungou e devolveu o toco de giz. Durante essa aula, quando esse sujeito ficava desocupado, ele levantava, vinha até a lousa e desenhava qualquer objeto. Ficava triste quando eu apagava sua obra de arte, mas isso não o desencorajava a voltar para a lousa e traçar nela toda a sua criatividade.

Aula passada eu estava escrevendo os nomes dos meses na lousa e ninguém tava dando a mínima atenção pra mim enquanto eu escrevia os três últimos nomes em outra cor. Chamei a atenção deles para os meses e passei a falar das estações do ano, da neve, da festa da vida que é a primavera na Europa, das temperaturas máximas no verão, do tempo de claridade no inverno e verão. Eles me acompanhavam, mas estavam intrigados com uma coisa. Uma, super tímida, levantou o braço pra aliviar suas dúvidas numa pergunta: por que que Oktober, November e Dezember estão escritos em azul e o resto em branco, professora? Porque acabou o giz branco e eu continuei escrevendo com o primeiro giz que eu achei aqui na caixinha. Pronto! Resolvido o mistério, mas a situação precisava ser remediada. O desenhista voltou até a lousa, apagou os 3 meses em azul e rabiscou os mesmos nomes em giz branco. Agora sim, professora!

sábado, 9 de maio de 2009

Commuting


Commuting
: o trajeto diário entre casa e trabalho. Agora que passei uma semana pedalando entre casa e trabalho, sei onde estão as ladeiras, as contramãos malditas de 1 quadra, a feira, a ciclista-barbie que sobe ladeira com os ombros porque não tem força nas pernas; e já conheço os tempos dos faróis. Experimentei caminhos diferentes pra evitar favelas, subidonas e voltas desnecessárias. Criei um mapa mental a partir do mapa no papel e dos caminhos que percorri.

Agora que a Amarilda virou instrumento de trabalho mais eficiente que os modais "pé 2" ou ônibus, perdi o pé atrás de pedalar pelas ruas de São Paulo em horários escuros. Perdi também o medo de ter a bike roubada porque ela chama atenção. Eu tinha receio de pedalar os 7km de noite até o Campo Grande, mas experimentei ir de ônibus e achei péssimo: tenho que andar até o ponto de ônibus na Santo Amaro, esperar pelo Guacuri, entrar num ônibus lotado fedendo a cansaço, e subir a ladeira até o lugar onde dou aula. Todo esse processo demora mais de uma hora. De bicicleta são 26 minutos. Tá certo que chego descabelada e arfante, mas as secretárias têm um bom motivo pra dar risada.

Não entro em perrengues com motoristas de carros aqui em São Paulo. Não sou fechada, como era em Campinas, e quando tiram fina de mim, tenho a sensação de que eles sabem muito bem calcular as dimensões do espaço disponível. Em Campinas, eu às vezes tinha a impressão que eu era invisível para os motoristas de carro, que além de não darem seta nunca, me fechavam na maior. Outras vezes me parecia que eles tinham um ódio inexplicável de ciclistas. É assim que explico as buzinadas que eu tomava e os gritos que eu ouvia. Aqui em São Paulo o esquema é de extremos: ou eu pedalo quando tem muito pouco carro na rua, ou quando tem tanto, que todos estão praticamente parados.

Contudo, tenho umas desavenças ocasionais com motoristas de ônibus. Em Campinas, eu me sentia mais vista e respeitada pelos motoristas de ônibus que aqui. Não sei se é porque eu morava perto do terminal e pedalava constantemente entre Campinas e Barão ou se era outra coisa. Mas o fato é que aqui eu vejo como o motorista se transforma em monstro conforme nos aproximamos do ponto de ônibus. Ele não lembra que tem um pedal que serve pra frear enquanto não tiver me ultrapassado. Me passa em alta velocidade (o vento do ônibus que passa perto demais sempre me assusta) e rasga uma diagonal em direção ao ponto, pra então frear abruptamente.

