Estrada Real

Outubro de 2005

Voltei começo dessa semana de uma longa caminhada. Foram 300 km percorridos a pé em 10 dias de Diamantina a Mariana. Na verdade o trecho é de 370 km pra quem acompanhar pelo mapa, mas é que um dia nós pulamos de ônibus, pra dar tempo de votar.

Fui com Olga e Simão. Entre o Simão e eu há 40 anos de diferença, entre a Olga e eu são 30. Isso não quer dizer nada, visto que o Simão, com seus 67 anos, tinha o mesmo passo/ ritmo que eu. Foram poucas as ocasiões em que Simão e eu caminhamos lado a lado. O silêncio chegava a ser constrangedor. Olga, no alto de suas pernas curtas, ficava sempre pra trás. Por isso combinamos de nos encontrar sempre na frente da maior igreja da cidade em que dormiríamos (determinar a maior igreja só foi problema em Mariana, mas os dois me acharam nos correios, postando os cartões postais daquele dia). Com esse ponto de encontro previamente  marcado, a Olga podia chegar mais tarde ou pegar carona – e chegar bem antes de nós.

Começamos em Diamantina. Aquela região é muito seca. Na verdade, a vegetação é de cerrado ali na Serra do Espinhaço. As fotos que eu tirei são povoadas de cactus, pedras em que eu não confiaria pra escalar, árvores baixas e retorcidas, sem muita folha, mas cheio de flores em meio a espinhos.

A Estrada Real ainda não era consolidada enquanto caminho (turístico ou de peregrinação) quando fizemos o trajeto. Em Bento Rodrigues, um vilarejo a uma manhã de caminhada de Mariana, o ex-dono do bar (único comércio do vilarejo) disse que tinha sido tropeiro quando jovem, que conhecia a Estrada Real de cabo a rabo, e que aquela estrada que tinha nos conduzido a Bento não era a Estrada Real. A original foi engolida pelo mato e as pessoas já não sabem mais por onde ela passa. Em Bento Rodrigues, ela foi completamente esquecida, mas, em contrapartida, ela é explorada pelo turismo de Catas Altas e Ipoema. Lá são exibidos os marcos da Estrada, não apenas relembrando de que "estamos no caminho certo", mas indicando direções em bifurcações. 

Eu tinha comprado a mochila de 25 l da Olga junto com ela. Pra mim estava claro que toda a bagagem dela tinha que caber naquela mochila. Mas pra ela, aquela mochila não foi suficiente. Já no primeiro dia de caminhada, ela me deu a sua segunda bolsa. Era disforme, cheia de cosméticos e bem trambolhenta. Carreguei aquele fardo por alguns quilômetros, mas daí me enchi e parei um carro na estrada de terra. Perguntei se o motorista estava indo a Serro. Ele disse que sim. Enfiei a bolsa da Olga pela janela do carro e pedi pro cara deixar essa bolsa na Pousada do Príncipe. Ele nem teve chance de pensar. Foi-se embora levantando poeira. Quando chegamos em Serro, logo achamos a pousada e a bolsa da Olga. No dia seguinte, um pacote saiu dos correios de Serro e foi pra casa da vizinha da Olga.

Logo nos acostumamos à rotina de caminhantes: acordar cedo, pegar a estrada junto com as crianças indo pra escola, preencher o dia caminhando. O almoço eram frutas, nozes, barrinhas de cereais e power gel. Nos agrupávamos na saída, no almoço e na chegada, mas caminhávamos dispersos (eu na frente, Simão no meio e Olga na retaguarda). Tive a impressão de que o sol das 15h era bem pior que o sol do meio-dia: a água na minha garrafinha já estava quente, o corpo já estava cansado, a mente antecipava o alívio de chegar, mas os pés ainda não tinham chegado. Costumávamos chegar às 16h na cidade em que dormiríamos. A primeira coisa a fazer era arranjar um hotel/pousada/igreja (em Bento Rodrigues, dormimos na igreja). A segunda, tomar banho e lavar a roupa do corpo. Como era tudo tecido dry fit, a roupa secava no mesmo dia. Depois de descansar, vinha a hora da comida mineira. 

