segunda-feira, 31 de maio de 2010

Faroeste

Era uma vez uma equipe de cientistas. Todos eram ligados à mesma instituição e estudavam coisas diferentes. Cada um trabalhava por conta própria, admitindo aprendizes que receberiam bolsas para serem iniciados na pesquisa. Para formalizar a admissão desses aprendizes, era preciso escrever um projeto e aprová-lo em reunião.

Um cientista escreveu dois projetos de exploração de Saturno. Os projetos eram para os aprendizes. Um aprendiz estudaria arco-íris em Saturno, o outro estudaria aurora boreal em Saturno. O treinamento que os aprendizes receberiam era em Cromatologia.

Uma das cientistas recebeu os projetos de noite em sua casa, dois dias antes da reunião. Foi-lhe pedido que fizesse um parecer. Ela logo percebeu que, apesar dos projetos abordarem temas diferentes, eram iguais. A parecerista também atentou para o fato de que o transporte a Saturno não estava garantido, nem o fato de que os aprendizes encontrariam qualquer coisa relevante se chegassem lá. O projeto não partia dos dados, não formulava hipóteses (digamos que haja arco-íris e aurora boreal em Saturno. E daí?) e não fornecia ferramentas suficientes para os aprendizes identificarem arco-íris e auroras boreais em Saturno.

Antes da reunião, a parecerista se consultou com colegas, para saber se seria politicamente desaconselhado reprovar o projeto. Foi avisada que ganharia um inimigo para o resto da vida se vetasse o projeto. Durante a reunião, a parecerista mencionou que tinha ressalvas a fazer em relação ao projeto. Uns quiseram ouvir as tais ressalvas, outros insistiram para que as ressalvas fossem transmitidas por escrito exclusivamente para o autor do projeto. 

Depois da reunião, parecerista e autor se sentaram à mesa e discutiram o projeto. O autor reparou que a parecerista tinha feito anotações a lápis no projeto, agradeceu pelos direcionamentos e disse que melhoraria o projeto. Na semana seguinte, o autor e a parecerista se encontraram por acaso. O autor tinha acabado de encontrar uma borracha branca e estava apagando os comentários que a parecerista tinha escrito no projeto. Quando o autor percebeu o olhar da parecerista sobre o papel, explicou que o projeto não podia ser submetido com 'rasuras'. 

Percebendo que o seu trabalho tinha sido em vão, a parecerista perguntou: "vai mesmo submeter esse projeto, sem mudar o que discutimos?" Com a maior seriedade do mundo, o autor respondeu: "vou, porque o projeto já foi aprovado".

domingo, 30 de maio de 2010

Miau

- Nein, Akari, heute gibt es kein Fleisch. Heute ist vegetarisch. 
- Miau miau miau miau miau
- Sag mal, verstehst du, was 'nein' bedeutet?
- Nö.

sábado, 29 de maio de 2010

Bicicletaria boa

Pelo que pude perceber, a grande maioria das bicicletarias de Porto Velho apenas conserta bicicletas (e não vende ou compra bicicletas). Essas bicicletarias não investem em acessórios ou aparência da loja. As bicicletarias que comercializam bicicletas estão localizadas no centro e nem sempre lidam com MTBs, speeds ou dobráveis. Trabalham com Barras Fortes, cargueiras, Monarks e Calois que também são vendidas em supermercado.

Quando eu morava na Venezuela (a rua), fui numa bicicletaria-oficina pra pedir que regulassem o câmbio traseiro. O meu pedido mobilizou 3 mecânicos que se debruçaram sobre o gancho passador de marchas que fica no pedivela. Dei várias voltas no bairro pra testar a regulagem deles e sempre voltava reclamando. Os mecânicos achavam que eu tava teimando, testaram a bicicleta e voltavam dizendo que tava tudo bem.

Bicicletaria boa é aquela que tem mecânico bom. Mecânico bom pra sua bicicleta é o cara que está acostumado a lidar com bicicletas parecidas com a tua - e ainda por cima pedala. A bicicletaria boa pra Amarilda fica a 7km de casa. Ontem o mecânico resolveu dois problemas: câmbio (ele mexeu no câmbio mesmo, lá atrás) e um barulhinho téc ... téc a cada volta do pedivela. Era o encaixe do movimento central no quadro seco e sujo. 

