sexta-feira, 14 de junho de 2013

Ponto de vista

Em 2010, uma fotografia (de Clayton de Souza) causou polêmica porque demandou muito esforço para ser interpretada. O cenário era uma manifestação de professores em greve reprimida pela Polícia Militar paulista. O pano de fundo era a cortina de fumaça, as figuras em destaque eram um homem carregando uma pessoa de farda. Seguem os movimentos interpretativos provocados por diferentes pontos de vista:

Para a maioria da população paulista, a farda é uma fronteira. Quem usa a farda está do lado de lá. Quando eu vi a imagem pela primeira vez, não identifiquei que a pessoa dentro da farda era uma mulher. Meu olhar não conseguiu ultrapassar a barreira do uniforme. Quando mostro essa imagem pros meus alunos não-paulistas, eles imediatamente identificam a mulher desfalecida nos braços do homem. Para eles, o uniforme cinza não tem significado.

O homem que carrega a policial fardada não está usando uniforme. Dadas as informações contextuais (manifestação de civis reprimida por policiais), a primeira inferência é que o homem seja um civil, portanto um manifestante. E o coração se aquece ao ver um ato de solidariedade do manifestante para com aquele que atua no outro lado da linha: o policial que agride com bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e cassetetes.

O homem que carrega a policial causou polêmica porque foi identificado como um policial à paisana. O objetivo de uma manifestação não é o confronto com a polícia, mas a manifestação da insatisfação de uma categoria. O objetivo da polícia é conter (reprimir) a manifestação. Para tanto, usam armas  legitimadas pela sociedade, entendidas como "educativas". Atacar a população indefesa não seria honroso. É preciso esperar que a manifestação saia do controle para que a reação brutal da polícia seja justificada. Quando a centelha da violência não sai, o fogo é ateado por agentes infiltrados. E o coração se aperta com esses ranços da ditadura.


Hoje o Brasil passa por um momento de insurreição popular em torno do aumento da tarifa do transporte público. Estão acontecendo manifestações nas capitais brasileiras contra o descaso do poder público com a coisa pública. O transporte público (que não é público, porque é administrado por empresas privadas e não oferece passe livre) sucateado e o aumento da tarifa são motivo de insatisfação. Os manifestantes reclamam o direito à cidade, o direito de ir e vir, o direito de se manifestar.

A violência desmedida com que as manifestações foram combatidas transformou os R$ 0,20 da disputa em uma luta pela cidadania. Mirados, perseguidos, feridos, presos, removidos e humilhados, os manifestantes sofreram violência física legitimada pelo Estado. Na Turquia, o projeto de transformar a praça pública num shopping equivale ao projeto brasileiro de combater a inflação repassando a conta pro povo. Em ambos os casos, os direitos individuais e o acesso aos bens públicos no espaço urbano estão em questão.

No quarto dia de protestos contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo foi escrito um texto diametralmente oposto a outro, escrito no dia anterior. O que eles têm em comum é que foram escritos sob pontos de vista díspares (mas não antagônicos). Sakamoto escreve sob o ponto de vista do manifestante aterrorizado pela truculência da polícia, o editorial do Estadão escreve sob o ponto de vista de quem assiste à desordem sentado no sofá e lamenta, horrorizado, o vandalismo do povo lá fora.

Sakamoto é engenhoso: utiliza o esqueleto do editorial do Estadão para narrar a mesma história - de outro ponto de vista. Somente os primeiros parágrafos de cada texto:

No terceiro dia de protesto contra o aumento da tarifa dos transportes coletivos, os baderneiros que o promovem ultrapassaram, ontem, todos os limites e, daqui para a frente, ou as autoridades determinam que a polícia aja com maior rigor do que vem fazendo ou a capital paulista ficará entregue à desordem, o que é inaceitável. Durante seis horas, numa movimentação que começou na Avenida Paulista, passou pelo centro - em especial pela Praça da Sé e o Parque Dom Pedro - e a ela voltou, os manifestantes interromperam a circulação, paralisaram vasta área da cidade e aterrorizaram a população.

No quarto dia de protesto contra o aumento da tarifa dos transportes coletivos, o Estado policialesco que o reprime ultrapassou, ontem, todos os limites e, daqui para a frente, ou as autoridades determinam que a polícia não aja feito um animal que baba, ao contrário do que vem fazendo, ou a capital paulista ficará entregue à desordem, o que é inaceitável. Durante sete horas, numa movimentação que começou na Praça Ramos de Azevedo, passou pelo Centro – em especial pela Praça da República e a Rua da Consolação – chegando à avenida Paulista, os policiais provocaram conflitos com os manifestantes, agrediram jornalistas e aterrorizaram a população.

3 comentários:

Ma disse...

sehr gut! Danke für diese deine Nebeneinanderstellung und das Deutlichmachen der Sichtweisen.

Mônica disse...

Oi, Lou

Então, não sei se vc já está no Face, mas se quiser, dá uma olhada neste vídeo: https://www.facebook.com/photo.php?v=471573042928872

Se vc ainda não ingressou no Facebook, acho que vale à pena. O movimento está ganhando força por lá.

bjs

iglou disse...

Obrigada pela indicação!