quarta-feira, 15 de julho de 2009

Uma esmola, pelo amor de Deus

Boa tarde senhores passageiros e senhoras passageiras.

Por favor não me ignorem aqui, pedindo esmola. Eu venho aqui, pedir esmola, porque eu não tenho emprego. Agora já tenho mais de sessenta e quatro anos de idade e não paguei um tostão pra previdência. Trabalhei muito nessa vida. Trabalhei vinte e seis anos na roça lá na minha terra. Trabalhei na roça lá no Ceará, na minha cidade chamada Aurora e nunca contribuí, porque não era registrado. Aqui eu trabalhei bastante também, mas como não era registrado, não tenho fundo de garatia nem nada que o trabalhador brasileiro tem por direito.

Por isso eu peço esmola. Essa minha vida é muito sofrida e eu sou um excluído. No fim da minha vida eu estou nessa miséria, dependendo da ajuda dos outros pra sobreviver, tendo criança e esposa que dependem de mim. Niguém me dá mais emprego, porque eu sou muito velho, pobre e feio.

Tenho sete filhos e a velha pra alimentar, e em dia que eu não peço esmola, não tem comida pra minha velha cozinhar. Vocês não sabem como é duro ver criança chorar de fome, não ter dinheiro pra comprar pão de manhã ou a qualquer hora do dia. Pelo amor de Deus, minha gente, qualquer moeda já me ajuda a comprar um quilo de feijão, um quilo de arroz. O alimento é coisa sagrada, minha gente.

Não é vergonhoso pedir esmola, não. Vergonhoso é ficar encostado e ver as crianças chorando de fome, deixar a mulher ir embora e enlouquecer de tristeza. Então pedir ajuda pra vocês todo dia foi a solução que eu encontrei pra alimentar a minha família. O que não for fazer falta pra vocês, senhores passageiros, vai manter a minha família por esse dia de hoje. Muito obrigado, que Deus lhe abençoe.

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