Em Barão Geraldo, o mecânico bom que mexia nas minhas bicicletas fazia o preço baseado em múltiplos fatores: tempo gasto, material gasto e complexidade do problema. Eu confiava no julgamento dele, porque ele era bom. O mecânico daqui também é bom, mas cobra seis vezes menos que o de Barão. Eu já falei pra ele que estou acostumada a outros preços e que o que me importa é a qualidade do serviço. Ele deu risada.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Mosquitos


Especialmente aqui na Amazônia eu tenho medo de mosquito. Malária e dengue estão constantemente presentes no discurso. Justamente por não saber disntinguir os mosquitos transmissores dessas doenças, tento combater cada mosquito que se aproxima de mim. Os métodos é que mudam.

Miyuki deixa o quarto fechado. Portas e janelas impedem o trânsito de mosquitos no quarto dela. E como ela só habita a casa pra dormir, ela não tem mosquitos na cama. Eu nunca me liguei no caminho dos mosquitos. Não sei se vêm da composteira, onde já tem uma vegetação considerável, passam pela janela aberta e se instalam no meu quarto de dia, esperando anoitecer. Pode ser também que entrem pela janela sempre aberta da área de serviço, passem pela janela do meu banheiro que comunica com a área de serviço e entrem no meu quarto.

Percebi que aquele negocinho de enfiar na tomada não fazia o efeito desejado. Eu acordava meio ruim e  continuava dormindo e acordando com mosquitos (no plural! Aliás, qual é o coletivo de 'mosquito'? Precisa ter, porque eles existem em bandos aqui em casa). 

Numa noite de muito calor e milhares de mosquitos, tirei o coisinho da tomada e enfiei nela o ventilador. Foi a primeira vez na vida que eu dormi com o ventilador ligado. O barulho é terrível. Pior: sonhei que eu tava num shopping. Enfim, a experiência do ventilador não será repetida. Mesmo porque acordei com dor de garganta.

Na noite seguinte não enfiei nada na tomada. Pra quê gastar energia? Fiz força pra dormir. Às 3:28 da manhã eu tava de pé, caçando mosquitos. Depois da ginástica, o resultado foi além das expectativas: mãos e paredes sujas e Miyuki acordada. Na manhã seguinte, nós duas perdemos a hora. Eu nem ouvi o despertador tocando às 7 e cheguei atrasada na reunião.

Da reunião eu fui pro centro. Pensei que fosse difícil achar mosquiteiro no camelódromo, mas logo vi que era mercadoria comum. Tinha em várias cores e em  duas versões: barata e boa. Escolhi um bom e paguei R$ 38,-. A longo prazo, é o melhor investimento. O mosquiteiro não é veneno nem pra mim nem pros mosquitos, que servem de janta pras lagartixas e aranhas da casa. O mosquiteiro não gasta energia e não inflama a minha garganta. Viu? Até dá pra ser ecológico na Amazônia, onde a galera se congela no ar condicionado e queima seus lixos na calçada.

Privação de sono

Eu andava tendo pensamentos malignos de aniquilação da vida alheia. Especialmente na cama, eu desejava ter a autoridade de Deus para fazer com que mosquitos e cachorros deixassem de existir. 

Cansada de tentar dormir, exausta de enxotar mosquitos da minha orelha e com os pensamentos embaralhados pelo sono, pensei que se fosse Deus, mataria todos os mosquitos sem deixar rastro nas paredes. Mas aí sonhei que se eu fosse de fato Deus, os mosquitos não me incomodariam. Talvez eu fosse um.

Às 6 da manhã, eu desejava ser Deus para promover a não-existência de cachorros no mundo. Não sei se eu detesto os cachorros ou os donos de cachorros. O meu desafeto, por exemplo, que não me deixava dormir, chorava de solidão. Subi na escada e olhei por cima do muro, pra ver se o cachorro tava mesmo morrendo por força do meu pensamento. O cachorro do vizinho (que divide parede com o meu quarto, não os cachorros que mataram o meu gato) é do tamanho de um bezerro e estava confinado num canil que é do tamanho do meu banheiro.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Referência

Fui com a Akari no veterinário pra tomar vacina.
Ela, não eu.
O veterinário não era o japonês com nome inglês e sobrenome brasileiro, que já declarou sua afeição por ela em outra ocasião. Não, era um outro. Ele olhou pra gata, avaliou tamanho, idade, peso, problema e perguntou:
- Tá se alimentando direito?
Eu não podia perder essa, e retruquei com uma pergunta:
- Eu ou a gata?
- A gata.
- Tá, sim.

