quarta-feira, 1 de julho de 2009

Acidentes

Eu era criança, mas já morava em São Paulo. Conversava com alguém adulto, quando ouvimos o som estridente de pneus queimando no asfalto, deixando o rastro de uma freiada não-programada. O adulto parou de falar, levantou o queixo, virou a cabeça de lado e levantou o dedo indicador.
- Não bateu.
Fiquei escandalizada.
- Até parece que você ouve essa combinação de sons todo dia. Freiada brusca depois a pancada.
- Todo dia, não, mas com muito mais freqüência do que eu gostaria de ouvir.

Enquanto residente nessa cidade, já vi muitos mortos em acidentes. Na maioria, eram motociclistas e estavam prostrados na lateral da via. Vi também muitos acidentes acontecendo. O mais impressionante foi o atropelamento de um pedestre por um ônibus na frente do ponto de ônibus. Ainda ouço os gritos do filho do atropelado. Os outros acidentes envolvem carros e são bastante parecidos. O som da freiada, da colisão, da porta abrindo são semelhantes. A expressão de surpresa, os gestos largos que acusam e a paralisia dos acusados se repetem. Muda a velocidade dos veículos e portanto o nível do estrago.

Hoje de manhã, na Av. Espraiada, ouvi freiadas, colisão de plásticos e metais, quebra de vidro, outra freiada e outro choque de veículos, metais batendo no asfalto. Senti o cheiro da borracha queimada, vi a fumaça saindo do chão, pedaços de carro se estatelando no chão. Passei pelos dois carros batidos e vi a cabeça do motociclista levantando e voltando-se pra trás, pra ver de onde tinha vindo o golpe. Ele estava no meio da segunda pista (da esquerda pra direita, num total de 5), na horizontal. Senti gosto de ferro, meu equilíbrio perigou por uns instantes, vi flashes da minha bicicleta no chão também. Não achei fácil continuar pedalando naquela avenida depois de presenciar um acidente a 5 metros de mim, ouvindo um imbecil buzinando intermitentemente por uma longa quadra. A fragilidade de quem transita sobre duas rodas se fez muito evidente naquela avenida.