terça-feira, 7 de julho de 2009

Altos e baixos

Entro no elevador e aperto o T. Enquanto sou transportada pra cima, abaixo a barra da calça. Caminho até a recepção e recito o meu número de RG pra recepcionista que não me olha na cara. Jura? diz. Percebo então que não é comigo, que ela está super conversandinho com alguém pelo telefone enquanto digita o meu número de RG no sistema e me dá um crachá.

Sou a primeira a chegar, e como o meu crachá de visitante não tem poder nenhum sobre a porta de entrada, fico esperando do lado de fora. Um funcionário da limpeza abre a porta pra mim. Meu aluno de inglês pré-intermediário não reconhece as palavras 'human', 'danger', 'body' e nunca ouviu a palavra 'shit'.

As pessoas no elevador se deixam intrigar pelo meu alforje aberto. Os executivos saem do elevador puxando suas mochilas sobre rodinhas atrás de si. Mochilas semivazias e menores que o meu alforje - sobre rodinhas.

Tomo um chá de cadeira e fico feliz ao ver os meus alunos sobrecarregados e estressados. Teacher, a sua aula é a melhor parte do meu dia, porque não tenho que apagar nenhum incêndio. Começa a aula. Toca o celular de um, ele atende. O outro fuzila o colega com um olhar reprovador. Toca o celular deste e pronto, estão os dois palestrando pelo telefone.

Entro no elevador e observo a mulher que entra comigo. Vai direto ao espelho e examina os poros do rosto até chegarmos no térreo. Não se sente incomodada com a minha presença. Vou até a recepção e a moça me pede um minutinho. Me estende o crachá, dizendo prontinho. Cê decorou o meu número de RG? pergunto, estupefata. Não, mas seu nome.

A porta do elevador abre e dentro tem um monte de gente. Dou um passo pra trás e faço cara de eu, hein? Pego o elevador seguinte e vejo escrito na placa que o elevador tem capacidade para 24 pessoas. Cruz credo! Eu deixei de entrar no elevador que tinha 5 pessoas, achando que era muita gente.

A professora de português para os coreanos se junta a mim na espera pelos alunos da manhã. Me conta que a escola está introduzindo um sistema de pontos, que faz parte de um programa de carreira profissional. Se um aluno, por exemplo, ligar espontaneamente na escola e disser que você é uma professora excelente e extraordinária, você ganha 200 pontos. Se você não conseguir cumprir o cronograma de aulas, você perde 100 pontos. No final do mês, o professor que tiver mais pontos terá a sua foto exposta na escola com o subtítulo de melhor funcionário do mês. Lembro que já fui despedida de uma escola que quis me tratar como se eu fosse funcionária de Mc Donald's.

Vou beber água e vejo que removeram o bebedouro. Professores mais antigos me disseram que antes havia máquina de café, que agora não tem mais.

Entro num elevador que está subindo e tenho inícios de náuseas nas paradas entre o 9, 22, 4 e T.
Deposito o meu crachá na catraca, mas ela trava mesmo assim. Não adianta só ter a máquina, é preciso um segurança pra contornar as falhas da máquina.

A professora de português me conta o caso de um coreano que pediu uma professora jovem e bonita pra escola. Ficaram discutindo se faziam a vontade do sujeito e mandaram uma gordinha. Ele bateu o pé e repetiu que queria uma professora jovem e bonita. A escola não quis perder o cliente e mandou a coordenadora de português, a única que se enquadrava nas exigências do cabra.

Meu aluno chega cambaleando, pálido e com dificuldades para equilibrar seu copo de café. Desculpa o atraso, teacher. Saí daqui às 3 da manhã e o coreano filhodaputa ainda queria que eu ficasse mais! Esses caras são loucos!

Um homem segura a porta do elevador pra mim, o que quase nunca acontece. Agradeço, ele sorri e pergunta se eu pedalo. A luzinha piscante na minha mochila me delatou. Desligo a luzinha e agradeço por mais essa. Chego na portaria e o homem que me dá o crachá avisa que eu preciso atualizar a minha autorização pra subir. Fico sem saber se a escola esqueceu de renovar a minha autorização no RH da empresa, se o RH não avisou a administração do prédio ou se foi outra coisa misteriosa que deixou de acontecer nesse caminho.

A porta da sala está aberta e um dos meus alunos fica hipnotizado por uma senhora muito maquiada que pára no corredor, na altura da nossa sala. Seus alunos a alcançam e seguem conversando em inglês. Minha aula parou, porque a distinta senhora colorida capturou nossas atenções. Véia mocréia, coroca, ouço o meu aluno cuspir com desprezo. Imagina se a gente tivesse que ter aula com uma véia coroca que nem essa daí? Ainda bem que a gente tem você, teacher.

Guardo o som lá atrás, tenho a sensação de ser a única pessoa no andar e vou pra recepção escura. A porta está fechada e o meu crachá de visitante não abre a porta. Como eu faço pra sair daqui? Fim de expediente, tudo escuro. Olho no escritório e vejo um cara trabalhando. Bato na porta, aceno, espero o moço chegar e digo que fiquei presa. Ele me dá passagem pra dentro do escritório. Percebo que ele não entendeu uma palavra do que eu disse e aponto pra porta de saída, explicando em inglês que eu quero sair. O coreano sorridente me abre a porta.

Pego dois elevadores e uma bicicleta e chego em casa antes das 21:00.

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