sexta-feira, 5 de junho de 2009

Mapa na cabeça

Me disseram que as muheres têm uma percepção espacial diferente dos homens. Achei que fosse mais uma daquelas brilhantes conclusões pretensamente científicas que apenas reforçam os preconceitos dos homens. Preconceitos do tipo 'as mulheres não têm senso de orientação', 'os homens nunca pedem ajuda porque têm o mapa do lugar na cabeça', 'mulher dirige mal porque não sabe pra onde tem que ir'.

Continuei gostando de mapas e me aprofundando em suas leituras. Quando viajava, queria saber como se parecia a minha trajetória no papel. De certa forma, eu estava internalizando mapas de cidades e países, aprendendo a me orientar por certos marcos locais. Quando eu era turista, chegava a conhecer melhor a disposição da cidade que os nativos.

Os lugares que eu conhecia na prática, porque andava por ali, não eram conferidos no mapa. Foi assim que me virei por 15 anos em São Paulo, sem saber que eu morava ao sul do ponto final da linha azul do metrô, que a Marginal não é o caminho mais curto entre a zona sul e a zona norte, que o Ipiranga não é longe pra caramba. Eu conhecia alguns setores da cidade muito bem, mas não era capaz de juntar esses setores numa colcha de retalhos. Eu não tinha noção do todo e portanto tinha dificuldades para imaginar o caminho de A a B. Dar informações sobre caminhos longos em São Paulo era frustrante pra mim, se eu já não tivesse feito a rota milhares de vezes.

Pablares, o homem que sabe de tudo um pouco, me explicou que, segundo a pesquisa evolutiva, existe sim uma diferença de percepção espacial entre homens e mulheres. Se voltarmos na história da humanidade, podemos constatar que o homem desde sempre assumiu o papel do caçador, aquele que sai pra andar por aí e voltar com comida. Esse cara precisa percorrer terrenos diferentes à procura de alimento e saber voltar para a sua tribo. A mulher fica estacionada com a cria, portanto precisa entender o espaço em que vive em nível de detalhes para ser capaz de proteger sua prole.

Conversando com a minha coordenadora pedagógica sobre Gramado, cidade que eu visito todo ano e que ela só viu uma vez na vida, reparei que ela tinha a cidade na cabeça dela. Quando ela tentou localizar os portais de Gramado, fazia gestos esticando o braço para frente, numa linha horizontal, como se tivesse à sua frente uma maquete da cidade. Eu concordava com ela, sem ser capaz de desenhar um mapa nem mesmo em 2D. Reconhecia setores de Gramado pelo nome, não pela sua localização geográfica. Mas se estivéssemos falando de Amsterdam, cujo mapa estudei bastante, eu apontaria os lugares à minha frente, pontuando um espaço vertical, como se colocasse pinos num mapa 2D à minha frente.

Não cheguei a nenhuma conclusão sobre a percepção espacial de homens e mulheres, porque a Marlúcia foi a segunda exceção que encontrei. Olga é a primeira. Essa mulher podia ser taxista numa boa, porque tem um senso de direção apurado e porque entende o espaço de uma cidade em 3D, como se fosse uma maquete. Eu preciso de um mapa de papel para juntar os setores que internalizei.

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