sexta-feira, 3 de julho de 2009

Illustrated people

Fulano queria ter um peixe. Um peixe gordo, de escamas coloridas, olhos grandes e barbatanas elegantes. Um peixe que sempre fosse igualmente belo, que não envelhecesse - mesmo que seu dono avançasse na idade. Queria um peixe que o acompanhasse sempre, que pudesse levar pra onde fosse.

Sicrana queria fazer parte de uma tribo. Queria se sentir parte de um grupo de pessoas que tinham passado pela mesma dor e alegria. Queria ter um segredo que pudesse mostrar a pessoas escolhidas. Já sabia que seu segredo teria a forma de um dragão chinês, porque gostava dessa idéia do dragão sintetizar vários animais: cobra, tigre, veado, boi, águia e peixe num animal só.

Sicrano queria fazer uma homenagem à sua amada. Queria eternizar seu belo rosto, queria marcar os traços de sua beleza no próprio corpo, queria poder olhar pras suas feições mesmo que ela não fosse mais sua companheira. Precisava garantir sua eterna presença.

Beltrana sempre gostou de se enfeitar. Quando prendia flores atrás da orelha, chamavam-na de hippie, mas ela nem se importava. Ela não representava nenhum grupo, apenas gostava de flores. Cultivava orquídeas com muita dedicação, mas ficava apreensiva quando deixavam de florar num ano ou morriam noutro. Queria se enfeitar com flores inventadas, possíveis só na imaginação.

Fulana conheceu Beltrano, que trabalhava num estúdio. Pintava corpos. Ela tinha ciúmes dele quando as mulheres tiravam a roupa na frente dele. Sentia um certo prazer quando via como elas sentiam a dor da picada, a pele queimando, o sangue saindo. Os ciúmes voltavam quando as mulheres saíam do estúdio felizes com suas novas tatuagens de beija-flores, borboletas, tartarugas, fênix e flores.

Fulano sentiu a pele queimando. Coçou o braço, sentiu mais dor ainda e levantou a blusa para inspecionar a pele colorida. A carpa tatuada no braço ardia mais vermelha que a cor normal dela. Colocou o braço debaixo da torneira e deixou a água gelada aplacar a dor. Teve a breve impressão de ver o peixe se mexendo. Deve ter sido um tique, uma reação da pele à água fria.

Sicrana sentiu uma queimação porreta das costas. Era como se seu dragão cuspisse fogo de verdade. Correu pro banheiro, tirou a blusa, pegou um espelho na mão e se posicionou de costas para o espelho da pia. O dragão estava lá, mas alguma coisa estava diferente. As unhas dele tinham sido sempre desse tamanho?

Sicrano tinha passado o dia inteiro tentando alcançar a omoplata. A coceira ali era muito forte e não tinha motivo evidente. Tinha vergonha de pedir para seus colegas de escritório coçarem suas costas. Quando chegou em casa, foi correndo para o banheiro. Queria ver o que causava aquela queimação. Viu sua namorada parada de costas pro espelho, estudando a sua tatuagem através do espelho que segurava na mão.

Beltrana pegou o telefone e ligou para o irmão. Estava desesperada. A flor que ele tinha tatuado em seu ombro tinha migrado para a nuca. Flores não queimam, não andam, não passeiam por aí. Beltrano ficou preocupado com o beija-flor e o provável encontro das duas tatuagens na pele da irmã. Acho que vai doer quando o beija-flor quiser beber o néctar da flor.

Fulana abriu a porta do estúdio para seu ex-marido. Tinha engordado, ficado careca e parecia não escolher as roupas que vestia. Nem conversaram sobre os velhos tempos, nem falaram da vida ou do tempo. Ele estava visivelmente transtornado. Tinha um peixe nadando na superfície de sua pele. A sensação do peixe se movimentando não era ruim, mas aquilo não era normal. Não sabia o que fazer, mas como desconfiava que a tinta da tatuagem estava provocando essas mudanças no seu peixe, tinha voltado ao estúdio onde tinha feito a tatuagem.

Beltrano não sabia mais o que fazer. Todos os seus clientes tinham vindo para o estúdio com teorias esquisitas, hipóteses estapafúrdias, desconfianças infundadas e uma clara necessidade de orientação. Não cabia mais gente naquele lugar. Muitos estavam com suas tatuagens expostas, observando o comportamento das figuras.

A moça tentava acariciar a carpa, o dragão perseguia o beija-flor, o tigre tentava abocanhar o unicórnio, o índio apontava a Winchester para o pirata. Tatuagens pertencentes a corpos diferentes tentavam interagir. Como o estúdio foi ficando pequeno, algumas pessoas não conseguiram evitar o contato com a pele do outro. As figuras puderam se tocar e então começaram a deixar a superfície da pele.
Não doeu quando as figuras deixaram a pele de seus hospedeiros e ganharam um corpo próprio. Também não foi um momento mágico. Simplesmente aconteceu.

E foi assim que o mundo voltou a ser habitado por animais extintos há décadas, flores que nem tinham chegado a existir, seres estranhos, portadores de cores incríveis e pessoas que tinham memórias de um tempo esquecido.

Inspirado em The Illustrated Man, de Ray Bradbury.

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