Mas também há exceções. Um motorista de ônibus emparelhou comigo no farol (eu estava no corredor) no alto da ladeira e se solidarizou com a minha falta de ar. Pra me consolar, lembrou das calorias que eu estou queimando e da academia que estou economizando. Depois ainda buzinou, acenou e deu sinal, alegrando o trânsito.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Com o passado aqui presente

Primeiro foi o Paulo Punk, que reconheci no meio da multidão da Virada Cultural. O Paulo contou estórias do Rodrigo, nosso colega de faculdade, que tinha se embrenhado na Paraíba e foi afrouxando o contato comigo conforme se apaixonava por outras mulheres. Depois de algumas frustrações amorosas do moço que já tinha um sotaque pertubadoramente misturado, Rodrigo e Paulo montaram um restaurante vegano em São Paulo - e o fecharam um ano depois, concluindo que esse negócio dá trabalho e paga mal.

Depois do e-mail do Rodrigo veio um da Chris, em forma de convite de casamento. A atendente de caixa vai casar com o açougueiro, eu teria dito alguns anos atrás, mas acho que os dois trabalharam tanto tempo naquele supermercado, que já devem ter cargos altos. A Chris era mais velha que nós três, quando éramos adolescentes e detestávamos aula de química e os professores de matemática e física. Ela tinha carro e nossas mães confiavam que ela nos trouxesse pra casa cedo, não muito bêbadas.

Depois de feito o convite de casamento, a Chris me botou em contato com a Selma, que era da minha classe. A Selma me achou pelo Skype. Não reconheci a voz dela como sendo dela, mas como sendo da mãe dela: estridente. Através da câmera dela, vi uma Selma 14 anos mais velha, casada e mãe de 3 que mora na Índia e está resignada (a fase da raiva já passou). Quando terminou a graduação em Economia, não pensava que acompanharia um marido aos países em que a matéria-prima e mão-de-obra envolvidas no setor automobilístico são mais baratos, que seria mãe de tantos, que seria dona de casa que coordena empregados (plural, hein!).

Enquanto eu conversava com a Selma sobre a Kathia, nossa quarta mosqueteira e o centro de nossas atenções, eu baixava um filme indicado pelo meu irmão. Trata-se de Krabat, um livro que virou filme. Ainda tenho o livro, que passeou na família e foi resgatado pela minha mãe do ostracismo a que tinha sido condenado pela minha prima. Lembro que reli Krabat no alto da minha beliche em Barão Geraldo, relembrando a estória e a história do livro. Quem tinha me dado o livro foi o Werner, que eu voltei a ver depois de muitos anos sem contato. Werner foi a minha primeira visita extra-familiar depois que quebrei o pé. Melhor parar por aqui mesmo e deixar esse novelo enroladinho, porque eu não pretendia puxar esses fios todos e acabar escrevendo uma novela.
Todas essas reminiscências são minhas, particulares e difíceis de compartilhar, mas se quiserem ver o filme, procurem no mininova.org, que deve ter com legendas em alguma língua menos estranha que alemão.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Voltinha no quarto


Bom, como a filmadora da minha câmera ainda sabe lidar com luz, filmei uma volta no meu quarto novo na casa dos 7 gatos.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Virada cultural

24 horas de atividades culturais gratuitas espalhadas pela capital. A virada começou às 18:00 do sábado, virou a noite e terminou às 18:00 do domingo. A programação era extensa demais e eu não conhecia quase nada do que tava no cardápio. Resolvi chamar os amigos e ver o que eles escolhiam.

Mas me atrasei pra ver o mesmo show que Telmo e Milena tinham planejado ver no Teatro Municipal, porque demorei pra fazer a mudança - e não tinha noção das filas. Encontrei a Maíra e o Bill e acabei conhecendo o som de Sandália de Prata. Me levaram pra ver Benito de Paula e demos boas risadas do homem que parecia não se lembrar das letras das próprias músicas, sentava no piano e tocava uma nota, ouvia até ela se acabar e tocava outra. De lá fomos ver Geraldo Azevedo, que me fez ter saudades - das boas - do Ruy. Quando tocou Taxi Lunar, me liguei que eu conhecia uma música do pernambucano sossegado.

