terça-feira, 21 de maio de 2013

Em nome da objetividade

No início do século XX, muitos psicólogos procuravam dar à Psicologia o estatuto de ciência tão rigorosa quanto a Física. E rigor se media em números, portanto era preciso fazer experimentos. No Curso de Psicologia Geral de Luria, por exemplo, é citado
o famoso psicólogo americano R. M. Yerkes, que colocou minhocas num tubo em forma de T, labirinto extremamente simples. No extremo esquerdo do tubo a minhoca recebia choque elétrico, que provocava reação defensiva. Com várias repetições desse experimento, a minhoca podia adquirir a ''habilidade" de evitar o choque elétrico e encaminhar-se para o lado direito. A lentidão com que se desenvolveu esse processo pode ser vista no seguinte: foram necessários mais de 150 testes para que o comportamento da minhoca adquirisse caráter organizado e na grande maioria do testes ela começasse a encaminhar-se para a direita, evitando o choque elétrico. (p. 40)
Na boa, eu teria desistido das minhocas na décima tentativa - e isso que eu sou conhecida pela minha teimosia. Yerkes volta a aparecer nas minhas leituras, dessa vez na pena de Stephen Jay Gould, em A Falsa Medida do Homem:
Foi nomeado coronel e, nessa condição, presidiu a aplicação de testes mentais em 1,75 milhões de recrutas durante a Primeira Guerra. Mais tarde, afirmou que os testes mentais "ajudaram a ganhar a guerra" [já que o intento dos testes era distribuir adequadamente os recrutas nas funções militares]. "Ao mesmo tempo", acrescentou, "[a psicologia] conseguiu ocupar um lugar entre as demais ciências e demonstrou a importância que pode ter para a engenharia humana". (p. 202).
Para o espanto de Yerkes, os testes mentais (de QI) mostraram para ele que o cidadão americano médio adulto tem idade mental de 13 anos.

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Jornalistas podem ser entendidos como uma espécie de mediadores entre os fatos e o público. Não se espera que jornalistas emitam sua opinião pessoal acerca dos fatos. O que muitas vezes não é questionado é a escolha dos temas abordados. Mário Magalhães deu entrevista à redação da Revista O Viés, em que insiste que foi imparcial na biografia de Carlos Marighella:
Eu costumo dizer que eu sou um repórter, e assim eu estou fazendo o trabalho de levar as pessoas essa história fascinante. Na biografia eu acho que não poderia ser um detrator ou louvá-lo. Até por que pessoas para detratarem Marighella, ou para louvá-lo existem aos montes. Ele é um monstro para uns, e um herói para outros. Mas no meu livro eu não queria nem ser um promotor, e aí acusar o Marighella disso ou daquilo, nem um advogado de defesa, para promovê-lo. Muito menos um juiz, para julgá-lo. Eu queria ser um repórter, que apresenta a história para que as pessoas possam conhecê-lo. Por que sobre Marighella, e sobre as pessoas em geral, são duas questões: conhecer a sua história é a primeira parte. A partir daí se pode julgar se ele foi bom ou ruim.
E mais adiante:
Eu não considero que eu faço jornalismo literário. Eu considero que eu faço jornalismo. Até por que o livro tem 2580 notas, 256 pessoas entrevistadas e consultadas, uma bibliografia de mais de quinhentas obras e mais de 700 volumes. E tudo o que é mais importante e relevante do livro está baseado em documentos históricos que eu consegui tanto no Brasil como na Rússia, República Tcheca, Estados Unidos e Paraguai. Eu sempre conto a história de quando o Marighella foi preso no cinema e, depois de levar três tiros, sente um gosto adocicado do sangue que escorreu na sua boca. Essa história eu conto no livro, aí muita gente me perguntou como eu poderia saber disso. Foi por meio da pesquisa, por um texto do próprio Marighella relatando sentir esse gosto adocicado. Então na biografia eu tentei descrever tudo que o Marighella fez, viveu e pensou, e isso tudo foi por meio de documentos, já que, diferente da minha mãe, pelotense, eu não acredito no espiritismo e não entrevistei o espírito do Marighella.
Só o fato de ter escolhido o Marighella - e não qualquer outro guerrilheiro, militante ou mesmo general que viveu nos tempos da ditadura - já diz muito sobre a posição do jornalista. Só o fato de detectar que existe uma carência de informação a respeito deste homem e que existe uma quebra crônica na passagem de informações entre a geração que viveu esta época e as seguintes já mostra o envolvimento do biógrafo com a personalidade biografada. Quando, em tempos de Comissão da Verdade, um jornalista resgata a história de alguém que a história convenientemente esquece, entrevemos a opinião do jornalista biógrafo.

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No post anterior mencionei o filme Doméstica de Gabriel Mascaro. A primeira coisa que surgiu na conversa com o Luis sobre esse filme (que ainda não vimos) foi: e por que não se colocou a câmera na mão das empregadas? O próprio diretor responde à pergunta numa matéria da Bravo! de maio de 2013:
"Não acredito em caridade, muito menos no cinema", responde Mascaro. "Poder não se dá, se negocia. Doméstica é um filme sobre a negociação da imagem." (p. 43)
Na visão do Luis, teria sido mais interessante dar a câmera aos dois lados: tanto os(as)  filhos(as) dos patrões como as(o) empregadas(o). Lembremos de Viveiros de Castro e a onça: o homem (sujeito) olha para a onça (objeto), mas a onça (sujeito) também olha para o homem (objeto).

Na Piauí de 13 de maio de 2013, Eduardo Escorel discute o método do cineasta - que pretende ser objetivo e pretende não interferir nas relações de afeto e poder entre patrões e empregados:
Mascaro não está, naturalmente, ausente de todo. Mas apesar de ser responsável pela seleção das personagens e pela montagem, ao fazer do método o cerne do filme, sabota a própria escolha do assunto, cuja relevância e relativo ineditismo sugeririam a possibilidade de resultado menos anódino.
Doméstica nos dá visão idealizada das relações sociais, omitindo qualquer traço da tragédia que as domina – omissão deliberada difícil de aceitar. (Questões cinematográficas)

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