sábado, 20 de junho de 2009

Em sintonia

Os dois filmes que eu mais gostei de ver nas últimas semanas são muito parecidos. Diria até que estão em sintonia. Ambos tratam da música como trabalho, como rendimento, pressão e cobrança. O músico não toca mais, ele executa. Não recebe mais os aplausos, recebe o que merece, seu pagamento. Algum evento faz com que o músico rompa sua relação com o palco e vá se isolar na cidade em que passou a infância. E aí começa uma nova estória que envolve pessoas e paixões, em que a música entra para organizar sentimentos.

Philip me mandou um DVD com milhares de coisas, inclusive o filme chamado 'Wie im Himmel'. Mas num dado momento travou tudo, e procurei pelo filme no mininova. Descobri que o título original é 'Sa som i Himmelen' e que em inglês o título ficou 'As it is in heaven'. Vi o resto do filme em sueco com legendas em inglês. Muito bom. Mesmo. As emoções afloradas no decorrer da estória são muito fortes e o modo de lidar com elas é muito sincero.

O outro filme fera é o japonês 'A partida', que vi hoje no cinema. Fiquei muito agoniada com a falta de contato físico entre as pessoas (pode ser influência do filme de bollywood que vi ontem, em que a mocinha se atira nos braços do amado a cada 2 minutos durante 2 horas e 47 minutos), mas isso são outros quinhentos.

Saí do cinema enxugando lágrimas que eu já não sabia se eram de alegria ou tristeza e caminhei pela Paulista. Na segunda quadra que andei, passei por um músico de rua tocando triângulo. Pôxa, se um solo de bateria já é raridade, imagina um solo de triângulo. Mas ele não fazia solo: cantava junto e se comunicava com o seu público de passantes através de sorrisos. Em termos de alegria, entramos em sintonia por alguns segundos.

Enquanto caminhava, fui pensando no que é fazer música. Não aprendi a tocar nenhum instrumento, muito menos a ler notas. Mas se me derem um chocalho ou a letra de uma música, eu acompanho de bom grado e vou me esforçar para entrar em sintonia com os outros que estão fazendo música. Acho que esse é o elemento chave para entender por que karaokê é tão detestável: você não participa. Uma pessoa canta (mal pra carai) e pronto, você tem que esperar a sua vez se quiser interagir com a música.

Mas isso são os amadores. Profissionais da música fazem música de maneira diferente. Executam e interpretam peças, leem partituras, franzem a testa, dançam com o fagote, abraçam o cello, sobem na ponta dos pés como se isso fosse necessário para alcançarem as notas mais agudas. Comunicam-se através de olhares sorridentes, repressores ou satisfeitos. Como todos sabem pra onde vai a música, precisam apenas de um gesto (uma inspiração mais profunda, um aceno, um breve esbugalhar de olhos) do primeiro violinista para saberem quando tocar.

Quando, contudo, se juntam para criar música espontaneamente, tenho a impressão de que entram numa aventura comunicativa. E o que comunicam são sentimentos. Lembro de quando estivemos em Praga. Philip queria experimentar a vida noturna da cidade e fomos nos meter em jazz clubs e fazer fotos noturnas da cidade. Entramos num jazz club que tinha uma jam session na programação. Isso aí é bom? perguntei, desconfiada. Ele deu uma piscadinha, como que dizendo 'deixa comigo', pediu uma cerveja, sentamos numa mesa, e depois de um tempo ele perguntou se tudo bem ele me deixar sozinha. Meu irmão subiu no palco, pegou o bongô que tava num canto e tocou uma música interminável com gente que ele nunca tinha visto na vida. Estavam em plena sintonia.

Quando voltamos ao mesmo bar na noite seguinte, o garçom perguntou: o mesmo de ontem? Não sei se eles só serviam um tipo de cerveja, se o Philip chamou atenção por ser cabeludo, ou se foi a música coletiva e espontânea que rolou no palco que o garçom reteve na memória.

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