Dia seguinte, voltei pra ver um maranhense cantar e lembrar por que chamam o Sales de Zeca Baleiro. Mesmo sem ter combinado nada com a Maíra, encontrei a moça no fim do show. Eis que, enquanto contemplamos a multidão que passa, desfila à minha frente um sujeito que parecia não ter mudado nada em 10 anos. Corri até o Paulo Punk e dei um puta abraço no moço. Ficamos rindo de alegria por um bom tempo, antes que os nossos nomes fossem pronunciados. Me espantei que ele continuava igualzinho, ao que ele explicou que tinha emagrecido 16kg nos últimos meses e cortado os rastas. Puxa vida.

Além da parte em que se bota as notícias em dia, é como se eu tivesse visto o Paulo semana passada. É como se a amizade tivesse sido suspensa por 10 anos e agora voltasse a engrenar na mesma boa e velha roda dentada. Que continue girando depois da Virada!

domingo, 3 de maio de 2009

Casa nova

Há diferentes estratégias para se procurar um quarto numa casa/pensão/edícula. A que eu tentei primeiro foi pela internet. Existe uma comunidade chamada easyquarto que troca informações sobre moradia. Na primeira semana recebi várias ofertas e entrei em contato com muita gente. Na segunda semana a coisa foi definhando. Na terceira semana resolvi levantar a bunda da cadeira giratória e dar um giro pelas casas que alugavam quarto/vaga.

Quase fui morar em Santo Amaro, num quarto escuro e pequeno, dividindo a casa com outras moças e um poodle. Não topei de cara porque detesto cachorro. O defeito que a Olga, muito mais esperta que eu, viu ali foi a localização: a 4 quadras do Largo 13. Bom, tenho 14 anos de Largo 13 nas costas, mas eu não pedalava por ali, é bom lembrar.

Outra estratégia pra procurar moradia é comprando o jornal chamado Banco Imobiliário. Custa R$ 1,50 e tem em todas as bancas. Tem uma seção de 'repúblicas e comunidades', que é o que me interessava. Liguei prum senhor surdo e com início de demência que me deu o endereço e pediu pra eu ligar antes de apaprecer lá. No dia seguinte liguei, e ele disse no telefone que não alugava pra moças, só pra homem. Nem me deu tempo de explicar que eu tinha conversado com ele na noite anterior. Como eu já tava ligada na fraqueza do cara, fui lá. Afinal de contas, ele tava em casa. Era uma vitrine de alfaiate e imagino que os quartos ficassem nos fundos. Ele era todo miúdo, barba por fazer, cheiro de incontinência e ar cansado. Disse que era pra eu voltar de tarde, porque tava quase fechando com um moço.

Quando comprei o jornal na outra semana, o anúncio dele continuava lá. O engraçado desse jornal é que as pessoas que oferecem quarto em suas casas querem ver comprovante de renda, carta de recomendação e documentação de seus inquilinos. Muitos anunciam que só aceitam moças de fino trato, de respeito e responsáveis. Vai saber o que querem...

A estratégia mais eficiente - conforme aprendi - é andar no bairro e conversar com o guarda, jornaleiro, jardineiro e faxineira. Se pá o guarda (jornaleiro, jardineiro, faxineira etc.) recebe uma caixinha pra encaminhar pessoas que perguntam. Foi assim que Olga e eu deixamos o telefone com o guarda e recebemos ligação do italiano na manhã seguinte. Fomos as duas na casa mais antiga do bairro, pra ver o que ele tinha pra oferecer. Um senhor baixinho, de mais de 65 anos, sem camisa e com um cachimbo na boca abriu a porta todo serelepe. Fui cheirada por seus 3 cachorros e quase caí pra trás quando vi o quartinho: todo em cimento cru, teto baixo, sem nada além das paredes. Nos deu um saco cheio de maracujá e ficou na torcida pra eu voltar no dia seguinte. Mas 3 cachorros e um italiano facista é demais pra mim.