Depois do terceiro ou quarto dia, não lembro bem, a paisagem foi mudando, e perto de Mariana eu tive a constante impressão de estar na Serra da Mantiqueira, a poucos metros do mar. Havia muitas quaresmeiras em flor e mato fechado.

Nos últimos dias vieram os trechos em asfalto. Nada de acostamento, e os carros que desviavam de nós eram os de passeio. Caminhões e ônibus não saíam de sua rota (tirando fina da gente mesmo!), e das janelas do ônibus ainda tinha um montão de gente pendurada, gritando coisas.

De Santa Bárbara a Catas Altas nós andamos uns 15 km no asfalto, porque não sabiam que a Estrada Real existia, paralela ao asfalto. Disseram que ela tinha sido asfaltada e era o único jeito. Perdemos um trecho da Estrada Real em que havia, além do calçamento original, com pedras de 300 anos de idade, aquedutos e pontes dessa mesma idade. A caminho de Barão de Cocais, eu entrei sozinha em Cocais. Fui até a pousada, descansei, tomei um suco de jabuticaba e perguntei da Estrada Real. Não sabia. Perguntei por uma estrada de terra que fosse a Barão de Cocais, e aí sim, o cara da pousada me indicou um caminho. Era a Estrada Real e ele não sabia. Tinha os marcos e tudo, passando por bicas de água fresca, área de reflorestamento de eucalipto, descida com calçamento original e uma ruína de - provavelmente - uma fundição.

Algumas cidades estavam tomadas por peões da Vale do Rio Doce. Santa Rita Durão, Barão de Cocais e Bom Jesus do Amparo, por exemplo, eram cidades em que não há pousadas "livres". As pousadas e hotéis fazem contrato de uns dois anos com a empreiteira de obras - em Bom Jesus do Amparo tavam mexendo no asfalto da BR. Em Barão tem uma siderúrgica e em Santa Rita tem minas e pedreiras - e o turista passa apuro pra achar pouso. Parece presídio: os homens, uniformizados de azul, laranja ou cinza, são desovados por ônibus cheios. Se espalham por restaurantes e pousadas na hora do almoço, ficam sentados nas ruas, olhando o movimento, depois são recolhidos de novo. Várias vezes sucedeu de Olga e eu sermos as únicas mulheres num restaurante, bar ou pousada. E essas duas únicas mulheres ainda falavam que tavam vindo de Diamantina a pé....

Era difícil pras pessoas acreditarem que nós três estávamos a pé. Numa sorveteria, o moço perguntou: "mas vocês vieram andando, caminhando, a pé?" "Sim." O moço levantou da cadeira, deu três passos largos. "Andando, assim, com os próprios pés???"

Quando entrei em Córregos, um menino pequeno me acompanhou por alguns passos. Perguntou: "sua bicicleta quebrou no meio do caminho?" "Não, eu estou a pé mesmo, não vim de bicicleta." "Ah... cê é de onde?" "São Paulo." "Ocê veio caminhando de São Paulo?"

Não tive dores ou complicações de qualquer natureza. Tive a impressão de virar camelo, isso sim, porque a partir do segundo dia eu consumia de 3 a 4 litros de água num dia. A hospitalidade e comida mineira estão em alta conta cá comigo, os galos que cantam de madrugada nem tanto.

Não faço idéia de como seja o trecho de Mariana a Paraty, mas tenho vontade de fazê-lo também, de bike ou a pé. Eu nunca faria o primeiro trecho (Diamantina a Tapera) de bike ou mesmo de carro, porque as subidas e descidas são cruéis. Areia, pedra solta, pedrinhas e aquela ingrimidade absurda fazem com que o modo a pé seja o mais eficiente. Mas daí em diante, especialmente perto de cidades grandes, como Conceição do Mato Dentro, o caminho poderia ter sido percorrido de outra maneira.