segunda-feira, 31 de maio de 2010

Faroeste

Era uma vez uma equipe de cientistas. Todos eram ligados à mesma instituição e estudavam coisas diferentes. Cada um trabalhava por conta própria, admitindo aprendizes que receberiam bolsas para serem iniciados na pesquisa. Para formalizar a admissão desses aprendizes, era preciso escrever um projeto e aprová-lo em reunião.

Um cientista escreveu dois projetos de exploração de Saturno. Os projetos eram para os aprendizes. Um aprendiz estudaria arco-íris em Saturno, o outro estudaria aurora boreal em Saturno. O treinamento que os aprendizes receberiam era em Cromatologia.

Uma das cientistas recebeu os projetos de noite em sua casa, dois dias antes da reunião. Foi-lhe pedido que fizesse um parecer. Ela logo percebeu que, apesar dos projetos abordarem temas diferentes, eram iguais. A parecerista também atentou para o fato de que o transporte a Saturno não estava garantido, nem o fato de que os aprendizes encontrariam qualquer coisa relevante se chegassem lá. O projeto não partia dos dados, não formulava hipóteses (digamos que haja arco-íris e aurora boreal em Saturno. E daí?) e não fornecia ferramentas suficientes para os aprendizes identificarem arco-íris e auroras boreais em Saturno.

Antes da reunião, a parecerista se consultou com colegas, para saber se seria politicamente desaconselhado reprovar o projeto. Foi avisada que ganharia um inimigo para o resto da vida se vetasse o projeto. Durante a reunião, a parecerista mencionou que tinha ressalvas a fazer em relação ao projeto. Uns quiseram ouvir as tais ressalvas, outros insistiram para que as ressalvas fossem transmitidas por escrito exclusivamente para o autor do projeto. 

Depois da reunião, parecerista e autor se sentaram à mesa e discutiram o projeto. O autor reparou que a parecerista tinha feito anotações a lápis no projeto, agradeceu pelos direcionamentos e disse que melhoraria o projeto. Na semana seguinte, o autor e a parecerista se encontraram por acaso. O autor tinha acabado de encontrar uma borracha branca e estava apagando os comentários que a parecerista tinha escrito no projeto. Quando o autor percebeu o olhar da parecerista sobre o papel, explicou que o projeto não podia ser submetido com 'rasuras'. 

Percebendo que o seu trabalho tinha sido em vão, a parecerista perguntou: "vai mesmo submeter esse projeto, sem mudar o que discutimos?" Com a maior seriedade do mundo, o autor respondeu: "vou, porque o projeto já foi aprovado".

Um comentário:

Juliana Reis disse...

Em terra de cego quem tem olho é rei! E jogar perolas aos porcos exige do rei ver quem é porco para aguardar as perolas para quem irá usar e valorizar a joia.
Infelizmente é triste a realidade da pesquisa... a politicagem chiqueirinha.Bem aventurado quem não se corromper com ela. hihihi