sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sobre a liberdade

Ainda nem cheguei na metade do Tristes trópicos, mas acho que identifiquei o fio vermelho do livro. Demorou umas 139 páginas pra sacar qual era a ideia-mestre conduzindo as pontas dos dedos do autor. O antropólogo ia tergiversando entre Calcutá, São Paulo, Bengala, Mato Grosso e eu ficava impaciente, só esperando ele chegar nas tribos indígenas. Daí me dei conta que ele narrava experiências nos trópicos (Índia e América). A catarse se deu nessa passagem:

"Foi nessas regiões, onde às vezes a densidade de população supera mil habitantes por quilômetro quadrado, que avaliei plenamente o privilégio histórico ainda reservado à América tropical (e, até certo ponto, toda a América) de ter permanecido absoluta ou relativamente vazia em matéria de homens. A liberdade não é uma invenção jurídica, nem um tesouro filosófico, propriedade querida de civilizações mais dignas que outras porque só elas saberiam produzi-la ou preservá-la. Resulta de uma relação objetiva entre o espaço que ele ocupa, entre o consumidor e os recursos de que dispõe. Ainda assim, nada garante que uma coisa compense a outra, e que uma sociedade rica mas densa demais não se envenene com essa densidade, como os parasitas da farinha que conseguem se exterminar à distância por suas toxinas, antes mesmo que lhes falte a matéria nutritiva.

Só mesmo muita ingenuidade ou má-fé para pensar que os homens escolhem suas crenças independentemente de sua condição. Longe de os sistemas políticos determinarem a forma de existência social, são as formas de existência que dão um sentido às ideologias que os exprimem: esses sinais só constituem uma linguagem em presença dos objetos aos quais se referem.(...)

(...) Esse problema quantitativo, a Índia o atacou há uns 3 mil anos, buscando, com o sistema de castas, um meio de transformar a quantidade em qualidade, ou seja, diferenciar os agrupamentos humanos para possibilitar-lhes viver lado a lado. Inclusive, concebeu o problema em termos mais vastos: ampliando-o, para além do homem, a todas as formas de vida. A regra vegetariana inspira-se na mesma preocupação que o regime de castas, a saber, impedir que os agrupamentos sociais e as espécies animais se atropelem uns sobre os outros, reservar a cada um a liberdade que lhe seja própria graças à renúncia  pelos outros ao exercício de uma liberdade antagônica. É trágico para o homem que essa grande experiência haja fracassado; refiro-me a que, no decorrer da história, as castas não tenham conseguido atingir um estado em que houvessem permanecido iguais porque diferentes - iguais no sentido de que fossem incomensuráveis - e que se tenha introduzido entre elas essa dose pérfida de homogeneidade que permitia a comparação, e portanto a criação de uma hierarquia. Pois, se os homens podem chegar a co-existir, contanto que se reconheçam todos igualmente homens, mas diferentemente, podem-no também recusando uns aos outros um grau comparável de humanidade, e, portanto, subordinando-se."
(Lévi-Strauss, [1955 (2009)] p. 139 - 140)

Bom, já que estamos nos trópicos e pensando na densidade populacional como um fator de medida para a liberdade, me veio à ideia a cidade de São Paulo, em que dirigir um carro já não é mais uma expressão de liberdade.

O automóvel particular foi, durante muito tempo, vendido como símbolo de liberdade (porque o motorista podia percorrer o espaço que quisesse com o seu carro) e alta hierarquia (porque nem todos tinham acesso a este produto). Durante a minha adolescência, ser proprietário de um carro era equivalente a ser membro da casta mais alta. Diferentemente da Índia, o sistema de castas nos trópicos de cá não é fixo. As pessoas conseguem "subir na vida", mudar de classe social, financiar um carro. Daí tudo se inverte: quanto mais proprietários de carros, mais carros nas vias; quanto mais carros nas vias, mais congestionamentos; quanto mais congestionamentos, menos espaço; quanto menos espaço, menos liberdade.

Um comentário:

Matias Mickenhagen disse...

Lindo trecho esse... pensar no peso das pessoas sobre seu ambiente é algo já não muito novo, e ainda assim tão difícil para alguns entenderem.