segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Caminhos de Argus Caruso

Eu vi Argus Caruso pela primeira vez num Sesc, em Santos. Ele deu uma palestra sobre a volta ao mundo de bicicleta que fez em 3 anos. O projeto de volta ao mundo se chama Pedalando e educando e consistiu na interação do cicloturista com algumas escolas brasileiras. Ele mandava imagens, relatos e números dos lugares pelos quais ia passando pela internet. As crianças aprendiam através da vivência dele. Era um curso à distância muito mais bacana que estes que estou revisando. História e Geografia estavam sendo vividas por alguém que se movia lentamente, sobre duas rodas, vivendo da hospitalidade daqueles que encontrava pelo caminho.

O livro, disponível nas lojas SESC, é uma obra de arte. Aproximadamente três quartos do livro são fotografias de pessoas, casas, paisagens, detalhes que prenderam a atenção do viajante. Há pouco texto, mas o que há ali foi muito bem lapidado. O carteiro que me entregou o livro não tinha noção do presente que o pacote continha. Fazia tempo demais que eu não lia bons textos, daqueles que te transportam prum outro lugar. E quando você volta, sente uma pontinha de saudade daquilo que nunca viu.

sábado, 28 de novembro de 2009

Akari & Shaoran

Shaoran, o equilibrista

Shaoran precisa aprender a ser gato. Eu não ajudo muito, porque às vezes o trato como se fosse um macaquinho. Ele fica no meu ombro numa boa, passeia de um lado pro outro e às vezes se apóia no encosto da cadeira. Assim como Shalimar, vai desaprender a arte do trapezista quando crescer.

Semana punk rock

O mato aqui de casa está alto, a pilha de roupa suja também, assim como a pilha de redações dos meus alunos. A casa está suja e a comida na geladeira acabou. Mesmo assim eu sigo, firme e forte, entregando um livro revisado por dia. Só sei que hoje é sexta porque o computador me diz isso. Isso significa que tenho só mais dois dias de escravidão pela frente. Daí os livros serão mandados pra gráfica.

Saio pouco de casa, e quando saio é pra ir pra Unir.

Shaoran apanhou muito, mas ainda não aprendeu que não deve brincar com cabos nem comer a ração da Akari. Tenho dormido pouco, porque os horários de sono dos gatos não batem com os meus. Acordo várias vezes com o Shaoran rastafarizando o meu cabelo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Três bicicletas na Unir

Já somos três loucos que vão de bicicleta pra Unir!

Quando Natanael me deu o telefone dele pedindo pra eu lhe avisar quando fosse embora pra irmos pedalando juntos, soube que eu não era mais a única que vai de bicicleta pra universidade. Na volta pra casa, descobrimos que moramos no mesmo bairro.

Hoje o Paulo (do cineclube) foi de bicicleta (uma daquelas de praia, com o guidão alongado) pra Unir.

Eita, vai que a moda pega!

domingo, 22 de novembro de 2009

Tenho poder

Como professora de Produção de Textos, tenho poder. Tenho o poder de decidir que os meus alunos não escreverão redações sobre liberdade de expressão, o certo e o errado, a mulher na sociedade brasileira e outros temas abstratos.

Posso pedir que escrevam sobre temas concretos e atuais que me interessam (poluição, meio ambiente, lixo, minha saúde). Posso informá-los a respeito do tema antes de cobrar que argumentem sobre ele. Foi o que eu fiz.

Eu não pedi que escrevessem sobre o aquecimento global e a emissão de poluentes por automóveis. Não pedi que escrevessem sobre as vantagens do uso da bicicleta. Tenho consciência de que, indo pra Unir de bicicleta, sou um exemplo de que é possível não poluir para se deslocar. Não espero que façam o que eu faço, porque imagino que 13km sejam mais longos de Barra Forte do que de mountain bike.

Também não pedi que escrevessem sobre alimentos industrializados, porque sei que eles reconhecem comida (tanto é que a consomem) naquelas embalagens plásticas, coloridas e brilhantes.

