terça-feira, 16 de junho de 2009

Embalada por palavras

A coluna se enverga sob o peso da cabeça, as pontas dos dedos estão frias e tenho a sensação de ter a pele cinza. Ajeito os fones na cabeça, dou play no audiobook e me deito na cama. Me cubro com o cobertor, dobrando-o por debaixo dos pés frios. Os ossos da coluna se reconfiguram, adaptando-se no leito do corpo deitado sobre o colchão. Ouço instrumentos de percussão anunciando o início da estória.

As mãos espalham o seu frio pela barriga, os olhos se fecham e mergulham no escuro. A voz masculina que me fala no ouvido cria duas pessoas aflitas, esperando ao pé de um muro. São apenas duas pessoas, sem estatura, idade ou condição social. Enquanto conversam, a expectativa, ansiedade e aflição ganham corpo. A voz do narrador passa a desenhar os personagens do livro na minha imaginação. Chega o terceiro e aguardado personagem e já vejo três vultos parados na beira de uma floresta, de costas para um muro. Estão na penumbra, numa luz meio amarela, meio marrom. Conforme interagem, percebo que um é careca, tem pequenos olhos brilhantes e dentes escurecidos. O outro é magro, alto e usa um chapéu extravagante, totalmente fora de contexto. O último tem tamanho de criança e ainda não está claro se ainda vai crescer, se é um anão ou se é de um povo baixo mesmo. As palavras do narrador vão lhes acrescentando detalhes conforme a estória progride.

O careca gordo está suando em seu casaco de pele enquanto negocia com o sujeito magro que não está disposto a despojar-se de todos os seus bens em troca do serviço que lhe pede. O menino que assiste a tudo não tem condições de pagar nada, mas também quer ser beneficiado pelas habilidades do mestre dos olhos negros que brilham com a ganância estampada nas sobrancelhas arqueadas. O mestre toma o seu pagamento e começa a ler o que havia escrito em algumas páginas soltas e sujas.

As palavras começam a soltar-se da cena, giram desordenadamente no ar, voltam a fazer sentido quando são enfatizadas, mas logo somem-se na escuridão que tomou conta de mim. Durmo um sono profundo e sem sonhos. A estória fica suspensa a partir de um momento indefinido.

Sou arrancada do meu sono com o som de instrumentos de percussão que tocam muito alto, muito rápido, muito animadamente. Acordo de sobressalto, e quando o narrador descreve uma menina brigando com o seu pai por causa de um livro, percebo que o intermezzo instrumental servia para marcar o fim de um capítulo e o início de um novo. Suspeito que tocam a música mais alto que a voz sonífera do narrador para não permitir aos ouvintes que embarquem no sono. Que puxa, o meu método para adormecer rapidamente não funcinou com esse livro.