sexta-feira, 10 de julho de 2009

Meteorologia

Alemanha, Nordwohlde, fim de 1999. Já percebi que no instante em que a Previsão do Tempo (com letras maiúsculas) começa na TV, tudo pára e vem ver e ouvir o que a Wetterfee (fada do tempo) tem a dizer. Como moramos numa zona mais rural que urbana, entendo que a possibilidade do camponês de se antecipar a geadas, nevascas, chuvas torrenciais ou longos períodos de estiagem pode mudar o destino da plantação. E como todos assistem religiosamente à previsão do tempo, a Wetterfee se apresenta de galocha e guarda-chuva, faz piadinhas e tira sarro dos nomes das frentes frias e quentes.

Holanda, Nijmegen, início de verão. Fico acessando sites de meteorologia para rir dos números altos que dão para a umidade do ar. Além de estar num país baixo, cheio de água, estou no lugar onde mais choveu na minha cabeça em toda a minha vida. Jonas, Jeroen, Isabelle e Nan riem da minha cara de gato pingado quando chego na universidade, deixando um rastro molhado. Numa tarde, um deles consulta a previsão do tempo e anuncia que não choverá entre 19:00 e 19:30. Todos fecham suas coisas e saem pontualmente às 19:02.

Brasil, São Paulo, dois anos mais tarde, início de inverno. Olho a previsão do tempo e vejo que no dia x vai chover 5 milímetros. Como tenho muito pouca coisa pra fazer, volto a conferir a previsão do tempo para o dia x no dia seguinte e vejo que choverá 12 mm. Na véspera do dia x a previsão me diz que cairão 23 mm de chuva. No dia x passo o dia todo observando o céu, o chão e os passarinhos. Não cai uma gota de água do céu. E ninguém publica uma errata dizendo que todas as previsões cambiantes para o dia x estavam equivocadas.

A meteorologia é uma ciência relativamente nova, altamente interdisciplinar e que lida com tendências, probabilidades e possibilidades. Fui na Wikipedia, aprender mais sobre o assunto e fiquei espantada com a complexidade do tema e assombrada com a maneira como a mesma informação é apresentada em línguas diferentes.

O verbete escrito em português parece ter sido escrito por um historiador que não sabe ao certo selecionar e resumir informações relevantes. O leitor vê a informação dividida ao longo do tempo, mas não percebe nehuma reflexão do historiador sobre os fatos. O escritor convida o leitor a saber mais, indicando-lhe institutos que ensinam meteorologia. Fica a impressão de que meteorologia é uma coisa acadêmica, complicada e que não tem fim.

O verbete escrito em alemão parece ter sido escrito por um filósofo, que se detém em primeiro lugar na palavra, depois nos campos de conhecimento que compõem esta ciência, depois se concetra nas dificuldades de coleta de dados precisos que o meteorologista enfrenta. Fica a impressão de que meteorologia é uma ciência altamente interessante e complexa.

O verbete escrito em inglês parece ter sido escrito por um divulgador da ciência. O leitor tem uma visão geral do desenvolvimento da ciência, dos instrumentos de medição, e da importância de uma rede de estações de coleta de dados. O escritor do verbete é alguém que tem uma visão panorâmica do assunto e sabe quais são os seus limites. Fica a impressão de que a meteorologia é legal, instigante e importante.

Será que essses três verbetes são representativos para as tendências gerais de se fazer ciência nessas línguas? Sabe por que brasileiro não consegue publicar em periódicos internacionais? Provavelmente porque não consegue ver além dos dados, possivelmente porque não consegue o distanciamento necessário para chegar a conclusões que vão além dos resultados da pesquisa.

Vixe, olha só que saltos acabamos dando. A conversa começou toda inocente sobre o tempo e a chuva e agora já estamos especulando sobre a academia e as práticas e políticas de publicações. Ainda bem que parou de chover lá fora. Chega de sol e chuva.