Pedi que escrevessem sobre sacolinhas plásticas. Forneci informações sobre os números de sacolas plásticas produzidas anualmente no Brasil (1 bilhão) e no mundo (500 bilhões), a média mensal de consumo de sacolinhas plásticas por cidadão brasileiro (66 sacolas) e o número de anos que uma sacola leva para se decompor (aproximadamente 300). Falei de reciclagem e reutilização e apontei que apenas 0,6% das sacolas plásticas é reciclado. Notamos que a maioria das sacolas plásticas vai parar no lixo e lembramos que a nossa cultura de lixo é muito precária. Não só porque Porto Velho não tem coleta seletiva de lixo, ou porque as pessoas daqui nunca ouviram falar em compostagem, mas porque existe muito lixo solto nas ruas. Falei da minha casa que alagou (provavelmente) em função do entupimento do esgoto por plásticos. Falei também de países que aboliram as sacolas plásticas justamente por causa das enchentes, além de outros países que passaram a cobrar pelas sacolas plásticas.

Tenho o poder de esclarecer os meus alunos sobre a sua condição de poluidores. Tenho o poder para fazer com que escrevam textos argumentativos em que o objetivo é mudar a política de uma rede de supermercados. Espero ter o poder de fazer com que rejeitem sacolas plásticas de agora em diante.

Minhas fontes:

Não às sacolas plásticas
Sacolinhas plásticas em números (e que números!)
Saco de plástico
As sacolas de plástico devem ser substituídas?
Saco é um saco

sábado, 21 de novembro de 2009

Mamãe coruja

Eu acho o Shaoran muito lindinho.
A melhor oportunidade para fotografá-lo é quando está sonolento ou dormindo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Madrasta

Shaoran é o mais novo morador da minha casa. Tenho mais um gato com nome de personagem de anime japonês.

Quando ele ronrona, parece um motorzinho. Quando brinca, até parece que come pilha. Quando recebe carinho na barriga, levanta os braços. Quando é enxotado, sempre volta ao local do crime. Quando mia, seu chamado ecoa nas paredes e faz a Akari ter espasmos.

Trouxe o Shaoran pra fazer companhia pra Akari. Ela passava alguns dias da semana sozinha em casa, ouvindo os gatos feios e malvados lá fora e no forro da casa. Fora isso, miava mais do que eu considerava normal. Achei que ela ficaria feliz com um amiguinho. Imaginei que ela vivenciaria uma maternidade postiça, já que não terá nunca filhotes.

Mas ela se sente ameaçada pelo machinho da casa. Não chega a atacá-lo, mas faz cara de cobra (como se diz 'fauchen' em português?). Ele a imita, o que a deixa mais irada ainda. No primeiro dia, quando sentia seu cheiro de bebê em mim, não me deixava tocar nela. Seguindo as instruções da Mônica, botei uma gota de baunilha no pescoço dele. Ela se interessou pelo cheiro, mas não conseguiu diminuir a distância entre eles. Agora já posso encostar na Akari, madrasta enciumada.


Fico impressionada como ela é grande e bonita e ele é miúdo e tem cara de ET.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Expulsos no grito

Me sinto parte do cineclube que acontece na Unir todas as quartas-feiras, das 17:30 em diante. Dois alunos, Paulo e Guilherme, tomaram a iniciativa de organizar os encontros semanais em que um filme é exibido e depois discutido. Já usei o espaço do cineclube para mostrar aos meus alunos de Produção de Textos como o paralelismo é um elemento de coesão interessante para um texto, quando pedi que o cineclube passasse o filme 'Estômago'. Semana passada, conduzi a discussão sobre o filme 'A Onda'.

Fico feliz ao notar que cada vez mais alunos participam do cineclube e ficam para a discussão que acontece após a exibição. O cineclube está se transformando num espaço de trocas culturais. Aprendemos uns com os outros, nos diálogos que acontecem depois dos filmes. Fico contente de ver que Paulo e Guilherme estão envolvendo também professores para conduzirem as discussões. Hoje, o filme exibido foi 'Onde sonham as formigas verdes' (1984), do Werner Herzog. Um professor de antropologia tinha sido convidado para encaminhar a discussão no cineclube, mas não pode vir.

