quarta-feira, 19 de junho de 2013

Pacífico, pa-cí-fi-co, PACÍFICO

Quem já teve contato com a Programação Neurolinguística, uma autoenganação como a autoajuda, sabe que a regra para fixar bem uma palavra ou conceito novo, é repeti-lo 16 vezes no mínimo.

Eu devia ter contado quantas vezes a palavra "pacífico" e suas variantes "pacificamente"e "sem violência" foram enunciadas no Jornal Nacional de hoje. O que eu anotei, no entanto, foram as caracterizações dos vilões:
- grupo pequeno que não representa os ativistas (ativistas!)
- baderneiros infiltrados (como se não fizessem parte da manifestação)
- minoria de manifestantes radicais (de novo a ênfase é para o grupo pequeno)
- agressores, invasores, vândalos.
No primeiro bloco, em que os eventos violentos de ontem foram repisados, o Jornal deu uma de polícia, identificando e destacando da multidão indivíduos com comportamento agressivo. Numa jogada de edição pedagógica, a televisão denuncia os malvados e relata quais deles já foram detidos. A atenção é guiada para os contraventores, não para os alvos de depredação, que são símbolos de poder: prefeituras (a casa do prefeito, o próprio prefeito), palácios do governo, bancos, bancas de jornal, emissoras de TV, guaritas policiais. Poder político, econômico, de informação e de força estão sendo atacados durante as manifestações.

O trânsito prejudicado e confuso foi enfatizado ao longo do programa todo. Tenho a sensação de que os manifestantes estão descobrindo novas formas de se movimentar na cidade - e de trancar a cidade. Avenidas principais e principais vias de acesso foram bloqueadas pelos manifestantes que percorreram muitos quilômetros de uma cidade que poucos conhecem a pé. E quem estava de carro novamente ficou imobilizado. Tenho esperança que a mobilidade urbana seja de fato discutida depois dessas manifestações, e que se invista menos na mobilidade e fluidez do transporte motorizado - e particular. O investimento no carro está claramente estampado nas propagandas que intercalam as partes do Jornal Nacional, exibido no horário nobre. Hoje (talvez isso tenha sido atípico) houve 3 intervalos de propaganda. No primeiro, apareceram 3 propagandas (Peugeot, Bradesco, novela da Globo), no segundo apareceram 4 (novela da Globo, Fiat ao som do Rappa (!) cantando um refrão "vem pra rua" (putz!), GE e um filme da Globo Filmes) e no terceiro foram 5 (filme que passa depois da novela, Volkswagen, Tv Samsung, Visa e produtos da Copa das Confederações (quem vende isso?)). Em cada um dos blocos de propaganda havia uma propaganda de carro. Luis já tinha chamado atenção pra essa construção do brasileiro apaixonado por carros (bombardeado por propagandas, taxas reduzidas e prestações a perder de vista), só anotei agora.

Depois da tempestade, vem a bonança. Depois dos protestos e dos confrontos, a vitória. O Jornal Nacional desenhou duas vitórias: a redução (variando de R$ 0,05 a R$ 0,20) da tarifa e os gols do Brasil sobre o México na Copa das Confederações. E nesse momento Galvão Bueno exagerou nas tintas verde e amarelo, descreveu os torcedores cantando o hino nacional a cappella (véio!) e entrevistou jogadores emocionados com o calor da torcida. Pacífico. Captou a mensagem?

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