segunda-feira, 20 de julho de 2009

Meus piores alunos

Dei aula de inglês desde os meus 18 anos. Só parei de dar aula de inglês em escola de idiomas durante o tempo em que tive bolsa de mestrado e doutorado. Mas continuei dando aula de alemão pros amigos. Quando voltei da Holanda, abandonei até o meu mais fiel aluno filósofo (eu adorava dar aula de alemão pros filósofos). Tudo isso pra dizer que passei muitos anos da minha vida lá na frente, na lousa, ensinando uma língua estrangeira, corrigindo tarefa de casa, pronúncia, gramática, fazendo as vezes de amiga, psicóloga e curiosa.

E nesses anos todos percebi que os meus piores alunos eram sempre de inglês. Eram os caras que faziam o curso porque a empresa tava pagando. Vinham nas aulas porque só seriam promovidos na firma se passassem de nível no inglês. Entravam em sala de aula dizendo que detestavam inglês e saíam com a cabeça a ponto de explodir. Inglês, pra esses caras, é uma obrigação, um obstáculo a ser superado, um calvário que não tem fim. Básico um, básico dois, básico três, pré-intermediário um, pré-intermediário dois, pré-intermediário três, intermediário um, intermediário dois, intermediário três, pré-avançado um, pré-avançado dois, pré-avançado três, avançado um, avançado dois, avançado três, conversação, professional student.

Meus alunos de alemão fazem alemão porque querem poder se comunicar com a avó, porque querem morar na Alemanha, porque se apaixonaram por uma pessoa que fala alemão, porque colecionam línguas, porque querem ler Nietzsche ou Kafka no original - e entender as nuances. Mesmo os meus alunos brasileiros que trabalhavam em empresas alemãs não encaravam a aula de alemão como um sacrifício. Queriam entender a cultura, queriam conseguir rir em alemão.

Veja como as motivações dos alunos de alemão são muito mais particulares de cada indivíduo que as motivações pro sujeito aprender inglês. A pessoa estuda inglês porque precisa, porque o mercado de trabalho (sim, não é específico, é genérico mesmo: o mercado de trabalho) pede que se tenha fluência (seja lá o que isso for, mas não vamos desmotivar os gagos logo de cara, né). Por ter esse caráter obrigatório e satisfazer uma necessidade abstrata, aprender inglês não é uma atividade prazerosa ou mesmo interessante.

Não, nem todos os meus alunos de inglês foram péssimos cabeças-duras que odiavam a situação de ter que estudar essa língua imperialista. Hoje foi a minha última aula de business english na Samsung. Reprovei três alunos e aprovei dois com distinção e louvor. Dois foram demitidos da empresa no meio do caminho e os outros três não conseguiram conciliar o trabalho com as aulas. Viu? De dez alunos dois continuam contentes na corrida em busca do Santo Graal.

4 comentários:

-Rol disse...

Hey Lou! Por acaso você dá aulas remotas de alemão?
Tive aulas por um tempinho, e tentei prosseguir pelo Livemocha... mas tem coisas que são impossíveis de aprender sem que alguém explique...
E também não consigo entender pq as pessoas odeiam tanto o inglês. Sad, but true.
Beijo!

Mônica disse...

Lou, telefonaram a respeito de sua máquina fotográfica. Mande um e-mail para mim (m.hamada@uol.com.br)

bjs

iglou disse...

Olha, Carol

eu não acredito em ensino à distância. Vou dar aulas pela UAB aqui em Porto Velho, sabendo que o desafio é grande. Dar aulas de alemão à distância me parece mais complicado que mandar o cara que não tem tempo/saco para se deslocar até a universidade ler textos teóricos sobre linguagem.

Anônimo disse...

Para mim, os piores alunos são:
- preguiçosos, que só abrem o livro no dia da aula e ainda se perguntam pq não conseguem aprender direito;
- folgados, que acham que professor é um dicionário humano a seu dispor, então quando têm dúvida em alguma palavra, não têm a coragem de tentar buscá-la nem no Google tradutor, preferem esperar a semana inteira pra ir perguntar na aula.
- folgados (2), que têm que preencher alguma coisa em inglês, trazem pra aula e simplesmente empurram na sua direção dizendo: "me ajuda, teacher?" mas ficam só observando, querendo que você faça todo o trabalho;
- o que gosta de testar, que acha que já é o bom do inglês, então chega com um vocabulário preparado, mas mesmo assim quer perguntar para ver se o professor responderá o mesmo que ele;
- o inseguro que quer confete, que quer que todas as aulas você jogue trocentos confetes nele porque ele não confia em si mesmo e acha que o professor é seu psicólogo, que precisa ficar motivando-o o tempo todo quando ele não motiva a si mesmo;
- o que quer confirmação o tempo todo, quando está lendo um texto, mesmo sabendo que eu vou interrompê-lo só quando a pronúncia estiver incorreta, quer confirmação de cada palavrinha que lê;
- o que não entende coisas absurdamente simples, que por mais que você corrija ele acha que "has" é passado e "had" é presente, mesmo sendo quase avançado não consegue entender que o verbo "to be" é ser/estar e nunca consegue lembrar de colocar uma droga de um "s" na 3ª pessoa do presente.
- o que "desliga o cérebro" e passa a agir como se estivesse no piloto automático, esquecendo até como conjugar os verbos em português: "As pessoa acha que..."
- o reclamão, que sempre está com sono, cansado, com fome, com sede, com tudo! Mas mesmo está lá por pura obrigação;
- por fim, adolescentes forçados pelos pais. Estão lá morrendo de tédio porque odeiam inglês, mas se disserem aos pais que querem desistir, levam bronca.