Aplicou a vacina, colou um adesivo na carteirinha dela de vacinação e se pôs a preencher uma ficha, que seria a cobrança da consulta + vacina. Olhou pra mim e perguntou:
- Qual o seu nome?
- Lou.
- Não, não o nome da gata. O seu nome.
- É Lou. Escreve L - O - U.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Cosmos



Demorei um certo tempo pra ler O mundo assombrado pelos demônios de Carl Sagan. Não é a extensão do livro que me desacelerou, mas a densidade do conteúdo. Demorei mais ainda pra terminar de ver os 13 episódios da série feita por ele, Cosmos. Não foi a densidade que me impediu de ver um atrás do outro, mas a trilha sonora sonífera.

São muito diferentes, apesar de terem sido produzidos pela mesma pessoa. O livro foi escrito com bílis na pena, sem dó da pseudo-ciência. Já a série veio para informar e deslumbrar, antes de criticar tudo que não faz parte do universo da ciência. Só nos dois últimos episódios o tom predominante do livro é atingido.

Mônica e Fernando, obrigada pelas indicações! Com o livro pude apreciar técnicas de argumentação (meus alunos foram de carona, especialmente do capítulo A arte refinada de detectar mentiras) e com a série pude apreciar a infinidade do universo.

Colheita

domingo, 23 de maio de 2010

Marxista em Rondônia

Começo a desconfiar que a palavra 'marxista' tem, em Rondônia, uma definição diferente daquela que eu aprendi na escola. Essa definição não é muito fixa, ela muda de cidade pra cidade. Talvez seja até uma metamorfose ambulante.

Quando dei aula no pólo em Rolim de Moura, comentei um exemplo de conhecimento compartilhado com os alunos. O exemplo foi o seguinte: um dia eu tava voltando da Unir pra casa, e quando eu tava na ladeira, vi, de canto de olho, um ciclista subindo a ladeira do outro lado da BR. Cheguei em casa e escrevi e-mail pro Guilherme contendo as seguintes palavras: "era você?" Por saber a que eu me referia (conhecimento compartilhado: 5:30 da tarde, BR, eu na bicicleta ladeira abaixo, ele pedalando ladeira acima, primeira vez que ele pedala pra Unir), ele respondeu na mesma linguagem telegráfica: "era, sim".

Como o exemplo envolvia bicicleta e BR, expliquei que eu não tem carro nem pretendo ter. No intervalo, uma das alunas chegou pra mim e perguntou se eu era marxista. Fiquei intrigada e pedi explicações para uma especulação tão inesperada. Ela disse que conhecia uma mulher que não tinha carro e era marxista. Queria saber se eu, por não ter carro, era marxista também.

Eu queria que os meus alunos de Letras e Matemática aprendessem a escrever resenhas. Pra começar, pedi a resenha de um filme - Eu Tu Eles. Escolhi esse filme porque eu tinha um texto teórico sobre resenhas que apresentava cinco resenhas desse filme. Pedi que lessem esse texto para terem um parâmetro de como pode ser uma resenha.

Numa das resenhas sobre o filme, o marxismo volta a rondar por Rondônia como um espectro (ou fantasma, depende da tradução):

Após o casamento Osias passa a ser um marido muito autoritário e começa a explorar a Darlene enquanto Osias passa o dia deitado em uma rede Darlene passa o dia trabalhando tendo que cuidar das obrigações da casa e trabalhar fora para trazer o sustento da família, o dia a dia de Darlene é muito cansativo seu marido sendo muito marxista não ajuda sua esposa com as obrigações da casa ele acha que Darlene tem por obrigação sustentar ele (...)


Essa não aconteceu comigo, mas foi aqui em Rondônia. Ninno tava dando aula de Sociologia para pessoas formadas em Ciências Sociais. Um moço, com o espanto estampado na cara, levanta a mão e pergunta:
- Professor, então quer dizer que Marx era comunista?

Ciclista urbano


Lembro que a decisão de pedalar na cidade grande (me refiro a São Paulo) não foi fácil. Eu tinha medo que a minha bicicleta chamasse muita atenção, o trânsito parecia um monstro cinza e a topografia da cidade me parecia meio irregular com suas ladeiras e buracos.