O filme se passa na Austrália árida e trata de uma tribo aborígene que resiste a uma compania mineradora inglesa que procura urânio. Os aborígenes compreendem a terra, cultuam o solo que lhes é sagrado. O homem branco explode a terra à procura de riquezas em que vê a promessa do progresso. Os nativos sentam-se no chão para impedir que os brancos acordem as formigas verdes com os seus tratores e dinamites. Um homem branco quer passar com o trator em cima dos pretos, outro encaminha a disputa pela terra por vias burocráticas e conduz a discussão à Corte Suprema.

Aí então a coisa desandou. Uma gorda histérica apareceu na porta da sala dizendo que ia dar aula e que era pra gente sair. A aula dela começava às 19:00 e já eram 19:10 e tinha tanta sala vazia, que a gente fosse pruma outra sala, porque a gente tava na sala dela. A histeria dela era contagiante. Meu corpo todo tremia. Todos gritavam. Ela chamava todos de 'meu anjo' e 'bem', o que piorava ainda mais a nossa revolta. Ela acendeu as luzes, fez seus alunos entrarem na sala, afirmando que os alunos dela queriam ter aula, que aquela era a sala do 4. período de Administração, tava escrito na porta. Foi até a frente da sala e arrancou todos os equipamentos das tomadas: computador, datashow e caixas de som. Assim: arrancou da tomada. E continuava gritando que não era pra gritarem com ela, que ela estava sendo desrespeitada, que ela já era professora há 17 anos e que o que ela fazia era coisa séria. Ela era professora. M., da Administração. Paulo apontou pra mim, dizendo que ser professora não lhe dava nenhum status, afinal ele também tinha uma professora do lado dele. M. olhou pra mim e eu tremia, de olhos esbugalhados, tendo dificuldades para coordenar a respiração. Perguntamos por que só queria usar a sala agora, no fim do semestre e onde estava tendo aula todas as outras quartas-feiras em que nós estávamos assistindo filme naquela mesma sala. Ela repetiu que aquela era a sala dela. Uma aluna disse que a sala em que eles estavam tendo aula até então estava com o ar-condicionado quebrado.

Paulo, enganchado no filme que foi interrompido à força, queria protestar como aqueles que tinham chegado antes: ficando. Guilherme já estava desmontando as coisas, vendo que o público já tinha ido embora e que só tinham ficado as figuras marcadas do DCE e a professora com cara de adolescente altamente estupefata. A gorda histérica levantou o braço com o indicador esticado e nos jogou pra fora. Saia da minha sala! ela gritou.

Ficamos encostados na parede da sala dela, nos espantando com a surrealidade dessa tomada de posse. Conversamos com a aluna que afirmava ter avisado o Paulo que usariam aquela sala. Ela não entendia por que não passamos o filme mais cedo, por que não fomos pra outra sala. A gorda histérica apareceu na porta da sala e chamou essa aluna pra dentro. A moça foi.

Paulo, Guilherme, Ricardo e Daniel do DCE e eu decidimos averiguar se aquela sala tem dono. A sala está no bloco de Letras, Paulo e Guilherme são das Ciências Sociais/ História e a M. é da Administração. Procuraremos garantir uma sala por meios burocráticos e manifestar nossa revolta com essa professora descompensada.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Rotatórias

O meu caminho para a Unir passa por duas rotatórias: a do Roque, que dá acesso à BR 364 sentido Cuiabá, e a da Eletronorte, que dá acesso direto à BR 364 sentido Acre. Ambas são um nó no trânsito. As pessoas chegam nela, param e olham. A fila de carros parados na esquerda é impressionante. Quando o cidadão chega na boca da bola, mete o veículo na roda a qualquer hora e ouve buzinadas iradas.

As duas rotatórias estão em obras. Na do Roque estão construindo uma elevação, que vai ser tipo uma ponte. A BR será levantada, mas a dinâmica da rotatória não mudou. Na da Embratel procederam de maneira diferente. Cortaram a rotatória no meio, e agora a Campos Sales atravessa a rotatória. A BR continua fazendo a bola. Alguns dizem que a BR vai passar por baixo, outros afirmam que vai passar por cima. Mas como havia bifurcações e confusão demais, colocaram faróis na rotatória cortada. E o farol é de 4 tempos, como todos os semáforos em cruzamentos de avenidas com vias de dois sentidos nessa cidade. A sinaleira não é sinal automático de civilidade, porque os motoristas que detestam esperar ocupam o acostamento enquanto a luz não fica verde.