Saindo da casa dele, andamos duas quadras e paramos na esquina, pra conversar com o guarda. Peraí, que tem a mulher que mora sozinha aqui. Simpatizei com tudo logo de cara: a casa é grande, a dona é gente boa, o quarto é na casa e não preciso arranjar geladeira, fogão, telefone celular e essas coisas. E tem gato. São sete. A casa dos 7 gatos. Ainda não vi todos, porque eles ficam na casa e a Monica tem mó medo que eles saiam. Isso gera uma certa nóia com portas e janelas, mas dá pra encarar. Olhando pra fora de uma janela do meu quarto, vejo tudo verde. O pé de nêsperas (Ameschen no Rio Grande do Sul) está em flor, as castanhas (Kastanien) são bolas de espinhos verdes, o pé de manga está com algumas folhas avermelhadas (é outono aqui) e as outras árvores eu não sei nomear. Pena que a minha máquina fotográfica se cansou de fazer seu trabalho... Aí eu podia mostrar um pouquinho da minha felicidade.

Filatelistas escondidos

Eu não vou levar os meus dois álbuns de selos pra Rondônia. A coleção foi iniciada em meados dos anos 80 e parou quando os álbuns ficaram cheios. Desde que mudei pra Campinas não recortei mais nenhum envelope, não fervi mais água pra tirar a cola do selo, não usei mais a pinça pra manusear papel e não sento mais na mesa com duas bacias de água (uma quente e outra fria).

Levei a minha coleção pra ser avaliada, e a mulher me disse que os álbuns, alemães, valiam mais que os selos. Não havia raridades ou selos caros perdidos no meio dos selos comuns e não tinha coleções completas nem selos comemorativos. Ofereci os selos e álbuns pra avaliadora por metade do valor que ela tinha cantado, mas ela não quis comprar a minha 'coleção de criança'. Fui em outros clubes de filatelia e me ofereceram tão pouco, que me senti diminuída. Perguntei pras pessoas se não conheciam filatelistas iniciantes que poderiam ser agraciados pelos meus quase 3 mil selos.

Ofereci os selos e álbuns no freecycle, e na mesma noite quase 20 pessoas reagiram ao meu anúncio com muitos verbos modais, adjetivos no superlativo e sentenças em tom implorativo. Não foi fácil escolher uma pessoa, porque as estórias eram muito variadas: minha filha está começando a colecionar; meu sobrinho precisa de um incentivo; eu estou no nível em que as pessoas compram catálogos; sou colecionador há anos; ganhei selos japoneses do meu avô etc, etc, etc. Escolhi um cara de nome diferente.

Como o freecycle funciona com moderador, o e-mail que eu mandei pra lista avisando que eu já tinha escolhido alguém só chegou depois que mais 9 pessoas me escreveram cartas de recomendação. Ahá, aqui estão os filatelistas!!! Foi uma surpresa ver tanta gente querendo os meus selos.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Armadura de ciclista

Seguindo a dica do Willian Cruz, do Vá de bike, passei uns dias lendo todas as tiras de Yehuda Moon: bicycle comics. Recomendo que se leia do início aos dias atuais, porque muitas tiras são parte de uma estória mais longa - e militante.
Vou usar algumas tiras aqui, porque me identifiquei com elas. Como eram pequenas, resolvi transcrever o texto. Pra facilitar, traduzi tudo direto.

- Você devia pensar em usar roupas cor de laranja, porque é a cor que os motoristas identificam mais facilmente.
- É pra sua segurança.
- Onde é que eu tava com a cabeça quando vesti roupas verdes de manhã, Fizz?
- A gente tem que usar roupas cor de laranja todo dia?

- Eu quero começar a pedalar para o trabalho, e preciso de umas roupas de ciclista.
- Qual é a distância até o teu trabalho?
- 4,8 quilômetros.
- Aposto que você pode ir com as suas roupas normais de trabalho. Só amarra esse velcro na barra da tua calça.
- Só isso?
- Você quer pedalar fantasiado ou pedalar para o trabalho?

