sábado, 8 de junho de 2013

O fio vermelho

No banho, de repente a água quente começou a ter cheiro de plástico queimado. Achamos estranho e esperamos pra ver se acontecia de novo. Sim, depois que a água esquentava (estamos no que Luis chama de Sibéria do Brasil: 9ºC a 12ºC de noite e de manhãzinha), o cheiro de plástico queimado se alastrava pela região do chuveiro. Fui ver a instalação que eu tinha feito do chuveiro mega power thermosystem e constatei que uma fumacinha cinza saía do fio vermelho cuja capa plástica derretia.

Sei que esse chuveiro puxa muita energia e sei que um fio queimado pode ter como resultado um curto-circuito, choque, sei lá. Nossas vidas podiam estar por um fio se aquele chuveiro continuasse assim.

Vasculhei nos papeizinhos, cartões e propagandas e encontrei o anúncio de um sujeito que faz mudança, instala ar condicionado, desentope pia e mexe em parte elétrica. Liguei e ele veio meia hora depois. Chegou dizendo que quase virou meu vizinho, mas que não deu certo porque queriam fiador e aí complicou. Deu risada e foi ver o chuveiro. Diagnosticou que o fio era muito fino (1,5 quando o ideal era 4 pra mais), que o disjuntor era muito fraco (25 quando esse tipo de chuveiro pede 40) e disse que agora, agora, não dava pra ele resolver isso, porque ele tava ocupado com outro serviço. Deu a impressão de que a operação era simples: trocar um fio e um disjuntor, como se eu, que instalei o chuveiro, pudesse realizar o serviço. A meu pedido, deixou outro telefone: de uma loja que vende material elétrico e sempre tem uns piá que faz esse serviço.

Comentei com o Luis (que não tinha acompanhado o fio da meada, porque estava trabalhando) que eu tinha ficado intrigada com essa coisa medieval de fiador, porque não era preciso provar que você tinha condições de sustentar um aluguel, mas era preciso ter amigos que garantissem, através de seus bens, a manutenção do seu compromisso. Pensando na fiação que precisava trocar, Luis me perguntou que fiador era esse, que eu tava falando.

Liguei na loja, a moça me deu um número de telefone. Já eram 10:30 e o rapaz viria dali a meia hora com uns metros aí de fio e um disjuntor mais potente. Na hora em que eu esperava ouvir a campainha, tocou o telefone. Era o eletricista, querendo saber se eu tinha escada. Tinha. Era uma das coisas insólitas que eu tinha trazido de Porto Velho. Lá, eu usava muito a escada: pra colher caju, manga, gato do forro ou do telhado etc. Achei que a escada não teria utilidade num apartamento térreo, mas teve.

O telefone tocou de novo. Atendi olhando pro portão da rua. Era o eletricista de novo, dizendo que estava no prédio de número 132, mas que não tinha nenhum apartamento no primeiro andar. Eu olhava pra fora da janela e teimava: você não está na frente do 132, porque eu não estou te vendo. Ele caminhou até o prédio ao lado abismado: o prédio do lado tem o mesmo número que esse!

O homem atravessou o horário do almoço tentando puxar o fio vermelho (rígido, pouco flexível) que ele tinha soltado da caixa do disjuntor pelo buraco da lâmpada mais próxima, depois pela caixa mal posicionada no teto de gesso rebaixado do banheiro e depois pela parede, acima do chuveiro. Me cobrou pelo material usado e converteu o cálculo da mão-de-obra não em tempo, nem na visita, mas no número de buracos que ele teve que abrir (a caixa do disjuntor, 2 plafons da lâmpada, a caixa no teto do banheiro).

E Luis seguia escrevendo. Mais tarde, no almoço, confessou que percebeu durante a escrita de hoje (e leituras paralelas à escrita) que tinha agarrado um fio que não o conduziria para fora do labirinto do texto. Entendeu que o fio que tinha escolhido o enredaria numa armadilha. Em tempo, conseguiu encontrar o fio vermelho que sustenta o seu texto.

Nossas vidas por um fio, quase duas horas pra trocar esse fio que acompanhava o texto que Luis escrevia.

2 comentários:

Phil disse...

Oi Lou, dá uma olhda nesse vídeo assustador

http://vimeo.com/57126054

Abraços meus pra ti!

Phil.

P.s.: Sibéria? 9 a 12 graus de manhã ainda é o que está fazendo aqui, em pleno Junho!

iglou disse...

Tenebroso.
Matrix.