As duas rotatórias são espaços de interação humana. Ali coexistem motoristas, ciclistas, pedestres, peões de obra, guardinhas de trânsito. Na rotatória da Embratel tem ainda o ponto de ônibus, por onde passa o ônibus que vai pra Unir. Às vezes reconheço alunos esperando lá no banco do bar que fechou faz um mês - mas continua funcionando como ponto de ônibus. Hoje, um cara apontou uma câmera fotográfica pra mim, enquanto eu passava de bicicleta. Não sei se vou sair no jornal ou se estão planejando o roubo da Amarilda.

domingo, 15 de novembro de 2009

O cabeludo e a Morte

Essa foi o Berg que contou, enquanto esperava o cimento secar. Estava comentando o homem que era dono da FIMCA (uma faculdade particular) que comprou a UNIRON (outra particular). No dia em que assinou o contrato e pisou na rua pra entrar no carro, caiu duro pra trás. Morreu do coração. Mas quando a morte vem, não tem quem lhe escape. Conhece a história do cabeludo e da Morte? Pois é assim:

Era uma vez um cabeludo que fez um pacto com a Morte. Ele disse pra ela que queria ser o homem mais rico do mundo. A Morte disse que lhe concederia o desejo, mas com uma condição. Tudo bem, na manhã seguinte o cabeludo amanheceria podre de rico, mas dali a um ano a Morte viria lhe buscar. Se passasse da meia-noite do dia que a Morte ia vim, o cabeludo tava livre.

O cabeludo viveu bem nesse ano que ele foi rico. Um dia antes da Morte cumprir o pacto, o cabeludo cortou o cabelo. Passou máquina zero, pra se disfarçar e a Morte não reconhecer ele. Na noite que a Morte ia voltar pra lhe pegar, ele deu uma festa pra cidade toda. E todo mundo veio pra festa do cabeludo, inclusive a Morte. Ela ficava procurando o cabeludo, e cadê esse cabeludo? E olhava no relógio e faltava dois minuto pra meia-noite e nada do cabeludo. Não tô achando esse cabeludo safado, quer saber? Vou levar esse careca aqui mesmo.

E levou o (careca) cabeludo.
É, dona Lou, quando a Morte vem, não tem quem lhe escape.

sábado, 14 de novembro de 2009

Enquanto ele não vem

Pedi que a imobiliária me indicasse um outro pedreiro além do Berg, porque ele vive esquecendo de mim e raramente vem quando diz que vem. Ainda tenho uma goteira monstruosa, uma caixa d'água pra trocar, um cano e uma torneira pra instalar. Mas a goteira é mais urgente. Me recomendaram o Zezinho.

Liguei pro homem ontem, ele disse que viria depois das 17:00. Choveu a partir das 16:30 e o Zezinho não veio. Liguei pro Berg hoje de manhã, porque tínhamos combinado sábado cedinho. Prometeu que viria amanhã. Liguei pro Zezinho, que disse que daria um pulo na imobiliária pra pegar uma escada e viria pra cá. Às 14:00 ele ligou pra mim, dizendo que assim que fosse liberado, viria pra cá. Não veio até agora e não vem mais, porque está escuro e ventando forte.

Quando eu ainda tinha esperança que o Zezinho viesse, comecei a fazer um arquivo pras minhas contas e recibos. Tenho a impressão que na papelaria eu só acharia um arquivo assim de plástico.


Dessa vez não é falta de ocupação, não: tenho milhares de redações horríveis esperando na minha mesa.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Massa

Foto não-minha: roubada de não sei onde

Equitéria entrou na sala e me trouxe essa manga no intervalo da nossa aula. Enquanto ela me dava a manga, Terra ficava na porta, dizendo que a Equitéria era uma puxa-saco. Agradeci pela manga e me espantei com sua consistência. Perguntei se tava madura mesmo, porque tava muito dura pros meus parâmetros de manga. Tairine levantou a cabeça da mesa e me explicou que essa manga era assim mesmo. Essa é a manga massa. Deixei a manga na mesa e continuei a ler o livro que estava no meu colo. Nani veio e sentou na mesa da manga e começou a brincar com ela. Avisei que eu ainda pretendia comer aquela manga, e que ela não precisava amaciar a fruta. Foi mal, professora.

