sábado, 4 de julho de 2009

Debaixo do viaduto

Aê!

Ôu, você vai ficá aí? Sei, mas aí não é legal de ficá, porque o barui dos carro passando zum, zum, zum, bota a gente louco. Vem mais pra cá, aqui na grama não é tão frio, e tô vendo que cê tem aí uns papelão. Móia, mas eu te dou um prástico e cê põe por debaixo, que fica jóia. Isso, vem aqui que aí naonde que cê tava é muito ruim. Pronto, isso.

É, esse frio tá pegano. Té parece que as fôia que o vento traz tão zangada. Sei lá, parece que o vento morde a nossa cara. Eu moro ali, ó, tá vendo a minha casa ali? Mora eu mais o Barata. Ma ele só vorta mai tarde. Ah, nem me apresentei, né. Eu sou o Mosca.

Então. Tá morano na rua fai muito tempo? Faz não, né. É, foi o que eu pensei.
Sei.
Tá.
Certo.
Hum.

Mai num tem como cê vortá pra sua famíia? Tem não, né. É bom ocê não ficar muito sozinho, não, porque quem fica só logo fica doido. Não bate mais bem das idéia, conversa com poste, tem medo de banco de praça, xinga as pessoa à toa. Aí a pessoa perde a opinião. Eu e o Barata tamo sempre junto, ele é a minha famíia. Pensa que é fácil sê aleijado e morador de rua? Né fácil, não, mermão.

Tá frio, né. Toma isso aqui, dá uns golão que cê fica bão. Cê num bebe? Véio, isso aqui vai fazê ocê esquecê o frio. Tá bom, não qué, não vô forçá. Qué cumê? Achei uns pão no lixo do ponto de ôinbu pert da padaria. As pessoa joga cada coisa fora, que cê ainda vai vê que não precisa de dinheiro pra vivê. Vai catando aqui e ali. Tó.

Sei lá o que que é isso. Pode sê que é isso daí que cê tá falano. É bom, pode comê. Cê é o quê? Vegeta o quê? Vegetário. Vegetariano? Qui é isso, meu fio? Num cóme carne? Mas por quê? Eu heim! Aqui nóis come o que tem, num tem essas frescura, não.

Ôu, cê tem um cigarro aí pra nóis? Ôh, papito, que maravilha. Fumá bituca é meio ruim, que acaba logo. Oba, o maço inteiro? Toma dois aí pcê, procê num ficá sem. Ó, vô dexá ocê durmi. Se precisá quarqué coisa, é só chamá. Me alcança a muleta fazendo favor? Valeu. Boa noite aê.

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