domingo, 28 de junho de 2009

Pedal Verde de luto

O ponto de encontro era a Praça do Ciclista e a saída estava marcada pras 10:00. A proposta dessa vez não foi plantar árvores, mas ver com os próprios olhos os restos mortais das árvores serradas no canteiro central da Marginal Tietê, na altura da Ponte do Cruzeiro e da Rodoviária.

A galera foi chegando aos poucos, dando vida à praça. Um me perguntou se eu não era a meninamalouca. Finalmente pôde associar a pessoa às palavras lidas no blog. E eu tive a chance de conhecer um sujeito bacana, cicloativista e promotor da bicicleta e do cicloturismo em Floripa. Grande Eduardo Green, que não me acha pequena. Reencontrei a sempre sorridente Katherine, que veio numa reclinável trazida do Rio.

Saímos por volta das 11:00, mas chegamos no nosso destino no horário previsto (12:00). Subimos no canteiro central passando por debaixo do braço de uma máquina daquelas que se usa em demolições ou obras. O funcionário sentado na gaiola da máquina sorria praqueles ciclistas que tinham vindo ver o fim das árvores centenárias. Os funcionários envolvidos na obra de ampliação da Marginal ficaram observando a gente. Os funcionários da CET vieram logo para acenar aos motoristas que não parem na Marginal, que continuem, que o trânsito continue a fluir. Alguns motoristas pararam o carro e vieram caminhar entre os tocos de árvore, raízes que teimavam em fincar-se no chão e lama misturada com raízes arrancadas por máquinas. A mídia corporativa com repórter e filmadora no ombro chegou também.

Um cara veio com umas tiras de lençol (ou cortina, não perguntei) e disse que ia pendurá-las nas árvores remanescentes. Interpretei aquilo como um convite e acompanhei o japonês. Avisei que eu não subiria na árvore, mas podia lhe dar os panos quando ele estivesse lá em cima. Em dado momento, ele me disse que eu podia amarrar tirinhas nas outras árvores. Interpretei aquilo como um pedido e lá fui eu, abraçar troncos de árvore e amarrar tiras de pano brancas nelas. Um dos encarregados da obra veio me perguntar se eu tava fazendo aquilo porque a árvore estava marcada para morrer. Gostei da interpretação dele. Ele ficou satisfeito e disse que era do desenvolvimento ambiental, e que essas derrubadas seriam compensadas. Nas minhas excursões a árvores para serem adornadas, reparei numa seiva vermelha saindo de um tronco em um lugar em que a árvore tinha levado uma pancada. Voltei ao Luciano (agora eu já sabia o nome dele) e perguntei se ele tinha máquina fotográfica. Ele interpretou a minha pergunta como um pedido e me deu a máquina dele. Voltei com a foto da seiva vermelho-sangue saindo do tronco.

Fui me misturar com as pessoas e ouvi a Aninha dizendo que um motorista tinha perguntado se a gente ia ficar pelado outra vez. Aline comentou que um motorista tinha mandado ela lavar roupa. A vida é dura.

Vi que um grupo de pessoas tinha feito uma xilogravura em cima do toco de uma árvore serrada. Outros produziam cruzes que fincavam sobre os montes de lama e raízes, tocos e onde mais houvesse lugar. Tiras brancas penduradas nas árvores, cartazes, cruzes. Ressaltamos o aspecto de cemitério daquele lugar.


Foto: Luddista

Voltei num bonde de mais ou menos 7 pessoas. Eu achava que eu chamava atenção nas ruas quando pedalo de bicicleta amarela, ou quando faço minhas cicloviagens (mulher de bicicleta no acostamento, alforjes, short colado, essas coisas). Mas pedalar com a Katherine em sua reclinada me mostrou o que é "capturar a atenção das pessoas".

Bom, espero que o protesto de hoje ganhe a devida atenção na mídia e desperte as pessoas para uma reflexão sobre o consumo abusivo do automóvel.

4 comentários:

bobmacjack disse...

Puxa, estou triste por não participar mais de tudo. Mas está em boas mãos.

iglou disse...

Concordo. Ouvi papos de criarem uma associação tipo Transporte Ativo, CicloSan(tos) ou Via Ciclo ou coisa que o valha, pra bicicletada não ser a única precipitadora de ações de ciclo-interessados. A bicicletada é um ótimo ponto de encontro pra galera, mas não é articulada pra dialogar com prefeituras, por exemplo. Seria bom se os indivíduos que participam da bicicletada se organizassem e fizessem o que Zé Lobo, Arturo Alcorta, Antonio Miranda e essa velha guarda fazem.

Pra mim já vale o fato de perceberem que a bicicletada é um grande agregador de gente, mas quando chega na hora do diálogo com o poder público vira um amontoado de indivíduos.

eduardo green disse...

Oi Lou!

Valeu pelo grande, imagina o que achariam de mim lá na Holanda huahuahua.
Mais uma vez um relato peculiar e irreverente! Pra complementá-lo, umas fotos: http://www.flickr.com/photos/edugreen/sets/72157620594521329 Ache a Lou!

Não achei teu email entao, fica com o meu: edugreen no email do google.

Beijos e muito legal te conhecer pessoalmente!! :Dudu

iglou disse...

Excelentes fotos, Dudu!
Beijos.