Quando comi a manga, fiquei em dúvida. Tairine tinha dito massa ou maçã?

Caro leitor, percebeu que as pessoas nativas do norte têm nomes incomuns e que o meu nome agora é 'professora'?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Berg

Ontem, quando liguei de manhã pro Berg e perguntei se ele estava a caminho, ele me disse - sorrindo, eu percebi - que tinha esquecido de mim. Prometeu que viria hoje.

Perguntei como ele traria tijolos e cimento, ele disse que cataria uns tijolos por aí. Não gostei da idéia e fui na loja que vende telhas e tijolos. Perguntei se entregavam 15 tijolos, porque eu só tenho uma bicicleta, então fica difícil. O vendedor olhou pra minha bicicleta e anunciou que faria uma simulação. Colocamos 9 tijolos na cesta de trás e 3 na cesta da frente da Laranja Mecânica. Fiquei impressionada como coube tanto tijolo na bicicleta e como tijolo é barato. Avisei ao Berg que tinha arrumado tijolos e marcamos 8:00.

Hoje de manhã, às 9:00, liguei de novo pro Berg. Celular desligado. Mas ele veio e levantou muretas nas portas. E os meus 12 tijolos novos não foram suficientes. Tivemos que usar alguns daqueles que sustentavam as minhas mudas.
Esse é o Berg. Cê daria 60 anos pra ele?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Estou bem

A geladeira voltou a funcionar, Berg disse que vem amanhã pra levantar umas muretas, lavei a casa, os tapetes, sapatos e ainda faltam as roupas. Ainda preciso entender por que estou sem internet em casa e resolver isso. É o segundo dia que trabalho sem parar.

Katastrophenfest

Tudo o que segue foi escrito em casa, logo depois da desgraça; e postado na lan house no dia seguinte, porque fiquei sem internet.


Agora eu sei o que é ter a casa alagada. Agora eu conheço o gosto do desespero e a sensação de impotência diante da água que não pára de entrar. Agora eu sei que a água que entra traz lama, papel de bala, embalagens de catchup do Mc Donalds, muitas folhas, galhos, bitucas de cigarro e mais lama. Agora eu sei por onde a água entra na minha casa e por que ela não sai. Agora tenho noção do quanto ela sobe e o que ela arrasta. 
Meu butijão de gás foi tombado; a caixa d’água nova que estava fora, esperando ser instalada pelo Berg, foi parar no meio do jardim; uma lata de tinta que me servia de composteira foi parar no portão.
Não sei se a geladeira vai voltar a funcionar, se a furadeira - que tava no chão - vai ligar de novo. Não sei quando o sofá vai secar. Não sei quanto de água ainda tem dentro da caixa d’água (já lavei o chão da casa e a minha pessoa), e ainda preciso lavar toda a minha roupa suja que tava no chão e ficou enlameada. Não sei quando os meus braços vão parar de doer. Não sei quando vou limpar embaixo e dentro dos móveis. Não sei que coisas vou achar quando terminar de limpar a casa: o shampoo apareceu atrás do sofá, a tigela de comida da Akari passou por ela enquanto ela dormia na minha cama. Não sei quando o cheiro de lama vai se despregar da casa.
Vamos à estória. Eu tava ouvindo a chuva lá fora, a goteira no balde aqui dentro e corrigindo redações horríveis dos meus alunos - impressionada como cada um tem a sua ortografia pessoal e nenhum deles tem uma opinião própria- quando ouvi os gritos da minha vizinha me chamando. Havia muita urgência na voz dela, quase uma ponta de descontrole do timbre. Não cheguei até porta. Vi a água invadindo a casa. Desliguei o computador, tirei os panos que estavam ao redor da pocinha gerada pela goteira e comecei a absorver água com um pano. Daqui a pouco eu estava enchendo o balde e jogando a água na pia. A água não descia. Olhei pela janela e vi o Rio Madeira dentro e fora da minha casa. A água lá fora estava mais alta que aqui dentro. Salvei as fotos da estante, coisas da escrivaninha, o pacote de arroz, desliguei a geladeira e vi que a Akari tava segura.
Entre 10:30 e 15:00 eu joguei baldes de água pela janela. As folhas, galhos e centopéias ficavam na tela. Eu ouvia crianças gritando de alegria, adultos brigando, gente gritando. Reparei que o nível da água estava baixando devido à minha atividade incessante. Pra ajudar, a água não entrava mais pela porta da cozinha. Abri a porta e vi que a água fora estava mais baixa que a mureta da soleira da porta. Sentei numa cadeira, para descansar as pernas e a coluna, e continuei jogando baldes de água pra fora. Notei que a água agora fluía pra rua. O esgoto deve ter desentupido com a pressão. O nível da água baixava fora de casa, mas dentro, a piscina continuava na mesma. De fato, a minha casa é uma piscina. Há uma mureta na porta da cozinha e fizeram uma lombada na frente da casa, no quintal. A água que tinha entrado pra depois da lombada ficava ali, represada. Achei a vassoura na grade do portão e me pus a varrer a água pra cima da lombada. O chão da minha casa é bem irregular, então cada cômodo manteve a sua poça particular (de até dois dedos de profundidade) mesmo depois de toda a água ter saído pela porta. Demorei mais duas horas para limpar o chão da casa. Haja lama! Akari decorava o chão de patinhas marrons, miava de fome e sede e não entendeu quando virei o sofá de ponta-cabeça. Fiquei sem almoço e agora tenho medo do som da chuva.
liguei pro Berg. Espero que venha amanhã, me ajudar a pensar numa solução pra futuros alagamentos.