Lembro também que a primeira travessia da cidade monstruosa não contou com nenhum contratempo. Não me senti visada, espremida ou quebrada. Depois de praticar o ciclismo urbano, me convenci de que não era nada demais usar a bicicleta como meio de transporte. Os riscos mudam de cidade pra cidade (em São Paulo os vilões são os motoristas de ônibus perto dos pontos, em Campinas os motoristas preferem a buzina ao freio, em Porto Velho o povo é sem noção de espaço e tempo), mas enquanto houver respeito no trânsito, não tem muito erro.

Quem fica maravilhado com esse meu hábito de ir pra Unir de bicicleta é quem não usa a bicicleta como meio de transporte ou simplesmente tem medo de coisas abstratas na BR (sei lá o que passa na cabeça das pessoas, mas não há motivo pra se ter medo da BR). O medo paralisa.

É dirigindo que se aprende sobre as dimensões do veículo, é pedalando que se aprende a ser um ciclista urbano, é caminhando que se aprende a viajar, é cozinhando que se aprende a comer, é escrevendo que se aprende a produzir bons textos.

sábado, 22 de maio de 2010

Hóspedes

Lagartas no maracujá não me surpreenderiam. Na renda portuguesa também já vi. Mas nos tomates... 

Enfim, deixo elas se fartarem, porque valem a foto (olha só como a Natureza se manifesta em diferentes formas e cores!) e porque são potenciais borboletas exuberantes. E no final das contas, os tomates são mais importantes pra elas do que pra mim.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

terça-feira, 18 de maio de 2010

Aprendendo a ensinar

Dar aula de alemão ou inglês para brasileiros é muito diferente de dar aula de português para falantes nativos. Mas como se aprende a dar aula para universitários que se quer FORMAR, no sentido nobre da palavra? Algumas coisas eu aprendo com os alunos, outras com os colegas, outras eu busco nos livros. Estou até estranhando esse meu interesse por questões pedagógicas, mas é o que me move nesse momento.
Descobri que esse livro que o meu chefe me deu (emprestou? Não ficou bem claro) é altamente relevante para os meus propósitos de ensinar a pensar. Em certa altura, Bernardo dialoga com os matemáticos e afirma que eles argumentariam melhor se verbalizassem todos os passos de suas equações. Gostei da ideia. Mas se eu pedisse pros meus alunos de Matématica pra eles escreverem no papel, em palavras, o raciocínio matemático que fazem, eu provavelmente não seria capaz de entender o texto resultante.
Gardner me veio à mão por incentivo indireto de um certo professor de Matemática. Pedi aos alunos que trouxessem truques pra aula de hoje. Não só o conhecimento do truque e de sua execução, mas também o material necessário. Se precisassem de palitos de fósforo, dados ou cartas, que viessem preparados. Minha ideia era fazer com que escrevessem o truque e dessem a receita pra outra pessoa executar. 
Não escreveram nada. Disseram-se acometidos de amnésia seletiva e espontânea. Muito bem, eu podia improvisar. Quis fazer um truque, fazê-los descobrir o segredo e por fim botar tudo no papel. Apliquei um truque de cartas que eu tinha aprendido no livro do Gardner e ensaiado em casa. Mas como em casa eu não tinha quatro pessoas, não fui muito rigorosa no treino. Meu truque deu errado.

Faz de novo, professora. Presta atenção como as cartas voltam pra sua mão. Faz de novo, professora, a contagem das pessoas muda de lá pra cá e de cá pra lá. Não muda, não, professora. Faz de novo. Pronto! Agora aprendemos o truque!

Não tive ainda a chance de dizer a eles que eu aprendi (conscientemente) o truque graças a eles. Assim como eu pacientemente peço que escrevam novos textos prestando atenção em certos recursos, eles me pediram pra repetir o truque prestando atenção em detalhes da execução. Hoje a aula foi de matemática recreativa.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Mídia alternativa

Muita gente acha que eu não acompanho os acontecimentos do mundo porque não assisto TV e não leio jornal sistematicamente. Bem, eu me poupo de muita informação, propaganda, manipulação e lavagem cerebral. Quando acontecem coisas extraordinárias como por exemplo a queda das torres gêmeas em 2001 ou o tsnunami de 2004, as notícias chegam até mim através de pessoas que conversam comigo, não através de uma caixa que emite som e luz.

