sexta-feira, 12 de junho de 2009

Floco de neve


Terminei de ler Neve (Kar, no original) do Orhan Pamuk e não acho que este livro tenha merecido o prêmio Nobel de Literatura 2006. Não estou achando que outro autor merecesse o prêmio em seu lugar, só considero que My Name is Red (2000), publicado 2 anos antes pelo mesmo autor, seja muito mais interessante e genial que Neve. Mas naquela constelação em que precisavam de um receptor do Prêmio Nobel, escolheram Kar, um livro cuja estória se passa em Kars e cujo personagem principal se chama Ka. Talvez em 2006 a academia sueca tenha preferido dar relevo às questões políticas levantadas pelo autor em seu livro de 2002 sobre as relações entre oriente e ocidente e os turcos que buscaram asilo político na Alemanha. Talvez não tenham lido Meu nome é vermelho com o mesmo entusiasmo cromático que eu.

Há alguns traços comuns que conduzem o leitor de um livro de Pamuk a lembranças de outro livro do mesmo autor. A questão da identidade, do ponto de vista, o jogo de narradores e os detalhes coloridos de culturas peculiares são temas e estratégias recorrentes em Pamuk.

Quando comentei com o Muntasir, um amigo de Bangladesh, que eu tinha lido alguns livros do Salman Rushdie, ele fez um sermão sobre a boa literatura e os impostores. Imediatamente fiz um paralelo mental entre o Paulo Coelho, que é um impostor mas um best-seller dentro e fora do Brasil e o Salman Rushdie, que se tornou famoso fora da Índia, mas ainda não tinha provado o seu valor retórico para os indianos, paquistaneses e bangladeshis. Pelo que pude perceber da aula de literatura do Muntasir, Salman Rushdie jogou uma sombra sobre os bons escritores indianos, porque o que lhe dava visibilidade era o contexto polêmico que o envolvia, não seus textos. Recentemente li Os Versos Satânicos, que tinham lhe rendido tanta atenção, e tive que concordar com o meu amigo.

Na minha humilde opinião, considero Os Versos Satânicos (de 1988) um ensaio para os outros livros que li do Salman Rushdie. Lendo este livro, reconheci metáforas, situações, idéias e padrões que são lapidados em livros posteriores. É quase como se as idéias e intenções de Versos Satânicos tivessem se espatifado no chão e o autor tivesse usado super bonder, esparadrapo, band-aid, lama e maizena engrossada pra juntar os cacos. Tenho a impressão de que, com o passar dos anos, o autor tenha desfeito aquele monstrengo, limpando e esmerando cada pecinha pra escrever livros mais simples e focados. Em The ground beneath her feet (1999) reconheço a estória de amor entre Farishta e a alpinista dos pés chatos. Em Fury (2001) reconheço o bode crescendo no sótão. Em Shalimar, o equilibrista (2005) reconheço os conflitos entre ocidente e oriente, bem e mal, amor e vingança esboçados nos Versos Satânicos. Shalimar, no entanto, merece o meu reconhecimento e os meus aplausos. Preciso recomendá-lo pro Muntasir.

Umberto Eco descobriu a fórmula mágica da estrutura narrativa, calibrando momentos de tensão e relaxamento no Nome da Rosa e a aplicou com mais - e depois menos - sucesso no Pêndulo de Foucault, A Ilha do dia Anterior, Baudolino e A misteriosa chama da rainha Loana (nesta ordem). Paulo Coelho sempre, desde O Alquimista, equilibra os mesmos ingredientes de magia e religiosidade. Harry Potter foi um sucesso porque o personagem era cativante e permanecia sempre o mesmo. Daniel Galera escreveu um livro ruim (o último, Cordilheira) quando foi encarnar uma mulher. Os outros (Mãos de Cavalo, 2006 e Até o dia em que o cão morreu, 2003) são fascinantes (nesta ordem).

Cada livro é único e podemos gostar mais ou menos deste ou daquele em relação a outros livros do mesmo autor. Mas carregam a marca do autor, seja na estrutura narrativa, no gênero literário, nas características dos personagens ou na ambientação dos cenários. São como flocos de neve: todos têm o mesmo esqueleto de seis pontas, mas como as condições em que foram gerados são particulares, apresentam formações diferentes.

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