domingo, 8 de novembro de 2009

Luzes da usina


Já era tarde. As andorinhas já tinham pousado e o sol já tinha se posto atrás do Rio Madeira. Deu pra fotografar as luzes da usina e só.

Serigüela

O pé de serigüela está quase do meu tamanho. Era um toco de árvore quando eu cheguei, e com o tempo foram brotando uns galhos.

Passei o dia no jardim, arrancando matos. Acho que desmatei um terço de gramas altas, plantinhas com carrapichos, com espinhos e com florzinhas minúsculas. Agora as minhas mãos precisam descansar 3 dias antes de voltarem ao trabalho braçal.

sábado, 7 de novembro de 2009

Covarde

O fato se deu faz um tempo já, mas só agora estou refletindo mais detidamente sobre ele. Aconteceu que numa noite a Akari tava miando diferente e querendo se embrenhar nos fios de telefone, roteador, estabilizador, computador e tal. Fui impedir que ela entrasse atrás da estante e dei de cara com uma tarântula. Era do tamanho da minha mão aberta.

Meu coração disparou. O corpo do aracnídeo era pesado e grande, suas patinhas peludas. Como eu já vi a Akari caçando e comendo aranhas pequenas, temi que ela quisesse brincar com essa também. Peguei o rodo, mirei a ponta do cabo na aranha e matei a bichinha. Recolhi seus restos mortais e, ofegante, sentei no chão. Ainda não tinha sofá e eu costumava ver filmes no chão mesmo. A sensação de pele pinicando me acompanhou durante as duas horas que se seguiram ao encontro fatal com a tarântula. Depois passou.

Todas as noites eu rego as plantas que não tomam água da chuva (quando chove). Já conheço a aranha que fica paradona lá nos potes que contêm as plantas. Não tenho medo dela e a deixo em paz. Numa noite, no entanto, reparei numa bem encorpada debaixo do tanque. Podia ser uma tarântula criança-quase-adolescente. Não matei essa também, porque confio que ela tem todo o mundo (exceto a minha casa) pra explorar.

E é aí que eu chego à conclusão de que matei a primeira tarântula por covardia. Tive medo da criatura e a matei. Se eu cruzasse com ela num espaço aberto, não a mataria. Nem mesmo se fosse no lado de fora da casa. Mas ela estava dentro das paredes que eu alugo.

Quando a próxima aparecer aqui dentro de casa, tentarei conduzi-la pra fora de casa, ao invés de tirar-lhe a vida.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Knallrot

Eu não ia comprar um sofá. Eu ia sondar preços, sentir a textura de estofados, ver as cores, e o principal: negociar prazos de entrega. Pois e não foi que era o meu dia de sorte?