Morando numa república, não era de esperar que eu fosse um ser alienado. Mesmo com a TV desligada no horário nobre, tínhamos uma percepção assutadora do que acontecia no mundo, porque assistíamos alguns documentários. "Muito além do cidadão Kane" foi o primeiro que vimos juntos, na sala da primeira Oca da Tapioca. Na sequência vieram "Ponto de Mutação" e "An inconvenient truth". 

Assisti "The corporation" sozinha no cinema e voltei pra casa completamente desesperançada. Lembro de ter conversado com o Ruy na cozinha, madrugada adentro, sobre a organização política e econômica do mundo. Depois de ver um filme desses, não dava pra simplesmente ir dormir.

Com o tempo, fui percebendo que a realidade que eu não conhecia me assombrava muito mais que a ficção. "A sociedade do automóvel", "Cycling friendly cities", "The story of stuff", "Home", "Zeitgeist" e um filme que eu vi com a Olga num festival de documentários africanos sobre um certo peixe (enorme) foram me dando a percepção de que existe uma mídia alternativa. Uma mídia que procura documentar a exploração predatória do ser humano. Me senti muito mais conectada ao universo vendo esses documentários que passam de mão em mão do que vendo o Jornal Nacional. Não é que eu acredite que tudo nesses documentários seja verdade, mas tudo o que há nesses documentários eu considero relevante. 

Por causa do cineclube, pendrives contendo filmes rodam entre nós. Um mês atrás, um pendrive meu voltou com um documentário em cima: "Cidadão Boilesen". Como o título não era apelativo pra mim, deixei o filme lá. Ontem de noite resolvi dar uma olhada no documentário. Como um tapa na orelha, me pegou desprevinida. Meus conhecimentos sobre a assim chamada Revolução de 64 e a ditadura militar eram definitivamente insignificantes. Fiquei me perguntado por que, como cidadã brasileira nascida depois dessa época negra, sei tão pouco sobre ela. A censura perdura na mídia convencional.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Vento polar

Imagem roubada daqui


Temperatura às 13:47 em Porto Velho: 28°C. Não é normal, mas não é estranho.
Umidade relativa do ar: 39%. Altamente bizarro prum lugar que costuma registrar valores entre 80 e 100%.

Este é o quarto dia de tempo seco e temperaturas baixas à noite. Durmo de cobertor e a Akari levanta depois de mim. No caminho pra Unir, o vento sopra tanto que é preciso pedalar nas descidas. Chego sem verter uma gota de suor (isso é inédito). 

Em casa, o vento abre e fecha as venezianas e o som parece de casa assombrada. O sol não parece bravo. As plantas (principalmente os tomates e bambu) murcham por causa da secura. 

Os lábios de todos estão rachados, a boca seca e os pés frios. Nesses quatro dias estamos vivenciando um clima desértico, bem parecido com o de Brasília ou Campinas.

Ouvi dizer que passaríamos por uma friagem. Ouvi dizer que ventos polares erraram a curva e vieram soprar na Amazônia. Ouvi dizer que tudo isso tem a ver com as cinzas expelidas pelo vulcão na Islândia. Seja como for, me sinto em Barão Geraldo: com muito vento na cara.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Cor é luz

E luz é uma coisa que tem de sobra aqui. Aipim (?) do vizinho.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Maracujá nativo

Desci da minha bicicleta e caminhei até a flor que eu já tinha espreitado tantas vezes. Eu imaginava que fosse maracujá pelo fato de ser trepadeira, mas estava sempre sem máquina fotográfica na bagagem. Parece que eu só conseguiria me certificar que é um maracujá através das lentes da máquina. Portanto, não valia a pena chegar perto dela sem poder registrar sua imagem.

Quando cheguei perto da flor que eu nunca tinha visto com tantos detalhes, ouvi a bicicleta tombando com o peso do alforje. O computador estava lá dentro, mas isso não importava. A prioridade era dessa flor. Sou levemente apaixonada por passifloras: elas se manifestam em formas e cores tão variadas, e ainda assim se fazem reconhecer.

Quando terminou a aula, uma aluna veio me perguntar o que eu tinha ido fazer no mato. Ao passar pela BR de moto, ela tinha visto a minha bicicleta caída no chão. Me localizou no mato e concluiu que a aula seria sobre ecologia. Não foi sobre ecologia, mas foi memorável.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Mobilização estudantil na Unir

Alguns estudantes estão sacudindo um pouco o resto da comunidade acadêmica da Unir colocando cartazes pelo campus. O primeiro está na entrada da biblioteca, os demais perto da cantina.

domingo, 9 de maio de 2010

22° C

22 graus Celcius
sensação térmica de 20 graus 
em Porto Velho às 20:39
Cadê o meu pullôver? 
Onde estão as minhas meias e pantufas? 
Chá de anis!

