sábado, 13 de junho de 2009

Marcas famosas

Eu tava saindo do supermercado, ainda pensando na pose encolhida de frio que o caixa que me atendeu adotava, quando me deparei com uma placa. Em letras garrafais, do outro lado da rua, uma concessionária anunciava seu nome: MARCAS FAMOSAS.

Uma lista de marcas de carros me veio à mente enquanto eu caminhava: Volkswagen, BMW, Mercedes Benz, Audi, Chevrolet (GM num lugar e Opel em outro lugar), Ford, Fiat, Ferrari, Cadillac, Porshe, Peugeot, Renault, Citroën, Suzuki, Mitsubishi, Hyundai, Honda, Nissan, Toyota, Alfa Romeo, Mazda, Chrysler, Volvo, Subaru, Landrover, Jeep e até Gurgel. É possível que haja mais marcas no mundo que eu não tenha conseguido contemplar na minha caminhada de volta pra casa ou agora, enquanto vasculho as gavetas mais profundas da minha memória. Me dei conta que eu conheço mais marcas de carro do que de sabão em pó, farinha, feijão ou sucos. E olha que a variedade de marcas de farinha e feijão, por exemplo, é bem menor que a de carros. O engraçado é que eu vou ao supermercado, vejo as prateleiras, mas não consigo evocar mais de quatro marcas de farinha, duas de feijão e assim por diante. Mesmo não tendo um carro ou o sonho de um dia possuir um, sou capaz de evocar tantos nomes de marcas de carro.

Será que existe uma relação de proporcionalidade entre o número de consumidores e a variedade de marcas? Vinho, por exemplo, não é todo mundo que consome, mas a variedade de marcas de vinho é infinitamente maior que a variedade de marcas de arroz, macarrão ou açúcar, que são produtos que vêm na cesta básica e de fato fazem parte da base alimentar do povo. Saindo do supermercado, vamos pensar em carros. Quantas pessoas possuem carros? Quantas pessoas consomem farinha e feijão?

Mas peraí. Qual é a vantagem de se ter tanta concorrência para um público pequeno? Deve ser o retorno financeiro. Quando penso nas coisas mais caras que um cidadão pode comprar, penso em casa, terreno e carro. Estes são produtos duráveis. Carro é um produto que se compra pra vida toda, não? Por isso o preço do investimento é alto, ao contrário de farinha e feijão, que são baratos e se compra a cada três semanas. Suspeito que não seja só isso. Faz alguns anos, os produtos duráveis, pra vida toda, quebram/ saem de moda/ se tornam incompatíveis com os novos avanços tecnológicos depois de um a dois anos de uso. Isso se chama obsolescência programada. Trocar de carro depois de 2 anos é a regra, porque o carro "desvaloriza". E daí que perde valor de mercado. Não é um meio de transporte? Pelo visto, é um bem de consumo, um capricho, assim como cosméticos.

Quando parei no farol e esperei o botão que eu tinha apertado fazer seu efeito sobre os carros que passavam, lembrei de um jogo que eu tinha usado para fins didáticos. Era uma aula de business english sobre marcas. Quis verificar se as marcas de carros eram mais recorrentes que as marcas das outras coisas (64 logomarcas pra você adivinhar). Mas não. Produtos esportivos (tênis, bolas e roupa) foram os mais usados no jogo 1. Pra minha surpresa, já tinham desenvolvido um jogo 2, que eu achei difícil porque tinha dois logos que eu nunca tinha visto na vida, nem sei a que se referem (Tecnisa e Swarovski) e porque tinha umas marcas de produtos altamente exclusivos (Rolex, Mont Blanc) que não fazem parte do meu inventário. Fiquei toda feliz ao reconhecer o logo da Caloi. No entanto, se no jogo 1 tinha 'só' quatro marcas de carro, neste jogo 2 tinha nove (!) marcas de carro.

Voltamos ao número exuberante de marcas de carros. Como é possível que eu, pedestre, ciclista e usuária do sistema de transporte coletivo, saiba reconhecer tantos logos de carros e saiba nomear tantas marcas? Eu, pessoa que compra livros e não revistas, prefere ir ao cinema que ver TV, conversa sobre compostagem e bicicleta e não sobre marcas de carros. Eu, que não fico verificando os meus conhecimentos automobilísticos no trânsito, checando marcas de carros. Como é que eu sei tanto sobre o mundo mágico da gasolina, diesel e álcool? Pelo visto, sou muito mais bombardeada - e afetada - pela mídia do que eu admito.

E a mídia faz muito mais propaganda de carro do que para placas solares, recarregadores de pilha, sistemas de captação de água da chuva, coletores menstruais, dispositivos que regulam o fluxo de água de torneiras/chuveiros e outras eco-coisas.

"Vai chegar o dia em que uma criança não vai saber o que é uma vaca." Profecia feita pelo vô do Wagner Suiter.

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