O gerente das entregas estava na loja, (des?)montando um móvel e me ouviu conversando com o vendedor. O gerente das entregas disse que amanhã até meio-dia entrega com certeza absoluta. Não botei fé. Jogou as cartas na mesa: o caminhão tá vazio, os homens tão sem nada pra fazer, se tu quiser, a gente bota esse sofá no caminhão agora e tu ainda vai junto de carona. Mas eu tô de bicicleta. Não tem problema, o caminhão tá vazio.

Aceitei. E descobri que 1 sofá significa um jogo de dois sofás: um de 2 lugares e outro de 3. Vim de caminhão pra casa.

Quando Akari viu os sofás vermelhões, logo tomou a defensiva. Foi cheirando todo o ar até chegar perto deles. Esperneava quando eu a colocava no colo, sobre o sofá. Agora já arranha o estofado com a maior intimidade.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

XV Semana de Letras

Todos os resumos de comunicações deveriam ser mandados para mim (Lingüística) e Heloisa (Literatura). Eu recebi 12 até o fim do prazo e depois mais 3. Heloisa só recebeu 3. Ou a Semana foi mal divulgada ou a galera não produz pesquisa aqui.

O coordenador da Semana de Letras pegou malária e saiu da cama ontem. A programação da Semana vai se definindo enquanto acontece. Meu chefe diria: a gente lança a flecha, sai correndo e tenta alcançar a danada com o alvo. Amanhã eu sei onde vai acontecer, mas depois ainda está em aberto. A abertura, hoje, foi na Uniron (uma particular daqui, que fica dentro do Shopping).

Ao mesmo tempo em que acontece a Semana de Letras, dicutindo inter-, multi- e transculturalidade, acontece também a Semana de Geografia, que trata dos mesmos temas que os nossos trabalhos.

Márcio Souza deu sua palestra hoje e desconfio que eu vou reconhecer tudo o que ele falou no livro "História da Amazônia" que comprei. Outro ponto alto da Semana é a palestra do Sírio Possenti, vindo diretamente da Unicamp com o seu tema predileto: humor e Análise do Discuro.

Eu vou ministrar um minicurso de 6 horas em 2 dias. Vou falar de um tema que considero interessante: afasia. Tenho a impressão que muitas pessoas têm afásicos na família e não sabem bem como classificar esse membro da família. É louco? Gagá? Desaprendeu tudo? Enfim, espero muito que me arranjem um data show.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Churrasco

O barulho estridente do telefone me arrancou da cama numa manhã nublada de domingo. Não tinha tido um sono tranquilo devido aos fogos de artifício que a vizinhança estourou de madrugada. Uma voz animada me disse que era Ana Carolina e me convidou prum churrasco com os alunos. Se eu concordasse em ir, viriam me pegar em 15 minutos. Perguntei que horas eram. 9:15. Perguntei onde seria o churrasco. Na Adunir. O R retroflexo finalmente me revelou quem era a pessoa que estava do outro lado da linha. Ok, eu vou.

Adunir a associação dos professores da Unir, e tem uma unidade campestre, que é essa. Nela, podemos fazer festas e não pagamos pelo espaço. Tem duas piscinas pequenas, mas o tempo não estava lá muito convidativo pra água fria.
Myiuki e eu jogamos sinuca por um tempo, mas foi difícil pedir às crianças - com carinho - que não mexessem nas bolas coloridas, que não tirassem bolas da gaveta e as colocassem na mesa enquanto disputávamos uma partida partilhando o único taco.

Daí eu me cansei de ouvir forró alto demais e fui caminhar pela estrada. Demorou muito para eu deixar de ouvir o som da música que vinha das chácaras enfestadas. Demorou muito para eu conseguir ouvir o som dos passarinhos, do vento nas folhas, dos grilos no mato. Demorou muito até eu conseguir me concentrar no som dos meus passos.
Quando voltei pro churrasco dos químicos (professores e alunos), já estavam arrumando tudo. Wilmo conduziu a vassoura, Myiuki coordenou a louça e Ana Carolina encaminhou o lixo.
Ana Carolina está fazendo essa cara porque não achou legal ser fotografada enquanto fazia "trabalho sujo". Expliquei que também fotografei a Myiuki lavando louça e o Wilmo varrendo. O sorriso que ela abriu então, eu perdi de fotografar.