- Uau, você me assustou!
- [grunhido]
- Cê tá treinando? Te vi andando pra cima e pra baixo na praça e- ... okay.
- Não permita que eu te segure! Você vai recuperar esses segundos perdidos, força aí!
- Eu não ia querer que você se atrasasse pro seu encontro de super heróis! Por que é que eu faço isso...
- Joe? Hey, Joe! Quê que cê tá fazendo aí, pedalando?
- Quem é você?
- Joe, sou eu, Reginaldo - ah, desculpa, peraí.
- Hey, cara. Não te reconheci.
- Tudo bem. Te vejo por aí.
- Rapaz, a vida é dura.
- Menininha, cadê o seu capacete?
- Mulherona, cadê sua bicicleta?

- Ei, cadê seu capacete?
- Eu tô usando ele - é um capacete mágico. Ele é invisível.
- Eu também quero um capacete mágico.
- Então. Precisamos de capacetes ou não? Tá na lei que precisa?
- Não aqui. Você decide se quer usar capacete.
- Capacetes são indicados quando você pedala em situações extremas ou arriscadas. Tipo competições ou manobras radicais. Agora: fazer compras é uma situação extrema ou arriscada?
- Se você me perguntar, eu acho que sempre que tiver carro na parada, você deve usar capacete. Por que não tentar eliminar o risco?
- Hm.
- O que há de errado com você?
- É um problema dos carros, Joe. Por que forçar os ciclistas a remediarem a situação com um chapéu de isopor?
- Posso pedalar pra escola, mãe, posso?
- Não, querido.
- Tem muitos carros na rua, não é seguro.
- Aaaaaaaaaaah...
- A maioria dos motoristas dirigindo nessa hora do dia são pais levando seus filhos pra escola...
- E daí?
- Pois então.

Esses quadrinhos todos mostram como usar a bicicleta pode ser uma coisa simples. O ciclista não precisa necessariamente se armar (usando roupas claras, capacete, cotoveleira, caneleira e o caramba) para pedalar, se os motoristas souberem compartilhar a via com veículos mais lentos e menos espaçosos.
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Quando eu morava em Barão Geraldo, onde as ruas são tranqüilas e é normal que as pessoas pedalem por aí, me envolvi em 4 acidentes de bicicleta. Daqueles de eu cair no chão mesmo. Três envolveram carros, um envolveu dois pedestres. Um (carro) fui eu que provoquei, admito; outro (pedestre) teve como causa a falta de manutenção da bicicleta (mas se os pedestres não estivessem caminhando pela ciclovia, eu não teria atropelado um deles). Sobram dois acidentes com carro por culpa do motorista. Na primeira colisão, a motorista não me viu. Foi fazer a curva e não reparou que havia uma pessoa numa bicicleta à frente - do lado - que barulho foi isso? - no chão. Na segunda colisão, o motorista era um cinqüentão que tinha recém-tirado carta. Me viu, mas não soube reagir em tempo: imperícia. Depois do primeiro acidente entrei prum grupo de ciclistas e passei a usar o capacete regularmente - para ser vista no trânsito.
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Depois de um ano de Holanda, não uso mais capacete. Tá bom, quando pego a estrada ou pedalo com gente que usa capacete, eu ponho o meu na cabeça. De resto, deixo ele lá, num canto escuro, juntando pó. Não é porque amassa o cabelo, estraga o penteado ou coisa do gênero. É porque eu confio que sou vista pelos motoristas e respeitada por eles. Na Holanda, três categorias de pessoas usam capacete: speedeiros, crianças e turistas. O trânsito em geral é mais calmo (lento e atento) lá. As ciclovias não são garantia de ausência de acidentes, pelo contrário: vi três acidentes de carro com bicicleta em um ano em Nijmegen. Todos em cruzamentos da via com a ciclovia.
Em suma, eu sou a favor da educação para o trânsito. Tanto de motoristas como de ciclistas.