6 comentários:

Fabiano disse...

sabe... isso parece explicar porque eu nunca falo de meteorologia com meu amigo do ramo... pode-se falar sobre tudo - ou, pelo menos, muito. Sobre o que eu faço, novidades das áreas biológicas, porque diachos eu fico tirando foto de inseto qdo a gente faz trilha e sobre as nossoas dietas consideravelmente diferentes. Mas qdo vamos falar sobre a meteorologia... bem, eu tenho que falar com São Pedro.
(eu acho que tou divagando por aqui imaginando isso porque devo estar com sono; vou pedir pra ele criar um blog interessante sobre meteorologia... e vou desafiá-lo a me tornar um visitante assíduo do site, e não por causa da previsão, mas do conteúdo... - é, eu realmente ou estou com sono ou delirando... boa noite, Lou).

iglou disse...

Oi, Fabiano
Sim, faça isso! Convença o seu amigo a fazer um blog de meteorologia, que eu viro seguidora assídua. Acho que fui picada pelo mosquito do sistema, das coisas interligadas e relativas ao clima e tempo.

Aproveite bem os 35mm de chuva previstos pra hoje...

iglou disse...

Opa, mudou! Agora são 65 mm de chuva!!! Yuppie!

Fabiano disse...

Aqui vai chover menos... diz-se ser 2mm apenas.
Mas parece que os céus querem me dizer outra coisa...

vagalumevermelho disse...

Ali na estante tem um livrinho chamado "Previsão do Tempo e Clima", da clássica coleção Prisma, de autor ignorado. O autor é ignorado, coitado, porque assim quis o editor da coleção: seu nome está grafado em letras tão minúsculas que ninguém acha. Talvez seja melhor assim, pois o texto não é mais o do autor. Em algumas passagens a tradução é tão ruim, coitado, que vc acaba desistindo depois de ler um parágrafo inteiro que não produz nenhum sentido, e no caso é claramente um problema de tradução. De qualquer forma o livro é bastante informativo pra quem se interessa pelo assunto.

A coleção Prisma foi um clássico nos anos setenta, e alguns exemplares se encontram hoje nas estantes de quem era criança naquela época e em alguns sebos da cidade. Marca de uma época em que era considerado divertido saber das coisas, ter informações consistentes sobre algum assunto.

Perceba a diferença. Fazer divulgação científica era escrever um livrinho de noventa e poucas páginas sobre o assunto, e não fazer uma matéria de quatro ou cinco numa revista. Hoje, quando se escreve sobre o tempo o interesse é geralmente motivado por uma calamidade pública recente. Depois de uma noite sem dormir de curiosidade sobre determinado assunto, vc ia numa livraria e de fato encontrava um *livro* sobre o assunto. Garanto que era muito mais informativo que um verbete de wikipedia, independente da língua.

Mas antes que mudem de canal por causa desse papo todo com cara de saudosista (afinal, de fato a inteligência de um cidadão médio de qualquer nacionalidade só vem aumentando ao longo dos anos, sou eu é que sou chato...), só queria dizer que dá sim pra entender alguma coisa sobre o tempo e o céu: basta olhar um pouqinho pra ele, mesmo vivendo aqui na Cidade-Lixo.

Além de ser bastante útil quando você se locomove de bicicleta, pode tornar a convivência no elevador um pouco mais divertida.

Hoje cedo choveu fininho, chuva de estratos. Aí o céu abriu e ficou azul, com alguns cúmulus relativamente altos e dispersos. Um amigo, que tinha ouvido a previsão, disse que não ia chover. Outras duas pessoas, também baseadas em previsões, disseram que ia chover no fim da tarde. Eu ia almoçar e tomar umas com uns amigos num bar no centro da cidade, ia de bicicleta. Mas e se chovesse mesmo? Olhei pro céu e disse: "chove nada!". Peguei e fui. Puta vento frio na cara, mas não choveu nadinha.

Falar sobre o tempo é uma modalidade de interação fática (entre outras) muito praticada por aqui. É relaxante e muito útil em certas situações.

Observar e entender o tempo também pode ser bastante útil e divertido. Em tempo, fui agora olhar o autor do livrinho: é A. G. Forsdyke, mas talvez esta informação não faça muita diferença, coitado. Perceba que meteorologia e políticas editoriais são mesmo assuntos bastante próximos.

iglou disse...

Oh, meu querido vagalumevermelho!

Eu pensei mesmo nesse teu livro, mas como na hora de querer saber mais sobre meteorologia só tinha o computador na minha frente, foi a Wikipedia que me deu uma luzinha.

Obrigada pela indicação bibliográfica, vou procurar o livro em sebos antes de ir a Porto Velho.
Beijo!