domingo, 21 de junho de 2009

O poder da palavra escrita

Tinha uma correspondência em cima da mesa. Era da Editora Abril para os seus assinantes. No verso, estava escrito:

Monica, o que vale mais?
O que você ouve ou o que você lê?

Essa pergunta é impossível de responder, porque não adianta comparar formatos sem saber qual o seu conteúdo. Se o conteúdo for musical, por exemplo, a música ouvida vale muito mais (pra mim) que a letra escrita ou mesmo a partitura. Se o conteúdo for uma notícia, as pessoas confiam muito mais na veracidade do texto escrito.

Se a notícia for falada, pode ser um simples boato, um diz-que que te disseram que você pode ter interpretado errado. E quando eu for conferir os fatos, você pode dizer que não era aquilo, que eu que entendi outra coisa. Não temos nenhuma prova de que aquilo foi dito ou não, porque as palavras proferidas já se foram, se perderam no ar, já se misturaram com imagens na mente e foram arquivadas de maneira indecifrável na memória.

Mas se estiver escrito, posso te mostrar o texto. Tá aqui, seu guarda, tá escrito no Código de Trânsito que eu posso pedalar no acostamento quando não houver ciclovia ou ciclofaixa pra mim. E aqui tá escrito que eu não devo pedalar contra o fluxo, viu? Do mesmo modo, posso cobrar o texto escrito: Ah é? E onde que tá escrito que eu tenho que pagar taxa pra transportar a minha bicicleta no bagageiro do ônibus?

Nessa sociedade da informação e informática, a palavra escrita tem muito mais poder que a palavra falada. Tanto é que para a pessoa sonhar com um futuro financeiramente estável, ela precisa ir pra escola e aprender a ler e escrever. Valorizamos quem escreve bem, damos dinheiro a quem publica manuais de redação, achamos que não sabemos português, pagamos pro revisor conferir nossa ortografia. E achamos que língua, assim pra valer, (dialeto não vale!) só conta se tiver alfabeto, gramática de consulta, literatura e filosofia.

Em todos os cursos de língua que já dei sempre tem uma unidade no livro sobre outras línguas, nacionalidades e gentilícios. Sempre pergunto quantas línguas os alunos acham que há no mundo. Começam a fazer a lista, contando nos dedos: alemão, inglês, português, espanhol, italiano, francês, russo, japonês, chinês. Ok, vamos ser humildes e admitir que além dessas línguas ainda haja outras que eu tenha esquecido. Ah, teacher, acho que tem umas 30.

Lembro que na Índia há 42 línguas, sendo que cada uma tem pelo menos um dialeto. Puxa, tudo isso! Tá, teacher, 100 línguas, então. Pergunto quantas línguas são faladas no Brasil. Um país, uma língua, teacher, aqui todo mundo fala português. Lembro das línguas dos imigrantes e das línguas indígenas. Quase caem da cadeira quando ouvem que há aproximadamente 220 povos indígenas falando aproximadamente 180 línguas aqui no Brasil. Caraca, tudo isso, então eu vou chutar o balde: existem mil línguas no mundo, professora. Suspiro e adoto práticas de leilão. Ninguém nunca chega a 'aproximadamente 6 mil línguas', sendo que muitas estão sendo mortas todos os dias. Porque uma língua só morre de morte violenta: ou o povo morre ou prefere adotar outra língua, de mais prestígio, que permita o acesso à vida na cidade, emprego, bens de consumo.

Não acreditam que haja tantas línguas no mundo porque não concebem a existência de línguas ágrafas. Não acreditam que pessoas que vivem sem escrita têm uma memória auditiva forte e que confiam na palavra falada. Passa lá em casa, me liga, hein e essas promessas vazias que nos fazemos todos os dias não têm lugar numa sociedade em que a palavra falada pode definir o destino de uma pessoa. Não entendem a figura do griot, o contador de estórias e o homem que mantém na memória a história de seu povo.

Tomamos a nós mesmos como medida para o resto do mundo. Se nós escrevemos, lemos, falamos e ouvimos português e português é uma língua, então as outras línguas do mundo devem poder ser escritas, lidas, faladas e ouvidas. A Editora Abril usa o papel como mídia, e no papel nós escrevemos. Portanto, a palavra escrita vale muito mais que qualquer coisa que você ouve.

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