Alopatia

Enquanto pessoa criada com homeopatia, fico abismada como remédios alopáticos têm efeito rápido. Não que eu esteja tomando alopatia, não. Eu só observo.

A primeira vez que fiquei absurdada com o poder da alopatia, foi quando o Shaoran teve uma infecção intestinal. Um dia antes de chamar a minha atenção, ele dormiu muito. Aí me acordou com os seus gemidos. Tava no chuveiro, numa posição entre deitado e sentado. Quando eu tentava tocar nele, ele mordia. Não reconheci o Shaoran. Tirei o gatinho do chuveiro e pus no sofá. Era a barriga, o problema. Tinha febre. Achei um veterinário de plantão no domingo e Miyuki foi junto.
Sofri tanto quanto ele (ouvindo seus gritos, sendo arranhada e com pavor da visão da agulha). Nesse momento de dor, me senti mãe de Shaoran, não sua proprietária. De volta em casa, ele ficou bem grogue, se arrastando (a injeção tinha sido na perna) pela casa. Dormiu, teve diarréia e pronto, tava novo de novo. O que ficou dois dias causando incômodo crescente foi removido com uma injeção, sono e excreção.

A segunda vez foi estranho. O acupunturista, antes de vir, tinha ligado, avisando que ia se atrasar. O filho dele tava mal e ele precisava cuidar disso. Chegou dizendo que o filho tava vomitando e tudo, mas que ele enfiou umas agulhas no menino e já tava tudo bem. Repetiu essa história enquanto eu devia relaxar com as agulhas espetadas no corpo e acrescentou: "agora o menino tá lá, brincando. Não precisa de alopatia pra curar a pessoa. Precisa saber ler os sinais do corpo".
Toca o celular dele. É o menino, chorando de dor. Sentada no outro sofá, eu ouvi os lamentos do menino que saíam pelo celular. O pai deu as coordenadas: em cima da geladeira, Dipirona, 15 gotas.
Meia hora depois, o menino liga dizendo que está bem.

A terceira vez foi com gato de novo, mas dessa vez com a Akari. Dessa vez eu tava ligada que dormir o dia todo e não sair de casa eram sintomas. Assim que Miyuki me emprestou o carro, fui no veterinário com a Akari. Ele apalpou a bichinha, mediu temperatura e detectou o problema: secreção de pus, o que indicava infecção urinária. Receitou um remédio e um analgésico: Dipirona (então é pra isso que serve Dipirona!). O remédio precisa ser ingerido a cada 6 horas, a Dipirona faz ela espumar muito. Depois de tomar o terceiro comprimido, ela já está brincando com tudo que se move, provocando tudo que está inerte, correndo pela casa, comendo e bebendo normalmente.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A vida é dura

- A mulher, hoje, o que ela tinha?
- Que mulher? Ah, sim! Ela tava morta.
- O que é isso?
- O que?
- Morta.
- O que significa 'morta'? Meu Deus, mas que pergunta! É quando alguém não vive mais. Quando alguém pára de viver.
- E quando alguém pára de viver?
- Quando se está muito velho. Ou muito doente.
- Mas e a mulher?
- Essa teve um acidente.
- Um acidente?
- Sim, isso é quando você se machuca muito.
- Assim como papai.
- Sim, mas muito pior. Tão forte, que o corpo não aguenta.
- Daí se está morto.
- Sim. Mas a maioria das pessoas não sofre um acidente.
- Elas não estão mortas, então.
- Não, elas morrem só muito depois.
- Quando?
- Mais tarde, quando ficam bem, bem velhas.
- Todos precisam morrer?
- Sim.
- Realmente TODOS?
- Sim, todas as pessoas morrem.
- Mas você não, né, Anni?
- Eu também. Todos.
- Mas o papai não.
- Papai também.
- Eu também?
- Você também, mas só daqui a muito tempo. Todos, mas só daqui a muito tempo.
- E não se pode fazer nada contra isso? Precisa mesmo acontecer?
- Sim, mas só daqui a muito tempo.
- E a mamãe? Ela nem viajou, né? Ela também morreu?
- Sim. Ela também morreu.

