domingo, 26 de julho de 2009

De ônibus!

Comprei passagem pela Eucatur, que era R$ 2,00 mais barata que a passagem da Andorinha e me dava uma hora a mais em Porto Velho. Nesse tempo extra que eu me dei, consegui tomar banho de água fria antes de embarcar. Minha passagem era de Porto Velho a Vilhena, na poltrona 7 e depois de Vilhena a São Paulo (no mesmo carro), na poltrona 41.

Porto Velho, Ariquemes, Jaru, Ouro Preto do Oeste, Ji-Paraná, tudo embarque e desembarque. Aquele ônibus parecia uma rodoviária. O meu vizinho parecia torcedor metido a técnico. Levantava e reclamava em voz alta e sozinho das habilidades do motorista. Contava pra quem quisesse ouvir quanto ele dava na moto dele e quanto no caminhão. O fim da picada foi o orgulho com o qual ele contou o causo em que um motoqueiro tava ocupando a pista toda, indo bem devagarzinho. Nosso herói buzinou tanto até que o motociclista parou a moto e desceu pra tirar satisfação. No que o nosso herói do bafo podre viu a moto sozinha na estrada, passou por cima. Ria alto, disseminando suas bactérias fedorentas que atestavam sua macheza.

Não tinha aquela paradinha de meia hora a cada 3 horas. Tivemos meia hora pra janta em Cacoal e paguei a conta ainda mastigando, porque o ônibus tava partindo. Voltei feliz ao meu assento, porque o cowboy do asfalto tinha dado lugar a uma magrinha estrábica. Minha poltrona 7 era de frente pra escada: tinha mais espaço para as pernas e dava pra levantar os pés. Quem sentava nas poltronas 1 a 4 estava de frente para o pára-brisa e acima do motorista.

Nenhum dos motoristas dirigia bem, segundo o povo do ônibus. Todos eram muito lerdos, inexperientes ou frouxos, mas o que mais me incomodava eram as brecadas bruscas que davam. A gente tomava cada susto! Um passageiro foi lá embaixo, reclamar com o motorista. Voltou dizendo que os freios eram ABS e ninguém tinha acostumado ainda.

Me avisaram que em Vilhena fazia frio, mas só me convenci quando desci do ônibus e vi todo o ar que eu expirava na minha frente. O ônibus foi recolhido pra limpeza, e nós ficamos encolhidos na rodoviária, esperando ele voltar com o seu ar condicionado. Quando voltou, mudei pra cozinha. E junto comigo foi todo mundo que eu tinha conhecido ali naquela serração, reclamando do frio. Enquanto a temperatura do ar condicionado não agradava, a Thaís exclamou que aquele ônibus tava o Rio Grande do Sul.

Muitas crianças pequenas corriam, brincavam, borbulhavam e gritavam no ônibus. Uma menininha em especial, a Duda, não chorava: berrava. Até a gente já sabia diferenciar seus berros de fome, sono, calor e manha. De manhã, reparei que o pára-brisa estava trincado. Um menino tinha dado com a cabeça no vidro, numa daquelas freadas bruscas do motorista acostumado a dirigir caminhão. Testa de ferro, o guri.

Cáceres, Cuiabá e pausa para o almoço. Não comi nada porque não estava com fome e porque eu não tinha onde gastar aquela energia toda. A galera da cozinha sentiu a minha falta na mesa, e depois estranhou quando me viu entrando no ônibus com um galho. Rondonópolis, Jataí, Rio Verde e todo mundo sentia o cheiro do banheiro assim que alguém abria a porta dele. Eu me agachei, peguei as minhas folhas de eucalipto e fiquei amassando elas. Pularam em cima das minhas folhas. Cada um arrancou uma e ficou macerando a folha na altura do nariz. Miriam disse que tava sentindo um cheiro de goiaba. Respondi que eu tinha pensado em pitanga. Thaís concluiu que o cheiro do eucalipto misturado com o cheiro do banheiro mais o cheiro de todo mundo daquele ônibus dava em cheiro de cupuaçu. Particularmente, acho que cambuci é bem na mosca.

Cantada do povo do norte não é muito cheia de palavras. O cara chega chegando, engata no teu braço e anuncia que é seu futuro noivo. Não chega nem a pedir um abraço, vai logo abraçando e dizendo que tudo bem, né, não tem nada, não, cê não liga, né. Miriam veio em meu socorro, apontando para o sujeito que as minhas mãos estavam nos bolsos. E se ela quisesse te abraçar, meu filho, já tinha tirado as mãos dos bolso, presta atenção.

Em Uberlândia a Laila desceu com a vó dela. Iam pra Patos de Minas, ver a bisa, mãe da vó. Sílvio e Luis ajudaram a carregar suas caixas até o outro ônibus e voltaram tristes por não terem recebido uma bitoca da jovem morena. Em Uberaba o meu eucalipto já não fazia mais efeito. Miriam começou a passar creme na mão, no rosto e braços, avisando que não tinha tomado banho fazia dois dias. Meu vizinho, cujo nome me é uma incógnita, lembrou que daquele pára-brisa lá na frente até aqui atrás ninguém tinha tomado banho.

Ribeirão Preto demorou a chegar, e quando chegou, meus novos amigos/parentes desceram. Só Luis e eu ficamos no fundão, ouvindo a Duda se esgoelar, vendo um moço ir ao banheiro a cada meia hora e procurando a chinela da senhora desdentada que sentava atrás de mim. Em Campinas a Joelma desembarcou com toda a mudança dela e quando finalmente chegamos na Estação Barra Funda em São Paulo, contamos 51 horas de viagem no mesmo ônibus.

Agora dá licença que eu vou celebrar a horizontalidade naquela cama que já está chamando o meu nome.

Um comentário:

Juliana Reis disse...

Lou que história!!!
Que viagem hein mulher!
Bem vinda a São Paulo.
abraço