Diálogo entre um menino de 5 anos e a irmã de 14 retirado do filme A fita branca (Das weisse Band)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Reconfiguração


Alguns anos atrás, fiz acupuntura. Totalmente cética e desconfiando da acupunturista, observei que o resultado desejado não foi atingido. A cicatriz do pé ainda estava inchada e eu fui à clínica esperando que o meu sistema linfático desse conta desse líquido acumulado em volta dos parafusos que juntam o meu Talus. A cicatriz continua inchada até hoje, mas no geral, a acupuntura não me fez mal e até fez as minhas crises de TPM pararem por um ano.

Os incômodos mensais voltaram e tentei contê-los com abacaxi, muito líquido, caminhadas, massagem nos gânglios, Dramim. Quando 3 Dramins só me faziam dormir por 2 horas, voltei a procurar um acupunturista. Antes de me enfiar agulhas, quis saber qual era a minha natureza. Depois da anamnese, concluiu que eu era frango. Isso significa que eu tenho problema no baço e estômago e preciso mudar a minha alimentação. 

Devo ingerir coisas quentes tipo milho, canela, gengibre, goiaba, mamão. Muita água esfria, frutas cítricas esfriam, banana esfria, natação esfria, meu Yang é baixo, meu Ying é forte e oscila, desperdiço muita energia com o pensamento.

Fiquei completamente passada com esse tanto de informações novas. Ver o mundo através dos óculos da acupuntura significa enxergar energias, naturezas do tipo quente, morno, fresco e frio. A alimentação ideal é, pra todas as naturezas, oriental: nada de leite ou derivados e nada de carne vermelha ou de porco. Ginseng é o tônico universal.

Hoje o acupunturista voltou e quis saber como tinha sido a minha semana. Contei que eu ando com muito sono. Mesmo. A ponto de não me reconhecer. Ah, disse ele, mas isso é da natureza do frango. Você precisa de concentração, não de explosão. Você precisa de descanso porque o seu Yang é fraco.

Não gosto da ideia de ter tanto sono, beber tão pouca água e não consumir metade das coisas que eu costumo comer. Mudar não é fácil, mas acordar com dor de cabeça e vontade de vomitar e passar o dia inteiro querendo morrer é pior.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Até na chuva?

Desligue o despertador às 7:30 e olhe pra fora da janela. Céu cinza. Levanta dessa cama, que hoje é dia de pedalar 19 quilômetros. Tá, já deu, levanta agora!

Banheiro, cozinha, janela. Tá chovendo. Vai de bicicleta mesmo? Claro que sim, já tá de roupa apertada e sandália com furinhos. 

Louça, comida da Akari, junta as coisas pra colocar no alforje. Seria uma boa trocar as lentes dos óculos, né? Pra quê que cê tem as lentes transparentes, se nunca usa? Chuva no olho não é legal.

Tudo pronto. Vai molhar. Não, tem a capa. Ainda não usou a capa em Porto Velho, né? Então vai lá, achar a capa. 

Tranca a casa e dá tchau pra gata que mia pra chuva forte. Isso, vai devagar. Acende a luzinha piscante atrás e vai com calma. 

Viu, nem foi tão ruim. Foi até bom pedalar na chuva, sentir a capa ventando, a água no rosto e a atenção dos motoristas. Não vai pela lama, não. Desce da bicicleta e empurra ao longo da passarela até o bloco dos departamentos. Tira a capa, os alforjes e troca de roupa. Viu? Nem precisou de toalha de rosto. A toalhinha de 10 por 30 cm com o teu nome bordado em cima deu conta do recado. Que bom que essa toalha se fez útil.

Pode rir de todos que te dizem que estão com sono e tédio nesse dia de chuva. A tua vida é uma aventura, a deles não está sendo.

Entre na sala de aula. Interprete a exclamação de 'oh!' dos alunos. É o cabelo curto! Responda a todas as perguntas sobre como você veio pra Unir sorrindo. Não discuta com a moça que planeja a compra de um carro pra você andar no conforto. Não diga a ela que pedalar na chuva não dá gripe na certa. Sorria e transmita a alegria de pedalar na chuva.

sábado, 1 de maio de 2010

Classificações

O acupunturista me disse que eu sou frango.
O horóscopo chinês me diz que eu sou cavalo.
O horóscopo do jornal me diz que eu sou áries.
O meu tipo de sangue diz que eu sou agricultora.

Eu me vejo mais como um ser humano mesmo.

Lá na composteira selvagem